O gelo embalsamou seu corpo. Podia lutar contra aquilo, cavar para sair; mas não tentou. Ficou onde estava, deixou o corpo prostrado. Deixou frio e treva tomarem-na. Diminuiu o batimento de seu corpo, deixando o fluxo quente que percorria por suas veias ficar lento.

A mente lúgubre e pesadelar dentro da sua lutava; ela ignorou. Deixou o gelo tomar conta dela. As vozes protestantes foram ficando distantes, se perdendo…

Abriu os olhos, farejou o ar local. Cheirava a morte e frio. Gritos e gemidos ressonavam no ar. Tremelicou o corpo, jogando uma camada de neve para longe, como fazia quando saía de um rio e expulsava a água. Varreu o local com sua visão aguçada; estava tão escuro que nem mesmo sua visão conseguia enxergar através do véu costurado de brumas e trevas que cobria o mundo.

Saindo da neve grossa que cobria o chão, membros de sua matilha brotaram do solo, balançando suas cabeças e corpos para retirar a camada branca dos pelos, como ela fizera antes. Alguns humanos tentavam sair da neve também. A maioria com menos agilidade do que os animais. Os mais atabalhoados eram os animais de casco, soterrados pela camada grossa de flocos. Os felinos, aqueles com pelo escuro e linhas alvas sinuosas, tinham gestos delicados e assaz, saltando da neve sem grande dificuldade.

Havia outra coisa levantando também: eram como os andadores e até aos animais; porém não eram o que aparentavam: o cheiro de morte enregelante e o brilho febril nos glóbulos oculares revelavam a verdade; eram escravos dos andadores de gelo.

Seus pelos se eriçaram. Ao ver aquilo, lutou contra o medo dentro de si. O instinto antigo de sobrevivência lhe dizia para fugir, salvar sua matilha. Contudo, ela não bateria em retirada. Não deixaria o fedor do medo lhe abater — ela era quem instaurava o medo nas presas. Era predador; presa, nunca.

Vendo as luzes erguendo-se da neve, os corpos lânguidos lutando para sair da neve, a loba arreganhou os dentes, rosnou, mostrando a fúria que tinha de tais seres rastejantes. Sabendo que sua matilha estava dispersa, podendo bater em retirada ou morrer pelas estranhas criaturas, jogou a cabeça para trás, apontando o focinho para o céu, uivou. Toda a sua matilha a ouviu; atentos, foram até ela; mesmo os que estavam quase enterrados na neve lutaram para sair.

Algumas pessoas lutavam para sair da neve, alguns tentavam acender tochas, enquanto outros lutavam contra os vagantes mortos com aço, bronze e obsidiana. A loba sabia que eram armas inúteis — tomou a frente, correndo com suas patas fofas na camada de flocos; saltou contra um homem de olhos azuis, enquanto este atacava um outro homem, que inutilmente usava espada para se defender — o aço estava quase que completamente engolido pela barriga do revivido atacante quando a loba se chocou contra ele.

A carne tinha um gosto de podre congelada; era endurecida pelo clima frio. Apesar disso, ela não soltou; nem quando ambos caíram no chão. Os flocos dançavam em volta deles enquanto os dentes de lâmina cega do animal arrancavam pedaços do pescoço da criatura. Sangue preto fluía aos poucos, enjoando-a. Balançava a cabeça enquanto fincava os dentes, para garantir que bastante carne se soltasse.

Quando terminou, o corpo estava decapitado, com a cabeça a alguns centímetros do pescoço destroçado; isso, porém, não impedia o corpo de mover-se — as pernas e braços se debatiam, enquanto a cabeça ainda tinha duas estrelas no lugar dos olhos. A espada do homem que aquele ser havia atacado ainda estava perpassada na barriga, sem parecer sequer incomodar.

(Como matar essas coisas?)

Com seus sentidos em alerta, a loba virou-se: estava cercada. Mais de vinte daquelas coisas sombrias capengavam até ela. Seu pêlo voltou a arrepiar-se. Eram lentos, mas muitos; a escuridão os escondia.

O humano ao lado dela gritou. Quando dardejou os olhos até ele, percebeu que três daqueles seres o agarravam; um apertando-lhe o pescoço, enquanto outro agarrava as laterais da cara. O terceiro agarrava-lhe um dos braços.

