Margem Distante
2 O dia em que tudo aconteceu
Notas iniciais
Margem Distante
"Um sorriso pode ser a chave para o coração."
2. O dia em que tudo aconteceu
Um mar vermelho. O que parecia ser meu corpo afundava lentamente nas águas carmesim e profundas. Tentei abrir os olhos, mas estes permaneciam pesando uma tonelada. Quando penso que estou chegando a um abismo, a mesma voz puxou-me de volta:
– Você não está só. Sempre estarei ao seu lado... Filha.
Os pensamentos são levados de mim com uma pancada.
Meus olhos abrem rapidamente e sento na cama onde acho que estava deitada.
Estranho... Tenho a sensação de que estou esquecendo algo.
— Não... Deve ser somente imaginação. — soprei a frase sem ao menos tentar formulá-la. O ar quente escapulia pela minha garganta, chocando-se com o suor frio que escorria pela testa.
Coloquei a mão sobre o peito, que subia e descia pela respiração descompassada, o rosto suava frio e as mãos tremiam. O coração palpitava estranhamente rápido, as palavras daquele dia rondavam minha cabeça como se fosse um sonho. Um sonho maluco e sem fim.
Vasculhei o rosto com as mãos, procurando por alguma coisa que nem eu sabia o que era, mas achei lágrimas. Finas e serenas lágrimas, que não paravam de sair dos olhos rubros que tanto me faziam sofrer. Era tão estranha a sensação que sentia naquele momento. Um misto de alívio e calma, como se alguém tivesse me limpado a alma com apenas algumas palavras.
Nada faz sentido nesse momento.
Olhei em volta e vi que estava em um lugar diferente do meu quarto, mas era familiar mesmo assim...
— Mas o que estou fazendo aqu-
Um barulho vindo de uma porta interrompeu meu monólogo. A figura masculina e alta saiu de uma porta, espalhando vapor e um cheiro de sabonete no ar. Madeixas negras e olhos violeta era um símbolo para o seu posto de garoto mais bonito da escola. Seu corpo era magro e com alguns músculos, nada muito exagerado.
Olhou pra mim indiferente e jogou a toalha que estava secando seu cabelo, no meu rosto.
— Fiz o jantar. Não com a sua ajuda. — tem esse jeito frio às vezes, mas não passa de um mala. Só comigo que é assim, deve ser coisa de irmão. Joguei a toalha no colchão coberto e saltitei em sua direção.
— Hunf! Então, por que não me levou para o meu quarto, Yuu? Que coisa feia, um garoto trazer sua irmãzinha para o quarto. — agarrei suas bochechas e as puxei, fazendo-o sorrir um pouco.
Sinto-me feliz ao lado dele. Um pouco distante, mas ainda feliz. Sempre me protegeu de tudo e todos. Desde a escola, quando era apelidada de aberração e de vários outros nomes que não quero lembrar; protegia-me, se envolvia em brigas e ia parar na diretoria. Sempre o salvava do mesmo jeito. Até hoje, quando estou na escola, manda mensagens para perguntar se está tudo bem...
Mas às vezes minto.
— Estava dormindo no sofá, então trouxe você pra cá. Para amanhã não reclamar de torcicolo ou algo que irá me irritar. — olhou para o lado, e depois se abaixou um pouco para ficar a minha altura.
Só para constar, não sou tão baixa. Ele que é gigante.
Como sempre faz quando o irrito, deu um leve peteleco na minha testa.
Odeio isso. Faz-me parecer uma idiota.
— Então porque não me levou pro meu quarto? — falei passando a mão na testa, que estará provavelmente vermelha. Irmão idiota, isso vai doer amanhã, com certeza.
Mas não fui respondida, quando corri os olhos buscando-o, vi que já estava na cozinha. É... Fui ignorada.
Não sei qual foi o motivo, mas comecei a rir que nem uma condenada. Acho que foi o fato de ter me ignorado; foi cômico. Só consigo ser eu mesma perto dele e da mamãe, mas, como ela não está aqui. Ele estava.
— O que vamos ter hoje? — perguntei, sentando na bancada de mármore, ficando maior que ele – Quero missoshiru ou donburi. — recuei um pouco quando senti a concha encostar-se ao meu nariz.
— Eu que estou cozinhando, por isso, cale a boca. — Irritante. Falava de um jeito tão calmo, era uma coisa que tínhamos em comum. Sempre dizem que o Yuuki tem uma voz madura. Já eu, quase nunca falo com as pessoas do colégio a não ser os professores. Ninguém ousou falar comigo ou coisas do tipo, todos me evitam por conta dos meus olhos, dizem que são maldições.
Suspirei um pouco angustiada, e senti minha garganta apertar.
Não, não vá chorar agora, não na frente do Yuuki.
— Yuu... — queria falar com alguém, faz dias que venho sufocando isso. E ele tem passado um tempo fora de casa, dormindo na casa do Castiel. Não entendo isso, o babaca é nosso vizinho. — Não acha ruim me ter como irmã? — coloquei uma mecha atrás da orelha, ainda incerta sobre o que dizia. — Sou tão estranha, diferente de voc-
O som da concha chocando-se contra a panela assustou-me. O borbulhar da panela preencheu o tenso silêncio que havia se instalado. Mas, poucos segundos depois, seu timbre calmo tomou conta, dessa vez, mais intenso:
— Por que pergunta? — olhou sério, praticamente me perfurando somente ao encarar. — Estão te fazendo algo na escola? — aproximou-se um pouco, colocando as mãos ao lado das minhas pernas.
