Drogon cortava o ar com seu corpanzil fumegante. Daenerys sentia tanto o ar quente quanto o ar frio. Faziam um som ruidoso nos ouvidos dela. Seu braço era pura dor, mas ela firmava o aperto com a corrente, para que ele não se deslocasse mais.

A prenha lua rebrilhava no céu, opalescente, nacarada. Uma cimitarra arco-íris pairava em uma das bordas arredondadas. Acima das nuvens, Dany podia ver o tecido azul-negro e infinido que era o céu, engastado por estrelas rebrilhantes. Era como estar perto da borda do Mundo Conhecido, uma adjacência a outro mundo totalmente novo. Um mundo silencioso. Belo. Intocado pelo caos abaixo. O mundo dos Deuses.

Quando voava, Dany sentia-se mais próxima desse mundo. Acima do mundano e conflituoso cosmo humano de baixo. Todavia ainda não conseguia alcançar a paz eterna dos céus. Estava no linear. Sozinha. Ninguém acima dela, todos abaixo.

No alto, Daenerys era vista por aqueles que mantinham seus pés no solo como um ser que variava de titularidade: rainha, tirana, salvadora, deusa, demônia, dentre outras alcunhas. Admirados ou atemorizados, todos a olhavam. Nenhum, porém, estava apto a voar ao lado dela.

A única pessoa que Daenerys um dia ousou ver como seu igual, traiu-a. Roubara seu outro filho.

Mais uma vez, sozinha.

Acima das nuvens, Dany sentia o vazio. A solidão. Essa era a maior dor que tivera em vida – maior até que o alquebramento que lhe flagelava. Um vazio tristonho que a perseguia desde que nasceu.

Dany nasceu em uma tempestade – tão potente que destruiu a frota de Pedra do Dragão. Sua mãe – deuses a tenham (seja lá quais forem – morreu pouco após terminar a parição de sua única filha. Seu último bebê. Sua ultimogênita. Daenerys I, Nascida da Tormenta, Mãe dos Dragões. Mãe de Monstros.

Daenerys nunca teve alguém – nem mesmo quando seu velho urso, Lorde Darry, estivera vivo. Tivera Viserys, mas viu o menino triste e esperançoso morrer e o homem mal e paranoico nascer.

Estava sozinha. Nem todo o poder do mundo, com tantas pessoas a adulando, fazendo as mais profundas reverências, mudavam esse axioma em sua vida – não importa o quanto você suba na vida, a solidão é a única certeza que o poder trás é solidão e desconfiança.

O ar era mais rarefeito onde ela estava. Não ousou subir mais. Olhou para baixo, para os lados. Nada. Seu filho não dava sinal algum.

Onde estava Viserion?

Seu filho sibilou longamente. Estava fervoroso. Uma de suas asas pingava sangue conforme, lenta, movia-se. O voo estava sendo difícil para o primogênito de Daenerys. Ainda estava muito ferido, abalado pelos últimos golpes da vida em seu corpo juvenil e em sua mente irritadiça. Não fosse a mãe, podia nem ter ficado e morrido, ou mesmo surtado de vez, matando todos a troco de nada.

O corpo serpentiforme, cálido, do Wyvern soltava fumaça acre no espaço noturnal. O cheiro de enxofre misturado com carne queimada e podre enchiam o ar frio. O cheiro de morte gelada ainda permanecia. O odor mormente trazido pelo exército revivido por magia obscura. Viserion estava próximo.

Daenerys pareceu farejar o ar, imitando o próprio filho mais velho. Sentia-se uma com a carne de Drogon. Seu coração batia na mesma sintonia que as asas do dragão batiam no ar. Lambeu os lábios. Estavam rachados; sangue coagulado formou uma crosta no lábio inferior. A língua ferida passou também pelos dentes lascados, sentindo as formas quebradas que eles haviam tomado. O suor estava acumulado por todo o seu corpo. Ela fedia a sangue, fumaça e um insosso suor acre. Os cabelos argentinos estavam desgrenhados, queimados, deixando-a praticamente careca novamente.

Daenerys lutava para manter-se acordada. Torceu para a camada de sangue coagulado, de alguma forma, impedisse que o sangue no braço escorresse mais. O fluído entre as suas pernas estava praticamente seco, provavelmente por conta do calor; ou, então, frio. Suas coxas e nádegas doíam como nunca, próximas do tempo em que aprendera a cavalgar entre os Dothraki, sempre atrás de seu marido, o grande Khal Drogo. Naquela época, as coxas de Daenerys sangravam como nunca, a pele viva ficando exposta. Passada a dor, a pele flácida, juvenil e pálida tornou-se dura feito couro fervido. Era, então, uma Khaleesi.