Voltando-se para as figuras à sua frente, voltou a rosnar, abaixando um pouco a cabeça. Os inimigos nem sequer vacilaram ante sua imagem de ataque iminente. Eram mais de vinte agora; o número aumentava a cada instante, saindo das sombras e névoa. Variam de gênero, tamanho, idade. Boa parte usava roupas puídas, enquanto outros nem roupas tinham.

Vindo a seu auxílio, a matilha logo veio a derrubar os de olhos brilhantes. Esses caíam como bonecos de pano ao serem atingidos pelos lupinos; a carne rasgava tão fácil quanto. Braços, pernas e cabeças eram logo arrancados, até que os corpos ficassem inúteis.

Apesar de um aparente sucesso, não tardou para a quantidade superar a agilidade. Um lobo, preto, um dos maiores e mais robustos da matilha, enquanto separava um braço dum corpo, foi surpreendido pelas duras mãos que agarraram seu couro cabeludo. Virou-se, rosnando, mas era inútil; logo os corpos caíram em cima, agarrando, puxando, repuxando, indiferentes a suas mordidas, imunes a dor. Por fim, o lobo ganiu, enquanto era escalpelado; a carne começou a ser rasgada, enquanto o pobre animal era virado de barriga para cima; as quatro patas eram agarradas, torcidas. A macia carne foi irrompida pelos dedos escuros; sangue quente jorrou, enquanto as tripas eram puxadas para fora. O lobo parou de fazer qualquer som. Seus crueis algozes apenas o largaram quando ele parou de lutar, deixando as tripas e sangue escorrerem.

Aquele lobo não foi o único; diversos da matilha pereceram — nenhum fugiu do perigo, porém. Todos corriam em direção a ele.

Os homens e mulheres começaram a sair em quantidade do imenso aro escancarado da imensa construção de pedra. Alguns com tochas na mão. A grande maioria do lado de fora, ainda atabalhoada e ferida, cai com facilidade contra o inimigo… e levanta-se logo em seguida, unido a ele.

Os que tinham a capacidade de unir-se à mente de animais parecia ter alguma vantagem maior: lobos, felinos, ursos, alces; todos esses, que não estivessem mortalmente feridos pelo golpe de neve, estavam formando uma barreira contra os que aproximavam-se.

Apesar de sua visão esmaecida, a loba podia ouvir os gritos de pavor longínquos, no grupo à frente. O barulho era alto, machucava seus ouvidos; mas o mais preocupante era o quanto estava diminuindo. Estavam perdendo a matilha de humanos.

Vendo que uma nova tática devia de ser tomada, a líder da alcateia — que estava sobre o corpo quase todo desmembrado agora, de um ser que ousara agarrar a sua cauda enquanto ela estava distraída —, chamou os seus. Todos os lobos que a seguiam como sua líder deixaram seus ataques individuais de lado; cerca de quase uma centena de lobos estava com ela em alguns instantes.

Em seguida, atacaram em grupos: cinco lobos contra um; dez contra três; e por aí vai… assim, apesar de ainda vulneráveis, conseguiam ter uma proteção maior do inimigo.

O lobo solitário morre, mas a alcateia sobrevive.

Com suas lentes aguçadas, percebeu quando um urso saltou do ambiente neblinado, com metade da cara faltando (mas ainda mantendo os dois olhos brilhantes como gelo ardente), e quase arrancou a cabeça de um homem com um golpe de sua potente, quase do mesmo tamanho da cabeça de sua vítima. A carne da pata do predador estava quase toda carcomida; as garras pareciam maiores do que tinham direito de ser, expostas até o osso.

A Loba olhou para o animal com fúria. Rosnou, arreganhou os dentes para ele, como fazia quando outros lobos desafiavam-na. O animal invasor pareceu notá-la, pois ficou em pé nas patas traseiras. Sua pele rosada estava bem exposta em várias partes onde o pelamo havia sido escalpelado. O alvo da loba estava bem ostentada: a barriga. Todavia, sabia que não seria tão eficaz; seus companheiros tinham de arrancar tudo que os dentes pudessem.

O vento frio fez o pelo de seu corpo esguio dançar quando saltou para atacar seu inimigo. A boca e os dentes se fecharam contra a carne densa e fria do inimigo; seus companheiros fizeram o mesmo gesto. Apesar de um tanto dura pelo frio, as presas rasgaram a carne com facilidade, como uma agulha de marfim fura um pano de brim cru. Foi preciso muita força de vontade para não liberar as mandíbulas; o gosto era nauseante. Seu focinho acabou veio a afundar na barriga exposta, aberta. Como fedia!

