Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
77 Vento Frio
Daenerys sentia seu corpo sendo assado vivo pelo calor. A chama vermelha e negra de Drogon tomava o mundo, cegando-a. A fumaça, sufocando. O furiosos rugido de seu filho quase a deixou surda. Parou de tentar inalar ar enquanto tentava cessar o ataque de tosses. Apertou bem as pálpebras, fazendo manchas doloridas e amareladas explodiram no breu de sua visão. Lágrimas vertiam, escorrendo pelas suas bochechas, criando um rastro ardente.
Endireitou-se na cela, tentando se recompor. Abriu os olhos, tentou ver além da viseira. As aves (corvos, corujas, falcões…) de olhos de estrelas logo perdiam o brilho no olhar ao serem imbuídas pelas chamas. Seus frágeis corpinhos pareciam virar bolas de fogo; não tardavam de logo cair, sumindo do campo de visão da Dany. O fogo, porém, continuava, assim como a fumaça.
Se inclinou para direita, olhando para baixo. Quase não podia ver a luz do incêndio que corria solto lá embaixo; a fumaça lhe impedia de ver algo. O ambiente estava tomado pelo odor acre e pungente de cinzas, morte gelada e enxofre.
Drogon movia seu pescoço como se fosse uma cobra em agonia, expelindo um vômito vermelho e negro que queimava tudo que tocava. Estava furioso, tal como sua mãe imaginava.
Daenerys tentou recompor-se. Tinha perdido de vez seu chicote. Todavia, ainda possuía o berrante. Ainda podia controlar Drogon.
Vez ou outra às aves revividas tentavam atacá-la, parecendo não ser afligidas pelas chamas que embuíam seus corpinhos. Apesar do suposto perigo, Daenerys estava bem protegida, os animais estavam mais lentos e fracos; bastava empurrá-los com um golpe de seu braço encouraçado, logo vinham a cair no ermo.
Vendo que estava obtendo sucesso, o fogo consumindo boa parte do inimigo, Daenerys acreditou não ter motivos para o berrante, deixando o enraivecido Drogon livre para queimar.
Um som mais estridente começou a surgir do ermo, avultando-se sobre o crepitar. Dany voltou-se para frente, vendo uma coorte de pássaros surgirem, voejando e crocitando. Dessa vez, vivos.
Bran?
Por qual motivo seu cunhado mandava seu exército aviário para a boca do inferno?
Conforme se aproximavam do Wyvern os pássaros se dispersam mais e mais, mudando de direção, batendo as asas numa diagonal, indo até o solo onde se encontravam os inimigos.
O que ele está fazendo? Achava dificil que simples aves fossem capazes de deter – ou mesmo retardar – o exército inimigo.
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A Rainha observava o céu em chamas, observando a maldita serpente cuspir fogo. Maldição! Aqueles malditos seres podiam estragar todo o caminho que os deuses almejavam!
As aves revividas pouco foram capazes de ferir a montadora da criatura. Infelizmente, como conjeturou que seria isso que ocorreria, o bando no céu facilmente teve seus pequenos corpinhos queimados pelas chamas; vindo a espalhar o fogo entre si, graças à inflamabilidade de seus corpinhos. Agora, caso os Wights voadores não estivessem a espalhar as chamas entre si, estavam caindo nos corpos dos Wights terrestres, alastrando as chamas.
Vendo a ameaça iminente do fogo, a Rainha recuara durante o começo do ataque aéreo, quase um quilômetro de distância de onde estiveram antes. Gostaria de achar um arvoredo formado de árvores mortas; pois, apesar do risco de serem inflamáveis, ainda estariam longe da vista dos inimigos; infelizmente, os viventes de sangue quente provaram-se ter algum de inteligência, sem andarem ociosos, trataram de queimar ou recolher a madeira local. As árvores mais próximas estavam muito distantes.
Apesar de todo o percalço, a Rainha, usando de seus poderes e da conexão de mente que tinha com os seus irmãos-filhos conseguiu ver pelos olhos de outrem. As terras montanhosas, bem mais a leste, estavam começando a ser invadidas. Parece que estavam preparados para o ataque, pois estavam encouraçados de placas de aço e montados em cavalos igualmente protegidos; mas não usavam de armas de vidro de obsidiana, nem mesmo com tições; as armas eram todas lâminas aceradas, incapazes de parar a haste inimiga que se seguia, silenciosa, contra eles. Nem mesmo as montanhas eram capazes de pará-los.
O lado leste, mais montanhoso e gelado que o do Oeste, estava ainda mais tomado pelo povo da rainha. Em geral, estava mais esvaziado, com bárbaros sendo a maioria no território; alguns usando aço, outros, cobre, como as primeiras armas dos antigos clãs. Eram mais reconhecíveis para ela, como rever os tempos longínquos.