Agora, neste momento tão infernal, sentia que tez estava, novamente, destruída: sentia a ardência onde a dor flagelante diminuía. Mesmo sob o couro e aço, o calor constante de Drogon fervia a pele de Daenerys. Estava sentada tempo demais. Até suas costas doíam.

Usou o braço bom para estalar o chicote-corrente contra a pele coriácea do pescoço serpentino de Drogon, para que ele desse mais uma volta; avançar mais os afastariam de Harrenhal.

Se ao menos tivéssemos mais um dragão, lamuriou-se. Mas os malditos Starks estavam empenhados em ficar em Harrenhal. Era perto de Porto Real, de modo que podiam invadir a fortaleza de Aegon após a batalha terminar (caso perdessem, Aegon e os seus morreriam pelas lâminas de gelo de qualquer forma).

Daenerys ainda sustentara a ideia de melhor seria derrotar Aegon após derrubarem Euron, Olho de Corvo. Assim, arrazoou ela, poderiam garantir ter mais soldados após conquistarem a Capital e os outros reinos de Westeros.

Negado. Nem mesmo Lorde Stannis (não rei! Aquele fanfarrão não era digno de tal título nobre!) falou contra. Tinha total confiança nos planos de Bran. Menino estranho, esse Bran. Sempre sabendo de algo.

Ele também me manipulou, refletiu ela. Ele lhe mostrara o que precisara para que ela mudasse de lado. Para que fizesse o que queria, desde que parece necessário para o bem maior. Teria feito o mesmo com Stannis e Jon? O que mostrara a eles antes que ela os encontrasse? O que sabia e guardava para si e mais ninguém?

Afastou tais pensamentos. Pensaria no rapazola aleijado depois; mas percebeu que talvez seu foco na luta contra os inimigos e a rivalidade com sua cunhada talvez tivessem anuviado seu julgamento – o irmão mais novo de Jon talvez fosse o mais travesso de todos os lobos.

Deu outro golpe contra o seu filho quando percebeu que estava se afastando mais uma vez da área de Harrenhal. Ainda nada de Viserion.

Praguejou. Voz embargada, inaudível pelo barulho do estalar de asas. O gesto fez a carne da garganta roer, sentido areia a rilhar na carne dolorida e seca. Tossiu, querendo água mais do que tudo. Infelizmente, seu odre estava perdido. O vento frio pareceu abraçar o seu corpinho à força. Lutou contra as lágrimas. Cansada. Sentia cada parte da sua pele sendo esmagada contra a couraça de aço e couro. Sua coluna parecia madeira dura estalando quando ela remexeu-se na sela. Sabia que não poderia aguentar muito tempo assim.

Olhava para baixo, perscrutando o véu negrume que impedia-na de ver o chão, tentando enxergar caso o par de olhos brilhantes de Viserion surgisse. Apenas os gritos e outros barulhos aleatórios conseguiam passar pela camada anuviada. Novamente, sem Viserion.

Onde estaria? Drogon era a presa perfeita: estava exposto; barriga para baixo, exposta. Estaria embaixo das nuvens? Atacando os indefesos?

Ao pensar em tal possibilidade, Daenerys sentiu-se compelida a descer, tentar ajudar os seus.

Mas bem podia ser uma armadilha.

Só saberei quando arriscar; melhor do que perder tempo aqui em cima.

Estalou o “chicote”. Os elos formando uma serpente acerada se contorcendo no ar, enquanto ordenava para o filho descer.

Drogon rugiu de forma longa, lenta, enquanto descia pelos ares. A cabeça indo para baixo, curvando o pescoço longo. O vento errante bateu com força contra Dany, mas ela manteve firme, segurando as rédeas, aguentando os extremos solavancos.

Antes que pudesse descer, enquanto forçava a vista pelas nuvens pretas e cinzentas, sentindo a água – a neve que era derretida pelo calor corporal de Drogon – aspergir em seu corpo, ouviu os barulhos de trovão ribombando. Assim que os ouviu, soube que era seu filho.

Um infortúnio relatar – mesmo que não de forma surpreendente – que não houve tempo para que a Rainha tivesse reação. Foi tudo muito rápido. Drogon logo guinchou em agonia; Dany sentiu o corpanzil do Wyvern chacoalhar com o repuxar. Estavam girando no ar, indo direto para o chão, com as mandíbulas de Viserion fechadas no pescoço de drogon, com os dentes – alguns meios tortos e/ou quebrados – cravados na pele rígida.

