Alleras chutava a neve, avançando contra a escuridão e o vento fustigante que o empurrava com voracidade, os flocos grudando em seu corpo, fazendo seu manto esvoaçar ruidosamente. Atrás d’O Esfinge, um grupo de pessoas – homens, mulheres, maioria do Norte e além. O vento castigava seus corpos, aspergindo neve nos olhos. Os flocos dançavam na escuridão. A única luz forte era proveniente das tochas erguidas contra a treva que tomara o mundo.
O vento pareceu ficar mais voraz com o tempo, quase derrubando a todos. Era como uma parede de tijolos caindo sobre eles. A ventania era tão potente que fazia um som esquisito nos ouvidos. Até a corrente de ar, quando se chocava com as muralhas e torres, criava um barulho ruidoso.
Esse vento, intuiu Alleras, talvez fosse um sinal de que Os Outros estavam mais próximos.
Ele ainda tinha o arco e as flechas, mas não tinha como incendiá-las no momento – tardiamente, percebeu que devia ter banhado todas na seiva quente. Que tolo fora! As flechas eram inúteis contra os Wights!
Alleras parou, alguém esbarrou nele. O gesto se repetiu com as outras pessoas. Estrelas azuis aproximavam-se do grupo. Praguejou com a cena. Ao ver aquilo, todos do grupo tentaram se preparar. O fedor de podre enchia os olhos.
As formas escuras, pálidas, esqueléticas, gordas e magras tomavam forma, cada vez mais próximas. Sabendo que não tinha o que fazer, Alleras, ao ver o que parecia um urso aproximando-se, pegou o uma flecha, encaixou-a no arco, puxando…
Antes que pudesse dar um lance, porém, ouviu uma palavra: uma luz disparou, cortando o ar, aquecendo um pouco o caminho por onde passava. O urso começou a brilhar. Estava pegando fogo. A luz revelou as figuras revividas que se aproximavam.
Todos se viraram para a direção donde a chama surgira – deixando uma linha de fumaça cinza que já desfazia-se. Encontraram a feiticeira de R’hllor, ereta, com um dos braços soltando fumaça. Inabalável, sem nada falar, andou pela neve, sem importar-se com o vento que bagunçava seu cabelo. Fios negros dançavam contra a pele marfim. Os olhos escuros de Alleras encontraram os olhos da sacerdotisa; eram olhos redondos, rasos, d’um tom de azul-profundo, gelado, desconcertante de olhar.
Linda, pensou ele, enquanto ela passava por, olhando-o de revesgueio. Um olhar vazio, frio e estranho.
A sacerdotisa, à frente de todos, continuava a andar. Afastou um pouco os braços. Estes começaram a brilhar. Chamas começaram a brotar deles, pálidas. Com gestos fluidos, agitados, parecidos com um tipo de dança, bolas de fogos voavam até os mortos, queimando-os.
Alleras, vendo aquilo, falou, sobre o ombro:
— Vamos! — Ele e os seus foram rápidos em seguir em frente.
Queria ter esse poder, pensou ele. Queria também ter o bastão de Marwyn. Fora um erro não arriscar a trazê-lo consigo: aço valiriano era a melhor arma que poderiam ter quando Os Outros invadissem.
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O salão de festas havia se tornado um abatedouro.
As pessoas cada vez mais eram empurradas umas contra as outras, tentando fugir dos invasores. A cada pessoa que morria, um novo inimigo nascia. Alguns morriam pelas mãos dos mortos, outros morriam ao cair, sendo esmagados por dezenas de pés furiosos.
Sansa lutava para manter as pálpebras cerradas. Não queria olhar para o mal azul e negro que se aproximava dela e de suas companheiras. Apesar do completo pavor, mesmo tremendo de medo, quase perdendo as forças nas pernas, seus olhos ainda lutavam para abrir, como que curiosos para encarar a face da morte. Sansa lembrava-se de ter encarado a morte antes: quando sua tia, a falecida Lady Lysa, tentou empurrá-la pelo portão da lua. Assim como naquele momento de terror, o vento forte mordia seu corpo.
Apenas abriu os olhos ao ouvir o bater de asas enchendo o ambiente. O grasnar em seguida. Abriu os olhos. Sor Aly derrubava um cadáver revivido, empurrando-o com um golpe de seu ombro, jogando parte do corpo contra o invasor. Mesmo ferida, seu ataque surtiu efeito; a criatura, nua, sem a ossatura do queixo, não levantaria – os corvos tratavam de arranhar e bicar seu corpo, destruindo o que sobrava, dando chance para a cavaleira decepar uma das pernas, para depois voltar a se preparar para os outros invasores.
