É a primeira vez que vou à casa de Lara.
É diferente de como eu imaginava.
Faz três semanas que nos beijamos pela primeira vez.
É uma casa de madeira.
Nos encontramos mais seis vezes para lutar desde aquele dia.
Não sei se por economia ou se por preferência, grande parte dos cômodos ficam a luz de velas quando o sol se põe. O sofá parece remendado, um dos lugares afundado e os outros com aparência de recém-forrados. A geladeira tem leite, manteiga e queijo e uma garrafa de vodca escondida atrás dum bife congelado vencido. Os degraus dois, três, cinco e oito da escada para o segundo andar rangem. A porta do quarto de Lara não tem pôsteres ou rabiscos, apenas um afundado na madeira velha perto do trinco. As paredes têm frestas grandes o bastante para todo e qualquer som passar. A cama dela é macia.
Conto sete encontros de luta. Meus machucados também.
Ou eram seis?
Conto um encontro romântico.
A irmã tem sete anos e os dois dentes da frente faltando. Troca o f por v e parece gostar de mim. Sua mãe tem surdez moderada, mas fala extremamente bem. Seu cachorro é um beagle velho e fofo que se chama Espirro.
As paredes têm frestas grandes o bastante para todo e qualquer som passar. Mas a mãe de Lara tem surdez moderada.
Ela soltou minha mão e a garrafa de vodca num canto do quarto e me mostrou suas fotos quando pequena, colocadas em cima de um dos armários. Estávamos suadas e fedendo.
Lara foi ao banheiro. Fui em seguida. Minhas costas ainda ardiam e ela me emprestou uma calça e uma camiseta limpas.
Estávamos secas (menos meu cabelo) e cheirosas.
Depois sentamos na cama com as pernas cruzadas e jogamos pôquer. Largamos o baralho e conversamos e bebemos do gargalho da garrafa durante uma hora e trinta e dois minutos. Pegamos o baralho e jogamos pôquer de novo. Strip pôquer.
Ainda estávamos de calça quando desistimos de jogar.
Acabamos deitadas lado a lado, sem camisetas, olhando uma para a outra.
A franja de seu cabelo roxo caindo sobre seu rosto, seus olhos escuros me encarando sob a luz fraca das velas.
Dormi antes dela.
Acordei com Lara de costas para mim; eu estava abraçada a ela debaixo das cobertas vermelha e azul. Acordei sorrindo, sentindo a pele clara e arranhada das costas da garota muda tocar a minha barriga; e escutando o teclado de Purple Void, do LSD, tocar no rádio relógio em cima do criado mudo.
Quis levantar, mas continuei abraçada a Lara por mais alguns minutos.
Purple Void acaba e ela ainda dorme.
Levantei, soltei um suspiro e reclamei em voz alta do frio; coloquei uma blusa e cobri Lara direito; fui ao banheiro, lavei meu rosto na frente do espelho manchado no canto e xinguei o ar por causa da dor na mão direita que não acabava nunca.
Dessa vez, um roxo na bochecha e um corte pequeno embaixo do olho.
Preciso cortar o cabelo.
Volto até a cama e deito ao lado de Lara. Ela acorda alguns minutos depois de eu começar a acariciar seu pescoço.
Ela me encara e, ainda deitada, passa a mão em meu rosto machucado. Apoia-se num ombro e me puxa com força.
Suas intenções eram bem menos fofas do que eu imaginei.
Eu gosto disso.
Seus dedos delicados alcançam a parte da minha barriga que escapa da blusa. A mão desce, desabotoa a calça e abre o zíper. Faz cócegas e tateia a área mais sensível abaixo da cintura.
Lara, grita sua mãe.
Sobe um pouco, faz cócegas e tenta passar por baixo da roupa íntima.
Lara, ela grita de novo.
Recua, as unhas bem cortadas arrastam por minha pele.
Ela me encara por alguns segundos. Assopra sua franja roxa para longe dos olhos e sorri e se levanta, colocando a garrafa semivazia de vodca numa lata de lixo e descendo as escadas; rangendo uma, duas, três, quatro vezes.
Continuo deitada na cama.
Visualizo a imagem de Lara conversando com sua mãe, escondendo a garrafa de vodca de volta na geladeira e brincando com sua irmã, que provavelmente estava assistindo à Espectro Cósmico na tevê.
