Maria das Dores

1 Somos todas Maria


Hoje uma Maria morreu. Ninguém realmente se importou em saber o nome dela. Talvez fosse Maria das Dores, pois dor foi tudo o que ela conheceu. Maria morreu numa clínica clandestina, sozinha sobre uma luz fluorescente que a fez lembrar que nunca mais veria o Sol. Maria morreu pelos punhos de um homem que um dia disse que amava. Maria morreu pelas mãos de um desconhecido na rua, depois de ter seu corpo invadido e machucado. Mais ninguém se importou com a morte de Maria. Afinal, essa Maria era preta. Aquela Maria era travesti, por isso ninguém chorou por ela. A outra Maria era pobre, então não ouve comoção, senão a dos filhos que ela tentava alimentar.

Ninguém se importou, afinal Maria estava pedindo.

Maria é aquela garota que ri das piadas sobre seu peso, para mostrar que está bem, mas não como a três dias. Maria é aquela que sofre abusos dentro de casa, por alguém da própria família, e está ferida demais para se defender. Maria é a mulher que acorda ás quatro da manhã para trabalhar, para cuidar das crianças que o marido deixou para trás. Maria apanha, da vida, do namorado, do pai. Algumas Marias são fortes, outras simplesmente não agüentam. Maria é aquela garota que foi estuprada, que teve vídeos e fotos íntimos divulgadas, que bebeu demais e foi abusada, mas nesses casos, Maria foi dita a culpada.

Maria foi abandonada pelo namorado quando soube do “incidente”, e foi expulsa de casa quando os pais souberam. E então Maria recorreu ao submundo, quem sabe quando estivesse livre daquele “probleminha” a família voltasse a amá-la? Mas Maria foi apenas mais uma a morrer em cima de uma cama de hospital improvisada.

Maria que nasceu João.

Maria que gosta de meninas.

Maria volta para casa apressada, com medo, encolhida, sozinha pela noite. Olhos avaliam cada centímetro de seu corpo, palavras, gritos e assobios a fazem andar ainda mais rápido

Maria apanhou de novo hoje. Ela grita, bem na sua frente, mas você se recusa a ouvi-la. Maria foi abusada mais uma vez, ela tem certeza que alguém já percebeu, mas esse alguém se cala.

Maria sou eu. Maria é você, mulher. Maria somos todas nós, e todas as dores são nossas também. Maria luta, Maria grita, Maria da à cara a tapa, porque outras Marias ainda morrem e ninguém se importa. Maria incansável, beijando as feridas das irmãs, protegendo-as.

Maria das Dores, Maria da Luta, Maria da Vida, Maria do Mundo.

Maria Puta, Maria Traveco, Maria Vadia, Maria Preta, Maria Gorda.

Maria Mãe, Maria Irmã, Maria Filha, Maria Avó.

Maria Você, Maria Eu, Maria Nós, Maria Mulher.

Quantas outras Marias têm que morrer para que você finalmente olhe para nós?

Notas finais
Obrigada pela atenção.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!