As nuvens ficaram para trás, o mundo do solo surgiu, revelando os fogos lá embaixo. Dany se viu revivendo a luta contra Malora Hightower. A adrenalina correu pelo sangue, as dores pareceram sumir de chofre.

Drogon remexeu-se, cuspindo fogo, enquanto batia asas, chutava o corpo do irmão morto, tentando rasgar a pele morta com as úngulas negras, brilhantes como diamantes. O sangue de sua perna e asas feridas respingaram em Viserion, queimando uma parte, mesmo que de forma parca, de seu corpo. O mesmo aconteceu quando Viserion aumentou a força no maxilar, rasgando um pouco da couraça preta, revelando a carne interna macia. O borrifar vermelho começou a dissolver o longo e pálido focinho do animal morto-vivo.

Quando as chamas saltaram, ameaçando destruir o corpo revivido, Viserion soltou o irmão, afastando-se aos trampos e barrancos, libertando o dragão de Daenerys. Este tentou se salvar, indiretando-se, atabalhoado, bateu as asas ruidosamente. O rugido era de dor e desespero pelo esforço.

Daenerys agarrava-se a sela de couro e ferro, fechou os olhos, pronta para o impacto. Apertou mais a corrente, que chacoalhava como nunca, aumentando a pressão no braço em frangalhos. Sabia que a queda poderia quebrá-lo ainda mais (e a outras partes do corpo) caso Drogon não pudesse absorver todo o impacto – isso caso ele não caísse de barriga para cima; Dany seria totalmente esmagada nessa situação.

O vento a empurrava, parecendo querer arrancá-la da sela. Teria o feito, não fossem as corrente que a prendiam no assento. O barulho das correntes de ar violentas, junto do trovejar das asas, do ribombar do rugido, pareciam prestes a estourar seus tímpanos. Bolhas surgiram em seu rosto ofegante, estourando na mesma hora, fazendo um líquido leitoso escorrer pela sua face. Daenerys inalou o cheiro de fumaça acre que queimou suas narinas. Lágrimas brotavam de seus olhos, saltando pelo ar quente.

X O X O X O X O X O X O X O X O X

Bethany encontrava-se quase sem flechas àquela altura. O fogo também estava abaixando; a seiva ficava cada vez mais fria.

— ESTÃO SE APROXIMANDO! — Berrou um sujeito qualquer de algum canto das escadas que levavam até o pátio.

— Alguém jogue seiva pelas escadas! — ordenou ela, virando o rosto, falando por cima do ombro. Seus cabelos pareciam estar se soltando. A trança estava se desfazendo à medida que o vento aumentava.

Uma mulher dos selvagens, usando roupas pretas como da Patrulha da Noite, de aspecto lanudo, pareceu incerta. A seiva estava acabando; além do mais, a escada mais próxima era muito longe.

— Mas, se nós…

— Faça o que mandei! — vociferou Bethany, irritada com a petulância belicosa daquela esfarrapada sem terras.

A mulher franziu a cara feia, vincando a testa. Por sorte, fez o que era ordenado. Junto de uma outra selvagem, de cabelos ruivos – a filha do selvagem Tormund, mas Bethany não se lembrava de seu nome –, a ajudou a levar o barril de seiva até a beirada da escada.

— Nem todos subiram… — a filha de Tormund falou, ainda incerta, agarrando uma das bordas do barril.

Bethany estava farta daquelas choronas. Mulheres selvagens! Seu irmão estava certo; eram indignas de confiança, só atrapalhavam! Incapazes de aceitarem ser ordenadas, tal qual todos os indisciplinados de seu povinho invasor! Mais valia ter exterminado todos quando estavam à mercê deles, em Winterfell!

— Eles morreram defendendo-nos! — respondeu Bethany. Uma parte de seu rosto estava dormente onde os flocos de neve batiam mais, mas ela tentou ignorar. Tinha de mostrar força. Sabia que facilmente aqueles no topo da muralha podiam voltar-se contra ela caso parecesse fraca.

As duas selvagens, apesar de obtusas, fizeram o que era ordenado. Viraram o barril, despejando seiva. O melado verteu de forma lenta, causada pelo frio. A filha de Tormund ergueu o barril, balançou-o para frente, para trás, várias vezes. Quando uma boa quantidade estava despejada, ela o jogou pelos degraus. Uma filha da floresta jogou um archote. Bethany viu um lume nascer e crescer na entrada da escada, banhando as mulheres de ouro. Outros dois homens selvagens levavam um barril para onde elas estavam, prontos para repetir o gesto.

