Margem Distante
22 Alguém aí?
Notas iniciais
Margem Distante
“Me responda. Tem alguém aqui?
Eu tenho sempre procurado, mas ninguém me responde.”
Some like it hot (Samurai heart) — Gintama
22. Alguém aí?
O clima entre todos estava mais irreverente e sem muita tensão. Pelo menos ali fora, pois dentro de mim acontecia uma combustão, como acontecia a cada dúvida que me surgia. Ninguém parecia lembrar o perigo em qual estávamos, estavam apenas agindo como ignorantes. Talvez estivessem com medo, ou somente preocupação, afinal, alguém poderia morrer. Tudo isso em prol da minha vingança, não temos um objetivo fixo, só estamos fugindo da Nora. Como cãezinhos assustados.
— Quando vamos agir? — soltei, sem qualquer interesse. Acabei recebendo olhares curiosos, principalmente vindos do meu pai. Meus olhos pairaram alheios no recinto, tentando achar um foco para continuar. — Todos aqui sabem o que quero. Vou continuar com ou sem a ajuda de vocês. — a rouquidão na minha voz denunciou minha hesitação. Engoli seco para ameniza-la. — Apenas não quero ninguém no meu caminho tentando me impedir. — cerrei os punhos. — Isso serve para todos aqui.
— Nem pensar. — Yato foi o primeiro a se pronunciar depois de um longo silêncio. — Yuuk...Yukio — deu uma pausa repentina, corrigindo o nome do filho. — sofreu tentações de sobra, se seu irmão não fosse especial, os dois estariam mortos. Não precisamos de mais gente morta aqui. — não notei sua presença atrás de mim, até o mesmo apoiar a mão no meu ombro. Quase bati em sua mão por reflexo. — Do jeito que você age, seria morta pela Nora antes de fazer um bom discurso.
— Não confia em mim para isso? — permaneci olhando para o nada, sentindo meu corpo amolecer, como se meu sangue estivesse sendo transportando para minha visão, deixando-a mais aguçada. Era uma sensação boa e ruim. Mas logo tive que piscar várias vezes, voltando minha atenção para o lado, onde Yato permanecia, olhando-me de um jeito calmo, como se fossemos pai e filha há anos. Ainda não consigo perdoá-lo, não por completo. Acho que nunca vou conseguir.
— Confio na sua força. Não nos seus instintos. — balançou a cabeça em sinal de negação. — Já passei por isso, muito antes de vocês, da sua mãe, de tudo aquilo que me fez pensar duas vezes antes de me entregar. Sei o que o Edgar disse a você, e não pude impedi-lo — pigarreou antes de prosseguir. — Esqueça tudo aquilo que ele te disse. Ainda vou arrancar aqueles fios tingidos um por um. Garanto.
— Me chame quando for fazer. — soltei um suspiro irreverente, relaxando os ombros de vez. — Não tenho certeza do que fazer, depois de tudo. Minha cabeça diz para matar a Nora de vez, mas meu coração diz para fazer isso lentamente, pedaço por pedaço. — Olhei minhas mãos, vendo manchas de sangue cobrindo-a. Pisquei algumas vezes, fazendo-as sumirem. — Mas tem uma parte de mim que fica dizendo que tudo isso vai somente me machucar, machucar ainda mais as pessoas ao meu redor... Mas... Abri mão de tanta coisa por isso. Até mesmo da minha sanidade, da minha humanidade.
— Existem pessoas que gostam de ficar sozinhas, fazem tudo por si só, mas ninguém suporta a solidão. Todo mundo é assi-
— Não sou todo mundo. Não me compare a um humano desprezível. — Arregalei os olhos quando percebi o que havia dito. Nada disse depois disso, apenas baixei minha cabeça quando sua mão apertou meu ombro com força. Respirei fundo e levantei minha cabeça, me arrependendo em seguida. Nunca pensei que um olhar de decepção fosse cravar um punhal tão fundo na minha alma.
— Não vou te impedir de achar a humanidade desprezível. Mas saiba que se achar superior não vai tirar o fato que você está agindo como escória, um monstro. Você está se igualando aquela Nora.
Um tambor soou bem perto dos meus ouvidos, como se fosse um tiro, que atingiu o meu peito. Aquelas palavras socaram o meu estômago que a vontade de vomitar me atingiu cedo demais. Mordi a língua dentro da boca, deixando o sangue limpar o gosto amargo que se formava nela. Os ossos tremiam, os vasos tremiam, as células tremiam. Tudo em mim convulsionava como antes. Era isso que ela sempre quis. Me igualar, me transformar em escória, lixo, nada...Tch.
— Não era isso o que ela queria? — girei a cabeça em torno do meu pescoço, relaxando-a. Estou pegando fogo, quero lutar. Joguei os ombros para trás. Era para ser assim, escória com escória. Desde o começo, eu tenho que fazer isso... Acabar com ela. Não foi coincidência tudo isso ter acontecido, esse era o propósito... Era isso o que Edgar queria....
Vou dar a ele o Grand Finale. Mas vai ser diferente do que ele esperava...
— Não é culpa de vocês. É culpa dele. Ele não estava do lado de ninguém, era só um espectador. Tem alguém por trás dele, observando tudo por aqueles olhos sinistros. — pus um pé atrás do outro. Depois olhei para trás, com um sorriso confiante. Apenas Yuu e Yama entenderam o que eu queria. Tinha que ser hoje, tinha que ser agora. Nesse amanhecer avermelhado... Como os meus olhos.
Os dois sorriram.