Sansa percebeu que uma miríade de corvos – brancos e pretos – invadiam o Salão, usando dos portões abertos e janelas quebradas. Os gritos estridentes das aves encheram o ar, assim como o bater de suas asas negras e claras. As aves carcomiam a pele dos mortos. Estes abanavam os braços, tentando impedir; mas seus gestos eram lânguidos demais, incapazes de lidar com o grande número de seres voadores que arruinavam seus corpos frágeis.
— Bran? — ela indagou, sabendo que devia ser seu irmão. Todavia, nem ele seria capaz de matar tantos mortos.
Margaery lutava para haurir o tanto de ar que podia. Seu peito doía conforme ela lutava para pegar ar. A dor anginosa era mais forte do lado esquerdo do corpo. (Teria uma costela quebrada?)
Seu dedos, o que havia perdido a unha, doía como nunca antes. Parecia ter sido passado em brasas. A mão estava com sangue seco, tal qual uma das pernas raladas. A sola de seu pés descalço era o que mais doía, porém; pois, além do aperto monstruoso que levara, ainda estava com uma lasca presa, pressionada contra o chão de ardósia, fincando-se ainda mais fundo na pele, rasgando-a. Havia, também, sangue escorrendo na cabeça, onde seu couro cabeludo fora tortuosamente arrancado dela.
Estava perdendo muito sangue.
Não sabia quanto mais aguentaria assim – sinceramente estava chocada por ainda estar de pé; mas sentia suas forças fraquejando. As pernas tremiam.
Antes que pudesse propriamente desmaiar, porém, foi arrebatada por mãos crueis novamente – garroteada. Deu um gusp, como que engasgada com algo, quando foi puxada rudemente pela garganta. Seus dedos pareceram tentar agarrar inútilmente a parede, mas a pedra apenas pareceu deslizar pelos seus pequenos dedinhos. Ela viu a parede parecer escapar dela com seus olhos arregalados.
Levou as próprias mãos para as mãos que lhe agarravam a garganta pálida. Sem sucesso, tentou libertar a sua traqueia. Os dedos pareceram se fechar mais com a luta, aumentando o doloroso aperto.
Tropeçou. Não caiu no chão, nem mesmo de bunda, pois o apertão em sua goela impedia Margaery de cair totalmente. As forças em suas pernas pareceram esvaecer-se de vez. Sentiu as lágrimas rolarem, conforme fitava o chão. Algumas pessoas esbarravam nela, mas ninguém ousou ajudá-la. O desespero de suas mãos também esmoreceram, sem que ela continuasse a tentar se soltar. Estava perdida; sem salvação qualquer.
Achou que os corvos eram a visão de que a morte viera buscá-la. Até que o aperto na garganta afrouxou-se, depois sumiu de vez. Caiu de joelhos, haurindo ar, enquanto continuava a chorar. Quase caiu, não fosse tentar equilibrar-se com os braços erguidos, deixando as mãos espalmadas no chão.
Ainda exausta, resfolegante, virou-se, relanceando para onde estava o ser que a atacara. Ele estava esbracejando, lento, o ar. Tentava afastar o bando de corvos escuros que investiam contra ele. A carne cinzenta do rosto estava arruinada – o crânio estava cada vez mais exposto. Os bicos rasgavam as vestes lanuginosas e puídas, revelando as carnes dos braços magros, rasgando-a em seguida, mostrando os músculos cinzentos e inchados, seguido pelos ossos.
Margaery virou-se, apavorada, após ver um bando de corvos no céu do salão. De gatinhas, tentou se afastar da cena, mas seu corpo foi esmagado quando um gordo imbecil tropeçou sua banha suada nela, caindo em cima de suas costas. O peso fez o ar escapar de seus pulmões. A angina que lhe flagelava aumentou com a pressão do chofre. Fosse quem fosse que havia caído em cima dela, tentava levantar-se, desajeitado, machucando-a ainda mais. Margaery deu um ganido, chorando pela dor lancinante no peito. Tentou se afastar, enquanto o imbecil tentava levantar-se, mas parecia que o obeso estava tendo dificuldade para erguer-se; as pessoas esbarravam nele. Margaery via os pés e pernas correrem lá e cá; alguns pisando em suas frágeis mãos. Urrou de dor quando alguém pisou com uma bota dura em cima da mão onde o dedo estava com a pele exposta.
