Margem Distante

1 Antes de tudo acontecer


Notas iniciais
Fanfic teste! Quem vai definir se a história continua vão ser vocês... Boa leitura minna ;p

Margem Distante

"Às vezes o que nos conforta é uma simples paisagem"

1. Antes de tudo acontecer

Era um dia comum quando tudo aconteceu. Estava simplesmente deitada em minha cama, fazendo o dever como toda garota normal.

Mas esse era o problema.

Estava cansada.

Cansada de ir à escola e ser ignorada por todos. De ser chamada de aberração. Lembrar o dia em que escutei as palavras que me horrorizavam todos os dias quando acordava de manhã. Sempre me perguntava:

Qual vai ser o motivo de acordar desta vez? Por que não me trancar dentro de um quarto e esperar que todos esqueçam minha existência?

Soltei a caneta em algum lugar e sentei na macia e confortável cama. Agarrei o travesseiro e afundei a cabeça no mesmo... Sempre quis ser eu mesma, poder sair com os amigos, ir ao famoso karaokê da cidade... Ter amigos, pessoas para proteger, pessoas para gostar. Mas, o que uma garota como eu poderia fazer? Não consigo nem proteger a mim mesma, quanto mais outra pessoa. Tão inútil.

Estava quase sozinha.

Minha mãe. Ela trabalha muito, então, não tem tempo para mim, Viaja bastante e se ausenta em certas ocasiões. Não a culpo, sei que seu tempo é pouco.

Meu irmão. É um pouco diferente de mim, ou seja... Popular. Foi eleito presidente da turma e o cara mais bonito da escola.

Resumindo, todos ao meu redor, são pessoas alegres e cheias de energia.

E eu?

Bem, continuo sendo a mesma.

...

Olhei o relógio no criado mudo ao lado da cama.

Hum... Está quase na hora.

Soltei o travesseiro em algum lugar. Levantei e fui até a janela do quarto, e abri-a com certa dificuldade, pois estava emperrada. Coloquei a cabeça pra fora e olhei os lados, para ver se alguém estava flagrando. Coloquei o corpo para fora e subi no telhado, rasgando um pouco da roupa de dormir.

Ah, droga! Era meu pijama favorito.

Aninhei-me no lugar onde sempre fico e apoiei minhas costas na chaminé, que dava na lareira da sala. Mamãe deve estar trabalhando uma hora dessas, tenho que preparar o jantar, pois o Yuuki chegará mais cedo hoje.

Observava as pessoas passando normalmente, crianças sendo levadas nas costas do pai. Sorrisos, gargalhadas, felicidade, alegria...

Não recordo a última vez que fiquei preenchida por sentimentos tão complexos.

Não faço a mínima ideia de onde esteja o meu pai. Mas, de acordo com a mamãe, ele desapareceu antes de mim e do Yuuki nascermos. Procurar seu paradeiro era inútil, pois foi declarado como morto alguns anos depois... Não sei o que aconteceu entre eles, mas sei que não o considero como um pai.

Sacudi a cabeça para espantar aqueles pensamentos...

Quando a razão para estar aqui em cima estampou-se bem no céu anuviado, todas as dúvidas e incertezas pareciam cessar...

Começou.

O sol estava pela metade, descendo o horizonte devagar e deslumbrante, as cores em amarelo, laranja, vermelhas e azuis; brilhantes e lindas... Tudo ainda era tão novo, mas aquela paisagem era confortante e familiar, tinha um calor próprio e estranho... Como se alguém me abraçasse, envolvesse em um mundo só meu, onde posso ser o que quiser, sem me preocupar em ser chamada de aberração ou coisa do tipo.

Os que estavam abaixo dos meus pés apenas caminhavam; alheios ao fenômeno maravilhoso que estava acontecendo. Os sorrisos desleixado s, ignorando tudo aquilo que estava em volta. Vivendo o presente como se o amanhã não importasse.

Mesmo sem entender...

Tenho pena das pessoas desse mundo.

Desperdiçam essa visão por ódio e ganância. Abandonam uns aos outros, choram sem motivo algum, e não imaginam a sorte que tem em continuarem vivos...