— Bem, deixem os mais jovens e dispostos cuidarem disso. Essa tarefa é muito rigorosa para os seus ossos sem cálcio. — Yamato puxou Yuuki pelo ombro, que não fez nenhum comentário por enquanto. — Essa é a última chance para você, velhote. Vai com a gente? — referiu-se ao pai, que permanecia sério e receoso. — Não vai conseguir nos impedir, somos três de você. Mesmo que a nee-chan seja muito mais bonita. — piscou para mim, mas não desviei o olhar, mesmo que meu rosto tenha esquentado. Isso o espantou.
Yuuki deu uma cotovelada na barriga do irmão, que o soltou, com uma cara dolorida. Depois veio até mim, olhando-me com seus órbes púrpuros, misteriosos e irritantes. Fiquei totalmente desarmada enquanto suas mãos seguravam meu rosto. Um suspiro escapou por entre meus lábios, enquanto meus olhos cerravam. Correntes elétricas eram transmitidas através do seu toque. Queria que tocasse meu rosto assim para sempre, queria me sentir calma assim para sempre. Toda a minha determinação e insanidade tinham voado para longe naquele efêmero momento.
— Não saia de perto de mim. Não estou pedindo, estou ordenando. — encostou a testa na minha, respirando pesadamente. Seu hálito chocava-se contra minha cara, refrescando-a. A cada momento ele tem me colocado contra a parede, fazendo todos os meus princípios desmoronarem bem diante dos meus joelhos. — De forma alguma, não pense, fale, sequer escute outra pessoa te dizendo que você vai morrer, ou se machucar. Se alguém tinha que tem que morrer, ou tiver morrido, esse alguém tinha que ter sido eu.
Não... Desta vez estarei lá para não deixar acontecer.
Envolvi os braços na sua cintura, tirando meu rosto das suas mãos e pressionando sobre o seu peito. Seu coração não pulsava, e isso fazia o meu querer parar também.
— Se você está pensando em morrer pela segunda vez, se é que isso é possível, fique. Não vá machucar a Sayo ainda mais. Posso roubá-la pra mim facilmente. — a mão de Yamato me puxou para si, deixando um Yuuki bem raivoso. — Chega disso, minha nuca já está ardendo com todo esse melaço. Seu turno com ela acabou. — ah... Bando de idiotas.
— Não tenho que aturar isso, se me derem licença. — desvencilhei-me do braço de Yama, que estava em minha cintura. — Vamos até onde a mamãe está. Agora! — os dois acenaram positivamente com a cabeça, meio assustados. Virei-me para meu pai, que encarava tudo bem sério. Acho que ele reprova essas ações estranhas dos meus irmãos. — Onde está a mamãe? Não tenho tempo para enrolações.
— Não podemos simplesmente chegar onde sua mãe está.
— Como assim? Seja mais claro.
— Ela está em um templo longe daqui. Só que a Deusa desse templo e eu temos certos assuntos pendentes...
— Qual parte do “seja mais claro”, o senhor não entendeu? — espremi minhas têmporas.
— Ela me odeia. Mesmo depois do que eu fiz contra aquele infeliz que estava matando-a com drogas, continua querendo ver minha cabeça em um pedestal. — fez um bico e cruzou os braços.
— E como você conseguiu enfiar nossa mãe lá dentro? — Yamato disse.
— Digamos que um Shinki dela é amigo meu.
— Nos poupe dos detalhes, depois você explica. Pule para a parte de onde fica esse lugar? — retruquei, sem paciência.
— Não muito longe. Vou com vocês.
— Certo. — nós três falamos em coro.
Não esperamos Kofuku nem Daikoku, apenas saímos de lá sem olhar para trás. Ainda pude escutar um “Voltem logo” da Kofuku, então pude ficar mais segura. Mas não era o bastante. Sinto que a Nora não está nessa sozinha, nunca esteve na verdade. Edgar deve estar metido, mas tem algo maior... Bem maior.
— Seria mais rápido se nos fossemos por uma rota alternativa. — Yato colocou a mão no queixo, como uma pose intelectual. — Adoro fazer isso com novatos... Um... — Hã? Não estou entendendo... — Dois...
— Você vai usar aquilo? — Yama sorriu cúmplice. — Mesmo querendo chutar sua bunda, acho legal quando você faz aquilo.
— Três!
Uma luz azul nos cobriu, e em um instante, estávamos em outro lugar. Só que caímos de uma altura considerável, eu em cima do Yamato, que caiu em cima do Yuuki, que caiu no Yato. Ainda bem que fiquei em cima... Mas parece que o nosso pai não parece muito confortável lá em baixo... Tem algo saindo da boca dele.
— Gente... Ele não tá respirando... — Yuu usava seu tom neutro, como se o fato do próprio estar sem respirar não importasse.
— Deixa assim... Quero ver quanto tempo ele aguenta — Yamato envolveu os braços na minha cintura e me apertou. Senti um arrepio perto do meu ouvido. — Parece que tive sorte. — um calor subiu no meu rosto e pescoço... Idiota!
— Quem são vocês?! — uma voz feminina soou imponente e assustadora. A dona era uma mulher pálida e dona de longos e brilhantes cabelos loiros. Seus olhos eram nebulados e sem pupila, como todos que conheço, mas eram de um tom púrpura mais escuro que o do Yuuki. Ao lado dela, um garoto, também pálido, tinha seus braços cruzados e olhando para todos os lados. Parecia nervoso. — Saiam de cima da minha mesa. Agora!
Mesa?
Olhei em volta. Era um lugar enorme, com pilares polidos e um chão bem lustrado. Candelabros de cristal no teto e uma enorme mesa de jantar posta para jantar. Pude enxergar dois rostos conhecidos na ponta distante da mesa...
— Mãe?! Yukine?!
— Yato?! — os dois olharam para o cadáver esmagado em baixo de nós três.
Estou confusa com essa situação.
Fale com o autor