Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
85 Verdadeiros Salvadores
Alleras, agora mais recomposto, seguia o grupo de sobreviventes em meio a ruína da neve que cobria o pátio de Harrenhal. As dunas alvas preenchiam o local, com um ou outro morrinho nevado e disforme ali e aqui, com uma névoa fantasma flutuando nelas. Várias lascas de madeira eram vistas soterradas. Os homens e mulheres corriam a esmo, tentando abater as criaturas mortas com suas tochas recém-acendidas por sílex. Alguns dos mortos queimavam mais rápido que outros – isso devia-se a serem cadáveres mais decompostos.
Alleras e Sam leram muito sobre necromancia na cidadela – em segredo, claro, visto que alguns tomos e códices eram anos mais avançados ou simplesmente proibidos. A magia negra era provavelmente ainda mais perniciosa do que a magia de sangue – uma magia que mexia com almas em paz. Forçava-as a voltar do além (qualquer que fosse), escravizando-as. Correntes fantasmas.
Poucos registros haviam sobre o malefício, apenas de que nunca resultou em boa coisa. O mais comentado, que mesmo com variância nos registros dos tomos sempre permanecia igual nos pontos fulcrais, eram o imperador com a pedra de sangue: o cruel imperador de Yi Ti que usurpou a irmã, a imperatriz de olhos ametistas, trazendo a Longa Noite para o mundo. O tirano praticava necromancia: ressuscitava os cadáveres (fossem eles de aliados ou inimigos), forçando-os a servi-lo.
Alleras não sabia o quanto a Lenda realmente era ligada A Longa Noite – talvez apenas tivesse ocorrido na época –, mas era claro como cristal os pontos que se repetiam na época do usurpador e nos tempos atuais.
O primeiro ponto era a própria pedra de sangue do qual alcunhou o título do imperador: uma pedra vermelha sanguínea no céu, riscando o fundo azul-claro. O mesmo cometa acometeu-se no céu novamente, bem no começo da Guerra dos Cinco Reis.
O segundo ponto era Euron: o messias do apocalipse. Ele e o imperador eram homens dados a lascívia e sortilégios crueis. Se os registros em papel enrugado, amarelado e empoeirado que Alleras leu estivessem certos no que tangia o imperador (e, por consequência, ao Lorde Corvo de Sangue), ele enlouqueceu por poder e desejo caótico, unindo-se aos que traziam o fim para o mundo. Os que traziam silêncio eterno.
Euron sentira esse poder quando visitado pelo Corvo. Sentira o poder de voar, mas foi-lhe negado. Era essa a brecha que Os Outros precisavam: um enviado do lado de fora para quebrar a barreira de gelo.
O último ponto ainda estava para ser descoberto: O Rei da Noite. O homem que traiu a humanidade por desejo e poder. O homem que traiu seu dever de proteger. Foi assim nas lendas, quando o chefe da patrulha uniu-se à Rainha da Noite.
Euron estava morto, não poderia cumprir essa parte da profecia. Não, Euron talvez não; mas Alleras fora alertado que teria de haver um novo Rei da Noite. Um que fosse tudo que a profecia não previu.
O salvador e o vilão são a mesma face; apenas a história os diferenciou. Ser herói não salvador a todos e ser louvado; ser herói é sacrificar tudo o que tem pelo bem maior, não importa o quanto isso custe.
As palavras ainda ecoavam na mente d’O Esfinge. As perguntas que vieram depois também: Mas quem seria o herói da história? E como um vilão é salvador? No começo pensou em Daenerys quem salvaria o Mundo Conhecido, mas, após tantas revelações sombrias, não tinha mais tanta certeza…
As respostas logo viriam, ele sabia, mas teria de lutar muito para vê-las.
A dor na nuca de Alleras, causada pelos puxões de cabelo dos Wights, ainda permanecia forte, mas não o abalava. Seus pés conseguiam se manter na neve, graças a um par de botas com sola de espinhos que os nortenhos usavam em situações invernais. Uma densa névoa atrapalhava os caminhantes terem uma boa visão do ambiente, fazendo-os correr a esmo. O esfinge pensou em usar magia para fazer nascer luz no local, mas temeu a reação dos tolos ao verem uma suposta feiticeira. Teve de suportar a treva, a névoa e a chuva de flocos copiosos que entravam em sua vista. Tentou proteger-se do ataque desses últimos botando o braço um pouco acima dos olhos.
Enquanto caminhava, arco em mãos, Alleras olhou para as muralhas, vendo o brilho vermelho-alaranjado, baço, que havia além dos muros. As ameias não continham arqueiros; ou haviam pouquíssimos. A maioria deve ter morrido quando o vento fustigara o castelo.
