Margem Distante

6 Lágrimas cor de Sangue


Notas iniciais
Esse cap ficou mais deprê oks? E haverá umas insinuações de romance... Leiam os avisos finais! Boa leitura.

Margem Distante

“Nada fazia mais sentido, eu queria apenas gritar...”

6. Lágrimas cor de Sangue

A noite estava mais escura que o normal.

Yamato estava atrás de mim, senti seu olhar perfurar as minhas costas. O corpo estava jogado e a poça estava se dissipando com as gotas que começaram a cair.

A chuva já caia sobre mim, que estava olhando para o nada, onde antes a mulher estava em pé. Queria acreditar que tudo aquilo era um sonho, que eu logo iria acordar e ver o seu sorriso e sentir o seu peteleco na minha testa. De escutar suas broncas e provar a comida que só ele sabia fazer, do jeito que eu gostava.

Levantei a cabeça e encarei o céu escuro, quase negro. Tentava por as coisas no lugar, mas não pensava em nada, apenas tinha a sua imagem em minha cabeça, nossa infância juntos. As fotos dele brincando comigo quando crianças.

– Tinha... – Minha voz era um fio, nem seu onde arrumei forças para falar... Só... Só queria. – Tinha até uma em que... Ele me ajudava a levantar depois de cair de bicicleta... – Meus cabelos deslizavam em frente aos olhos, que pareciam desmanchar junto a chuva. Não faço ideia de com quem estava falando, talvez com Yamato, talvez com a minha mãe. – Desculpe...

Yuuki.

Meu coração estava vazio.

Meu peito apertado.

Eu não tinha forças para me mexer.

Escutei algo vindo do Yamato, mas não conseguia escutar. Acho que ele compreendia a dor que eu sentia. Escutei seus passos mais perto. Ficou à minha frente e...

Envolveu seus braços ao meu redor.

Senti seu calor e a sua respiração fazer meus cabelos molhados se mexerem um pouco. Ele comprimiu seu rosto contra a minha cabeça e me apertou com força... Pude sentir aquele cheiro novamente...

Eu não o conhecia muito, mas...

Aquilo de certa forma me acalmava um pouco.

Infelizmente... Ainda não era o bastante.

Eu estava destruída.

– Yamato... É um sonho... Não é?

Como eu sou burra.

Sabia que não era, mas queria tanto provar o contrário.

Para não sentir essa dor... Essa culpa...

Essas lágrimas.

– Diz. Diz que o Yuuki vai voltar. Diz que ele vai brigar comigo de novo. Diz que ele vai fazer panquecas pra mim, já que as da mamãe são queimadas...

Ele me envolveu ainda mais.

– Desculpe... Sayo... Ele nã-

Não! Não diga!

– Diga Yamato! Por favor! Faça essa dor parar! – Afastei meu corpo do dele rapidamente. Queria apenas... Morrer. Não quero mais olhar para nada nem ninguém. Minha cabeça estava tão imersa em memórias, que havia esquecido o seu corpo. Seu corpo tão...

Olhei diretamente para seu rosto sem vida.

E um trovão soou.

Meus joelhos cederam.

– Yuu... ki...

Não...

Não pode ser...

O Yuu está mesmo...

As coisas ao meu redor sumiram. Via apenas o seu sangue e o seu rosto morto. Meu coração batia rápido e minha respiração era entrecortada. Reuni minhas forças apenas para chamar o seu nome. Bem alto, para que ele pudesse acordar...

– YUUKI! VAMOS ACORDE, YUUKI! POR FAVOR! NÃO ME DEIXE SOZINHA AQUI! – Senti uma mão segurar meu ombro, para que eu não tocasse nele, mas não me importei. Queria acorda-lo. Sacudi o ombro com força e me joguei ao seu lado, segurando seu corpo para que ficasse em meu colo. Tanto... Sangue... Eu me sinto tão... Tão... – Não morra aqui seu idiota! Você disse que não iria me deixar, que iria estar sempre do meu lado! Você disse que iria... Que iria me proteger... Por isso!... Por isso... Volte... Por favor. Acorde e diga que estava brincando...

Abracei seu corpo gélido e mole. Senti seu sangue quente molhar meu rosto. Seu peito estava mais ensopado que o resto do corpo. Olhei minhas mãos assutada, era tanto sangue... Tudo isso vinha dele? Por que? Poderia ser qualquer um, poderia ter sido eu em seu lugar. Por que ele teve sair da aula hoje?

