Máscara.
Uma briga, dois ossos do joelho deslocados, uma costela fraturada, um nariz quebrado (e torto agora) e uma cicatriz na barriga. O osso fraturado atingiu e perfurou de leve o pulmão. Lembro-me de uma pancada na cabeça. Meu pai não sabe de alguns dos detalhes.
Acordei com dinheiro no bolso da blusa. Muito dinheiro.
Acordei no hospital.
Os garotos mal vestidos eram ladrões. Eu sou uma ladra?
Paguei cinco mil [dinheiros] ao doutor para que ele dissesse a meu pai que fui vítima de um atropelamento de carro de grande porte. Dois ossos do joelho deslocados, uma costela fraturada, um nariz quebrado e um pulmão perfurado. E a pancada na cabeça. Cicatriz? Que cicatriz?
Não acho que pai acreditou. Ele é policial; talvez vire detetive logo. Não deve ter se convencido, mas alguns dos machucados menores eram iguais aos das lutas com J, Marco e Lara. E ele já tinha me visto com esses machucados antes. Mas não, não é isso... Talvez ele só queira acreditar em mim. Em sua única e querida filha.
Não, ele não acreditou. A negação é algo muito poderoso.
Andei sozinha até o hospital. Acho que estavam ocupados demais contendo a hemorragia interna para notar a quantia absurda de dinheiro nos meus bolsos. [Cinquenta, quarenta, trinta?] mil. Tudo em notas de cem.
Agora eu lembro. Estava com a carteira de identidade e seguro de vida numa das mãos quando vomitei e desabei no chão polido da entrada do pronto-socorro. Assim não revistariam meus bolsos; não tão cedo.
Escondi o saco com dinheiro atrás da maca. Escondi o saco com dinheiro embaixo do cobertor. Escondi o saco com dinheiro no banheiro. Escondi o saco com dinheiro na mochila com livros que meu pai me trouxe.
Li metade dos livros, desenhei um ideia e guardei tudo de volta. Pedi que ele levasse a mochila, mas, por favor, não mexa nela. Escrevi algumas coisas um pouco pessoais.
Foi preciso uma cirurgia de emergência para que eu não morresse de hemorragia interna e de algumas duzentas outras coisas. [Tantos dias] de repouso na clínica e mais uma semana e meia em casa. Um mês sem atividades físicas pesadas e o perigo indeterminado de crises repentinas de respiração.
Volte em seis meses após a recuperação. Esperamos atendê-la novamente.
Não dormi muito mais que três horas nas primeiras noites. Lara veio me visitar no primeiro dia, junto com meu pai. Voltou no segundo e no terceiro me trouxe e me deu um toca-fitas que era antes dela. Havia uma fita de músicas preferidas (Loyd Sync Daughter incluso); uma fita transparente de músicas gravadas do rádio, com o título escrito num papel cuidadosamente colado na frente. Eu gritei e ri de dor quando tentei abraçá-la e minhas costelas protesta-am como uma horda de plebeus irados.
Deus, ela é muito fofa.
Contei a ela o que realmente aconteceu comigo. Tentei contar. Acabei cortando os detalhes, deixei tudo bem vago. Talvez nem tenha mencionado a bebida. Talvez, nem que eram três caras.
Escutei a fita mais de uma vez e todos os dias.
Os últimos dias me pareceram um sonho em câmera lenta. Nem passei tanto tempo ali, mas sair me causou uma sensação estranha; como se estivesse deixando algo para trás. Estava deixando algo para trás?
Cheguei a meu quarto, guardei as roupas e meu pai mostra minha televisão nova. Com que dinheiro?
Meu pai sai e eu me deito na cama. Observo o teto branco durante dezessete minutos e meio. Levanto, pego um pano branco e corto algumas vezes. Vou até o espelho e coloco o pano no rosto.
Perfeito.
Largo o pano e desabo na cama de novo.
Meu torso todo doí quando eu respiro ou ando ou falo. Ainda tenho uma grossa faixa enrolada na barriga e dez dias em casa. Dez dias em casa. Duzentas e quarenta horas em casa. Tempo o bastante para assistir a mais de quatrocentos e oitenta filmes. Mais de quinhentos.
Tenho uma televisão nova.
Minha imagem no espelho está horrível.
Meu cabelo está horrível.
Por que eu não o cortei ainda?
Duzentas e quarenta horas. Tempo o bastante para fazer sexo... algumas vezes. Muitas vezes.
Por que não corto o cabelo agora?
Bem, o tempo depende do casal. E existem as pausas. Talvez quase muitas vezes.
Tesoura, borrifador de água, espelho, pente, vassoura e uma mão que não trema.
Tempo o bastante para fazer sexo quase muitas vezes. Não, muitas vezes. Mas sem contar as pausas.