As chamas que consumiam os escravos revividos aproximava-se dela e de seus seguidores; as habilidades gélidas deles os ajudavam a barrar as chamas.
Como ela ordenara, ali ficaram. Estavam esperando os outros como eles se aproximarem.
— A besta não avança — observou Jonnel. De fato, a fera alada seguia queimando numa linha quase reta para leste, criando uma linha flamejante.
Seguindo o caminho certo. A nossa arma do norte se aproxima; logo há de apagar seu foguinho prepotente.
— Está furioso — comentou a soberana, observando a cena. Estava montada em outra aranha, que fora até ela quando invocada. — E mesmo estas feras nos temem. A menos que sua soberana ordene, ele ficara no limiar entre nós e nossos escravos.
Que queime!, pensou ela. Isso lhes dava tempo: mais de vinte sangue frios estavam unidos agora. Mais a leste dali, estavam quinze. A oeste, treze. Entre onde estava este grupo e a haste da rainha, estava um grupelho de nove. Quatro pontos. A ameaça vinda do norte corria para o sul.
Usando da teia invisível que conectava-a a seus filhos, ela ordenou que os vagantes que ainda estavam indo até ela se reunissem numa região perto do grupo na ponta leste. Cinco pontos de ataque. O vento estava mais perto.
Precisamos matar alguém do lado deles, ela pensou. Assim poderiam ter mais informações de alguma trapaça inimiga, mas achava difícil que o Corvo de Três Olhos fosse assim tão supérfluo; todos esses videntes eram capazes de trair os próprios aliados para obter a vitória.
Todavia, a rainha sabia que obteria algo de útil. Bastava apenas fazer o exército atacar de fato; para isso, o ser que queimava o ar tinha de ser afastado.
Quando o quarto grupo estava quase alinhado, uma crescente agitação surgiu: era o exército de sangue quentes, avançando contra a armada, assim que esta aproximou. De fato, quase não estavam tão perto da fortaleza; porém, como ela bem sabia que aconteceria, o inimigo tinha a cabeça tão quente quanto o sangue em suas veias. Simplesmente não suportaram manter-se longes. Começou a rir ante a percepção de que os viventes nada evoluíram.
Sentindo o mesmo divertimento de sua soberana, todos riram com ela. Uma risada cruel de gelo trincando.
Os risos morreram em seguida; a fúria avultou-se quando sentiram mais vida aproximando-se, numa onda quase infinda de mentes unidas.
Era o Corvo. A Rainha e seus vassalos sentiam sua mente em diversos pontos. Estava aprontando algo.
Deduziu ela ser o exército de corvos dele — a maioria com a mente desgastada de antigos wargs e troca-peles.
Por que ele faz isso? Ele sabe que as aves vão torrar!
Apesar da fúria, ela aguardou. O dragão agora avançava, provavelmente guiado pela sua montadora, voltando para onde estava antes, ainda cuspindo fogo. O brilho vermelho luzia à noite, em contraste com o luzir azul e frio dos olhos dos escravos.
As aves de ataque escavavam os rostos dos escravos no chão, impossibilitando o exército de usar a visão de alguns de seus escravos; os seres voadores também usavam suas garras e bicos para devorar a carne exposta dos Wights, atacando-os em grupo, rasgando o tecido até o osso. Nem mesmo o fogo os apavorava; os pássaros voavam, cegos e agonizantes, imbuídos pelas chamas, queimando quantos rivais podiam.
Apesar disso, a rainha e seus vassalos não deixaram de notar um detalhe segurados por algumas aves: em suas garras estavam obsidianas pequenas e afiadas. Era um grupo de ataque, vindo atrás dos atacantes suicidas, ignorando os mortos no chão.
A Rainha sorriu. Um ataque desesperado para destruir os Caminhantes do Gelo. Para a sorte do Corvo e sua comitiva, poderia ser eficaz — mas ela estava bem preparada; sua arma especial estava vindo, pegando uma boa velocidade, terminando de descer do Gargalo. Cada vez mais perto; cada vez mais rápido. E mais importante: mais mortal.
O exército de seres viventes vinha a toda velocidade contra os mortos, prontos para se chocarem. Os da frente eram todos montados em diversificadas montarias. Eles corriam para morto com uma estranha vivacidade; cheios de brio.
Voltando para perto de onde estava o castelo e seus defensores, talvez para auxiliá-los, vinha a fera alada, cuspindo fogo.
