Marvin
5 Cinco
Eles têm um pequeno clube da luta.
Porradaria: a maior forma de expressão corporal humana. Nunca briguei de verdade, mas tenho a impressão de que é uma sensação única; e estou prestes a descobrir se estou certa. Não estamos mais no bar.J tira um pequeno cigarro do bolso e entrega a Marco. Ele me oferece depois da longa tragada e eu aceito. Quando se está na adolescência, a merda que seus pais sempre falam é real: tudo é novo e interessante. A curiosidade vai a mil, a vontade mais ainda. Sempre imaginei que isso significava passar o dia conversando com os amigos numa praça escondida, bebendo e fumando e falando besteira. Mas eu estava errada: ser adolescente significa passar o dia conversando com os amigos numa praça escondida, bebendo, fumando, falando besteira, trocando socos e, eventualmente, transando. Não na praça. Geralmente não.A fumaça do cigarro atravessa a rua e invade as narinas murchas de uma senhora com o cabelo pintado. Ela tosse e nos olha feio. Devolvo a careta e sinto-me bem. Passamos na frente de uma loja antiga com máscaras venezianas na vitrine. Fico com vontade de parar e observá-las, mas continuo andando. Mudo de ideia. Paro no meio da calçada. Uma garota de pele morena pouco mais velha que eu me acerta e pede desculpas e continua seu caminho. Não sou eu quem deveria pedir desculpas? Conheço-a de algum lugar. J pergunta se desisti e a resposta é um não. Dou alguns pulos para alcançar os três. Chegamos ao balcão abandonado. Um repentino medo surge em mim, mas prefiro ignorá-lo e confiar neles. Atravessamos o pátio sujo e fétido e chegamos à garagem. J tira o tênis esquerdo usando o pé direito, depois tira o tênis direito usando o pé esquerdo. Tira a camiseta branca e a joga num canto. Cruzo os braços na cintura e puxo a barra da camiseta. Paro. O que você está fazendo? Tirando a camiseta, é o que eu estou fazendo. Os dois rapazes me olham, Lara ri e tira sua camiseta antes de mim. Estava sem tênis: vestia apenas sua calça e sutiã; um sutiã preto, com faixas transparentes e um fecho na parte de trás. Deus, o corpo dela é lindo. Termino de tirar a camiseta e tiro os tênis. Quer começar? Com todo prazer. Lara ri e assopra sua franja roxa para trás da orelha. Posiciona-se frente à mim, os punhos fechados e em guarda. Queria lutar contra J. Lara começa a dar pulinhos. Sutiã. Pulinhos. Caramba. Lara gesticula para acertá-la com um soco no rosto. Eu obedeço, mas não minha mão. Não é o medo de minutos atrás; é um novo e quase incontrolável. Finalmente consigo mover meu braço direito e acerto o rosto de Lara. O mundo para. Meu coração acelera. Minha mão dói. Meus músculos se contraem. Minhas pupilas se dilatam. Minha mão dói, o mundo volta a se mover e um punho surpreendentemente ágil acerta a boca do meu estômago como se fosse um saco de pancadas velho e furado. Solto todo o ar do meu pulmão pela boca e cambaleio para trás. Tento acertar outro soco e acerto o ar. Meu braço treme quase tanto quanto um vibrador. Minhas pernas tremem. Soco nas minhas costelas. Soco no meu rosto. De novo. De novo. Por impulso acerto um chute na barriga dela. Movimento tolo, mas dou sorte e sou bem sucedida.Finalmente retomo o controle do meu braço e acerto a parte de trás da cabeça dela com o punho fechado. Rio uma risada sádica. Lara pula em mim e me agarra pela cintura. Ela está me tocando. Caramba.Recebo uma série de socos e caio no chão. A porra do asfalto arranha toda minhas costas.Lara fecha o punho e acerta meu nariz e eu grito de dor. Puta que o pariu, cacete.Por meio minuto fico deitada no chão, sem mover nada. E Lara ainda em cima de mim.Tusso, admito derrota e agarro a mão estendida da garota de cabelo roxo quando resolvo voltar a me mexer. Ela sorri, mas minha atenção desvia de seu rosto e para baixo quando me levanto. Meu corpo dói e meus olhos estão lacrimejando e sinto sangue escorrer para minha boca. Pouco sangue. Minha mão direita parece desistir da existência assim que toco em algo sólido. Minhas costas me obedecem muito menos do que obedeciam antes. Meus pés e os músculos das minhas pernas queimam. Eu me sinto bem. Eu me sinto muito, muito bem. As lutas continuam pelo resto da noite. Luto com J e apanho com classe. Luto com Marco duas vezes e consigo uma vitória na segunda. Acho que ele me deixou ganhar. J termina a última luta deixando Lara vencer, eu desconfio. Eles riem e se abraçam. Falta de ar ruim no peito. Lara sorri para mim. Ela sorri a todo instante. Vestimo-nos (mas não calçamos os tênis) e sentamos no meio fio do estacionamento dos fundos, debaixo da luz lunar azulada. J oferece refrigerante, e só acredito que é apenas refrigerante quando tomo o terceiro gole e não encontro o gosto de álcool. Ele e Marco não se demoraram e voltaram a fumar, mas eu recuso; propositalmente, dessa vez. Os dois ainda conversavam. Lara se aproximou, sentou do meu lado e jogou o corpo para trás, apoiando-se com as mãos no chão sujo.Acidentalmente, sua mão esquerda toca minha mão direita.
Aperto bom no peito. Acidentalmente, o braço esquerdo suado de Lara toca meu braço direito mais suado ainda. Risada espontânea e Lara também ri e Lara me beija.Até agora não consigo pensar em nada que se compare à essa sensação.
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