Marvin
3 Três
Elas têm olhos claros, pele bronzeada e cabelos ondulados e perfeitos.
Eu nunca sorrio. Elas sempre.
Lavo a mão e o rosto e saio do banheiro do colégio. Sinto-me estúpida, mas tento reparar se alguém olha para mim; se alguém demonstra interesse.
Chego ao portão da escola. Chego em casa.
Será que ainda tem pizza na geladeira?
Acordei com o relógio marcando sete e meia e pulei da cama.
Demorei mais tempo arrumando o cabelo do que fazendo todo o resto. Preciso cortá-lo.
Se eu ainda tivesse minha bicicleta, teria chego a tempo no colégio.
A professora de português era uma senhora com nariz curvo e uma bunda gorda. Não sei como ela cabia naquela cadeira.
Dormi babando na carteira da sala de aula durante quarenta e três dos cinquenta minutos de aula.
O garoto caminhando na calçada a minha frente está escutando música com fones de ouvido. Eu não gosto de fones de ouvido.
Fones de ouvido machucam sua orelha, deixam-no surdo e o fazem o favor de depositar toda sua cera de ouvido em seu cérebro. Headphones, aqueles grandes de colocar na cabeça como se fosse um arco, são outra história. A música parece flutuar dentro de sua cabeça, como se seu cérebro estivesse tocando guitarra. Consigo me desconectar totalmente do mundo com aquilo.
Mas também te deixa surdo.
Não gosto de telefones; de falar pelo telefone.
Não gosto de refrigerantes de laranja; têm gosto de xixi.
Odeio meu colégio.
Odeio minha mãe.
Odeio as falhas nas unhas do meu pé quando eu as corto. Sempre machuco meus dedos tentando arrancá-las depois.
Não gosto de lasanha.
Odeio quando entro no banho no frio e meu pé queima.
Não gosto de crianças extrovertidas e não gosto de cachorros. Crianças extrovertidas são metidas e cachorros são barulhentos.
Odeio quando puxo todo o queijo do sanduíche com uma só mordida.
Odeio minha mãe.
Não gosto quando curiosos me questionam sobre minha vida.
Eu gosto de sorvete.
Deveria estar almoçando, mas não estou com vontade.
Tão imersa em pensamentos que não noto os dois homens se aproximarem. Eles me param no meio da rua e eu perdi a fome.
Eles querem dinheiro. Óbvio que querem dinheiro. E eu não quero dar a eles. É meu. É meu, mas eu deixo que levem tudo. Deixo, fico nervosa, fico com medo, conto e reconto a história para meus amigos e minha vida continua.
É banal.
Como se eu tivesse tropeçado na rua e ralado o cotovelo. Como se tivesse tirado uma nota baixa no colégio. Acontece, sabe?
Eu não vou dar o dinheiro a eles.
Quero socá-los: meu pai me ensinou algumas coisas quando pequena.
Um chute no saco do primeiro, um soco no queixo do segundo.
Quebro sua mandíbula em duas partes.
Um golpe com o cotovelo na nuca do outro, curvado de dor.
Quebro seus dentes quando ele cai no chão.
Mas eu não lutei contra ninguém; nem sei lutar de verdade.
Não tenho dinheiro. Mas ele não acredita, e eu repito com mais seriedade na voz.
Não tenho dinheiro.
Um homem de terno me vê da quadra do outro lado da rua. Uma mulher dentro de seu carro zero finge-se distraída. Uma senhora continua a observar seu poodle lindo fazer xixi nas flores do jardim da casa de alguém. Ninguém faz nada. Eles nem são membros de gangue, do Ack, nem são perigosos e estão me assaltando e ninguém faz nada.
Eles desistem e vão embora. Fico imóvel e tremendo.
Caminho até minha casa, abro a porta, me jogo no sofá. Não respondo a meu pai quando ele pergunta o que me aconteceu. Não respondo de novo.
Queria ter batido neles. Ter apanhando, até. Qual será a sensação de brigar? A sensação de tomar um soco na cara? De sentir sangue nos lábios, seu próprio sangue, e mal conseguir abrir os olhos de tão inchados que estão.
Suar até pingar, bater até machucar as mãos, chutar até as coxas doerem, apanhar até sangrar.
Durmo pensando nisso; e sonho que espancava o trio de garotas retardadas do colégio.
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