Mais alguém deve ter tropeçado e caído, pois a pressão sobre o corpo de Margaery aumentou. Depois aumentou novamente. As pessoas corriam em desespero cego, de modo que era impossível não ter alguém caindo em alguém.
Tentou desvencilhar-se, arrastando-se pelo chão. Sentia as pessoas em cima dela, tentando erguer-se, atrapalhando umas às outras. Tentou inalar algum ar, mas conseguiu apenas uma nesga. A angina aumentava conforme ela tentava engolir um pouco de ar. Os ouvidos apenas captavam apenas gritos e grasnados. Um ou outro latido e ganido de mastins que sobreviveram à queda da neve.
Algumas penas começaram a cair na visão de Margaery. Quando ela conseguiu se mover nem uma jarda donde estava, ergueu um pouco a cabeça. Os cachos escuros, lustrados e grudados por suor e sangue coagulado, atrapalhavam a sua visão, de modo que os afastou com a mão cuja angula indicadora havia sido arrancada.
Os corvos dançavam em cima de uma mulher idosa que garroteava um rapazola inocente e mulambento. O obeso que caíra em cima de Margaery, mais uma outra mulher, gritavam. Esta tentava salvar o rapaz – talvez porque ele fosse seu filho –, mas isso impedia o gorducho de levantar. Um cheiro de fezes e urina subiu até as narinas de Margaery, que sentiu um líquido quente escorrer pelo tecido de suas costas. Provavelmente o obeso homem em cima dela tivesse se urinado. Provavelmente também devia ter se cagado.
A velha que agarrava o pescocinho do garoto não o soltava por nada nesse mundo, sem se importar com os corvos que devoravam seu corpo.
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— Estamos longe do salão? — indagou o homenzarrão dos Umber, após haurir bastante ar. Ele, assim como Alleras e o restante das pessoas, estavam caminhando há um bom tempo, guiados tanto pelo lume da sacerdotisa quanto pelos corvos no céu. A outrora luz que havia na torre do Salão havia esmaecido. Algo acontecera.
— Mais uns metros — respondeu Alleras, sem folêgo. Apenas a Mulher do Deus Vermelho ainda aguentava andar sem sinal de exaustão.
Conforme aproximavam-se do local, percebiam que os mortos nem se importavam com eles. Avançavam até o salão. O exército dos Thenn estavam perto da entrada, tentando afastá-los o máximo que podiam. Os filhos da floresta, com tochas, corriam a esmo, usando de tochas para incendiar os inimigos. Wun Weg Wun Dar Wun usava o tronco de uma árvore para destruir os corpinhos dos mortos que se aproximavam. Neve e cadáveres voavam conforme o gigante bracejava o imenso pedaço de madeira para todos os lados.
Havia uma luz perto da entrada do local, onde a neve estava acumulada. Alleras não conseguia ver o que daquela distância.
Aproveitando o momento, Alleras bradou para todos atacarem. Os mortos estavam distraídos, focados em invadirem o Grande Salão. A brilhante sacerdotisa que os acompanhava estava à frente deles, usando de suas habilidades místicas para lançar chamas contra os inimigos. Os soldados avançaram contra eles, derrubando-os com golpes de machados e espadas. A maioria sabia que devia atacar nas pernas, seguidos dos braços. Qualquer outro tipo de golpe era inócuo.
Alleras, mesmo sabendo que era inútil, resolveu atirar as flechas; detestava se sentir inútil em momentos assim. Deslizou uma mão por cima do ombro. Agarrou uma flecha após sentir as penas de ganso, puxou. Seus gestos eram assaz, pois sua mãe lhe ensinara desde pequeno a usar arco e flecha. Num chofre a flecha estava contra a corda, pronta para ser atirada. Seus olhos fitavam os corpos, guiados pelas luzes azuis dos olhos, enquanto lutavam para não serem cegados pela neve que caía. A obsidiana era uma seta negra, apontando para os imorredouros.
Inesperadamente, a ponta negra brilhou, com chamas saltando por ela. Alleras abriu mais os olhos, surpreso com a chama repentina. Sem hesitar, ele soltou a flecha, deixando-a voar. O alvo que ela acertou brilhou no mesmo instante, quando as vestes velhas pegaram fogo.
Alleras olhou para frente, mas não prestou atenção. Sua mente estava presa no que acabara de acontecer – na cena da flecha pegando fogo. Ergueu o arco de coração de ouro. A madeira estava normal. Que havia acontecido?