– Não doeu não foi?... – Meu rosto estava encostado no seu, acariciando-o levemente, enquanto minhas lágrimas caiam junto com a chuva. Ele estava tão frio. – Diz pra mim que não doeu. Você sempre diz que vai ser forte... Por que eu não estava aqui? Eu tinha que ser tão preguiçosa, poderia ter vindo mais cedo... Só um pouquinho mais cedo. Então eu iria... Iria... Céus...

Lembrei-me do dia em que ele me ajudou na escola. Todos os dias, ele se metia em montes de encrencas por minha causa... Até mesmo essa.

Senti um arrepio na nuca.

Minha causa...?

Lembrei-me do acidente, da minha mãe dizendo que iria ficar cuidando de mim... Ele indo embora do meu quarto, para cuidar do escritório da mamãe enquanto ela... Cuidava de mim.

Oh... Então... Era isso.

Virei o rosto para Yamato, que olhava ternamente para mim. Ele arregalou os olhos e olhou fundo em minha alma machucada. Um sorriso doloroso manchava os meus lábios.

– Foi... Minha culpa, não foi? Diz que foi culpa minha. Para eu acabar de vez com tudo... Acabar com essa aberração...

Acabar comigo mesma.

Um momento de silencio. Apenas ouvia as gotas de chuva e o burburinho das pessoas passando do outro lado. Ninguém sequer escutou nada? Ninguém notou duas pessoas usando armas?...

Sua mão foi de encontro ao meu ombro novamente. Senti-o apertar levemente, enquanto comprimia os olhos.

– Não Sayo... A culpa foi minha. – Olhei para o seu rosto, confusa. Sinto algo ruim crescendo dentro de mim... Aquele sentimento... Aquele sentimento ruim. – Seu onii-san estava passando por aqui mais cedo e... Eu não pude salvá-lo... A... – Suspirou e virou o rosto para o lado. Ele sentia tanta culpa que chegava a doer em mim. – A Nora foi mais rápida e... Perfurou o seu peito, ele não aguentou... Mas...

Não... Não me diga mais nada!

Eu me sentia horrorizada e ao mesmo tempo... Vazia.

– Antes de morrer... Ele disse...

Não consegui segurar meu grito de desespero. Finalmente havia caído a ficha pra mim. Como eu sou uma miserável. Digna de pena...

– “Sayo... Desculpe por não conseguir te proteger.”

Minha mente era um misto de raiva e tristeza. Sentia raiva de mim por ser burra, raiva daquela... Vadia. Sentia-me tão triste ao ponto de pular de cima dessa ponte para não sentir tamanha dor. Gritei incansavelmente, minha garganta ardia. Já não saia mais som, e eu continuava lá. Pondo minha dor pra fora.

Parecia que eu estava sentindo a dor que ele sentiu.

– Ya- Yamato... – Minha voz era um pouco sombria. Insana. – Se você é mesmo um deus... Salve o meu irmão! Por favor!

Ele se assustou com a minha resposta, mas abaixou a cabeça em seguida.

...

– Não.

Deitei o corpo do meu irmão novamente naquele chão gélido e molhado.

Não vou me arrepender do que vou fazer agora.

Levantei e cheguei bem perto do seu rosto, podendo encarar seus olhos azuis. Coloquei toda a minha raiva em meu punho e o soquei. Ele estava sendo tão egoísta. Tão... Maldito.

– Você ainda se considera um deus! Você...

Me dá nojo.

Não consegui dizer isso a ele. Não tinha forças ou razões para culpa-lo por algo que está dentro de mim.

Sua mão repousava em sou rosto machucado pelo meu soco. Me olhava meio surpreso.

– Desculpe... – As lágrimas estavam saindo de novo de mim. Agora estava chorando como uma criança. Cheguei perto dele e coloquei minha minúscula mão em seu rosto, massageando o local do soco. Ele me olhava mais surpreso. – Você deve ter as suas causas, mas... – Olhei em seus olhos, depois para Yuuki. – Por favor... Salve o Yuuki. Salve-o. Ele não devia ter morrido... Ele não queria... Ele... Queria um futuro... Ele-

– Não há mais volta. – Sua voz entrou rasgando meus tímpanos. Tirou delicadamente minha mão do seu rosto – Depois que um humano morre, ele se transforma em um espírito. Olhe, o espírito do seu irmão está ali.

Ele apontou para o corpo do Yuuki. Aquela bolinha felpuda continuava flutuando ao seu redor. Ela era roxa como os seus olhos. Assim que eu olhei para ela, foi se aproximando de mim, devagar, como se tentasse me reconhecer. Depois pousou em meu nariz e olhou em meus olhos.

