Margem Distante
10 Estrelas
Notas iniciais
Margem Distante
"As lembranças de nós dois estão guardadas em meu coração."
10. Estrelas
Tinha que fazer alguma coisa.
Eles estavam se batendo de uma forma anormal, tinham muita força.
Meus olhos assustados tentaram entender o porquê de tanta euforia do lado deles, mas não conseguiram. Tinha acontecido tanta coisa que mal cabiam em minha cabeça.
Yamato deu um soco no estomago do Yuu.
— Parem com is-
Fui interrompida por um grito forte.
Yamato estava de joelhos.
— Pare seu imbecil! Se continuar pensando nela assim, vamos acabar em uma purificação!
Por deus!
Pensando em quem?!
Uma pessoa é o motivo de tentarem se matar?!
Olhei para minha mãe e o loiro. Estavam com as bocas abertas, principalmente a minha mãe, até podia sentir a aura negra cobri-la, acho que eles estavam lembrando o beijo...
Mas...
N- não teve nenhum tipo de significado...
Seus lábios eram doces...
Idiota! Ele é o seu irmão!... Mesmo assim...
Naquele dia, no meu aniversário...
Foi diferente...
Foi a cinco anos, em meu aniversário de 12 anos.
Yuuki pediu a mamãe para nos levar até o festival. Era época de natal e as ruas estavam iluminadas com lanternas. As pessoas caminhavam normalmente.
Dois anos desde o incidente com a Aya. Ainda estava me recuperando, e uma das coisas a que me apeguei foi de ficar perto do Yuu. Não conseguia ficar a dois metros dele, que meu corpo começava a tremer, minha mãe dizia que era porque éramos irmãos.
Ele segurava a minha mão. Sua plaquinha balançava em seu pescoço, era grande para o seu tamanho.
Mas nunca a tirava, sempre dizia que era uma maneira de ficar ainda mais perto de mim.
Até hoje eu tenho a minha (que agora era uma pulseira),e ele tem a dele.
A noite estava linda. Comemos algodão-doce e pegamos peixinhos dourados.
No final de tudo...
— Sayo... Quero te mostrar uma coisa — Sua mão puxava o meu corpo para um morro alto, onde todos estavam sentados para ver a queima dos fogos. — Pedi a mamãe para fazer. Combina com a minha.
Uma plaquinha.
"Pertence à Iki Sayo."
Meus olhos brilhavam de alegria. Realmente era bom ter pessoas por perto. Pessoas especiais que se importam com você.
Quando tentei colocar-lo no pescoço, sua mão me impediu.
Fiquei confusa e com um pouco de medo na hora.
— Não. Espere um pouco. — Tirou a sua e colocou em meu pescoço. — Agora você será minha... Minha para todo o sempre... Minha irmãzinha. — Desta vez, colocou a minha no seu.— E eu serei seu. Nunca te esquecerei enquanto eu estiver com você e essa corrente... Feliz aniversário Sayo.
Seus olhos estavam brilhando.
Sorriamos alegremente.
Foi se aproximando de mim lentamente, seu rosto estava corado.
E encostou nossos lábios.
Ficamos um tempo assim, até que se distanciou.
— V- vi dois irmãos fazerem isso naqueles mangás que o Castiel deixava lá em casa... E- ele dizia que era uma forma de dizer... Q- que quer ficar com ela.
O primeiro estouro nos fez despertar.
Os fogos eram coloridos e davam cor ao manto negro que cobria todo o nosso campo de visão.
Adormeci depois de um tempo.
Yuu foi obrigado a me levar nas costas.
Ele sussurrou muitas coisas naquele dia, mas eu não havia escutado. Às vezes perguntava a ele, mas o mesmo dava um peteleco na minha testa e pedia para esquecer.
Mas sei que foi um dos dias mais felizes da minha vida.
Nossa mãe reclamou um pouco porque havíamos nos perdido dela.
Estava bem aflita e pálida quando a encontramos, mas como ainda éramos novos, não entendemos o motivo.
Essa é uma das memórias que irei guardar comigo...