O imenso animal tombou, cercado de lâminas cegas que destruíam sua carne. A líder da matilha arrancou o intestino, puxando o que tinha o aspecto de vermes pretos. Largou-os no chão. Seu irmão de matilha destruía o restante da face do animal, enquanto duas lobas acabavam com o braço que quase decepara a cabeça de um homem. O outro era arrancado por um lobo gigante, um de seus filhotes — que crescera pouco além de um lobo sulista, tendo uma pelugem negra, como azeviche, que a fazia lembrar de seu falecido irmão de sangue.

Uma mulher que usava peles de urso e couro curtido foi disparada até o urso caído, que ainda debatia-se, e imbuí-o em fogo ao tocá-lo com uma tocha. Logo o corpo virou um fulgroso ponto tremeluzente.

A imensa Loba e os outros de sua matilha se afastaram assim que viram a mulher chegando. Enquanto os outros lobos batiam as patas na neve, indo até outros inimigos, a líder foi até perto de seu filhote. Este foi até, aguardando sua chefe-mãe dar o próximo passo. Era grande, essa sua prole. Crescera mais rápido do que ela; talvez, quem sabe, os deuses o fizessem até maior que ela.

Sua prole estava bem dispersa; esta já era sua terceira. Seus instintos a fizeram aguardar até o fim deste inverno estranho antes que tentasse ter mais filhotes. Muitos machos da alcateia morreram assim que tentaram, para que a mensagem fosse passada.

Lambeu o focinho escuro de seu filho, que aceitou o gesto com felicidade resignada. Não estava tão acostumado a batalhas como o resto da matilha e dos irmãos mais velhos, mas estava se saindo bem.

Ao ouvir um grito distante, a loba-mãe parou o que estava fazendo, deixando de pensar na batalha. Como todo o local era uma confusão de gritos e espadas, ela teve dificuldade para encontrar a origem da exclamação. Farejou o ar. Vendo a tensão na matriarca, seu filhote replicou o gesto. Apesar da confusão da ventania, do redemoinho de odores dos vivos e mortos, e do odor acre da fumaça, conseguiu captar a direção cheiro que buscava.

Virou-se, sendo seguida por seu filho, atravessando a neblina. Seus corpos ágeis saltavam ou empurravam aqueles que se colocavam em seu caminho; fossem aliados ou inimigos. Homens e animais tombavam em grande parte; os mortos caminhavam, mesmo queimando, indiferentes as armas que perfuravam seus corpos.

Teve um vislumbre de uma luz embaçada, cerca de uns bons metros à frente, onde o irmão de duas patas perpassava os corpos dos mortos com sua espada temperada da luz da aurora, imbuindo todos que cortava com fogo.

Os homens que usavam vestes vermelhas jogavam bolas de fogo no inimigo, murmurando falas que os ouvidos aguçados da loba. A luminância das chamas lançadas cortavam o breu e neblina, com algumas sumindo na escuridão distante.

Setas caiam do céu, algumas até imbuídas em chamas, caindo a esmo, atingindo tanto vivos quanto mortos. Alguns dos vivos que foram mortos logo acabavam por ressurgir; mas não por muito tempo — as flechas flamejantes acabavam por incendiá-los.

O coração da imensa loba estava parecendo prestes a explodir, o corpo queimava pelo vento que avançava contra ele, quando ela encontrou a figura que procurava: o homem jovem, alto, beirando aos trintas, mas de aparência mais velha; cabelos negros como a noite, com raízes ruças; rosto endurecido como ferro após passar pela têmpera.

(Gendry.)

O cavaleiro tentava se defender contra os corpos que avançavam, claudicando, até sua figura. Ele segurava o punho de uma longa lâmina escura com um dos braços; enquanto o outro estava caído, talvez ferido. Havia uma mulher com peles ao seu lado, apontando uma lança de ponta de obsidiana para os inimigos, que estavam indiferentes à ameaça.

A tola mulher avançou, enfiando a lâmina no olho azul de um dos corpos claudicantes. A lâmina em forma de folha se quebrou, mas foi capaz de atravessar o crânio podre, rompendo a nuca, saltando para fora.

