Margem Distante
20 Mitsuketa
Notas iniciais
Margem Distante
"Ela nem percebeu que os olhos que a observavam iriam mudar o seu destino"
20. Mitsuketa
Meus ouvidos chiavam como uma televisão fora do ar, as memórias apertavam a minha garganta, sufocando-me com meus próprios sentimentos. Não sabia o que fazer, o que sentir e no que acreditar. Estava bem ali, a verdade bem na minha frente, a mesma pessoa que encravava várias dúvidas na minha cabeça. Minhas tormentas pediam permissão.
“Filha, seu pai foi fazer uma viagem, ele voltará... Algum dia.”
Estou rindo por dentro, uma risada debochada e melancólica, como se a minha insanidade estivesse esvaindo-se. Ali estava ele, bem na minha frente. A pessoa que deveria estar protegendo o laço da nossa família, que deveria ter evitado tudo isso, mas na verdade... Ele era a causa de tudo. Era ele quem a Nora estava procurando, por causa dele... Não! Não irei jogar o jogo da culpa mais uma vez. Ficar se culpando não vai adiantar nada, devo somente consertar as coisas.
Mesmo assim... Por que ele fugiu com o rabo entre as pernas? Fugiu como um desgraçado com medo de aceitar a própria realidade... Ele fugiu como eu fiz várias e várias vezes, achando que tudo era somente um sonho ruim. Mas nunca foi. Nunca será. Terei que aceitar a realidade como ela está, devo proteger as pessoas que amo, pois não quero vê-las escapar entre os meus dedos novamente.
Meu corpo avançou contra ele em um súbito, como se tivesse sido forçado a fazer. Mesmo que eu não tenha sequer puxado o cabo da minha Katana, o abraço que depositei no mesmo mostrou o quanto estava destruída, o quanto eu queria que aquilo acabasse logo. Estava somente tentada a fugir como ele, mas não o fiz porque tenho pessoas que precisam de mim... Pessoas que eu amo e faria de tudo para que ficassem seguros... Até mesmo dar a minha própria vida.
Estou somente cansada de sofrer tanto, cansada de escutar tantas vozes na minha cabeça, cansada de viver uma rotina ao imprevisível que mal posso determinar qual o próximo sangue a ser derramado por eles... E por mim mesma. Estou com medo de mim, preocupada com o que posso fazer com tanto poder em mãos. Eu era uma meio-fantasma com sangue de divindade.
Sequer o vi, mas tenho a sensação da sua presença todo o tempo. Ele era o meu pai, não tinha como eu odiá-lo. Demorou um tempo para compreender, mas ele acabou retribuindo o abraço. O cabelo dele estava diferente do sonho, estava bem mais longo e estava preso em um rabo de cavalo. Sua altura era semelhante a dos meus dois irmãos, então eu ficava como uma criancinha nos braços do pai... Literalmente
– Sua mãe está bem, não se preocupe, pedi a um amigo para deixá-la segura. – Parecia um pouco receoso, mas decidi ignorar aquilo por enquanto. Depois se soltá-lo, respirei fundo e soquei-o com força, pois mesmo um pouco feliz, eu ainda achava que o que ele tinha feito foi muito errado... Tipo a ponto de poder passar uma eternidade o socando. – Itai! Por que você fez isso Sayo?! Parece até a sua mãe! – Fez uma expressão engraçada e começou a choramingar. Realmente era parecido com o Yamato. Se eu não soubesse que eles eram pai e filho, poderia até acreditar na história de “reencarnação” que Yama tinha contado.
– É por você ter feito tudo isso, e você tem sorte que eu tenha somente te socado. – Falei de forma superior. Estou um pouco feliz de poder finalmente vê-lo, agora, de alguma forma, eu tinha esperanças de ter uma família inteira reunida... Mesmo que... O Yuu não lembre que tem uma mãe ou um pai... Mas ele sabe que pode acreditar na gente. – Já que você sabe onde ela está, não tenho com que me preocupar – Mesmo que seja a primeira vez que o vejo, sinto que posso confiar nele... Espero não me arrepender.