Magia. Minha magia está mais forte, percebeu ele. A força mágica de Harrenhal não apenas estava mais forte – a força mística do mundo estava muito mais forte nos últimos tempos, parecendo crescer ainda mais.
Alguém bateu na nuca dele. Não foi com muita força, mas, como ainda estava dolorido, o golpe quase fez Alleras urrar de dor. Virou-se, fitando uma mulher do povo livre, usando roupas pretas da patrulha da noite. A lança dela parecia ser de osso, mas logo percebeu ser de represeiro.
— Ande! Vai ficar parado aí que nenhum tolo e morrer?
Apesar de irritado, Alleras apenas fez um muxoxo, assentiu. Com suas mãos assaz, logo estava com mais uma flecha no arco, puxando com força, dardejando-os nos inimigos. Como antes, as pontas de obsidiana eram imbuídas em chamas de chofre, assim que ficavam prontas para atirar.
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Cynthea abriu, com dificuldade, os olhos ao sentir alguém chutá-la de forma violenta. Quando afastou as pestanas, tremendo de frio, desolada, não conseguiu ver nada. Estava muito escuro. Ouviu um choro distante, aumentando de forma violenta em seus ouvidos. Um choro de criança, de partir o coração. Os chutes pararam. Ela tentou mexer-se, mas estava dolorida demais para isso.
Conforme os instantes passavam, sua mente desanuviava. Os gritos logo se fizeram ouvir, aumentando gradualmente, junto do barulho irritante de corvos. O cheiro de palha fofa estava no ar, junto do cheiro acre de fumaça, morte e frio. O cheiro de urinas e fezes estava forte. Ela sabia que parte era dela, pois havia se urinado e se cagado antes de desmaiar, apavorada pela situação desesperada. A vergonha e o medo voltaram a apertar seu coração, fazendo-a chorar de novo, enquanto sentia ruborescer.
Sentiu os chutes novamente, lembrando de Myranda. Era ela quem estava chutando. Estava com o bebê preso, virado em seu ventre. O meistre morrera antes de conseguir salvá-la.
Cynthea afastou-se, até ficar no que parecia uma parede de madeira. Como era pequena, o espaço não era tão desconfortável. A madeira tremia conforme as pessoas esbarravam e subiam no que ela imaginava – corretamente – ser a imensa carroça virada. Ainda ouvia uma criança chorar, gritando pela mãe. Devia ser o filho de Roslin, mas Cynthea não teve coragem de aproximar para saber se Roslin estava viva.
De repente, algo aproximou-se, avançando na escuridão, fazendo a palha e feno farfalhar.
Cynthea e o pequeno Robb gritaram ao verem os olhos azuis brilhando.
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Quando Alleras e os guerreiros sobreviventes que o acompanharam alcançaram o outro exército, ele foi ter com o Magnar, Sigorn. As grevas de bronzes que o líder do clã vestia rebrilhavam ante o lume das tochas. Era um homem jovem, mas com uma linha de expressão agressiva acima dos olhos, deixando-o mais velho. Os olhos de Magnar eram cinzentos, duros; mas com uma visível preocupação neles.
— Você está viva — saudou Sigorn, dando um meio sorriso, que sumiu no mesmo instante.
Alleras assentiu.
— Sua esposa está lá? — indagou, mesmo sabendo a resposta, apontando para a entrada cheia de neve do salão, de onde os gritos saíam. Os corvos ainda entravam, aos berros, no local. Era bem irritante, quase ensurdecedor.
Agora, mais perto, Alleras percebia que a luz que ele vira quando chegara perto do local, era criada pela chama de um sacerdote, que tentava derreter a neve e criar uma abertura.
O Magnar assentiu, acenando com a cabeça. Seus soldados criavam uma barreira protetora dos mortos que avançavam contra eles, junto da sacerdotisa.
O sacerdote de pele ocre, parecida com o tom de pele de Alleras, embora mais clara, parou o que fazia, girou os calcanhares, foi até os interlocutores.
— Está missão rídicula! — ralhou ele. — Não derreter toda neve. Muita. Mortos demais!
O Magnar, vermelho de ódio, virou o rosto para encarar o mago:
— Você voltará para onde estava! — cuspiu, tendo uma boa fala da língua comum. — O Corvo me informou para vir aqui e ‘ocê há de obedecer!
O sacerdote falou algo entre outra língua, rogando pragas horríveis para Sigorn, que virou-se para Alleras – deve ter percebido que este havia entendido o que era dito, dada ao seu semblante chocado.
— Que disse ele? — indagou o Magnar.
