Marvin
8 Oito
Figura de branco correndo nos telhados.
Figura de branco espancando moleques do Ack.
Figura de branco apanhando.
Não é um sonho.
O céu está cinzento, mas chego ao bar e continua não chovendo.
A porta é de uma madeira desgastada, as paredes do lado de fora são feitas de tijolos marrom claro e há pôsteres colados. Continuo não reconhecendo aquilo como um bar do lado de fora.
Uma figura branca me encara no pôster. MARVIN, em letras garrafais.
J está no mesmo lugar daquele dia.
Cheiro de maconha e cheiro de cigarro. Aproxime-se demais do banheiro, cheiro fodido de xixi.
Só eu e você, J.
Gostei do cabelo. Já experimentou este rum?
Bebo o bastante para ficar ligeiramente tonta e paro assim que percebo meu estado.
J é bonito. Nunca tinha notado.
Sugiro uma luta, só eu e ele, mas J precisa ir e eu não presto atenção no por que.
Ele diz que pagará a conta e se levanta e minha mão coça.
Caramba, eu preciso lutar.
O filho da mãe deixou metade do rum no copo. E foda-se, eu tomo tudo.
Levanto e esbarro na garçonete mais velha que eu. Ela pede desculpas, mas sou eu quem deveria pedir desculpas.
Ei. Eu a conheço de algum lugar.
A saia do uniforme vermelho chega até os joelhos e seus olhos encontram os meus. Ela é mais alta e obviamente mais velha; ela ri e diz que estou encarando-a, eu rio e estamos sentadas e conversando.
O nome dela é Catarina. Catarina ouve rock e quer fazer medicina. Catarina alisa seu longo e negro cabelo ondulado ao falar e eu reparo demais em seu rosto moreno. Catarina elogia meu cabelo.
Catarina está me contando alguma coisa.
Catarina está me beijando. Eu estou a beijando. Ela coloca a mão por baixo da minha camiseta e eu por baixo de sua calça e ela termina de contar o que quer que esteja contando.
Eu esfrego os olhos e ela se desculpa mais uma vez por ter esbarrado em mim. Olho para ela antes de sair e espero um convite que nunca vem. Mas a expectativa não me deixa quando a porta fecha.
Isso é ruim?
A expectativa continua mesmo quando eu atravesso a rua.
O universo resolve colaborar com meu humor e deixa o céu ainda mais cinza; as ruas mais vazias, o ar mais úmido, uma quase chuva vinda do céu e um clima de inercia.
Um carro da polícia passa por mim. A sirene ligada, os policiais rindo, o carro para na próxima esquina e nada acontece. Estavam com pressa para chegar à lanchonete.
Do outro lado da rua, em frente a uma igreja, a calçada imunda e fétida por conta dos mendigos e moradores de rua. Pedaços de papelão como cama, pedaços de panos imundos como cobertor. Eles são invisíveis até aos olhos de deus.
Uma gota dágua cai no meu ombro.
Estou com vontade de socar a próxima pessoa que passar por mim. Sem motivo nenhum. Um gordo, um mendigo, um homem de negócios, um playboy, um maconheiro, um hippie, uma velha, um pré-adolescente de merda.
Quero chutar um cachorro, colocar fogo numa árvore, apanhar da polícia.
Várias gotas dágua caem no meu ombro. Quero mandar o céu para a puta que o pariu.
No ano que vem terei que voltar ao colégio. E no próximo ano. E no próximo. E isso vai continuar por tempo demais.
A impressão que tenho é de que estou estagnada; presa, tentando andar desesperadamente e sem conseguir sair do lugar. Não quero ser uma engenheira, não quero ser uma advogada, não quero ser professora; quero ser ninguém.
Talvez eu queira ser presidenta.
Centenas de milhares de gotas dágua caem em meus ombros, em meu cabelo curto, em meu rosto. Chuto poças dágua e molho crianças e encaro suas mães irritas. Sempre sorrio depois disso.
Quero xingar o filho da puta do motorista de ônibus que quase me atropelou agora.
Quero ser livre.