Eu...

Odeio cada um deles. — um eco ensurdecedor tomou conta de mim, repetindo-se em loopings intermináveis, preenchendo-me de sentimentos ruins que se esvaiam com minha sanidade aos poucos.

Um baque. Arregalei os olhos por um segundo.

– Matar... Matar eles... Mat-... — os ganidos pareciam estáticas estranguladas, não era um barulho humano.

Surpreendi-me ainda mais quando percebi que tais palavras deslizavam dos meus próprios lábios.

Sinto algo apertar-me a garganta, sufocando-me aos poucos. Um mar dos antigos sentimentos afogava-me, tiravam toda a minha humanidade. Cada parte do meu corpo parecia contorcer-se e tremer. Era doloroso.

O que está havendo comigo? — tentei sussurrar, mas a frase ficou presa na garganta, negando a dar o ar da graça. — Por que isso tão de repente?! — ainda esperançosa, mas as palavras ficavam somente em pensamentos.

Cada centímetro do meu corpo queimava. A pressão dava a impressão que meus ossos esfarelariam ao toque.

– Alguém... Ajude-me... Por favor... Alguém! — usei da força que encontrei para soltar grunhidos estrangulados, mas tão baixos que pensei que iria morrer ali mesmo, apreciando o último pôr do sol.

– Oh... Não é que eu encontrei um serviço no fim do dia! — a voz energética fez o alívio abraçar minha dor, ainda incessante.

A consciência voltou a mim brutalmente, tão rápido que não pude parar o passo que separava a mim e o telhado de uma queda de alguns metros.

Estou caindo.

Então é assim que nos sentimos quando estamos morrendo? Que estranho... Sinto-me plena e vazia ao mesmo tempo. Era verídica a história que sua vida passaria diante dos olhos. Incrível como pareceram horas. Fecho os olhos, despedindo-me mentalmente das únicas duas pessoas que me prendiam neste mundo.

Mas, antes que pudesse sentir o impacto, um enlace envolveu-me a cintura rapidamente. A gravidade pareceu poupar-me, e não pude desfrutar da sensação de queda, pois fui estranhamente pega no ar.

– Que irônico. — a mesma voz que me despertou, agora estava perto o suficiente. — Venho salvar uma garota em apuros, e ela simplesmente se joga do telhado? Você tem merda na cabeça, só pode.

Em poucos segundos, já estava de volta ao ponto de partida, ainda sem sentir o chão em nos pés. Meu campo de visão estava gelatinoso e embaçado pelo choque; ar me faltava, assim como o senso de direção. Tentei agarrar-me em algo, ainda cética por estar viva.

– Mas, mas, mas, mas... O que foi isso?! — o burburinho falho finalmente escapou da minha garganta. A nitidez aos poucos voltava, revelando o par de orbes azulados que me encaravam de maneira irreverente.

– Você devia agradecer. Te salvo do seu próprio suicídio, e ainda tenho que dar o trabalho de tirar um Ayakashi de você... — fiquei em silêncio, tentando encaixar as palavras em uma linha de raciocínio...

Quem?!

Quem é esse...

Garoto?!

Estava me segurando nos braços, deixando-me a uma distância palpável, mas muito constrangedora.

– Ei, me solta! Seu idiota! — sacudi o corpo com força, mas não deu tempo, ele literalmente soltou, fazendo meu corpo chocar-se contra o chão do telhado. – Isso dói, sabia?! Você deve ser um daqueles stalkers que esperam as garotas estarem sozinhas para atacar...

Franziu o cenho e engasgou com o próprio ar.

– Gya, gya, gyah! Você fala demais! — resmungou, enterrando os dedos nos fios negros — O Ayakashi ainda está aí dentro, então não se mexe muito, pois o que vou fazer agora vai doer bastante. — tombei a cabeça para o lado, em sinal de dúvida. Seus dois dedos, indicador e médio, fizeram símbolos no ar; deixando-me ainda mais confusa.