Imagino Lara sorrindo e sorrio junto.

É domingo à tarde e estamos comendo e bebendo no bar; só nós duas. As pessoas passaram e encararam no caminho até; algumas indiferentes, algumas com um olhar estranho, alguns sorrindo.
Sentamo-nos frente a frente. Cada uma num dos bancos estofados e marrons da última mesa no fundo do bar.
O bloco de notas desliza sobre a mesa e para na minha frente, a letra cuidadosamente desenhada e menor que a minha. A caneta desliza e para também. Fará algo amanhã à tarde?.
Respondo e o bloco desliza novamente pela mesa de madeira.
Bato os dedos na mesa; um dois três quatro, um dois três quatro. Que vontade de correr.
Podemos sair juntas. Podemos passear ou ir à sua casa.
Respondo e ela apanha a caneta na mão direita e o bloco na esquerda.
Um dois três quatro, um dois três quatro. Há dois adolescentes sentados no balcão do bar ao lado. Um dos garotos olha para Lara e comenta animado sobre seu cabelo roxo, mas parece pegar meu olhar quando volta sua atenção à bebida.
Uma vontade repentina de me mexer.
Sim, sua casa. Não é uma boa ideia?.
Lara apanha a caneta e o bloco de notas pela terceira vez. Ou quarta, não sei.
Um dois três quatro, um dois três quatro, um dois três quatro. Será que tem comida em casa?
Ontem foi a terceira vez que dormi na casa de Lara...
Vontade de lutar.
Seguro a mão da garota de cabelo roxo antes de ela terminar de escrever e a levo para fora do bar. Ela aperta minha mão, mas não me machuca. Fecho um pouco os olhos e me acostumo com a luz mais forte e me lembro da noite passada.
A palma da minha mão se afasta da dela, seus dedos me acariciam e descem; um pouco para o lado, se entrelaçando com os meus quando fecho a mão.
Lembro-me das vezes em que dormimos juntas.
Aonde vamos? , sua letra pequena e caprichada me pergunta no caminho. Respondo com um sorriso.
Quero lutar. Quero me encontrar com J e lutar até o nó dos meus dedos doerem e meu nariz sangrar de novo. Quero lutar com Lara de novo. Quero lutar; mas acho que vamos sentir um tipo diferente de prazer hoje.
Meu pai está trabalhando. Penso em ligar, mas não sei o número do departamento. Peço uma folha do bloquinho e a caneta.
Estou com uma amiga. Bata na porta e chame-nos para o jantar.
Encosto a porta e encosto um banco a porta.
Minha porta tem um pôster do LSD do lado de fora e o pôster roubado do Troyk Feller do lado de dentro.
Meu pai acharia mesmo que era apenas uma amiga? Ele acharia. Ele desconfiaria de que não era apenas uma amiga quando fossemos jantar? Talvez.
Lara faz o som engraçado de quando está animada e pula para analisar minha pequena coleção de vinis. Me aproximo e a abraço por trás por impulso. Risadinha e beijo no meu braço. Ela puxa o disco do Loyd Synch Daughter que comprei no sebo e aponta para o tocador.
Play. Primeiro: Milk Way.
Ela se levanta e caminha para o outro lado do quarto. Levanto-a pelas pernas de surpresa e ela faz um som engraçado de susto quando a derrubo na cama. Sento sobre ela, cada joelho de um lado. Suas mãos encontram minha barriga e sobem por baixo da camiseta. Tiro minha camiseta. Continuam subindo e encontram meu sutiã. Ela tira meu sutiã.
Lara percebe minha expressão. Percebe eu desviar o olhar quando eu percebo que ela percebeu que estou tentando esconder meu corpo. Ela se senta e eu continuo na mesma posição. Ela abre a boca e fecha de volta; acho que às vezes ela esquece de que não pode falar.
Ela segura em meu queixo e vira meu rosto para ela. Meus olhos nos seus olhos. Ela parece falar comigo: diz que sou linda e eu não acredito. Ela me beija. Eu a abraço.
Ela tira sua camiseta e espera que eu tire seu sutiã. Erro e acerto e puxo seu corpo contra o meu.
Ela tem uma pinta no seio esquerdo.
Beijo seu corpo e deito-a na cama e desabotoo sua calça e abro seu zíper.
Minha vez.