Pulo numa poça, escuto o som de rodas derrapando no asfalto molhado.
Dez centésimos de segundo. Som dos meus pés espalhando a água.
Vinte e dois centésimos de segundo. Som de rodas derrapando no asfalto.
Quarenta e oito centésimos de segundo. Viro a cabeça.
Um segundo e um centésimo. O som das rodas continua.
Um segundo e vinte e nove e meio centésimos de segundo.
O som das rodas para.
O ônibus gira no ar.
E passantes fecham os olhos por impulso e uma fileira de carros no sinaleiro assiste ao ônibus se aproximar.
Quase três segundos: um estrondo, não sei onde estou; o ônibus derrapou na calçada molhada?
Marvin é livre.
Puta que o pariu.
Quero chutar um cachorro, colocar fogo numa árvore, apanhar da polícia, bater numa velha, dar um tapa na cara de uma garotinha, chazão num moleque de sexta série, perder um dente com um soco, quebrar as janelas de uma igreja, voar, lutar, apanhar, foder, beber, fumar, gozar, gritar.
Quero que o que eu acabei de ver não seja verdade. Quero que o ônibus não tenha derrapado.
Puta que o pariu.
Corro e Marvin corre. Passo por um poste e o uniforme branco de Marvin reluz dentre as gotas de chuva cinzenta. Puxo as mãos no meu rosto e Marvin está de máscara.
Ele pula e sobe um carro, sobe um caminhão, sobe no ônibus tombado.
O cenário é repleto de carros amassados e em chamas, pessoas gemendo e gritando, fumaça, metal, vidro.
Os policiais estão lanchando. Os mendigos salvaram suas vidas. Deus está assistindo a tudo.
O cenário é um ônibus tombado sobre carros amassados, fogo em motores e vidros quebrados. Algumas pessoas já se salvaram e eu não quero pensar nos carros abaixo de mim e abaixo do ônibus.
Piso e chuto o vidro do ônibus uma vez, piso mais uma, pulo com os dois pés naquela merda. Caio dentro do ônibus e as pessoas veem Marvin. Ninguém nunca viu Marvin.
Ajudo uma moça morena e sua mãe a saírem do ônibus, ajudo um senhor a puxar uma garotinha de baixo das ferragens. O senhor me puxa de volta quando vou até o corpo no fundo do ônibus. É tarde, ele diz.
Todos saíram e eu escuto uma tosse; e mais uma vez.
O motorista. Ninguém se lembrou do motorista.
Passo por cima do cobrador e encontro o motorista quase desacordado e com sangue em todo seu rosto. Tento tirar seu cinto preso e não consigo. Tento de novo e não consigo. Mais uma vez; os músculos do meu braço doem e eu grito.
Minha respiração desacelera e eu fico em silêncio. E não consigo tirar o cinto.
Não morra.
O ônibus sacode e sua dianteira acerta o chão e o cinto se solta e o motorista cai no meu colo. Não estou respirando. Seguro minha barriga.
Tenho que arrastá-lo agora. Um. Dois. Três.
Se mexa. Respire.
Um. Dois. Três. Respira.
Um, respira. Dois, respira. Três...
Alguém segura o ombro do motorista e eu ajudo a puxá-lo para fora. Tentam me ajudar e eu não deixo. Ar.
O fundo do ônibus fica em chamas.
Puxo-me para fora e Marvin saí do ônibus. Tusso e respiro pesado e a chuva limpa o cinza do uniforme branco de Marvin, mas não os cortes na máscara ou o chamuscado no cabelo.
As pessoas param por um instante e observam a figura de branco parada sobre o ônibus. O fogo não importa, o carro de bombeiros chegando não importa, a chuva pesada não importa. Ninguém se move, ninguém fala. Apenas observam.
Eu sou um símbolo que todos conhecem. Eu sei exatamente o que estou fazendo.
Eu sou Marvin.
O sino da igreja toca e desperta todos de um transe. Duas viaturas policiais chegam e um caminhão de bombeiros se aproxima e meu pai está ali. Mas Marvin não está ali.
A figura branca não está mais ali.
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