Foi uma ideia tola; o defunto agarrou a haste de madeira com as mãos escuras. Puxou, tentando arrancar das mãos da selvagem, sem se importar em destruir a própria cabeça. A tola mulher tentava puxar a lança de volta; outro gesto baldo — uma criaturas imorridas, de olhos como estrelas, agarrou pelo pescoço. Sor Gendry tentou libertá-la, cortando a cabeça do atacante. Como era óbvio, pouco servil o golpe — a cabeça caiu, sem espirrar sangue, o corpo nem pareceu notar, ainda agarrando o pescoço da selvagem, que engasgava e parecia perder a força das pernas. O outro morto, com a lança na cara, avançava, lento, contra ela.

Antes que ele mesmo fosse atacado, Sor Gendry se virou para um terceiro defunto que se aproximava. Mesmo com apenas um braço parecendo ter força, conseguiu ter têmpera o bastante nele para golpear o algoz — a lâmina desceu, indo da cabeça podre até a virilha. Apesar de desajeitado no gesto, foi capaz de derrubar o alvo.

Virou-se para a mulher atacada — tarde demais para ela; estava ajoelhada no chão, com as duas coisas agarrando, torcendo, o pescoço dela. O cavaleiro só teve tempo de ver as quatro mãos largando a garganta, deixando o corpo cair.

Quando as duas feras se viraram para ele, a alcateia da Loba saltou para cima deles. Os dois corpos foram derrubados, os animais começaram a desmembrá-los.

A líder não se uniu a eles, apenas diminuiu os passos, observando a poucos metros. Estava sentada nas patas traseiras, parecendo ignorar a fúria de fogo e morte ao seu redor. Nem os gritos pareciam audíveis.

Olhou para o cavaleiro com seus olhos de âmbar; alto, confuso, fitando os lobos. Quando ele a notou, apenas ficou a fitando de volta, confuso, aturdido. Seus olhos tempestuosos despertavam sentimentos estranhos nela. Sentimentos de saudade, carinho, culpa, paixão.

Ambos se olharam por um tempo. Atrás do alto cavaleiro, chamas pareciam surgir, enquanto outros guerreiros tombavam contra o inimigo. Uma auréola surgia acima dos cabelos do cavaleiro curtido.

— Nymeria — ele sussurrou finalmente, chamando-a pelo nome que era e não era dela. (Quem era ela, afinal? Nem sequer sabia responder.) Pequenas fumacinhas pálidas se formaram ao pronunciar as palavras; sumiram num instante. Ele caiu de joelhos na neve, com uma expressão ferida. Os lábios, tremendo. O braço que segurava a lâmina soltou o objeto, deixando-a de lado. O outro ainda pendia, balançando levemente, mole.

A loba aproximou-se dele. Ao ver que os olhos dele estavam cheios de lágrimas, lambeu-o mas bochechas. Sentiu a pele áspera, junto de um pouco de sal. O cavaleiro nada disse, apenas lhe afagou os pelos. Ambos olharam-se por um tempo; amarelo-escuro contra azul-escuro. A neve caía, cobrindo-os num debruado branco delicado e gelado, enquanto os outros lobos que estavam ao lado deles estavam voltados para o norte, arreganhando os dentes contra os inimigos. Sem parecer notá-los, ambos abaixaram as cabeças, tocando as testas, selando as pálpebras. O homem ainda afagava a parte de trás da orelha dela com dedos calosos, carinhosos.

— Arya… — sussurrou ele, enquanto começava a soluçar. — Minha Lady…

(Gendry.)

Ao ouvir seu outro nome (seu verdadeiro nome!) a Loba abriu os olhos, afastou-se dele, caminhando poucos metros além de onde estavam. Ouviu o cavaleiro grunhindo, provavelmente pela dor de tentar se levantar. Alguns dos lobos deixaram sua guarda, indo até sua líder.

Farejou o local, focinho perto do solo de acúmulos de flocos. Sim, ainda estava ali. Começou a cavar, sendo seguida por seus outros companheiros, embora eles provavelmente nem soubessem do que se tratava.

Confuso, o Cavaleiro andou até perto do local, novamente com a escura lâmina sendo segurada por seus dedos calosos. Os veios vermelhos pareciam pulsar com o reflexo das chamas da batalha nele. Os lobos ignoram, continuam a escavar a densa camada de neve.

Enquanto escavavam, os soldados passavam por eles. Muitos tinham tochas nas mãos, ao invés de armas de aço, bronze ou qualquer coisa do tipo. Os lobos os deixavam passar, assim como o homem com cicatriz polvorosa na bochecha.