— Devemos ir pra cima — falou ele, forçando um sotaque, dirigindo-se para Bethany. — As muralhas precisam de arqueiros.
A moçoila chacoalhou a cabeça. O cabelo cacheado e grosso estava, agora, preso numa grossa trança.
— Temos de defender aqui primeiro — replicou. — a irmã mais nova de Lorde Brynden. Voz petulante tal qual o irmão. (Seria o sangue dos primeiros homens? Bem, a princesa Sansa e o irmão mais velho eram mais calmos; mas ainda eram duros feito aço.)
— Temos de ajudar as pessoas do lado de fora! — redarguiu, percebendo, tardiamente, que havia deixado o modo forjado de falar no esquecimento. — Se o inimigo avançar…
— Se o inimigo avançar temos de garantir que as pessoas aqui dentro possam defender-se — treplicou ela. — De que vale ficar entre os merlões lá em cima se tudo aqui for perdido? Apenas estaremos prontos para ser abatidos quando os mortos do pátio invadirem as ameias ao subirem os degraus.
Alleras fez um muxoxo. Bethany tinha um ponto, mas ainda a achava respondona. Talvez apenas estivesse com um ranço precipitado por conta de ter conhecido o irmão dela.
— Certo. Precisamos de fogo.
Bethany anuiu. Fez sinal, uma garota selvagem (terrivelmente nova! O povo livre deixava mesmo as garotinhas lutarem?) aproximou-se, com uma tocha. Quando o lume fez o corpo de Alleras e Bethany brilharem, esta falou:
— Se nós pudermos acender as flechas…
— Muralhas seriam melhor — ele voltou a falar, apontando com o arco, brilhante como ouro em brasas, para o topo do local ao qual falava. — Acertamos mais mortos.
De início, a irmã de Brynden apenas franziu os lábios, dando um olhar irritado para Alleras; até que seu rosto abrandou, sorrindo.
— Gosto de como pensa, estrangeira.
Alleras não gostou de ouvir o “estrangeira”, mas nada disse, apenas acenou com a cabeça, ambos foram correndo até as escadas que levavam até as ameias. Enquanto caminhavam, as pessoas que ainda tinha alguma força dentro de si para lutar, tentavam barrar o avanço das criaturas revividas: bloqueavam-nas com seus escudos, cortavam braços e pernas (uns tolos decepavam as inúteis cabeças), enquanto tentavam atear fogo em seus corpos putridos.
Alguns poucos começavam a seguir o trio de Alleras, que logo virou um grupelho, com uns bons arcos disponíveis (embora maioria carregasse outras armas, mostrando que nem sabiam para onde se dirigiam).
Alleras notou que o Magnar Thenn grunhia algo em seu jargão antigo, mas ele não conseguia entender – nem mesmo se falassem na mesma língua, pois o líder do Povo Livre estava longe demais de onde ele estava –, chamando todos de seu clã com ele parou outro local. O gigante Wun Weg Wun Dar Wun foi-se com a tribo.
Será que ele vai até o bosque?, indagou-se. Embora acreditasse que ele tivesse ido até a esposa, Alys Karstark. Ela estava no Salão das Cem Lareiras.
Ao lembrar daquilo, Alleras estacou-se. Alguém, um patrulheiro, esbarrou nele, xingou-o. Vendo aquilo, Bethany virou o rosto, diminuindo o passo até parar de vez, erguendo a mão, indicando que todos que a acompanhavam fizessem o mesmo. (A rapariga não tinha nem de longe tanto arrojo quanto fazia parecer, mas tentava mostrar-se corajosa para todos. Até o momento, estava dando certo, mas ela ainda sentia um nó por todo o corpo – em especial na garganta e no estômago.)
Quando todos paravam, com tochas cobrindo o local de luz, sem parecer ter qualquer ameaça dos mortos-vivos, Bethany indagou para a estrangeira:
— O que houve agora? — Estava ficando irritada com aquela apatrida.
— O Salão — falou a “mulher”. — O salão de Cem… — Limpou a garganta. — Salão onde Princesa e outros estão. — (Tentou não falar muito, pois se revelasse que sabia de alguns outros (Alys Karstark, Jeynes e Randa poderia atrair suspeitas sobre como as conhecia por nome).
Bethany foi rápida em entender.
— Sei de quem fala — respondeu. — Meu irmão, Alyn, está por lá.
O Esfinge apontou para a direção onde os Thenns marchavam. As luzes dos lumes diminuiam conforme a tribo afastava-se deles. Sabia que talvez a Blackwood estranhasse como uma estrangeira poderia saber para onde o Magnar de Thenn levava sua tribo – visto que em teoria talvez não soubesse quem era sua esposa –, mas teve de arriscar.