Estava na hora; a rainha deu sinal para todos os seus filhos, todos ergueram os braços. Lanças de gelo se formaram em ambas as mãos de todos os Sangue Frio — não apenas daqueles perto da líder suprema; todos os cinco grupos de ataque formaram lanças. Todos tinham apenas uma visão, graças à conexão divina.
Tinha de ser quando a fera não estivesse cuspindo fogo na direção deles. Tinha de ser quando estivesse exposta…
Para sua sorte, apesar de ter perdido a distração do ataque aéreo, os próprios pagãos de sangue quente trabalhavam a seu favor.
O exército de carne viva se chocou contra o exército de carne morta. Apesar de montados e valendo-se de armas, montarias e feras selvagens, o número não equiparava-se ao número de escravos dos vagantes. Alguns caiam das montarias; enquanto outros inutilmente enfiavam espadas e clavas pontudas na carne flácida. Era inútil: aço, bronze, pedra, obsidiana; nenhum era útil contra as mentes controladas pelos deuses antigos. Mais valia os que sabiamente usavam tições e archotes; pois incendiavam os corpos lânguidos e suas vestes velhas. Todavia, os escravos ainda continuavam, atacando os rivais, mesmo enquanto ardiam e se desfaziam.
(Momentos assim eram sempre uma mistura de alegria e irritação para a Rainha e seus vassalos e os seus deuses; as almas humanas sempre tentavam lutar contra seus mestres, tentando parar os ataques; mas era inútil — todos eram obrigados a servir os deuses. Não haviam escolhas aqui.)
A maioria morria garroteado; isso sempre deixava os olhos arregalados, boca escancarada, lutando por ar. Alguns morriam sendo agarrados por várias mãos, desmembrados, com as duras mãos puxando e repuxando membros; algumas até abrindo caminho pela carne, puxando tripas para fora. Os que mais gritavam eram os que eram pegos pelos Wights que foram pegos pelas chamas; logo eram agarrados por eles, imbuindo-os com o mesmo fogo. Essas eram as vítimas que mais gritava.
Não importava o quanto eles berrassem; no fim, tudo que restava era silêncio.
Enquanto os humanos se debatiam contra a muralha de wights, a serpente alada pairou por eles, girando no ar. Possivelmente o montador estava vendo se devia queimar os humanos junto dos mortos ou queimar os mortos-vivos mais à frente. No fim, não importava que decisão fizesse: a visão da Rainha e os lacaios estavam no Wyvern; e, mais importante, a ajuda do norte acabara de chegar.
Um borbotão veio cortando do norte, tão forte e imponente, que trazia consigo, como se fossem um espólio de guerra, os vestígios de sua viagem até aqui: pedras, árvores mortas, e uma extensa camada de neve.
Quando as lanças voaram, a criatura de fogo parecia estar mais agitada, talvez percebendo o perigo iminente. Não importava, as lanças a atingiram em alguns pontos. Um grito foi ouvido, mas logo sufocado pela ventania.
Os corpos dos Wights voaram como bonequinhas de pano; o mesmo ocorreu aos sangue quente, apesar de suas pesadas armaduras. A fera alada bateu as asas fortemente, mas elas apenas devem ter auxiliado a ventania a jogar o Wyvern para longe; a figura vermelha e negra foi arrebatada tão facilmente quanto as pessoas no solo, passando por cima do castelo, sumindo no sul. Os objetos carregados pelo vento se chocaram contra as muralhas e torres; derrubando as hastes dos exércitos inimigos.
Como um sopro potente da natureza, todas as luzes foram extintas. A escuridão voltou a reinar. A Rainha da Noite e seu séquito-exército permaneceram imóveis, intocados pelo vento corrido. Apenas seus longos cabelos balançavam, leves como que levados por uma simples lufada de vento. As joias da Rainha também tilintavam.
Usando a visão dos olhos dos Wights a Rainha conseguiu observar o campo de guerra: os vivos (humanos ou não) estavam em sua maioria caídos, feridos e/ou mortos; os portões, escancarados; a neve cobria uma altura de metros e mais metros do chão, de forma irregular.
Os deuses urraram de alegria com a visão.
Apesar do resultado faustoso, ainda não sentiram total júbilo: o dragão não estava morto.
Não importa, ela pensou, ainda estamos na vantagem sobre o maldito Corvo!
Sem perder tempo, as mentes escravizadas foram obrigadas a erguer-se, prontas para matar os Sangue Quentes que encontrassem. Por sorte, muitos acabaram sendo jogados dentro das muralhas pela ventania.
E estão prestes a aumentar de número.
Diversas pessoas morreram; isso significava mais escravos.
Os caminhantes do Gelo se uniram, tocando os corpos mortos, capturando as almas. Apesar de lutarem, era inútil; todos foram capturados, presos dentro de seus corpos mortos. Logo, eles rastejavam e levantavam-se do chão, prontos para atacar e matar.