Quando suas patas sentiram roçar em algo mais duro, a Loba percebeu ter achado o que queria. Depois de desenterrar um pouco mais, mordeu, delicada, a parte exposta. Andou para trás, puxando o corpo para fora. Foi rápida, pois sabia que o inimigo logo se ergueria contra eles.

Sua alcateia a observava, acompanhando sua líder tirando o corpo da mulher da neve.

— Pelos deuses… — murmurou o homem, enquanto o corpo era deixado perto dele. A loba soltou o pulso coberto de lã e couro. Observou o jovem homem se ajoelhar, olhando para a fêmea de bruços. A memória de sua mãe, pálida, de bruços no chão, voltou como um golpe no fundo da cabeça.

A moça estava viva, embora não parecesse. Apenas uma coisa a acordaria…

— Arya! — Uma voz a chamou.

Tentou respirar quando sentiu deslizar de volta a sua pele real. Ao engasgar, tossiu, cuspindo um pouco de neve. Abriu os olhos, fracos, tentando focar nas imagens embaçadas que surgiam. Moveu seus dedos (tanto do pé quanto da mão), duros, frios, quase congelados; mas sabia que não haveria qualquer parte preta em seu corpo.

— Arya!

Quando sua visão melhorou, percebeu a face de Sor Gendry. Seu rosto era feio, envelhecido, até um pouco assustador. Mas seus eram mais carinhosos, apesar de parecerem duros e brutos.

— Arya! — exclamou ele, lábios tremendo, lágrimas a cair no rosto alongado dela. Estavam bem quentinhas. Arya não o respondeu, sentindo sua mente doer, como se cem vozes estivessem falando ao mesmo tempo. Pareciam estar agitadas.

Quando algo se aproximou, ela relanceou os olhos cinzentos, encontrou os olhos de âmbar de sua loba. Ambas se olharam, emudecidas. A mente de Arya pareceu acalmar-se naquele mar dourado-escuro. Sua fiel companheira abaixou a cabeça até ela. Arya esticou um braço, até tocar no focinho escuro dela. Em retribuição, a loba lambeu a mão enluvada.

— Como? Como…? — Gendry parecia incapaz de finalizar a frase. A som da voz era sufocado pelos gritos (gritos de bravura e/ou medo) das pessoas em batalha. Lágrimas riscavam-lhe o rosto. O cenho, franzido.

A princesa voltou a fitá-lo. Limpou a garganta, recompondo suas forças ao pouco.

— É uma prática — respondeu enrouquecida, como se fosse algo simples. — Não estava morta; meu corpo estava… dormindo. Um sono da morte.

Ele ainda a olhava com confusão. Afagou-lhe o cabelo, afastando o acúmulo de neve.

— Arya… Graças a luz de R’llhor… Eu… Eu pensei…

Nymeria se virou, atenta, para o Norte, junto dos outros lobos. Os gritos mais distantes pareciam ter sido abafados.

Estão se aproximando. Ela não sabia como tinha esse conhecimento, mas sabia o que estava vindo até eles. Apesar de tonta, sentia que sua mente estava mais calma agora.

O sono da morte, refletiu. Foi como morrer; o corpo funcionava de forma mínima, de modo que qualquer um acharia que estava morta, mesmo se fosse um meistre habilidoso. Era para ela estar nesse “encasulamento” até que alguém a recuperasse; porém, quando deslizou para sua fiel loba, deixou ele oco, para as mentes ficarem livres. O transe as deixou presas bem no fundo da mente de Arya. Quando ela voltou, parecia que estava num mar de personalidades; agora, porém, todas estavam caladas. Imaginou que a auto-hipnose, apesar de demorar, as calou de vez. Foram incapazes de irromper do sono — fosse por serem incapazes ou medo de morrer sufocados —, ficando presas no fundo da mente, tal qual a mente de Arya devia estar.

Estava livre — pelo menos por agora.

— Arya — grunhiu Gendry, com expressão de dor —, não posso levá-la para dentro agora. Você entendeu? Não podemos voltar agora. Por isso preciso que você fique firme para lutar.

Sem responder, com certa dificuldade, levantou-se. Seu corpo voltava à vida. Alguém esbarrou nela, gritando, com um machado de guerra velho. Não era um inimigo, apenas um nortenho desvairado pela guerra. Teria derrubado Arya, não fosse Sor Gendry, já quase empertigado, que a impediu de se desequilibrar.