– Sua mãe pediu que eu viesse para buscar vocês, parece que já causei problemas demais a Kofuku. – Olhou para a casa da Deusa e coçou a nuca. – Será que devo passar para dar um olá? – Sorriu sem graça e voltou seu olhar para o meu rosto emburrado – Por que você não vai dizer a eles, talvez seus irmãos não queiram me ver... – Ele é idiota?
– Não irei coisa nenhuma, você que deve dar uma explicação. Não tenho nada a ver com os seus problemas. – Cruzei os braços e o olhei com raiva – Não faça mais nenhuma burrada conosco, posso não ser compreensiva da próxima vez. – Estendi o punho, ameaçando-o. Apenas recuou nervoso.
– Hai! Hai! Você venceu. Talvez eu esteja somente nervoso. Já vi o Yamato em algumas visitas à cidade, mas nunca tive contato direto com você e o seu irmão... – Meu pai (É até estranho falar assim) parecia triste e um pouco distante. Talvez eu entenda os motivos dele... Mas era cedo demais para determinar. – Saí da cidade para manter vocês longe de todos os meus problemas, mas parece que só piorei as coisas.
Não sei nada sobre o passado dele e da mamãe, mas se ele está aqui e diz estar arrependido, acho que posso falar com os meus irmãos. Difícil vai ser impedir eles de surra-lo até ele chorar... O Yama parece ter muita raiva dele, não sei por quê. Também não entendo o motivo do Yamato ter sido separado de nós dois, tenho que perguntar à algum dos dois depois.
Te achei... Te achei... Te achei...
Um frio subiu na minha espinha, minhas mãos começaram a suar e a tremer. A voz sussurrava finamente no meu ouvido, tendo a impressão que algo estava atrás de mim, mas não captava a presença de nenhuma pessoa... Será que... Merda...
– Vamos logo, aqui não é seguro. – Falamos ao mesmo tempo. Parece que ele também sente a mesma coisa. O puxei dali rapidamente quando senti o mesmo cheiro de antes, cheiro de ferrugem... Sangue. Nora estava perto, o que fazia meus sentidos ficarem alerta. Escutamos um barulho em um arbusto ali perto. Aumentamos as passadas.
Assim que entrei pelo buraco da parede do banheiro (que por algo bem incomum, eu cortei), empurrei o corpo do meu pai para fora do banheiro, sentindo meu ouvido apitar. O sussurro arranhava meus tímpanos repetidamente, como uma sinfonia assustadora. Um peso subiu no meu ombro, mas desapareceu quando finalmente saí do banheiro e fechei a porta, deslizando-a pela mesma. O olhar do meu pai parecia admirado.
– Por que tem tantos fantasmas atrás de você Sayo? – Coçou a cabeça em sinal de dúvida. – Coloquei o Edgar para vigiar você caso algo acontecesse, mas-
– Tarde demais, pai do ano. – Levantei e bati contra as minhas roupas. O nome do Edgar passou de relance, fazendo uma careta de nojo surgir em mim. Estou até impressionada dele não ter aparecido, acho que ele me mimou demais, estou desacostumando. – Ele acha que é meu conselheiro, mas não confio nele. Você pensou bem em colocar um fantasma para me vigiar. – Um barulho lá em baixo chamou minha atenção.
– Você achou a Sayo, Daikoku? – A voz era do Yuuki. Parecia preocupado e um pouco raivoso... Típico dele. – Aquela idiota, saindo sozinha. Ela não escutou o que a Hiyori disse?! – Acho que se esqueceu da mamãe, pois ele nunca se referia a ele pelo nome. Droga... Sinto vontade de chorar agora. Deve ser doloroso para ela... Para todos. – Yamato! Você não vai fazer nada?! A Sayo deve estar em perigo!