Quando assimilou as mentes para dentro de si, a rainha no começo achou adquirir poucas informações úteis — até que absorveu aquela que poderia ser a chave para a vitória.
Os deuses entraram em total júbilo; os soldados de Sangue Frio voltaram a rir; a rainha concentrou sua força no imenso lago perto do castelo. A densa cobertura de gelo rachara devido ao golpe do vento, que levou os pedaços expostos dos navios e atingiu o superfície com pedras e madeiras. No fundo daquele lago congelado havia um presente que seu comparsa ainda vivo deixara ali para ela.
Ela agarrou a aura de fogo e fúria que ali descansava.
O gelo preservou a carne. Bom.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Quando seu filho deu um guincho de dor, remexendo-se, Daenerys acordou agonizando.
Sentia sua cabeça doer. Logo, conforme acordava, percebeu que quase todo o seu corpo doía; a exceção das pernas, que se encontravam dormentes pelo gelo. Forçou seus olhos a abrirem. A viseira estava amassada, coberta de neve, dificultando a visão. Um barulho intenso reverberava em seus ouvidos, machucando ainda mais sua mente.
Apesar da dor, mesmo atabalhoada, conseguiu aprumar-se, ergueu a viseira. Estava tudo um breu. Não conseguia ver nem o castelo à sua frente direito…
À minha frente?
Apesar da densa névoa e treva, podia ver um pouco da estrutura escura defronte onde estava. Sim, era como temia: de alguma forma, o vento a carregou para o outro lado do castelo.
Olhando para o lado oposto, percebeu um grupo de pessoas e um remexer de luzes; a maioria estava ferida, enquanto algumas tentavam correr das pessoas com olhos que luziam em azul intenso.
Apesar de atordoada, Dany logo entendeu a cena. Tinha que agir. Seu dragão…
Drogon remexeu-se, claramente ferido pela dor. Pareceu tentar erguer-se, mas parou, dando um ganhido longo e sibilante. Dany notou locais luminosos no corpo do filho, logo percebeu se tratarem de feridas. O sangue que escorria das aberturas da carne brilhava e fervia.
A visão foi como um mnemônico para ela; lembrou-se de setas atingindo seu filho, fazendo-o guinchar de agonia no instante seguinte. De repente, estava sendo arrebatada.
Olhou para uma das asas dele. Sim, havia um corte profundo da região coriacea, expelindo sangue e fumaça. A longa região membranosa e transparente estava rasgada.
Apesar de saber da dor de seu filho, Dany sabia que não podiam parar: o exército ao lado deles estava sendo massacrado; e o exército do outro lado devia estar ainda pior.
Voltou-se para frente, para pegar o berrante — foi quando percebeu que o objeto havia sumido. Soltou uma praga, furiosa. Bateu contra o couro de sua cela com a mão enluvada de cota de malha. Estava sem barrante, sem chicote; como poderia convencer seu filho a levantar-se e lutar?
Num chofre, Drogon começou a rugir e se remexer; batendo a cauda, espalhando neve e expelindo pequenos sopros de fogo pela boca.
Momentaneamente, Daenerys achou que ele estava furioso e indo para a batalha; mas logo percebeu que ele estava nervoso — eram guinchos de medo. Podia sentir o temor crescente em seu filho. O que era capaz de deixá-lo assim?
Ele ficou assim agora, ela percebeu. Teria demorado para lembrar o que ocorrera? Ou o exército inimigo estava por perto?
Daenerys tentou enxergar o que estava acontecendo; mas apenas notou o exército que precisava de sua ajuda sendo morto pelos seres de olhos azuis.
Esses corpos revividos queimam mais do que palha. Mas, mesmo que ordenasse que Drogon os queimasse com sucesso, teria de queimar os soldados junto…
Atordoada, ela precisava se concentrar, pensar no que fazer; mas os gritos dos vivos e de seu filho agonizante dificultavam ainda mais…
Foi o som de trovões que a paralisou, fazendo-a esquecer da dor e dos gritos. Sabia que barulho era aquele. Ergueu o olhar, fitando o céu negro, de onde neve caía. O som dos trovões aumentava; seu primogênito rugiu, parecendo ficar mais nervoso.
Rasgando o tecido de nuvens, uma sombra descia até o solo, engastada de duas estrelas cadentes azuis que queimavam. A boca era encrustada de diamantes negros.
— Meu filho… — sussurrou Dany, enquanto observava seu mais novo e falecido filho, Viserion, descendo ao encontro dela e do irmão, sem emitir qualquer som além do ribombar das asas.
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