Margem Distante
7 Decisão
Notas iniciais
Margem Distante
“Quando nos arrependemos de algo que não se pode voltar atrás...”
7. Decisão
– Entendo... Então... Agora eu sou um... – Hesitei um pouco. Estava tão confusa e queria saber logo a verdade. Yamato estava com um semblante sério e triste ao mesmo tempo, seu lábio comprimido, suas madeixas azuladas molhadas pela chuva, seus olhos misteriosos e um pouco sofridos. Queria perguntar tantas coisas, mas agora não é o momento, tenho que pensar em uma maneira de salvar o Yuuki.
Ele me olhou para que eu prosseguisse. Apenas olhei para o corpo do meu irmão em seu ombro, e a sua alma no outro ombro. Estava tão perplexa com tudo que estava acontecendo que não conseguia achar uma palavra sequer para descrever o que eu sentia. Nem mesmo sabia. Seria raiva? Tristeza? Angustia?... Ou simplesmente um vazio?
Passei minha mão direita no rosto, limpando as lágrimas e as gotas de chuva. Minha cabeça latejava, meu corpo estava frio e minha testa estava quente. Aquela cauda balançava e eu sentia as gotas atravessando-a, pois era uma espécie de corpo astral.
Eu odeio não saber das coisas.
– Yamato – Falei seu nome lentamente, examinando cada palavra em meus lábios, eles se tocavam no meio e estalavam no final... É um nome muito grande. – Vamos para a minha casa, eu não consigo me sentir a vontade aqui. Não é um bom lugar.
Seus órbes azuis piscaram e a sua cabeça falou por ele. Levantou mais para cima do ombro, o corpo do meu irmão, fazendo a bolinha se encolher.
Quando olho para essa coisinha... Sinto que lágrimas estão deslizando em meus olhos. Então choro silenciosamente.
Peguei a bolinha delicadamente e coloquei no bolso do meu casado, onde ela se encolheu ainda mais. Não sei se ela estava com frio, afinal, era uma alma. – Mordi o lábio inferior, enquanto despejava toda a minha tristeza para fora.
– Primeiro, temos que pegar o seu corpo. – Não quero entender, quero entender como minha vida chegou a esse ponto. Nunca pensei que perderia outra pessoa importante para mim, como ela se foi tão facilmente? Por que humanos tem de ser tão frágeis. Olhei para a bolinha, derrubando lágrimas sobre a mesma, que se encolheu.
Fomos até a cerca que eu tinha escalado, meu corpo estava preso no topo. Ele está apenas dormindo, quando sua alma voltar, você e ele acordam, Yamato disse.
Senti uma tontura quando cheguei perto do corpo, mas não consegui me manter em pé. Finalmente achei que iria morrer, escapar daquilo tudo, não queria mais acordar. Então fui coberta pela doce e vasta escuridão.
***
Um calafrio subiu a minha espinha. Sentia como se estivesse mergulhado em um oceano profundo, a água tocando a minha pele, meus cabelos... Tento abrir os olhos para ver o que estava acontecendo. Vi apenas uma luz, que me puxava para a minha triste e longa realidade.
E meus olhos se rompem.
Estava em um lugar desconhecido. Não lembro se já cheguei a visita-lo, mas não tenho nenhuma memória sobre ele.
Meu corpo estava coberto por um uniforme lilás, totalmente diferente do da minha escola, meus cabelos estavam um pouco maiores e tinham uma cor castanha parecido com o da minha mãe.
Duas pessoas habitavam aquele lugar, mas estavam de costas pra mim.
Um tinha cabelos loiros e curtos, seus olhos tinham um tom vermelho meio alaranjados. Também mais bonitos que os meus (qualquer coisa era mais bonita). Sua aparência era de um garoto de 14 anos, o seu casaco verde estava aberto e a calça jeans era meio surrada. Outro tinha cabelos negro azulados e um pouco longos, batendo acima dos ombros. Vestia o mesmo moletom e o mesmo lenço azul em volta do pescoço.
Ele era parecido com o Yamato.
– Você disse que iria parar de aceitar esses trabalhos tão idiotas! – Minha boca se mexia contra a minha vontade, parecia que eu somente via o que aquele corpo via. Era como se eu fosse... A sua alma... Yuuki. – Vamos, Yato, Yukine-kun, quero que me expliquem o porquê de terem aceitado tirar aquele gato de cima da árvore? Principalmente os gatos, que gostam muito de você, Yato!
O moreno se virou bruscamente e eu pude ver.
Olhos tão parecidos...