Bethany olhou para a direção por um tempo, vendo a fulgência esmaecer na escuridão.
— Não podemos perder tempo! — vociferou um velho de barba branca da casa Umber. O sotaque nortenho carregadíssimo em sua fala. — Temos de andar logo, ou vamos morrer de frio aqui!
— Isso se não morrermos de pelos mortos — uma selvagem falou, ecoando as palavras do nortenho. Apontou com o queixo para o resto do pátio escuro, onde olhos azuis flutuavam a esmo, aproximando-se.
Bethany engoliu seco. Sabia que tinha de agir, ou tirariam a sua liderança – ela não estava disposta a perdê-la de bom grado. Prometeu a si mesma ser corajosa, que faria jus ao seu corajoso pai e seus falecidos irmãos, como sua antepassada, Aly Negra, durante a Dança dos Dragões, ao invés de morrer de braços cruzados. Não era uma daquelas fracas mulheres Bracken, que apenas choravam, e cuja irmã mais velha se escorava na princesa Sansa para conseguir um jeito de apagar a vergonha da família.
Bethany pensou em ir até seu irmão, visto que ele poderia estar em necessidade de ajuda; mas lembrava-se de como Brynden insistia que tais sentimentos eram acometidos de fraqueza e covardia. Ele falava que eram “sentimentos de mulher”, por isso eram negativos.
Seu irmão nunca a apoiou quando ela tentou usar o arco e flecha, decidida em ir a luta. Dessarte, ele lhe ensinou algo: ser mulher era ser fraca, leviana. Para ser boa em algo, Bethany devia deixar o feminino de lado. Tinha que ser um homem. Deixar os gosto pela dança e costura de lado, ou morrer.
Seu irmão nunca deixaria seu coração amolecer. Ele era um homem de verdade, que lutaria ao invés de fugir.
Bethany tomou sua decisão:
— O salão está bem protegido — declarou. — As pessoas dentro dela estão nas mão dos deuses.
A mulher de pele ocre arregalou os olhos, deixou o queixo cair, incrédula.
— Vamos deixá-los a própria sorte?
— Vá salvá-los se quiser, estrangeira — retrucou a filha do falecido Lorde Tytos, irritada com a audácia daquela mulher ádvena. Brynden lhe avisara que a ralé que seguia Daenerys eram esquisitos, belicosos e inconfiáveis. Até onde sabia, essa Sarella podia estar atraindo para alguma armadilha. — Mas não pense que a sua rainha argentina vai aparecer para salvá-la. Nas minhas terras, apenas os fortes sobrevivem. — Girou os calcanhares, afastando-se dela. Sem pensar duas vezes, maioria seguiu com ela.
O Umber, surpreendentemente, foi quem ficou, aproximou-se de Alleras:
— Dou minha vida pelos Starks. E muitos nortenhos e inocentes estão no salão… — Deu um olhar incerto para o grupo que se afastava antes de relancear novamente para Alleras. — Se acha que precisam…
— Não. — O Esfinge sabia que poderia estar sendo levado pelo coração, facilmente compadecido pelos indefesos. Obara, ele sabia, não deixaria se abalar. Nem seu pai. — Temos de lutar por aqui. Os Thenns hão de salvar as pessoas no salão… se é que precisam mesmo de salvamento.
O homenzarrão de barba grisalha anuiu. Ambos foram até as muralhas, subindo os degraus. Uma parte do grupo ficou no térreo, para poder proteger a entrada de qualquer ameaça.
Do alto, Alleras olhou para o Norte, mas nada enxergou. A bruma cobria o mundo. Apenas os gritos eram ouvidos. Apertou os olhos, mas não conseguia ver nada além de um ponto ou outro. Não conseguia enxergar os Reis. Olhou para o alto, mas nada viu de Daenerys. Xingou, amaldiçoando o breu. A única luminescência era uma baça barreira de fogo que surgira onde estava o fosso escavado.
De toda a forma, Alleras virou-se para Sul, para dentro das muralhas de Harrenhal. Ajeitou o alforje, perto de um barril que uma filha da floresta conseguiu preencher de seiva. A barrica estava meio vazia, derrubada quando a nevasca veio e varreu o local. A maioria dos objetos com esse conteúdo foram perdidos, mas alguns ainda haviam permanecido.
Alleras e um homem do povo livre despejaram o conteúdo num caldeirão, enquanto um filho da floresta de olhos vermelhos e pele alva acendia o fogo para aquecê-lo.