Beijo-a por minutos e minha mão alcança sua calça e embaixo dela. Sinto sua barriga mover e tocar a minha. Olho em seus olhos e minha mão recua. Sinto sua barriga. Beijo seu pescoço e minha mão entra por baixo da roupa íntima. Sinto-a respirar, respirar mais rápido, sua barriga mover mais rápido. Mexo meus dedos mais rápido.
Rápido, devagar, rápido.
Perco a noção do tempo e ela me beija e arranha minhas costas machucadas. Solto um gemido alto de dor e ela solta um gemido baixo de preocupação. Eu rio, ela ri também. Ela gira e fica sobre mim, ela se senta na cama e tira sua calça. Depois a calcinha.
Ela beija minha barriga. Desce.
Ela desabotoa minha calça. Desce.
Ela tira minha calça. Desce.
Ela tira minha calcinha e... De...sce...
Inspiro o ar e ele sai como um longo e baixo gemido. Aperto minha mão e puxo o cabelo curto de Lara e mordo o lábio.
Perco a noção do tempo.
Ela sobe em mim. Ergo um pouco minhas pernas, minha mão em sua cintura, sua mão em meus seios, minha mão em suas costas, sua mão em minha perna. Ela deita em mim. Ela se move um pouco para frente, um pouco para trás.
Beijos. Rolamos. Estou deitada sobre ela.
Beijos. Ela levanta suas grossas pernas. Eu seguro e arranho.
Para frente, para trás.
Perco a noção do tempo.
O ar e o som saem de nossas bocas e nós nos abraçamos com força. Entramos debaixo do lençol e nos beijamos e eu observo os olhos escuros dela.
O disco acaba com a batida lenta e reverberante de Purple Void.
Quando meu pai chega em casa, estamos vestidas e jogando pôquer. Pôquer comum.
Ele cumprimenta Lara com um sorriso e nos chama para o jantar: lasanha quatro queijos e refrigerante diet. Sinto falta do gosto ruim de vodca.
Meu pai enche Lara de perguntas e fica surpreso ao saber que ela é muda. Elogia seu cabelo também. Terminamos de comer, meu pai comenta que já está tarde: você não quer dormir aqui? Temos um colchão extra, e aposto que ela adorará que você fique.
Ele sorri para mim com um olhar que demoro a entender; ele percebeu que Lara não é apenas uma amiga.
Sorrio de volta e o bloco de Lara nos diz que ela adorará dormir aqui, se não for incômodo. Ligo para sua casa e dou o recado a sua irmã mais nova, que dá o recado a sua mãe.
Tenho aula amanhã, mas Lara pode dormir até eu voltar. Ela acordará tarde: dorme tanto quanto sorri.
Meu pai fica na sala assistindo tevê e voltamos ao quarto. Brincamos de uma brincadeira sem nome em que escrevemos o nome de alguém num papel e o colocamos na cabeça do outro, que terá que adivinhar quem é. A brincadeira foi muito mais engraçada do que imagino que seria normalmente. Os gritinhos de Lara, de quando ela achava que sabia quem era, eram muito engraçadinhos.
Eu era Jesus. Ela era Troyk Feller.
Ligo a tevê e não assistimos ao filme. Deitamos às onze e meia e ficamos acordadas até meia noite.
Mas eu não durmo.
Continuo inquieta e levanto da cama depois de poucas horas e passo cuidadosamente por cima do colchão de Lara; ela dorme de barriga pra baixo, com o rosto virado para a direita e a boca aberta. Sou tentada a tirar uma foto para rir-me dela mais tarde, mas eu nem tenho uma câmera.
Meu pai está dormindo no sofá, a televisão ligada num canal de eternas propagandas de produtos revolucionários. Ele parece exausto.
Desligo a televisão e o cubro com um cobertor. Vou até a cozinha. O bilhete que escrevi a ele está preso à geladeira com um imã; ao lado de uma foto minha, ao lado de onde antes ficava uma foto muito bonita da minha mãe.
Com uma calça de moletom e uma blusa branca, saio silenciosamente de casa com a mochila do colégio nas costas.
Para onde, agora?

Para o posto de gasolina.
Não vejo outra opção e rezo para que não peçam minha identidade e não pedem. Saio com uma garrafa de vodca na mochila e metade da metade da mesada que tinha no bolso.