— Nem queira saber — respondeu com seu contralto enrouquecido pela dor na garganta. — É um dialeto bastardo valiriano e… — balançou a cabeça. — Não importa.
Virou-se para encarar o sacerdote, falou na língua dele:
— Precisamos salvar as pessoas lá dentro. Ainda existem pessoas vivas; não escuta os gritos?
O sacerdote abanou a cabeça:
— Não gosto do Corvo; não confio nas vozes das trevas. Devia de estar lá fora, ajudando mais pessoas!
— Salvar as pessoas aqui é mais importante agora! Têm crianças lá dentro! Assustadas!
— As suas mortes valeriam a pena se perdêssemos a batalha?
Alleras chutou a neve. O homem tinha um ponto; mas vieram de muito longe para ficar de braços cruzados.
Girou os calcanhares, afastando-se do sacerdote e do Magnar. Este falou:
— Onde vai?
— Dar um jeito de salvar nossos rabos! — falou, sem se importar com forçar um sotaque falso.
Irritado, Magnar gritou ordens para o gigante, mandando-o escavar a neve que estava cobrindo a passagem. Wun Wun o fez, mas isso deixou todos nervosos, pois ele era a principal força guerreira.
Alleras andou até a linha de frente, onde a sacerdotisa estava. As tatuagens laranja-dourada brilhavam com intensidade conforme ela usava seus poderes. Atrás dela, ele falou:
— Precisamos de você. Me entende? Precisamos de você.
A mulher virou um pouco o rosto, encarando a figura feminina d’O Esfinge com seus esquisitos olhos azuis fortes. Um arrepio subiu pela espinha de Alleras.
— Por favor? — percebeu que a fraqueza na voz podia ter estragado tudo.
Sem nada falar, a mulher virou-se, deixando os selvagens e os outros soldados barrarem a parte onde ela estava, rogando pragas.
Alleras acompanhou a mulher com os olhos, até voltar a si, começando a andar atrás dela.
A sacerdotisa e o sacerdote falaram em jargões carregados, com o homem de vestes rasgadas parecendo se irritar mais e mais, enquanto ela permanecia impassível.
— Que falam eles? — indagou Magnar, ao lado de Alleras. Estava agitado. — Estamos perdendo tempo! — desespero de um marido preocupado falando.
Alleras deu de ombros. Estava estranhamente calmo.
— Não faço ideia. O pouco que entendo não faz sentido, falam muito rápido.
Por fim, os dois pararam. Cansado, o homem suspirou, virando-se, caminhando até o local cheio de neve que estava sendo escavado por Wun Wun. A sacerdotisa virou-se para Alleras, murmurou:
— Fale para eles se afastarem, Esfinge — disse na língua comum.
Chocado, Alleras assentiu. Magnar Thenn franziu o cenho.
— O que ela…?
— Ordenai que o gigante afaste-se — respondeu ele. Virou-se, falando para pessoas dispersarem. Magnar fez o que lhe era dito, berrou para que Wun Wun Weg Wun Dar Wun se afastasse. O gigante o fez, mas fez um som irritado com a mudança brusca de ordens. Por sorte, a neve estava menor. Depois, Sigorn berrou para os Thenns se afastarem, o que rapidamente foi feito, mesmo com todos se empurrando.
— Que está acontecendo? — perguntou aquele homenzarrão dos Umbers que acompanhara Alleras.
— Aguarde — respondeu. Duas fileiras de pessoas com tochas e escudos de vimes ou ferro e couro estavam atrás deles, de costas, para impedir qualquer um de avançar. Os poucos filhos das florestas corriam pelos campos de neve, se arriscando para queimar os que avançavam. Um montava um gato das sombras que o ajuda tanto a fugir quanto a atacar.
Os dois seguidores de R’llhor deram as mãos, enquanto cantavam. Avançavam, lentos, calmos, pelo caminho nevado, até o amontoado de neve. Seus corpos começaram a brilhar, as tatuagens em seus corpos ficaram incandescentes. O cântico aumentou conforme labaredas surgiam nos corpos de ambos, queimando as vestes, soltando fumaça. A camada densa de flocos derretia conforme a dupla aproximava-se, deixando o caminho livre. A plateia olhava para a cena com espanto enquanto o gelo transmutava para água, borbulhando. A mulher e o homem se contorciam a cada passo, agonizando. As rezas foram ficando agonizantes.
O casal de sacerdotes sumiu dentro da neve, que os cobriu conforme eles adentravam na camada. As luzes cada vez mais brilhantes de seus corpos esmaeceram quando os flocos os cobriram, até sumir.