– Não foi culpa minha Hiyori! O gato gostava mais do Yukine do que de mim! – Rs. Ele falava de um jeito engraçado, com uma voz meio chorosa. Parecia mesmo o Yamato.
– Nani?! Não me culpe Yato! – O loiro pronunciou-se, gritando com o seu vizinho.
– Você não tem jeito, agora está todo machucado pelas unhas do gato. – A garota, ou eu, aproximou-se do moreno e colocou um curativo em um dos diversos arranhões que marcavam o rosto do garoto. O moreno corou. – Já vou indo O.K? Não se esqueçam de comer, o Daikoku-san fez algumas coisas para vocês... Ja nee!
Vou me distanciando da visão da garota, sinto que estou sendo puxada.
E meus olhos se abrem com um susto.
***
Estou de volta ao meu quarto. Desta vez, Yamato estava sentado ao meu lado e a bolinha-Yuuki pousava sobre o meu nariz. Yamato me olhava como se eu estivesse com a testa totalmente rabiscada ou coisa do tipo.
– Você fala enquanto dorme Sayo? – De repente começa a rir da minha cara. Maldito. Logo após eu dar uma tapa na sua cabeça, ele para. – Are, are, desculpe, é que foi engraçado ver você falando um monte de asneiras enquanto dormia. Tipo "Mas o que eu estou fazendo nesse lugareoifnoinsorn...?" – A última parte eu não entendi, pois ele falou de um jeito diferente.
Irritante.
Olhei em volta. Senti um aperto no peito quando vi o corpo do Yuuki jogado na minha poltrona e me toquei que essa realmente era a realidade.
O sonho me veio a mente, aquilo foi realmente estranho, mas tenho que focar em salvar o Yuuki primeiramente...
Voltei meu olhar para Yamato. Nossos olhares se encontraram, sinto meu rosto esquentar. Levantei normalmente, mas senti algo diferente desta vez.
– Hã, onde está a minha cauda? – Coloquei a mão sobre, sem querer ser rude, a minha bunda, procurando algo, mas não tinha nada. Até tinha me apegado a ela.
– Kusõ! Eu ainda tenho que te explicar tanta coisa! – Estapeou a própria testa e deitou sobre a minha cama... – Bem que a mamãe podia falar logo para ela...
– Hã, sua... Mãe? – Questionei, confusa.
Ele olhou para mim...
Silêncio...
– Que caminha macia! Faz tempo que não durmo em uma assim! – Começou a se contorcer de um lado para o outro, falando de um jeito estranho. E eu fiquei com uma cara nada legal, pois ele não respondeu a minha pergunta.
Ele parecia uma criancinha (ou, um idiota).
Fui até ele e empurrei seu corpo de cima da cama. Eu aqui preocupada com o meu irmão e ele na folga. Por acaso ele esqueceu que a minha mãe está em casa?!
– Cala a boca seu idiota! Minha mãe está ai, se ela vir você e o Yuuki assim, ela vai pirar. – Coloquei meu dedo indicador sobre a boca, pedindo silêncio. Ele acenou com a cabeça. – Bem, sobre transformar o Yuu em Shinki, eu-
A porta é arrebentada por um chute e alguém gritando Jungle Savate.
– Bem que eu estava reconhecendo esse cheiro de algum lugar... – Seu olhar era ameaçador.
– M- mamãe?!
Yamato olha para mim assustado e grita:
– Meu Deus!
Ela entra no quarto e passa por mim sem dizer nada... Hã? Ela não vai ficar com raiva?
Quando olho para onde ela está indo, vejo que está agarrando o pescoço de Yamato e balançando de um lado para o outro.
– Seu Baka! Falei para você não aparecer para a sua irmã ainda! Pedi ao seu pai para falar com você sobre ela antes dele ir embora da cidade! – Hã? Ela o conhecia? E como assim irmã?! – E porque está vestindo a roupa daquele traste?! Não disse para usar as roupas que seu tio Yukine deu a você – Yukine? Era o mesmo nome do loiro do meu sonho... – Droga Yamato, você é igual ao seu pai! E que história é essa de querer ser um deus delivery?! Quer virar ele agora?! – Não estou entendendo mais nada.
– Eh... Hiyori... Calma, você está falando demais-
– Não me manda calar a boca imbecil! E não me chame pelo nome, eu sou a sua mãe, exijo respeito!
...
Hã?!
Yamato ficava negando com a cabeça e com as mãos, como se pedisse para ela se calar. Logo depois ela se tocou e ficou em silencio. Seu olhar pousou sobre Yuuki e voltou para mim.
Mas...
O que...
– Está acontecendo?! – Gritei.
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