— Estou pronta — falou ela, percebendo que seu equilíbrio voltava. Sentia o sangue voltar a correr mais quente, mais rápido, graças ao coração que voltava a pulsar mais forte, um tanto mais rápido. Abriu e fechou os dedos, observando-os se moverem de forma normal. Por fim, levou a mão até o cabo de sua pequena espada. Sua Agulha ainda estava lá.

Ao virar para seu amante, Arya notou o braço dele. Estava balançando, com um corte no tecido da manga que o cobria; apesar do sangue, não parecia ser grave. Isso explicava a dor no rosto dele.

Ao ver que ela notou o ferimento, Sor Gendry começou a falar:

— Quebrou quando o vento… AAARRGHHH! — Uivou de dor quando ela o colocou no lugar. Foi tão rápido que ele nem sequer viu os dedos dela saltando até o ombro deslocado. O cavaleiro caiu de joelhos, largando o cabo da espada, levando a mão até o ombro recém realocado.

— Desculpe — disse ela, observando ele gemer de dor. Falar para ela ainda era complicado; mas logo a garganta voltaria ao normal.

Grunhindo, Sor Gendry se levantou, ainda com a grossa mão no ombro. Flexionou o braço e os dedos da outra mão, parecendo ter dificuldade ao fazê-lo. A cara estava torcida de dor.

Arya pegou o cabo da espada caída enquanto ele se levantava. Ofereceu para ele.

— Eu estou pronta — falou ela, esperando-o pegar a lâmina. — Mas preciso que você também esteja, Sor.

Sor Gendry olhou-a por um tempo, como se fosse uma desconhecida desvairada, não falando coisa com coisa. Por fim, assentiu, pegando a espada.

Arya virou-se, indo até o buraco que Nymeria havia escavado para desenterrá-la.

— Que porra você vai fazer? — indagou seu amante, parecendo indignado com o gesto.

— A agulha não é capaz de ferir o que está por vir — falou ela, agachando-se, começou a cavar a neve. Virou o rosto, falou sobre o ombro: — Me proteja!

Ele franziu o cenho, ainda parecendo estar com dor e confusão.

— O quê?

Ela o ignorou, voltando a cavar. Sua loba se prostrou ao lado dela, alerta, observando qualquer um que se aproxima-se.

Sor Gendry se virou, observando a densa parede embaciada. Perto dele, luzes baças de fogo eram vistas, enquanto bolas de fogo eram lançadas por trabucos, passando pelas muralhas, sumindo no norte. Apesar dele quase não conseguir ver nada, o cavaleiro de Colina Oca ouvia os gritos dos humanos perto das pessoas e animais perto dele.

Olhou para os quatro corpos perto dele (os mortos que o atacou e a selvagem que tentara protegê-lo); todos ainda tinham braços e pernas se movendo, mas lentos. Até mesmo a selvagem, também mutilada pelos lobos, estava movendo seus braços e pernas. Eles o olhavam, fitando-o com seus olhos azuis.

Sor Gendry engoliu seco. Ambas as mãos apertavam o cabo, mas a mão esquerda estava dolorida, assim como o braço. Suava em bicas. Estava suando em bicas, mesmo estando com frio.

Os lobos ao redor dele rosnaram em diversas direções. Não sabia para onde olhar. Luzes azuis, como estrelas distantes, começavam a brotar, aproximando-se, ficando maiores.

Estamos cercados, percebeu. Sua cabeça parecia ter levado marteladas, assim como seu braço.

Deu um grito ao sentir algo esmagando seu tornozelo. Ao olhar para baixo, na direção de onde estava sendo agarrado, percebeu que era um dos malditos braços dos mortos idiotas que haviam-no atacado. Irritado, chutou a merda do braço para longe. Dois lobos saltaram para cima do membro, o dilacerando. A alcateia ficou numa algazarra. Alguns saltaram para a neblina.

Ao erguer o olhar, Sor Gendry notou mais das luzes azuis se aproximando. Estavam ficando maiores. Maiores, maiores… ganhando forma, cada vez mais próximos…

Uma estrela de fogo dourado pareceu explodir bem diante de seus olhos, fazendo-o virar a cara, fechando os olhos, pela intensidade do rebrilhar. O calor o atingiu como um chofre, mas não o afetou. Ao abrir os olhos, voltando a olhar para frente, as figuras estavam ardendo. Uma tombou perto dele, com a carne sendo consumida pelas flâmulas.

— Sor Gendry! — O sotaque da exclamação dele era pesado, aveludado.

