Maré Imprevisível
9 12 anos Depois...
Nove horas em ponto. Nem precisei olhar para Melany, para saber que ela estava me fitando com aqueles olhinhos verde água, suplicantes. Assim como nas noites anteriores, minha filha provou ser ainda mais fofa do que de costume, só para ficar mais um tempinho acordada. Seu cabelo, tão negro quanto o do pai, ondulava e emoldurava seu rosto, enquanto ela me olhava. E de novo, eu digo:
— Filha, se você não for dormir agora, não vai conseguir brincar amanhã, de tanto sono.
— Está bem... – Ela concorda, cabisbaixa.
Então, eu estendo a mão para ela e a levo, escada acima, até o quarto dela. A primeira coisa que se vê é o mensageiro dos ventos de conchas, pregado ao batente da porta, onde tem o desenho de uma concha com o nome dela. Entramos. Ela vai direto para a cama, agarrando o peixinho e o caranguejo de pelúcia. Ela os abraça apertado, balançando para os lados, e sorri.
Enquanto isso, eu ligo o abajur dela, enchendo as paredes azul bebê de desenhos iluminados do fundo do mar. Ao lado dele, sobre o criado mudo, está a boneca sereia que era minha, olhando-a dormir noite após noite. Assim que me aproximo mais da cama, Melany deita, para que eu a cubra com o lençol lilás. Depois, eu me sento e passo a mão sobre sua franja, igual a minha, e digo:
— Boa noite, Melany.
— Boa noite, mamãe. Conta uma história para eu dormir?
— Está bem. Mas, só uma.
— Obrigada.
— Hum.... Vamos ver..... Que história eu vou te contar hoje...? Ah. Já sei. Vou te contar a história da pequena sereia.
— Eba! — Ela diz com alegria, mesmo sem conhecer a história.
— Era uma vez, num reino do fundo do mar, uma jovem sereia, que vivia na companhia de seus amigos: um peixe e um caranguejo. E de seu pai, o rei. Um dia, ela foi até a superfície. Lá, ela admira tudo, encantada. De repente, ela vê um navio ao longe. Curiosa, ela se aproxima. Nele, entre outras pessoas da superfície, ela vê um lindo príncipe. Mas, de repente, começa uma tempestade.
— E o que acontece, mamãe?
— A tempestade afunda o navio onde o príncipe está. Então, a sereia nada o mais rápido que pode para salvá-lo. Mesmo que seu pai a tivesse proibido de se arriscar assim. Depois, ela o leva até a praia, onde algumas pessoas começam a ajudar o príncipe.
— E a sereia?
— Ela volta para casa. E seu pai grita com ela por causa do que ela fez. Mas, ela não desiste. Para ver o príncipe de novo, ela pede ajuda aos seus amigos e procura a bruxa do mar. Ela decide ajudá-la e lhe dá uma poção. Assim que a sereia bebe, ela se torna humana, mas fica sem voz.
— Mas, como é que ela vai falar com o príncipe?
— De início, ela não fala nada. Mas, o príncipe a reconhece. Então, os dois ficam juntos. No entanto, a bruxa faz uma armadilha para a sereia, para se vingar do pai dela.
— E agora?
— Porém, o príncipe descobre e luta contra os capangas malvados da bruxa. E a sereia também começa a lutar contra ela. No final, o príncipe e a sereia vencem a batalha. E o pai da sereia, vendo que o amor entre os dois era de verdade, deixa a filha viver junto com o príncipe. E eles vivem felizes para sempre.
— Gostei da história, mamãe.
— Que bom, filha. Agora, durma bem. – Eu disse, dando-lhe um beijo.
Então, saí do quarto silenciosamente, aliviada por a porta não ranger enquanto eu a fechava, deixando apenas um vão. Por ele, eu a vejo adormecer como um anjinho. De repente, sinto os braços de meu marido se enlaçarem em minha cintura, enquanto ele diz:
— Também gostei da história. Mas, ainda prefiro a versão original.
— Eu também. Mas, por enquanto, deixe-a sonhar. Quando ela crescer, contaremos a verdadeira.
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