Apenas o vento fazia-se ouvir, parecendo mais barulhento que os gritos dos humanos e aves dentro do salão.
— E agora? — perguntou o homem de armas dos Umber.
A luz voltou a surgir, aumentando. A neve começou a derreter rapidamente.
— O que é isso? — perguntou o Magnar de Thenn, virando se para Alleras.
Antes que O Esfinge pudesse responder o líder selvagem, o tomo imenso de neve explodiu. Os flocos de neve voaram quanto uma luz incandescente quase cegou a todos, esquentando o ar local. Os homens e mulheres saltaram para trás. Os corvos começaram uma algazarra no ar, parecendo assustados.
Apesar do ar quente, a rajada do ar apagou as tochas. Enquanto todos tentavam se recompor, praguejando, assustados, abalados, Alleras abriu a palma da mão. Dela surgiu uma luz dourada que afastou a escuridão, banhando o mundo de ouro. Quando os olhos das pessoas, ainda confusas, forçaram a se acostumar com o rebrilhar, fitaram Alleras.
— O CAMINHO ESTÁ LIVRE! — berrou, forçando a dolorida garganta. Os soldados berraram em resposta, avançando até o umbral cheio de neve derretida.
Alleras os seguiu, não sabendo por quanto tempo poderia ficar por ali. Mas tinha de ajudar a salvar as pessoas no local.
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Sansa sentiu o chão tremer. Neve voou para todos os cantos quando um lusco-fusco do que quase pareceu um novo sol surgiu de chofre. Apertou os olhos, cegada pela intensidade do rebrilhar. Piscou algumas vezes, soltando algum acúmulo de lágrima causado pela irritação. Os corvos e as pessoas gritaram mais; mas os berros humanos crescentes pareceram-se com gritos de guerra. Aumentando, aumentando, aumentando…
Os corvos voejaram no ar, afastando-se, fugindo pelas portas e janelas.
— O quê é isso? — perguntou Wylla, tremendo. A voz era frágil, quase chorosa. Ela olhava para o céu de aves com seus olhos arregalados, claros, confusos.
— Bran. — Falou Sansa após voltar a fitar o teto.
— Pelos deuses… — murmurou Sor Aly, ainda meio desacorçoada pela explosão.
O Salão das Cem Lareiras pareceu brilhar mais do que nunca. Não como se o sol nascesse e pintasse o local com sua luz; um novo sol parecia nascer no salão. Uma orbe d’ouro surgiu no centro do teto, rebrilhando, fustigando qualquer nesga de trevas do local.
Os soldados que adentravam no local, forçando caminho pela neve grossa, ainda não derretida, derrubavam os mortos que se recusavam a morrer. Estes tiveram seus corpos massacrados pelos corvos, que os deixaram em um estado mais fraco. Aqueles que conseguiram reacender as chamas atearam fogo nos cadáveres.
Sansa olhou para a cena, incrédula com os salvadores, que derrubavam os cadáveres. Um dos homens que trajava o símbolo dos Umber, usando um poderoso machado de guerra, cortava as pernas dos seres de olhos brilhantes. Os corpos esmilinguidos caiam no chão de ardósia cobertos de neve.
Sansa viu uma mulher de pele escura atirar flechas de fogo de seu arco dourado. Seu corpo, mesmo trajando um manto pesado, parecia mover-se como em uma dança; gestos assaz, flexíveis, suaves, leves. Sua pele preta era pintalgada de dourada, os cabelos escuros eram ondas escuras. Era como uma divindade de alguma canção, salvando os inocentes do mal.
— Estamos salvos? — sussurrou Jeyne, ainda tremendo, abraçada a Sansa. Esta não lhe deu qualquer resposta.
Margaery respirava um pouco melhor agora que o peso fora retirado dela. Um brutamontes a ergueu no ar como se fosse uma bonequinha de pano. Um homenzarrão, barba grisalha, usando um gigante quebrando correntes, feito de couro fervido, no peitilho.
Foi colocada em cima de uma carroça, que continha alguma palha consigo. A carroça estava virada, com uma roda quebrada. Alguém conseguiu achar a peça, encaixando-a novamente no veículo.