Bethany estava rente à beirada da muralha, virada para o norte, ao lado de merlão, mãos enluvadas espalmadas na pedra negra malformada. Seus olhos escuros fitavam o chão distante, aflitos.
Vendo que a seiva ainda ia demorar para aquecer, Alleras suspirou, foi até a Blackwood.
— Está à procura de irmão? — Como era irritante forçar a voz e o sotaque! Sentia-se um completo idiota! Uma caricatura ofensiva!
Bethany olhou de soslaio. Alleras sabia que os olhos dela fitavam uma figura feminina esbelta, então talvez isso aumentasse a estranheza – Westerosi não eram acostumados nem com mulheres guerreiras nem com estrangeiros. “Sarella” era os dois.
Já estava acostumado com esse tipo de olhar – olhar desconfiado. Um olhar de asco. O mesmo olhar dirigido a ele por Leo Tyrell, por outros companheiros na Cidadela, por nortenhos, por pessoas do Tridente. Assim era visto o estrangeiro – o desconhecido, o apátrida. Inconfiável. Assim que sua figura era vista, as pessoas se enchiam de indagações.
“Quem é você?”
“De onde veio?”
“O que você quer de mim? Que veio pegar?”
O estrangeiro é um forasteiro fugindo de sua pátria infame. Alguém que tinha algo a esconder. Um pecado que cometera. Uma ameaça.
O estrangeiro era um invasor que veio para desestruturar a ordem. Culpado antes mesmo de ter feito algo.
Apesar de tudo, Alleras ainda mostrou-se compadecido pela Blackwood – podia até não gostar dela e de Brynden, mas sabia como era sentir saudades da família. A sua, porém, estava perdida para ele.
Bethany fechou a cara ao ver a estranha mulher aproximar-se.
— Como sabe do meu irmão? — inquiriu.
Alleras tinha uma resposta pronta.
— Vi treinarem. Arco e flecha.
— Hum. Que seja. — Ela afastou-se da murada. — Não há tempo a perder.
Alleras assentiu. Os dois voltaram-se para os alforjes ao lado do caldeirão fervente. O melado estava quente, no ponto certo. As outras pessoas tinham tirado uma parte da neve do corredor enrugado, deixando uma parte do caminho livre para se manterem apostos para mirar e atirar. Todavia, o caminho ainda estava margeado de neve, que voltava a avolumar-se conforme os flocos caíam.
Alleras e os outros banharam as pontas das setas, depois passaram-nas nas chamas tocheiro negro. Voltaram-se para dentro do castelo. A neblina lá era menos densa do que do lado de fora, mas estava ficando mais densa. O breu piorava as condições, impossibilitando uma boa vista do alto. Todavia isso foi melhorando conforme as pessoas e seres da floresta abaixo conseguiam ascender um bom número de tochas, lenha, tições, palha e corpos mortos.
Alguns atiravam flechas com arcos e bestas do lado norte, tentando afugentar os inimigos. Esse lado do castelo era mais prático, pois haviam seteiras para os soldados atirarem.
Conforme os focos de luz a esmo aumentavam, podiam ter uma ideia melhor da geografia local. Por sorte, mesmo sem luz, ajudava terem os olhos brilhantes dos Wights. Mesmo a metros de distância, os glóbulos azuis eram visíveis, como estrelas na noite. Era possível saber que tinha acertado um alvo quando ele logo assumia uma forma brilhante graças ao fogo que se alastrava.
Uma sacerdotisa vermelha havia unido-se a eles. Pelas vestes sanguíneas e rasgada, parecia ser uma meretriz do Deus Vermelho. Sua pele era assustadoramente pálida, quase uma estátua argentina cuja silhueta é delineada pelo ouro dos archotes. Seu cabelo era de sombras, caindo reto até o meio das costas. A sacerdotisa nada falou desde que subiu, apenas falava palavras em uma língua que nem mesmo O Esfinge sabia qual era, atirando chamas pelas palmas, que caíam nos corpos revividos, incendiando-os.
Alleras, por sorte, tinha luvas úteis para resistir a fricção ardente de seus dedos ao puxarem a corda do arco. Era mais complicado do que acertar as mãos jogadas no ar pelos colegas na cidadela, mas mais emocionante também – embora sem o senso de nostalgia e amizade que tinha ao tomar uns bons vinhos e cerveja preta no Pena e Caneca. Era uma época boa, onde o manco Mollander atirava maçãs no alto para Alleras acertar com suas flechas; Rosey dormia em seus braços, cabeça pousada em seu seio, corpos besuntados de suor numa cama de palha fresca; e Samwell, quando não estava lendo livros proibidos com Allera, deixava-o visitar Gilly e seu pequeno filhinho.