– Yuuki... – As lágrimas saiam novamente, que fez a bolinha se assustar e sair do meu nariz – E então, você pode fazer algo por ele?

Yamato parecia um pouco inspirado. Ele colocou o dedo em baixo da bolinha e trouxe para si.

– Tem sim um jeito, mas... Há uma série de efeitos.

Eu só escutei a parte “Tem sim um jeito”, o resto foi apenas um sussurro.

– Vamos, me conte! – Perdi um terço da minha humanidade, pois não pensei em ninguém antes de falar. Eu era uma má pessoa, um monstro. Tenho que conviver com isso.

Ele levantou.

– Você não estava triste a 2 segundos? – Sua voz estava mais calma, parecia aliviado e um pouco apreensivo.

– Só de saber que existe um meio de ver meu irmão novamente... — Hesitei um pouco, mas depois me mantive firme — Eu sei que é egoísta da minha parte, mas... Ele é meu irmão, e eu o amo.

Arregalou um pouco os olhos, abaixou a cabeça e sussurrou algo que eu não escutei. Logo depois olhou pra mim sério.

– Então... Vou começar dizendo tudo diretamente. Só há uma maneira de trazer seu irmão de volta para esse mundo... Transformando-o em um Shinki.

Shin... Ki?

Mais um monte de dúvidas me invadiram.

– O que é um Shinki?

Ele colocou Yuuki (a bolinha) em seu ombro.

– Shinkis são as transformações de pessoas que morreram e viraram espíritos. Eles funcionam como armas para deuses, como eu, e ajudam a matar Ayakashis, para manter a ordem entre as margens.

Tenho tantas dúvidas, mas...

Tenho que focar em salvar o Yuuki.

– O processo é rápido e indolor. Mas... Há inúmeros efeitos desagradáveis para ele.

Ele pausou como se dissesse “Quer que eu continue?”. Apenas acenei com a cabeça.

– Um espírito que se torna Shinki esquecerá todas as memórias relacionadas à sua vida humana. – Fiquei tentada a desistir por um segundo, mas pensei na mamãe, ou no futuro dele... – Ele se esquecerá de tudo: Pessoas, lugares, gostos, tudo. Um Shinki não volta a ser um humano, mas toma sua antiga forma corporal, exatamente como era antes. Mas... há algo que eu acho que fará você desistir de vez dessa idei-

– Estou disposta a sacrificar qualquer coisa por ele.

Suspirou derrotado e caminhou até o corpo vazio do Yuuki, colocando no outro ombro.

– Shinkis não podem ser vistos por humanos. Por isso... Não poderão ter uma vida normal: amigos, família, ou qualquer laço com outro ser humano a não ser os seres da margem oposta, distante, crianças e animais.

Ele...

Não poderá mais me ver?

Ou ver...

A mamãe?

Então...

Porque eu estou fazendo isso?

Por mim?... Será que eu pensei no que o Yuu queria?

Eu... Não sei o que fazer.

– Yamato... Eu... Não sei o que fazer.

Olhei para as minhas mãos e depois para o seu rosto. Ele acenou a cabeça e virou de costas.

– Eu vou deixar você pensar, o Yuuki estará protegido comigo, não se preocupe. – Ele virou para mim e apontou para algo nas minhas costas. – Enquanto isso, só pra avisar... A sua alma escapou.

Olhei para onde ele apontou.

Uma cauda?!

A mesma... Cauda do meu sonho.

– Uma cauda?! Mas eu pensei que... Ela existisse só em sonho! – Eu ficava maluca com aquela coisa balançando freneticamente que esqueci que a vida do meu irmão estava em minhas mãos... É, eu acho que sou mesmo um ser humano... Ou não.

– A tia Kofuku havia me dito que havia mais um meio-ayakashi, mas não imaginei que seria você.

– Meio... Ayakashi?

Seu olhar estava sombrio.

– Você agora... É metade fantasma.

Escutei suas palavras com convicção.

Então... Eu havia finalmente me tornado uma aberração.

Notas finais
Gostaram?! Se sim, comentem, favoritem e recomendem! Se não, comentem, favoritem e recomendem XD! Pergunta do dia (Não liguem para a minha retardisse) - Vocês acham que o Yuuki deve se tornar um Shinki do Yamato? Essa pergunta é decisiva para o próximo capítulo!... E se escolherem não, com certeza vão me odiar profundamente no futuro. Nota: Eu irei escolher dois personagens do Amor Doce para entrar no nosso mundo, um será um Shinki e o outro, o rival do Yamato, que será descendente de um deus. Quem serão os sortudos? Até o próximo! BJS!!!!!!