Ficar por cima do carro de boi foi um alívio para a jovem mulher, pois seus pés estavam doloridos demais para ficar em pé. Seu vestido, além de rasgado, estava molhado na parte de trás. Pelo cheiro estava urinado. O homem que caíra dela – que estava morto, embora ela nem soubesse porquê; talvez o coração tivesse tido mais do que aguentava – realmente se sujara enquanto se debatia. A mãe da criança não conseguira salvar o filho, ficando abraçada com o cadáver até que este reviveu e a atacou. (Tudo isso aconteceu enquanto ela ainda estava caída em cima de Margaery; provavelmente ela – após morrer e reviver – e o filho morto-vivo mataram o pobre gorducho.)
Teve de continuar com o vestido urinado, pois não tinha outro para vestir. Por sorte conseguiu um manto, parecido com o que usara anteriormente, para se cobrir. Era de pele de morsa. Por sorte, não fedia.
O pé de Margaery foi analisado por um meistre que sobrevivera ao ataque dos mortos-vivos e da queda de neve. Como não tinham leite de papoula, ela teve de morder uma tira de couro qualquer enquanto aguentava o homem arrancar a lasca de seu pé. Forçou seu maxilar enquanto dois homens – selvagens que estavam entre os salvadores que os ajudaram a salvar todos no salão – a seguraram para ela não se debater e nem chutar o velho que a ajudava.
Quando a lasca saiu, ela perdeu o restante das forças, caindo no feno. Respirava de forma arrítmica. Sua cabeça doía, mas ninguém se importou em ver. Uma camada grossa de sangue coagulado cobria boa parte de sua cabeça.
Na mesma carroça em que Margaery estava, encontrava-se o restante do séquito de Sansa: a chorosa Cynthea Frey, que fedia mais que Margaery, pois havia se sujado durante o ataque; Barbara Bracken, cujo nariz quebrado não parava de sangrar – ela perdera alguns dentes também, sendo obrigada a pressionar um retalho (com alguns pedaços de gelo) de vestido rasgado contra o rosto; a Lady de Correrrio, Lady Roslin, estava com uma ferida coberta de sangue quente na parte esquerda superior da testa, onde uma camada de sangue coagulou. Ela chorava, enquanto tentava acalentar o seu filho, desesperada por não achar os seus outros filhos mais novos. O primogênito também chorava.
Em estado mais grave que todas elas, era a Lady dos Portões da Lua. Ela estava deitada de costas, suada, de olhos fechados. A cara vermelha como uma romã. Respiração tensa. Vez ou outra batia pernas, contorcendo-se de dor, erguendo um pouco as costas, enquanto gemia. Era o bebê dentro dela. Estava virado, recusando-se a sair até que alguém puxasse.
Infelizmente, não tinham tempo para uma parição. Não agora. Os meistres que tinham estavam fracos e velhos demais para fazer algo agora.
— Obrigada pela sua ajuda, Magnar — falou a princesa Sansa ao ficar de frente ao líder dos Thenns. Era clara a dor nos olhos do jovem homem; seu filho estava no bosque, protegido por pessoas de sua tribo, mas sua esposa, Lady Alys Karstark preferira ficar no Salão com sua princesa.
O marido encontrara os restos de sua esposa estatelados no chão. Uma massa estranha de carne pisoteada, com ossos quebrados expostos. Incapaz de andar, a criatura rastejava de forma esquisita. Reconheceu-a pelas vestes: escuras vestes escuras debruada em branco no formato de sois. O cabelo trançado também era o mesmo, mas as pérolas estavam quebradas e perdidas.
O que mais doeu, porém, foi olhar que Alys lhe dera: um olhar azul brilhante, sem o cinzento escuro típico dela. Mas não fora essa mudança que o abalara; foi o fato de que aquele estranho ser parecera o reconhecer quando o vira.
Ele mesmo ateou fogo no corpo. Várias fogueiras foram feitas para queimar os mortos.
A última conversa que tivemos foi uma briga, pensou Sigorn. Ele não concordava com a esposa ficar no salão; nem ela com o filho no bosque.
Agora restava apenas o filho deles.
— Temos que partir daqui — Magnar falou para a irmã do seu Rei. — Temos de ir para o príncipe Corvo.
Sansa comprimiu os lábios, sentindo-se petulante como sua irmã mais nova. Não queria rever seu irmão mais novo; mas, como fora ele quem ajudou a salvar a todos…
— Princesa. — Sor Wylla (agora Lady de Porto Branco, mas não era o momento para isso) aproximou-se de Sansa. Murmurou: — Não podemos ficar aqui. O ambiente não é seguro.
— E não sabemos quanto tempo a luz há de aguentar sem a feiticeira que a fez. — Pontificou o Magnar, referindo-se a bola de luz dourada que pairava no teto. A feiticeira que a vez sumira após a luta no salão parecer vencida sem que ninguém sequer reparasse.