Havia uma bruma da manhã nas ruas e vielas da Vilavelha, com o intenso farol brilhando dia e noite.
A névoa de Harrenhal, porém, era mais densa, fria e obscura. Enervante. Cada vez mais tomava conta do castelo, avultando-se como um fantasma. Os gritos dos vivos ainda ecoavam no ar, em oposição ao silêncio sepulcral dos inimigos, criando um som desconcertante. Era como um fantasma chorando em agonia eterna.
Conforme o tempo passava, o som horripilante dos gritos diminuía. O quanto isso era um bom ou mau sinal, era questionável.
Alleras, ao ouvir um bater de asas, aumentando cada vez mais, ergueu o olhar, para frente, fitando as imensas e inclinadas torres de Harrenhal. Notou o que parecia ser uma imensa sombra modulada no céu. Demorou para que sua confusa mente entendesse que se tratava de um imenso bando de corvos, rodeando uma das construções de Harren, O Negro.
Ao perceber um lume fosco, manteve o olhar, esperando o olhar se acostumar com a escuridão. Piscou, sentindo que a neve tentava cegá-lo. Quando conseguiu enxergar, percebeu que as aves de penas escuras rodeavam a torre onde ficava o Salão das Cem Lareiras, que soltava fumaça acre pelas janelas. Do cinza quase preto, era visível ver o brilho baço do fogo.
— Sansa… — Alleras falou, pensando que além da bela princesa, diversas mulheres e crianças estavam no local.
Seu bom amigo Sam – com o qual infelizmente não podia conversar devido aos empecilhos que as fintas nas quais Alleras se metera causaram – não estava por lá, junto de Gilly e pequeno Aemon.
Todavia, pessoas inocentes estavam naquele local – pessoas da plebe, que não tinham para onde correr.
— O que deu em você? — ele ouviu Bethany vociferar em seu ouvido. Ela parecia nem notar o fenômeno dos corvos dando voltas. — Por que parou? Ainda temos flechas!
Ele voltou-se para ela. Os flocos batiam no rosto dela, como uma chuva selvagem, graças ao vento. A face estava avermelhada por conta do frio.
— As pessoas no salão. — Virou-se, ergueu um braço, apontou em direção ao local do qual falava. — Veja! Fogo!
A jovem olhou na direção. Ele percebeu como ela ficou abalada ao ver a cena, quase deixando o arco cair.
— Alyn… — ela falou, causando uma pequena névoa ao recitar o nome do irmão.
— Precisamos ajudar — falou Alleras, aproveitando que Bethany se mostrou abalada com a imagem.
Esta, porém, mostrou-se inabalável. Voltou-se para Alleras, respondeu-lhe:
— Devemos continuar. Se os mortos tomarem o campo…
— Eles vão tomar tudo se deixarmos mais mortos morrerem! — retrucou ele. — Não temos como defender um terreno no qual só tem cadáveres! E quando todos esses mortos avançarem contra nós? Que faremos? Não somos nem metade do número de pessoas naquele salão!
O grupo de pessoas parou de atirar com os arcos e as bestas, observando a discussão entre os dois.
Ao ouvir os argumentos da estrangeira, a dúvida e medo perpassou pelo semblante de Bethany. Infelizmente ela optou por bater o pé.
— Ajude quem quiser ajudar! — vociferou ela. Seu sangue quente ardia ainda mais conforme os flocos salpicavam seu rosto. — Eu e os valentes ficaremos!
No meio da discussão acalorada, antes que mais alguém falasse algo, um corvo voejou até o ombro de Alleras.
“Ajuda!”, grasnou a ave, batendo as asas. “Ajudar!”, “Ajudar!”.
Todos olharam para a cena, depois trocaram olhares entre si. Por fim, um dos homens, homenzarrão Umber que falara com Alleras antes, disse:
— A decisão está tomada. — Se virou até as escadas.
Sem pestanejar, Alleras o seguiu, junto de todos os filhos da floresta e a sacerdotisa vermelha. Alguns homens e mulheres largaram seus postos, seguindo-os.
Os que ficaram, fitaram Bethany, que se encontrava impotente na neve. Seu corpo inteiro parecia tremer pelo frio, enquanto o preto de seu cabelo era rendado por floquinhos fustigantes de açúcar. Engoliu seco, falou:
— Quem quiser ir que vá! Sejam os covardes da pátria!
Voltou a firmar o arco. Pegou uma flecha, pronta para atirar, enquanto olhava a maldita apátrida invasora levando o exército (o seu maldito exército!) para a condenação.
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