Ao virar-se, notou a alta, bela, temível Senhora Melisandre. Seus olhos sanguíneos, assim como seu rubi, brilhavam com o lume das chamas. Suas vestes escarlates pareciam quase que igualmente incandescentes; estavam dançantes, ondulantes, pelo vento, fazendo um som farfalhante. Seu cabelo afogueado também eram ondulantes como labaredas. Sua pele marfim parecia brilhar de dentro para fora naquela escuridão. Ela toda era um ser de luz.

Ao lado dela, o galante Sor Edric, junto de um homem alto e feio de doer que Sor Gendry reconheceu como Sandor, carrancudo, olhando feio para o cavaleiro.

— Está com meu capacete — resmungou o Cão. A carranca retorcia ainda mais a sua cara.

Gendry, inicialmente sem entender, franziu o cenho, até lembrar que pegara o elmo com forma de cão de caça.

— Ah… — foi tudo o que conseguiu falar. Estava tonto pela dor; seu braço latejava.

Sor Edric foi até ele, com seu cabelo esvoaçante o seguindo como uma onda de popelina.

— A batalha ainda não está perdida, Sor — falou ele, com a voz musical que sempre tinha. Seu cabelo dançava, seus olhos ardiam em púrpura, como que engastados de ametistas brilhantes. Suas bochechas estavam avermelhadas pelo frio. Devia ter corrido bastante; a pele brilhava pela perspiração, enquanto a boca soltava várias pequenas nuvens de fumaça. O dornês o tocou no ombro. — Mas temos de nos preparar para o pior. Temos que ficar focados.

Sor Gendry o fitava, confuso. Achava-o bonito, mas não sentia o que aquele dornês sentia por ele; todavia, entendia o porquê Arya se aproximara tanto daquele lordezinho. Nem devia estar pensando nisso, estava numa batalha. No campo de guerra. Mas sua cabeça espiralava para todos os cantos…

Desviou o olhar engastado de Edric, vendo as chamas ao seu redor. O fogo crescia, ficando mais visível. Os corpos queimados logo tombavam, enquanto outros bolas e setas de fogo saltavam das muralhas.

Era lindo, pensou ele, absorvendo a graça luminosa de seu deus. Fechou os olhos, sentindo que o Deus da Luz estava com ele. Sua fé era tamanha, que até a dor de seu braço pareceu diminuir.

— Sor? — chamou Edric, estranhando o silêncio de Gendry.

— Não podemos perder tempo! — rosnou Sandor.

O cavaleiro da Colina Oca abriu os olhos. Parecia ter um olhar baço, anuviado, enquanto suava mais. O rosta pareceu perder a cor. Gendry sentiu-se num estupor.

— Oh, pelos deuses… — ralhou Sandor. Melisandre foi até o cavaleiro.

— Deixai-me cuidar de seu ferimento, Sor. Não temos tempo a perder; devemos achar o Rei Stannis e o Rei Jon.

Edric olhou em volta, agitado. Voltou-se para seu companheiro.

— Arya, onde ela está? — apertou o ombro dele, balançou. — Sor, onde ela está?

Gendry franziu o cenho, grunhindo, enquanto a sacerdotisa pegava em seu braço ferido. Olhou para Ned, confuso, como que acabando de acordar.

— Hmm?

O Lorde de Starfall, perdendo as estribeiras, agarrou-lhe por ambos os ombros, fazendo o ferreiro-cavaleiro sentir uma dor aguda.

— Gendry, onde está Arya?

Sandor berrou:

— GAROTAAA!

— Aqui! — Arya parou o que estava fazendo, virando o rosto para gritar: — Aqui!

Nem estavam longe de onde ela estava, mas a neblina densa os impedia de se ver. Virou-se para a loba:

— Vá até eles. — Apesar de alerta, sua loba fez o que a dona mandou, sendo seguida pelos outros dois lobos, sumindo na névoa.

— Arya! — era a voz de seu estúpido marido.

Ela fez um muxoxo irritado, mas o ignorou, voltou a enterrar os dedos na neve…

Parou. Sentiu um arrepio. Ergueu o rosto — luzes azuis surgiam; sombras ganharam formas. Ela respirou fundo, deixando eles virem até onde estava. Continuou a cavar, parecendo nem reparar que eles estavam chegando perto.

Por fim, finalmente achara o objeto que queria: um tipo de bastão — não, uma lança, na verdade. As duas extremidades tinham lâminas de obsidiana (por sorte estavam intactas, à exceção de uma cujo lume estava com uma parte faltando, mas ainda tinham um aspecto pontudo bem afiado).

