O sebo está prestes a fechar e eu ainda não decidi entre The Hitchtker o mais clássico dos álbuns do Loyd Synch Daughter ou Beba o Sol o álbum mais hippie de Roymob, a melhor banda de música eletrônica que eu conheço (não conheço muitas).
Gosto mais de Loyd, mas o álbum do Roymob me faz sentir coisas engraçadas.
The Hitchtker é uma viagem de ida e volta pelo universo. Beba o Sol é uma introdução à loucura indie pós-modernista.
Sinto-me mal com o álbum do LSD. Sinto-me bem com o do Roymob.
Acho que eu quero me sentir mal.
A nota de cinquenta e meu dinheiro de todo o mês se vai e eu caminho para fora do sebo. Dou meia volta para pegar um dos cartões da loja; e poder ligar ao invés vir de até aqui toda vez que quero saber se eles têm ou não tal disco. Volto, mesmo sabendo que não vou usar o telefone.
Pego o cartão e um rapaz está argumentando com o atendente.
Capto o fim da conversa: o cartaz do lado de fora diz que cada cinquenta [dinheiros] em compras equivale a um pôster de brinde. E o rapaz não ganhou seu pôster.
Ei. Eu também não ganhei meu pôster.
Não ganhei o pôster e falei alto. Droga.
O atendente me encara e fica quieto, o rapaz estala os dedos pedindo uma resposta final e recebe um não. Ele pega sua sacola, dá as costas a bancada e chuta uma pilha gigante de livros em promoção, que caem no chão fazendo barulhos repetidos que sincronizam com a risada do garoto. Há há há.
Um pôster enrolado num elástico voa na minha direção e eu o apanho por reflexo quando o atendente puto da vida junta os livros.
Estou na esquina da quadra do sebo, com um garoto que não conheço ao meu lado e um pôster roubado do Troyk Feller debaixo do braço.
Ele também tem um pôster roubado debaixo do braço.
Ele pergunta se já nos conhecemos, mas não que eu saiba.
Ele reclama do atendente e pergunta meu nome.
Ele pergunta se fumo e pede que eu caminhe com ele.
Seu nome é J.
Andamos juntos por quatro quadras e ele para em frente a um bar. Joga o cigarro no chão e pisa no cigarro no chão e olha para mim depois de tirar o pé do cigarro no chão. Era tão convidativo que parecia estar me convidando para entrar em sua própria casa.
Ele deve ser dois anos mais velho que eu.
As paredes do lado de fora são feitas de tijolos marrom claro e a porta de uma madeira desgastada. Não parece um bar.
Seus amigos estão lá dentro.
O ar é repleto de fumaça e eu tusso.
Um garoto de cabelo curto e pele escura e uma garota sorridente de cabelo curto. E roxo.
J nos apresenta. Passo dezoito minutos em silêncio e a garota também. J conversa com o garoto de pele escura e pede bebidas. Eu não me mexo por doze minutos e a garota gesticula exageradamente.
Este é Marco.
Marco se dirige a mim e eu abro a boca pela primeira vez.
Esta é Lara.
Lara ri e vira o copo da bebida que J pediu.
Cinco minutos e me sinto a vontade.
Doze minutos e começo a rir.
Vinte e nove e meio e perco a vergonha.
A garota de cabelo roxo faz barulhinhos engraçados quando abre a boca. Mas nenhuma palavra. Marco parece com sono. J flerta com a garçonete morena.
Quarenta e dois minutos e estou rindo alto.
Uma hora e dez e estou apoiada no ombro de J para conseguir andar.
Duas horas da manhã e chego em casa.
Meu pai está dormindo no sofá e a mesa ainda está arrumada para o café. Tenho um guardanapo com um número de telefone no bolso e dor de cabeça na manhã seguinte.

J joga a garrafa e ela quebra no muro com a pichação do Ack.
Lara faz os barulhinhos engraçados e J à entrega uma das garrafas do chão.
Marco acende um cigarro pequeno e entrega a J.
J me oferece e eu recuso sem pensar.
Lara quebra a garrafa na calçada e espirra o resto de cerveja num grupo de moleques do meu colégio. Ela ri como uma criança vendo caretas engraçadinhas.
Um dos garotos quer tirar satisfação e J devolve o cigarro a Marco. O garoto empurra J e Lara derruba o garoto com um soco.
Ela ri como uma criança com cócegas.
Eu apanho uma garrafa no chão e jogo a centímetros dos pés do grupo de moleques.
Eu rio como uma criança com cócegas.
J pega o cigarro com Marco e os garotos somem. Marco elogia minha roupa, J diz que é brega.
Estamos no mercado e J corre pela seção de bebidas e acerta um velho e o velho acerta uma prateleira. Lara fica irritada porque queria comprar doces e saímos correndo e rindo dali.
Marco senta no capô de um carro na rua e Lara toma seu cigarro. Ela bagunça propositalmente o cabelo roxo e chuta o vidro do carro e toca o alarme do carro. Rimos e corremos como crianças.
Estamos deitados na grama de uma praça e já é noite. Marco e Lara estão conversando com as mãos. J está falando comigo e eu comento o quão legal foi o soco de Lara naquele garoto.
Ele vira para mim e me encara e eu fico quieta.
Sabe lutar?