Andei vagarosamente até a brecha da escada, sem fazer muito barulho, ou o resultado não iria ser satisfatório. Coloquei as mãos na parede e esgueirei-me para conseguir ver melhor. Yuu estava sentado de uma forma desleixada, olhando para o irmão, que parecia estar bem calmo enquanto mirava o teto. Olhei novamente para o Yuu, ele não era assim tão parecido com o Yamato, mas tinha algumas características. Seus olhos violeta estavam mais claros que antes, mas continuavam opacos.
Toquei meus lábios levemente quando recordei do beijo. Sei que estou vermelha agora, afinal, o Yuuki era um garoto, mesmo que fosse o meu irmão. Sempre tento colocar na minha cabeça, mas nunca tive tanto afeto fraternal com o Yuu, no meu tempo em que eu ia à psicólogos para me recuperar do “trauma”, ele sempre estava ali, me protegendo e me ajudando a progredir. Tenho várias lembranças da nossa infância, mesmo que ele tenha esquecido tudo... Quase tudo.
– Você gosta dele, Sayo? – Yato estava atrás de mim, também abaixado para que eles não nos notassem. Quase gritei um “Hã?!”, mas somente olhei para o seu rosto, surpresa. Por que todo mundo tem que deduzir que gosto de alguém?! Não sou eu que tenho que ficar plena disso?!... Olhei para ele mortalmente, que se afastou um pouco com um sorriso idiota na cara. Tch, talvez eu ajude aqueles dois a chutar o traseiro dele.
Voltei a olhar os dois. Meu pai sussurrou algo que eu não pude ouvir, mas deve ter sido algo banal ou inútil de levar em conta. Yamato levantou e esticou o seu corpo. Yuu, pelo contrário apenas deitou-se, fechando os olhos suavemente. Yamato tinha um rosto mais brincalhão e infantil, mas não deixava de ser bonito. Já o Yuuki tinha uma aparência mais madura e fria... Aqueles dois são bem diferentes um do outro.
– Não preciso me preocupar Yuuki. Sei bem o que ELES estão fazendo. – Olhou diretamente para os meus olhos. Merda, ele nos descobriu! Recuei para ter certeza que ele não tinha visto. – Isso é inútil Sayo, consigo sentir seu cheiro... E o do idiota do seu lado também. Tch, quem diria que ele teria coragem de dar as caras a essa altura do campeonato. – Sua voz demonstrava nojo e fúria.
– Hehe, parece que ele nos achou. – Yato coçou a nuca, desistindo do esconderijo. Levantou lentamente, me puxando junto. Que idiota! Eu já teria fugido sem pensar duas vezes... Olha, tem uma aura negra cobrindo o Yama... Yato colocou a língua para fora e fez um sinal de paz com os dedos – Yo! Deus Yato aos seus serviços!
...Hã?
Ele não tem medo da morte?
Ou de ser pisoteado até seu rosto se transfigurar?
– Yaaaatoooo... Seu...! – Não foi Yamato que atacou ele, mas sim, Daikoku, que subiu as escadas tão rapidamente que foi impossível de acompanhar. O Shinki deu um chute tão forte nele, que o teto quase arrebentou com a cabeça do deus batendo contra a mesma. – Já falei para não chegar aqui gritando! Da próxima vez vou te chutar tão forte que você vai vomitar seu intestino! – Estendeu o punho, com fogo nos olhos. Yato ajoelhou-se, com sangue escorrendo pelo nariz.
– Oh... Yato-chan! – Kofuku apareceu desta vez, saltitando como de costume. Ela subiu também na velocidade da luz e o abraçou pelo pescoço, deixando-o sem respirar... Nossa, ele deve ter levado todos os tipos de surras possíveis. – Espero que você tenha se preparado, pois você está muito encrencado! – Falava aquilo tão alegremente que até eu fiquei com medo...
Essas pessoas são estranhas... Muito estranhas.
Fale com o autor