Minhas mãos têm os nós dos dedos roxos e tremem quando as deixo suspensas.
Tempo o bastante para cortar o cabelo mil trezentas e nove vírgula zero nove vezes.
Você está em casa. Você está em seu quarto. Você está em seu banheiro. Você desiste de cortar o cabelo e desaba na cama.
Estou desanimada demais. Cansada demais.
Que dia é hoje mesmo?

Hoje é meu aniversário. E eu só me lembrei disso ontem.
Foi uma daquelas câmeras fotográficas que imprimem as fotos na hora que meu pai me deu de presente.
Meu pai comprou um bolo e Lara chegou de manhã. J e Marco vêm à noite.
Acordei de bom humor.
Conversamos um pouco, rimos e comemos. Meu pai acordou de bom humor também.
Comi mais do que como normalmente. Três pedaços consideráveis de bolo, dois copos e meio de refrigerante, um punhado de salgados que roubei (seriam para a noite) e um sanduíche. Lara comeu pouco.
Ganhei a câmera fotográfica e mais três rolos de filme. Ela parece um rádio-relógio quando está fechada e o flash é forte demais. Você aperta o botão grande, clique, a foto sai.
Meu pai foi trabalhar, eu e Lara fomos ao parque.
Vinte e sete fotos bonitas, seis fotos do chão e dos nossos pés, duas do céu e quatro borradas ou sem foco.
Lado a lado mostrando a língua para a câmera.
Rindo e babando sorvete de morango.
Distraída, de costas, sentada na grama com as pernas cruzadas e observando o pôr do sol.
E o que não apareceu nas fotos.
Nos beijamos deitadas na grama; escondidas numa cabine do banheiro; fora da trilha; no mato. Fico com as costas doloridas.
Voltamos antes do sol se pôr. Acabamos com o segundo rolo fotográfico no meu quarto.
Deitada, olhos fechados, dedo enrolando a ponta da franja roxa.
Deitadas no chão de barriga para cima e fazendo careta.
Sem calça, abaixada, escolhendo um disco de música na pilha de discos de música.
Mão direita escondendo o corpo seminu com o lençol, mão esquerda tentando tampar a lente da câmera e sorriso rindo da cara da garota de cabelo roxo.
Fumaça. Pose de madame elegante.
Deitadas, boca semiaberta, olhar perdido.
Perfume pelo quarto todo.
Trinta por cento das fotos foram para a gaveta do meu criado mudo.
Meu pai chegou e foi tomar banho.
J chegou e nos cumprimentou.
Meu pai voltou, apresentei-os um ao outro.
Marco chegou. Lara conversou com ele em língua de sinais e J se deu bem com meu pai. Eles conversaram sobre política e eu comi doce e Marco gostou do meu quarto.
Marco e Lara foram embora juntos. Ela foi ao banheiro antes de sair e me chamou pedindo um creme. Ela não queria um creme.
Meu pai pediu licença e foi ao quarto dormir e eu e J conversamos até o dia seguinte. Contei sobre a briga, por cima, e ele só precisou disso para entender a história. E acho que entendeu o que eu queria.
Ele foi embora e tenho certeza de que não foi para casa. Tem amigos demais e vergonha de menos para isso.
Desabo na cama, como fiz na última semana toda.
Onde está a câmera?
Acordo suada e com flashes de um sonho inapropriado e com o cabelo coçando. Tomo banho e meio quilo de grama caí do meu cabelo.
Minha cabeça ainda está coçando.
Acho que vou cortar meu cabelo agora.
Tesoura, borrifador de água, espelho, pente, vassoura e uma mão que não trema.
Você está em casa. Você está em seu quarto. Você está em seu banheiro.
Déjà vu.
Aproveito que o cabelo ainda está molhado. Primeiro cortes grandes. Aparar as pontas. Corta, corta, corta. Corta.
Você chacoalha a cabeça molhada na pia e levanta o rosto.
Você encontra uma pessoa desconhecida no espelho quando seu cabelo não chega mais aos ombros.
Você encontra uma pessoa bonita quando seu cabelo está picotado e desorganizado e não se mexe mais com o vento.
Sem franja. Você consegue sentir o ar batendo em seu rosto, em sua nuca. Quase mais curto que o cabelo roxo de Lara.
Continua sem maquiagem.
Meu pai vai gostar?
Você pega aquele pano branco recortado e o coloca no rosto de novo. Não é você. E a sensação é a de ter criado uma obra prima.
Aplausos.
Não sei onde está a câmera.
Mexo no cabelo a cada sete segundos e me olho no espelho a cada trinta. Vou à cozinha e como um pedaço de bolo. Derrubo farelos no chão e bato a cabeça quando vou me levantar de volta.
Minhas costas doem. O calendário na geladeira me diz que já se passou uma semana e um dia desde que saí do hospital. Abro a porta e o leite cai no chão, fazendo um rastro branco até meu pé.