Eca. Matei a saudade do gosto ruim.
Meia hora e um terço da vodca foi.
Onde J mora? Onde Marco mora?
Eu e Lara estamos namorando?
Vejo um grupo de garotos mal vestidos e sinto vontade de brigar.
O semáforo pisca um dois três e eu sento no banco da praça.
Onde estou?
Um dois três.
Eu gosto de matemática.
O chão da praça está molhado. Molhado. Heh, palavra engraçada.
Sabia que as abelhas constroem os alvéolos de suas colmeias em forma hexagonal, pois sabem que polígonos isoperimétricos com mais lados tem uma área maior? Assim gastam menos cera e podem usar as mesmas paredes para mais de um compartimento de mel.
Tenho prova amanhã. Tenho prova hoje.
Que horas são?
Quando observados, elétrons se comportam de maneira diferente de quando não são observados. É sério.
Deus, quanto eu bebi?
O medo é uma forma de proteção do corpo humano. Ele ativa a adrenalina, um hormônio que aumenta momentaneamente a atividade cerebral e muscular; você pensa, age e reage mais rápido do que normalmente faria.
De onde eu tirei tudo isso?
Esbarro no grupo de garotos mal vestidos do Ack e eles me xingam.
Vontade de brigar.
A garrafa está na minha mão.
Me empurram.
A garrafa está na minha mão.
Me xingam.
A garrafa está na cabeça de um deles.
Em algum lugar distante, escuto A New Beginning, do LSD, começando a tocar.
Um acorde de guitarra se repete, o som começa a tomar seu ritmo.
Sou agarrada por trás e uso o momentum do garoto para jogá-lo no chão.
Há uma harmonia perfeita na melodia. O acorde muda, entra o violino, o ritmo acelera.
Ele puxa minha perna e eu caio na grama molhada. Bato minha cabeça com força em algo duro. Outro deles pula sobre mim e me prende. Um, dois, três socos no meu nariz. Ele sacode a mão machucada no ar e eu coloco minha mão aberta na sua cara. Ops. Esqueci-me de cortar as unhas.
Entra o teclado e as notas crescem.
Ele grita. Meu polegar entra em sua boca quando ele joga a cabeça para trás e minhas unhas cortam a pele ao lado de seus olhos. Minha mão dói horrivelmente e ele se afasta e eu chuto seu peito e ele cai para trás.
Chuto seu saco.
Levanto e o cara que levou a garrafada vem para cima de mim. Desvio de um soco, tomo um soco, desvio de outro, dou um soco. Ameaço um golpe alto com o braço direito e ele abre a guarda baixa e minha mão esquerda afunda em sua barriga. Ele pula e cai de quatro e meu pé vai de encontro com seu queixo.
Começa o refrão. As batidas graves da bateria se destacam do resto.
Viro e a faca me acerta de raspão. Dói. Seguro a mão do garoto e brinco com seu braço com um sorriso sádico no rosto; jogo para a esquerda, volto para a direita.
Crack.
O ritmo desacelera. Teclado. Volta para o acorde da primeira estrofe.
Acho que descoloquei algum dos ossos dele.
O último me levanta pela cintura e me derruba violentamente. Chute nas costelas. Minhas costelas.
O som da música quase se esvai.
Pisão no joelho. Meu joelho.
Bá, bum, bá, bum, bá, bum...
Tento levantar e recebo um pisão no peito. Meu peito.
Bá, bum pá bum, bá, bum pá bum, bá...
Levanto e ele está com a faca na mão.
Tosse e sangue e o refrão começa de novo.
Desvio três golpes rápidos e recuo três metros.
O ritmo acelera demais.
Corro na direção dele, ignoro meu joelho explodindo, grito o refrão junto com o lendário Anthony Foster e acerto os dois pés no peito do filho da puta.
Ele cai quase no mesmo instante em que a música termina.
Só então o efeito da bebida passa. O efeito da adrenalina passa.
Só então percebo que quebrei alguns ossos e que meu rosto está inchado e sangrado; e há um corte grande e feio na lateral da minha barriga.
Minha cabeça dói.
Meu corpo todo dói.
Observo os membros do Ack, aquela ganguezinha escrota, caídos no chão. Observo minhas mãos ensanguentadas.
Um sorriso. Tenho uma ideia. Desabo.