– Mas o que você vai faz-

Não deu tempo para terminar a frase, pois, foi tão rápido quanto um piscar de olhos. Uma fina e longa dor invadiu minhas costas. Como se estivesse rasgando-a, saindo por entre os tecidos e a pele. Curvei-me para trás, desfrutando da dor que adormecia toda a minha coluna.

– Puxa! Quem diria que seria um tão grande?! Continua assim, agora que comecei. — olhei para o rosto empolgado do desconhecido. Como quis derrubá-lo daqui de cima.

Outro indivíduo entrou na conversa entre amigos que estava tendo com o garoto estranho. Parecia com um lagarto gigante, só que a estrutura corpórea era transparente e rosada, com manchas em todo lugar.

Tentei recuar, mas a dor ainda me incapacitava. Somente pude mover-me alguns centímetros por vez.

– Que coisa é essa?! — apontei com dificuldade, duvidando se era efeito da dor, ou se realmente estava louca.

O dono de olhos azuis encarou-me perplexo, sem mover um músculo. E decide fazer isso logo agora?!

– Consegue vê-lo? — voltou a atenção para o monstro, que se encolhia aos poucos, como se estivesse preparando-se para o ataque.

Olhei para baixo, assustando-me com a altura... As pessoas ainda não se tocaram que havia um monstro gigante em cima do telhado da casa... Simplesmente passavam direto, sem nem uma espiada. Como se o monstro sequer existisse. Apenas um cachorrinho ali começou a latir em nossa direção.

– Olha. Como estou confusa e cheia de dores ao mesmo tempo, vou fingir que entendi por enquanto, ‘tá? — falei pausadamente, sentindo espasmos em todas as partes do corpo.

Virou novamente o olhar nebuloso e azul para o Ayakashi (nem sei como aprendi esse nome tão rápido) e sacou um punhal que ia até a altura do cotovelo. Como estou perdendo em quesito de saber, vou entender que ele vai conseguir derrotar aquilo com uma faquinha dessas.

— Ei! Como vai impedir essa coisa usando um simples punhal?! — consegui me apoiar na chaminé e levantar para conseguir ver melhor a luta. Os dois pareciam compenetrados um no ouro, estudando meticulosamente a hora de avançar. Senti-me avulsa no momento, mas certa ansiedade surgiu bem no fundo do meu ser.

O lagarto soltou um rugido esganiçado (também não sei como rugiu) e avançou. O garoto saltou bem alto para uma pessoa normal e pulou em sua cabeça, fazendo o bicho ficar atordoado, dando tempo de segurar o punhal com força e cortar uma das patas. A energia translúcida dissipou-se no ar, fazendo o corpo grande tombar para o lado.

— Você, que ousa profanar a terra do Sol Nascente! Agora o devasto com Heikke... E expulso tua grande corrupção! — saltou, mas o lagarto mordeu sua perna esquerda, interrompendo o ato. Ao sacudir seu corpo, conseguiu desprender-se e ser arremessado para o alto. O rosto parecia incomodado com algo, mas não conseguia desviar o olhar da coisa. Os olhos eram azuis e opacos, sem indício de pupila, apenas um traço escuro cortando-o.

Somente o observava impressionada com a leveza dos movimentos.

Novamente, usou dos dois dedos para desenhar novos símbolos no ar, que se fundiram a espada e fizeram-na brilhar. Ao mesmo tempo em que caia, usava da força de impacto para tomar velocidade.

— Despedaçar! — gritou, circulando o monstro agilmente. Não pude vê-lo mover-se, mas vários cortes foram deferidos no corpo rosado e manchado, que se desfez em luzes brancas e brilhantes.

Quase não respiro.

O estranho virou para mim e sorriu de canto. Minha cabeça pesava com o tempo, como se estivesse com muito sono. Aquela imagem não sumia da escuridão que se formava em meus olhos. De alguma forma, trazia um calor familiar.

Não fui digna de mais nenhum devaneio, pois a consciência me foi tirada.

Notas finais
Vamos ver né? Abraço de urso :3. Vocês acham que o garoto deve ter olhos azuis ou vermelhos? Eu ainda estou indecisa :/