Suspirando, Bethany virou-se. Seus braços estavam doloridos. Dardejar os inimigos com flechas era um desgaste que só. Ainda mais no frio enregelante, quase congelando os músculos dela. Notou que sua respiração estava ofegante, criando mais e mais nuvens no ar escuro. Devia de estar corada.

Dirigiu seus dedos até o alforge – agora quase vazio – para pegar algumas flechas. Seus dedos estavam lânguidos, atrapalhados. Salsichas inchadas. Nem sequer sentia as pontas dos dedos. Atabalhoadas, conseguiu pegar nos cabos com penugem das setas, tirá-las do alforje, botá-las no arco. Precisou de mais força do que precisara antes. Estava ficando mais complicado, como se seu arco estivesse congelando. Grunhiu enquanto puxava mais a flecha; mas por fim, ela escapou, antes que Bethany pudesse encaixá-la com perfeição. A seta logo veio a cair a esmo, sem força.

Irritada, chutou um montinho de neve, como se fosse uma menininha birrenta. Trovões pareciam ribombar no céu, ficando mais altos.

— Preciso de flechas aqui! — pediu um homem, perto de um merlão, tentando acertar alguns dos revividos do lado de fora. Alguém foi ao seu auxílio, mas também não tinha muitas flechas consigo. Logo acabariam também.

Algumas pessoas tentavam aquecer a pouca seiva que tinham, mas restava praticamente nada; além de lenha escassa para o fogo. Pior, alguém chegara, correndo, esbaforido, para avisar que uma parte mais a lesta das muralhas estavam sendo invadida pelos mortos, que encontravam-se em grande número. Não tinham como saber se outras partes das muralhas também não estavam perdidas para o inimigo. Podiam estar encurralados, não se dando conta disso até ser tarde demais.

A culpa era daquela maldita essosi! Ela levara os melhores consigo! Lambisgoia! Se veio de algum canto, fora do sétimo inferno, só para atazanar Bethany. Insípida. Tomara que tenha morrido – não, tomara que todos que foram com ela tenham morrido! Bethany enchia os cadáveres revividos com diversas flechas!! Traidores!!!

Cerrou as mãos, em punhos. Estava furiosa demais, precisava espairecer, mas não tinha tempo para isso…

Olhou para dentro das muralhas. A nuvem de corvos sumira, assim como a luz que emanava da torre.

Alyn… Seu irmão estava vivo?

Ao sentir o peito apertando, seguido de uma dor nos olhos, Bethany lutou contra aquilo. Chorar era fraqueza. Guerreiros não choros! Eles lutam! Tinha que ser corajosa, como seu pai e seu irmão mais velho! Uma Blackwood excelsa!

Virou-se, pegou outra flecha, colocou no arco, puxou. Estava em posição. Inalou, mantendo firme, mirando nos pontos azuis.

Acabou por soltar a flecha antes da ora ao levar um susto com um poderoso trovão no chão. Ergueu a cabeça no mesmo instante, percebendo se tratar de um rugido.

Uma bola de fogo em espiral caia, rasgando as nuvens densas. O trovejar incessante era, na realidade, batidas violentas das asas membranosas do imenso dragão negro de Daenerys, que caia dos céus em direção as muralhas.

Diversas pessoas correram, com a maioria largando as suas armas. Alguns – talvez sem pensar, talvez acreditando que a neve densa e fofa os protegeria; ou apenas procurando uma morte menos dolorosa – pularam das muralhas, indo direto pro chão.

Ninguém perto do local onde estavam conseguiu fugir pelas escadas – as mais próximas estavam com seiva escorregadia, pegando fogo. De modo que foram obrigados a disparar em direção às saídas pelas escadas mais distante – a maioria escorregava no gelo ou tropeçava em montinhos de neve; ou esbarravam e pisavam uns nos outros. O dragão caía, caía e caía, queimando o céu. Seu rugido sibilante e o estalo de suas asas sufocavam os gritos das pessoas desesperadas para fugir do local.

Bethany nunca correu. Apenas olhou para cima, cabeça bem erguida, observando a forma dançante e atrapalhada do dragão agigantar-se conforme despencava do céu.

Seu peito pareceu ficar leve quando o monstro pareceu ficar a poucos metros dela, ainda em queda. Sentiu uma lufada violenta de vento, um tantinho quente.

Soltou seu arco, que caiu no chão ao seu lado, sem que sequer parecesse notar. Piscou, sentindo as lágrimas queimarem sua pele.