Ele perdeu a calma.
— N- não... — desci do bloco, tremendo ao sentir o chão gelado em meus pés. Olhei de relance para o ver ainda encarando. Droga! — É que, eu quero saber se... – plano de fuga em ação. — Boa noite! — corri para o quarto sem pensar duas vezes, fechando a porta atrás de mim.
Catei mais memórias daquela semana. Os sussurros debochados tomavam conta. A professora tinha me colocado para fora pela segunda vez, alegando ter medo dos meus olhares. Muitas garotas perguntavam a si mesmas se o Yuu não tinha vergonha de me ter como irmã. Alguém tão estranha e diferente... Provavelmente só seria um fardo para a família.
Como sou uma idiota.
— Sayo! Vamos, abra a porta. Sei que estão fazendo algo a você no colégio. Eles te bateram ou falaram mal de você? — Bateu algumas vezes na porta, enchendo-me de perguntas enfadonhas. Já sabia todas as respostas, mas insistia em deixar um rastro de culpa em seus olhos. — Sabe que eu sou seu irmão e mesmo assim não me contou?
— Não quero atrapalhar você... — segurei um soluço que subiu por reflexo. Mal pude notar os fios mornos que teciam meu rosto aos poucos. Tão difícil suportar... Todas aquelas pessoas...
"Como alguém como o Yuuki aguenta você?" "Deve ter muita vergonha, por isso mudou de sala." "Deve odiar ser seu irmão."
Sentia que a calma iria acabar a qualquer hora, queria apenas alguém que não estivesse sempre rodeado de pessoas que me odeiam. Mas o Yuuki sempre está.
Sim, é um pedido egoísta.
Sentei na minha cama e agarrei o travesseiro, ainda cheia de memórias e sentimentos que detesto e evito ao máximo. Juntei minhas pernas na barriga e desabei entre meus lençóis, ignorando sua voz chamando-me do outro lado.
E assim, adormeci.
...
O sol batia forte nos edifícios de Tokyo, eram 7 da manhã e todos estavam acordados, indo à escola, e trabalhando...
Como se nada estivesse acontecendo.
Mal sabiam aqueles humanos, que por cima da própria cabeça, existiam mais do que pudessem imaginar.
...
O sol acalentava minhas pálpebras, forçando-as a abrirem. Senti o leve pulsar abaixo dos olhos, resultado das lágrimas que derramei noite passada. O quarto estava uma bagunça e ainda tinha de me arrumar para ir à escola. Yuuki já deve ter saído, já que tem seus afazeres como presidente do conselho.
— Vou me atrasar! — tentei não levar todos os lençóis comigo quando entrei no banheiro.
Tomei uma ducha rápida, mas o cabelo ainda ficou molhado.
– Ah! Não vai dar tempo. — verifiquei o relógio pela décima vez.
Coloquei o uniforme nas pressas e penteei o cabelo, espalhando água por todo o quarto e umedecendo os ombros da camisa social de inverno. Pus o casaco por cima e por fim, a saia longa que batia um dedo acima do joelho — odeio uniformes curtos —. Agarrei minha mochila e entulhei tudo que precisava. Calcei os sapatos. Não sei em quanto tempo fiz isso, mas devo ter batido algum recorde.
Sai correndo pela casa, peguei uma torrada, que provavelmente o Yuu deixou pronta. Enquanto segurava a torrada entredentes, tranquei a casa s comecei uma minicorrida sedentária, ou seja, dois minutos até morrer sem ar.
A respiração parecia que iria acabar. O coração palpitava. O rosto já estava suado. As pessoas andavam de um lado para o outro, formando uma barreira quase impenetrável. Tentei de tudo para me apressar, mas só piorava a situação. Quando finalmente encontrei um espaço, um forte impacto me fazer tombar para o lado.
Caí desajeitadamente, derrubando tudo que havia na bolsa. Ninguém oferecia ajuda, era normal em uma metrópole como Tokyo.
— Ah, droga! — sibilei, enquanto recolhia tudo rapidamente.
E nem dava conta do caminhão que vinha em minha direção.
Algumas pessoas gritaram em aviso, mas já era tarde.
Quando olhei para cima, vi o para-choque bem de perto.
Arregalei os olhos, sentindo um frio atravessar meu peito com uma lâmina gélida.
Com um sentimento de nostalgia, meu corpo foi misteriosamente puxado para a calçada. Sentia-me mole e paralisada pelo choque, como se visse tudo longe e tudo ao meu redor fossem de gelatina, balançando. As luzes eram como faróis, girando e girando. A sensação de quase morrer, era assim?
Enxergo um brilho me guiar para a realidade. Como um abraço, me salvando para que não morresse. Quando me dou conta, estou sendo segurada por um enlace que jurei ter experimentado antes. Mas algo estava estranho... Não me sentia completa, como se algo tivesse escapado de mim naquele instante.
Pessoas gritavam, horrorizadas com o que estavam vendo, e então, depois de rodear a cena com meus olhos, pude ver:
Como é possível, eu estar aqui...
E meu corpo estar na frente do caminhão?!
— Sinceramente, quantas vezes vou ter que te salvar? Você já está me devendo 10 yens! — aquela voz...
— Você... — Senti-me sonolenta de repente.
Uma onda de sentimentos mornos e aconchegantes levou-me para longe da realidade devastadora que me condenava. Os tendões não se mexem, nem os braços e as pernas. Tudo parece devagar e sem consistência.
O escuro se formou à minha volta... Novamente.
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