Ideia.
Onde está aquele cartão mesmo? Qual o número do J? Que número eu visto?
Ideia vira realidade.
Sabe quando você é criança e tem a completa certeza de que, algum dia, por alguma razão, algo de extraordinário vai acontecer na sua vida? Eu nunca pensei nisso.
Minha vida era uma vida ordinária. Minha vida é uma vida ordinária. Mas, em algum momento, por algum motivo, de algum modo, decidi que não queria mais ter uma vida ordinária.
Eu não tenho uma vida ordinária.
Estou no telhado de um prédio de dezenove andares. O sol amarelo, o céu azul, as nuvens brancas. Minha roupa branca. O vento bate no meu rosto e eu não sinto muita coisa além da minha própria respiração quente e úmida presa na máscara. Branca. Limpa.
Uma máscara veneziana. Imagine-a como quiser.
Um colete maleável e fino. Dinheiro e J tem contatos.
Tudo branco. Nada de detalhes contemporâneos, nada de design ousado. Pintei o cabelo de branco com spray instantâneo.
Sou um símbolo vivo que ninguém conhece. Nem sei o que estou fazendo.
Resumo minha tarde a pular por prédios e observar a cidade. O centro. A sensação de estar a centenas de metros de distância do chão com o sol laranja se pondo no horizonte é uma sensação única. Melhor que qualquer droga. Melhor que bebida. Não que eu dispense qualquer uma dessas duas coisas.
Eu entro pela janela do meu quarto e tiro a máscara do rosto quente e suado. Passo a mão no cabelo e me coço e sujo o rosto de tinta branca.
Ah, ali está a câmera. Está na mesa, sobre um envelope semiaberto com o nome Lara escrito numa letra bonita e pequena. E ela comprou um rolo de filme.
De onde essas pessoas estão tirando tanto dinheiro?
Tiro a parte de cima da roupa e jogo-a no chão. Aperto o botão do som e Miami Driver começa a tocar.
Sinto-me girando.
Sento na beirada da cama e abro o envelope: várias fotos e um bilhete. As fotos me prendem a atenção o bastante para que eu deixe o bilhete de lado.
Deitada, rosto próximo à câmera, franja roxa caindo sobre os olhos, sorriso, apenas o sutiã.
Deitada, de lado, câmera afastada, lençol por cima.
Torso, barriga, sutiã azul com rendas.
Torso, barriga, sem sutiã, braços tampando.
Torso, barriga, sem sutiã e sem braços tampando. Pulinhos.
Sentada na cama, sorrindo, pernas semiabertas, braços contra os seios, sutiã e calcinha azul de renda.
Deitada, olhando para a câmera, mesmo sutiã e mesma calcinha.
Sentada na cama, sorrindo, pernas semiabertas, braços contra os seios, pinta, sem roupa.
Deitada, olhando para a câmera, sem roupa. Pulinhos.
Deitada, de costas, sem roupa. Deus...
Sentada, sutiã e calcinha azul de renda, pernas cruzadas, sorriso largo, olhos fechados. Ela é linda.
E o que está escrito no bilhete?
Abro o papel de caderno dobrado e começo a ler.
"
Para minha melhor amiga, que me faz sentir tão bem.
Ficarei com saudade durante a viagem. E quando eu voltar, sairemos eu, você, J e Marco e vamos lutar. Como quando nos beijamos pela primeira vez.
Feliz aniversário. Espero que goste do presente.
Queria que estivesse aqui.
"
Feliz aniversário, melhor amiga.
Eu me esqueci de que ela ia viajar. Não lembro por que ou aonde, mas nem me importa agora. Duas semanas sem ela e a sensação é muito pior do que eu imaginei que seria.
Amiga.
Merda.
Sou uma amiga? Digo, apenas uma amiga? Uma melhor amiga.
Melhores amigas não te masturbam.
Eu não sei se quero ser apenas uma melhor amiga. Não é assim que eu me referiria a ela.
Melhores amigas não fazem sexo oral em você.
Duas semanas. Duas semanas sozinha... Sozinha?
Melhores amigas não fazem sexo.
Levanto e pego a fita de Lara. Desligo o toca discos.
Faixa um. O que será que Lara está fazendo?
Faixa dois. No que será que Lara está pensando?
Faixa três. Ela nem viu meu cabelo...
Faixa quatro. Faixa cinco. Faixa seis. Talvez eu deva relaxar. Faixa sete. Faixa oito. Lara. Faixa nove.
Faixa dez.
Melhores amigas não fazem sexo uma com a outra. Mas podem fazer com outras pessoas. Isso é ruim?
Faixa onze. O escuro do espaço sideral e o som vibrante de Hot, Hot Air é tudo o que eu vejo e escuto antes de apagar.