O caminho da minha casa ao colégio e do colégio a minha casa é uma das melhores partes do meu dia.
O vento gelado que quase rasga meu rosto de manhã, os cochilos no ônibus. O sol ardente que quase me assa viva no começo da tarde, o escutar de conversas toscas no ônibus.
Chego em casa e me fecho no quarto para escutar música; Roymob, para começar. Já não com tanto sono, às vezes toco alguma coisa na flauta. Tenho feito isso cada vez menos.
Até quase anoitecer, aumento o som e escuto Loyd Sync Daughter deitada na cama, encarando o teto. Tive algumas epifanias, algumas vezes, nessa parte. O tipo de coisa tão mindblowing /explodementes que eu esqueço em dois minutos e nunca mais me lembro do que se tratava.
Rotina.
Sento na cozinha para comer com meu pai e só então percebo com quanta fome eu estava.
Dessa vez, nós não conversamos muito. Não só dessa vez, desde que minha mãe saiu de casa...
Consigo contar nos dedos todas as vezes que nos falamos por mais de um minuto desde então.
Um clima de merda.
Há. Acho que meu cérebro finalmente se tocou que devo falar e pensar duma forma repugnante. Talvez, finalmente lembrou-se de quem é minha mãe.

Por um milagre divino, não chego atrasada no primeiro dia da semana seguinte e até consigo acordar a tempo para descer no ponto certo, em frente ao colégio. Ignoro a professora e tenho uma manhã relativamente tranquila; exceto por um grupo de garotas que me aborda e tenta me humilhar de modos patéticos por eu ser riquinha e mimada.
Na volta para casa, passo por um sebo e compro um vinil do Loyd Sync Daughter: a banda de rock progressivo mais foda da história.
Aparentemente, sou a única a frequentar a sessão de rock progressivo. Vez ou outra alguém aparece na sessão de músicas eletrônicas, mas sai ao perceber que não se trata de música de balada. Uma confusão comum, e é por isso que evito aparecer por lá; não quero ninguém pensando que escuto músicas do tipo.
Perco o ônibus para casa na saída do sebo e volto a pé.
Quarenta minutos e uma camiseta suada e fedendo depois, chego em casa e subo as escadas até o apartamento.
Nunca mais pego ônibus.
Sinto falta de me cansar.
Sinto falta dos jogos de handebol com meus amigos, das pegações no banheiro nos intervalos entre aulas, das corridas até o boliche e de tomar sorvete. Chegar em casa de noite e me deitar exausta na cama era igual a ter o melhor sono do planeta. Nem quando tomo remédios eu durmo tão bem.
Vou à cozinha e sento à mesa para comer. Tento puxar assunto com meu pai, mas não adianta. Tudo o que ele diz é que conseguiu um aumento de três por cento com a greve da polícia e agora tem mais de cem horas a repor. Com tudo o que aconteceu, ele não precisava disso.
Naquela noite, coloco o vinil novo do Loyd para tocar e durmo nos últimos dois minutos do álbum.
Sonho com sorvetes, garotas loiras e longas aulas de história.

Almoço sorvete, esbarro numa garota loira e perco a aula de história à tarde.
As garotas retardadas do dia anterior me enchem o saco de novo e as humilhações fazem algum efeito dessa vez.
É por isso que eu estou na frente do espelho do banheiro agora? Olhando para a figura magra e alta; só um pouco alta, mas não muito.
Elas são gordinhas e gostosas.
Sou magra e não uso maquiagem.
Elas têm peitos grandes e uma máscara pintada no rosto.
Eu tenho olhos escuros e olheiras pesadas e um cabelo comprido preso e mal cuidado.