Sansa escrutinou o local: piras de mortos queimavam espaçadas no local, lançando um cheiro podre e rançoso no ambiente; criancinhas tremiam de frio e choravam, com muitos agarrando as saias das mães. As mesas e outros pedaços de madeira estavam destruídos e/ou queimados para fazer a lenha das fogueiras.
Suspirando, ela virou-se para o líder do clã do povo livre, anuiu. Teria de sujeitar ao seu irmão, novamente. (Se é que ainda era seu irmão.)
— Que assim seja. — Virou-se para Sor Aly Mormont. — Tem força dentro de si, Sor?
Alysanne Mormont largou o semblante de dor e fadiga, vestindo o rosto de uma guerreira da Ilha dos Ursos.
— Sempre, princesa.
— Ótimo. Forme uma defesa para mim. — Enquanto sua guarda pessoal se formava, Sansa subiu na carroça, auxiliada por Magnar, que a ergueu pela cintura.
Margaery deu espaço para a princesa, mas sentiu um súbito desejo de empurrá-la de onde estava, fazendo-a estatelar-se no chão de ardósia. Segurou-se para não o fazer.
— Meu povo — disse Sansa, segurando o cansaço —, venho avisá-los de que temos de partir para o Bosque Sagrado, onde meu irmão está! Peço que me acompanhem, pois nossos salvadores hão de nos escoltar em segurança para o local.
— O príncipe! — exclamou uma mulher ofegante. — O príncipe há de nos proteger!
— Ele foi quem nos salvou agora! — declarou um velho. — Ele trouxe os corvos e a luz que guiou os soldados!
— O Príncipe do Inverno! O Príncipe dos Corvos!
— Ele há de nos salvar dessa noite infernal enquanto nosso rei nos deixou!
Sansa ficou chocada com a fala da pessoa, mas, antes que pudesse falar percebeu que não devia nada a Jon – ele que resolvesse os próprios problemas com Bran; sua preocupação mais importante era salvar os indefesos. Virou-se, foi até a beirada da carroça. Deixou Sigorn ajudá-la a descer, tomando-a pela cintura, como fizera antes. Pousou-a no chão delicadamente.
— Ainda aguenta andar, princesa? — Sigorn indagou.
Sansa anuiu. Estava exausta, mas não queria ocupar um lugar na carroça já cheia. Talvez, quando cansada demais, conseguisse uma montaria para si. De toda forma, andar assim estaria cercada por sua guarda pessoal.
— Ainda tenho alguma galhardia de loba dentro de mim.
Jeyne e Wylla subiram na carroça, assentaram-se na beirada do veículo. A Manderly estava quieta, mas temerosa, enquanto Jeyne não conseguia segurar o choro. O filho de Lady Jeyne estava dormindo nos braços da mãe, exausto e fedido. Havia chorado, urinado e defecado, mas, antes de cair no sono, vomitou na mãe. Roslin tinha um olhar vermelho, inchado e distante. Cynthea estava sentada no zero, abraçando as próprias pernas, cabeça abaixada contra as saias prateadas rasgadas e escuras de sujeiras. Barbara ainda gemia de dor vez ou outra, pressionando o tecido contra o rosto. O tecido estava empapado de sangue, tomando um aspecto rubra sanguíneo bem forte.
No centro da carroça, estava Lady Myranda, amuada, gemendo de dor, sem qualquer força para sequer abrir os olhos. Cobriram com quantas peles conseguiram, para proteger do frio.
Todas ladies: Lady de Correrrio; Lady viúva do Forte do Pavor; a futura Lady Barreira de Pedra (se é que já não era, pois talvez o pai tivesse morrido); Lady de Porto Branco; Talvez a próxima Lady das gêmeas; a grávida Lady dos Portões da Lua. Guiadas por um princesa e protegidas pela Lady das Ilhas dos Ursos.
Apenas Margaery não era uma Lady; mas valia mais do que as que estavam naquela maldita carroça velha. Estava sentada no canto, afastada das outras.
Quando o veículo moveu-se, puxado pelos cangaços por homens corpulentos, começou a sacolejar. Todas que estavam nele tremeram de medo. O ataque deixara todas elas tensas. Margaery agarrou a base de madeira rachada, usando uma força que nem sabia que ainda tinha, enquanto fitava a saída do local agigantando-se conforme era levada até o umbral. Engoliu seco, com medo de encarar aquela noite fria.
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