E espero que ele consiga lembrar algum dia.
○ ○ ○
Yukine tentou separá-los, mas levou um soco do Yuu.
— Eu a vi primeiro, seu merda! — Yuu correu até Yamato e o segurou, correndo e atravessando a janela, despencando de uma altura de mais ou menos uns 12 metros, já que meu quarto era no último andar da casa.
E acredite...
Era alta.
— Yukine-kun! Precisamos separar aqueles dois. O Yuu vai acabar picando o Yamato muitas vezes! Sayo, você tem que pular atrás daqueles dois antes que eles acabem fazendo algo pior!
Como?!
— Vou morrer se pular desta altura!
Suas mãos alcançaram meus ombros.
— Use sua metade fantasma, ela vai te proteger na queda... — Hã? — Depois eu explico! Feche os olhos...
— Mãe, o que eu-
— Feche os olhos!
Obedeça-a, senão vai acabar como o Yamato.
Fechei os olhos.
— Agora pense em algo que lhe acalma, algo que lhe faça relaxar.
Várias imagens passaram em minha cabeça.
Yamato no dia em que ele invadiu o meu quarto.
Yuuki sorrindo no dia do festival.
Minha mãe limpando as minhas lágrimas.
Sinto tudo escurecer em minha mente.
Quando abro os olhos, sinto-me mais leve e forte.
Senti um baque de algo caindo no chão, logo deduzi que era o meu corpo. A cauda vermelha estava de volta.
— Agora vá. Pode tentar de tudo para separá-los. E filha... — Seus ombros ficaram tensos — Você não pode deixar aqueles dois sozinhos. São seus irmãos. Sei que o Yamato é alguém novo para você, mas o aceite. Ele sempre quis conhecê-la. Admito que as vezes eu o deixava observar você de longe.
Mas porque esconder ele de mim?
Porque o manteve longe todo esse tempo?
Somente concordei.
Fui até a janela e olhei lá de cima. O vento balançava meus cabelos. Conseguiram fazer um buraco na parede, acho que não devo subestimar essa nova realidade. Minha cauda balançava ansiosa, estava com um pouco de medo de pular, mas quando vi todo aquele céu azul escuro cheio de estrelas, o medo foi embora.
Deixei meu corpo cair. Podia sentir o vento cortar meu rosto, o vento em meus olhos. O chão vinha chegando rapidamente. Eles estavam bem em frente de onde eu possivelmente iria cair, nunca fui boa em física para determinar isso.
Por incrível que pareça, quando cheguei ao solo, somente senti um leve impacto nos pés, como se tivesse pulado de um simples degrau. Senti a maciez da cauda em meu nariz, tirei-a. Arrumei minhas roupas e pousei meu olhar sobre os dois. Não estavam mais brigando, contudo, arfavam tão pesadamente que quase formava uma nuvem de fumaça branca em volta das suas cabeças.
— Não é possível que só tenha lembranças dela! Isso vai contra a realidade das margens, você poderá causar muitos problemas se continuar pensando coisas assim! — Yamato agarrava sua nuca compulsivamente, podia ser dor?
— Não me culpe se morri e acordei naquele lugar!... Não poderia imaginar que me lembraria dela! Porque estou te dando satisfações?!
— Porque nenhum Shinki pode lembrar o seu passado, o pessoal de lá cuida bem para que tudo seja esquecido, tudo relacionado à amigos, famílias... Preferências.
— Já chega! Vocês dois! Calem a boca! — Minha garganta ardia pelo grito. Estava muito nervosa de vê-los brigando daquele jeito. — Se não pararem, nunca mais olho na cara de vocês!
Olharam para mim.
E suspiraram.
Minha mãe e Yukine seguraram cada um.
Estava triste de ver eles assim...
E parece...
Que eles brigavam por mim.
— Sayo, ele perdeu boa parte das memórias... — Yamato cuspia as palavras em mim, com os dentes trincados. Ele estava com dor, podia sentir isso... — Mas estranhamente lembra de você.
...
Hã?!
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