Puxou o objeto, pousou-o no chão ao seu lado. Era inútil contra aqueles escravos mentais.

As figuras estavam mais pertos; permaneceu onde estava. O odor enervante de gelo morto estava mais forte, assim como as luzes azuis. Uma das figuras era gorda, desajeitada além da conta, usando trapos puídos e negros; uma era uma mulher nua, com um seio faltando, mostrando a parte interna preta, coberta de neve; o terceiro tinha uma aparência mais amena: um careca, olhos grande… a única diferença era a falta da mandíbula e do maxilar exposto. A quarta era mais simples; um rapazote que não devia ter mais de 16 dias de seu nome, não tendo nada além de um manto de esquilo carcomido, revelando um corpo desnutrido, delineado pelas formas dos ossos internos que pareciam prestes a rasgar a carne fina e azulada.

Ouviu som de passos. Sabia que não eram dos mortos; eles não faziam som algum. Eram puro silêncio.

— ESPOSA! — exclamou Ned, mais perto dela. Não sabia se gritava sem vê-la ou se estava tentando avisá-la dos inimigos.

Não importava, os três algozes estavam onde ela queria.

Num chofre, ergueu-se; sua perna esquerda chutou o careca sem mandíbula, arrancando-lhe a cabeça. Enquanto isso, agarrou o pescoço magrelinho da mulher nua com uma das mãos, quebrando-o, fazendo a cabeça dela ceder, quase caindo, ficando dependurada. Os golpes não foram capazes de matá-los (ou qualquer quer que fosse o termo correto para derrubar de vez aquelas coisas), mas foi capaz de derrubar o Careca no chão, retardar a Mulher Nua.

Quando estava aprumada novamente, virou-se para o rapazote. Tanto ele quanto o Gordo e a Mulher Nua (agora com a cabeça de cabeça para baixo, mas ainda firme em sua caminhada lenta) avançavam até Arya. Quase que mais rápida do que os olhos comuns eram capazes de acompanhar, deu um passo em direção Rapazote, esticou os braços, deslizou as mãos até agarrar os pés do morto-vivo magrelinho. Concentrando suas forças nos braços e nos dedos, agarrou os calcanhares. Girou sobre si, erguendo o rapazote, usando-o como uma arma contra o balofo que glauticava até ela. O chofre potente derrubou-o num instante; mas ela não parou de girar o rapazola, usando-o contra a Mulher Nua, derrubando-a de vez (e fazendo a cabeça soltar-se de vez do corpo). Por fim, finalizou o próprio Rapazote ao soltar seu corpo (agora praticamente destruído pelos impactos que sofrera), deixando-o bater contra o chão, que, apesar de cheio de neve, esmagou os últimos ossos do corpo que ainda restavam.

Aquele ataque insano serviu para acordar o seu corpo do transe que ela sofrera outrora. Flexionou os dedos, sentindo-os leves. Seu coração não estava agitado, tendo dado poucas batidas desde que Arya atacara os estranhos revividos. Deu um sorriso lupino, sentido que finalmente estava de volta a si.

Virou-se em direção ao seu marido. Ele e os outros companheiros a olhavam, surpresos com o que ela acabara de fazer.

— Santa Mãe no céu… — disse Ned, fitando sua esposa. Seu queixo estava caído, formando um “O”.

— Puta merda! — exclamou Sandor, olhando para os corpos mortos. — Como caralhos fizeste isso?

Sor Gendry, também surpreso por tudo, olhou para baixo, apontou:

— Cuidado! Um ainda está…

Antes que ele terminasse de falar, ou que Arya pudesse golpear o outro inimigo, Melisandre ergueu uma mão; labaredas estouraram ao lado da princesa, que saltou para longe no mesmo instante. Era o Careca sem mandíbulas. Os outros corpos também estavam ardendo.

Melisandre abaixou o braço.

— Não temos tempo a perder — falou a sacerdotisa. — A escuridão maior se aproxima.

Sandor a olhou de esguelha.

— Como assim se aproxima? Ela já está aqui!

— A Rainha da Noite — disse Arya, caminhando até o grupelho. — É dela de quem ela fala.

Sor Gendry franziu o cenho.

— Rainha da Noite?

— A Serva do Grande Outro — falou Melisandre. — Ela é quem suas lendas chamam de “Rainha da Noite”.

Arya olhou para a sacerdotisa estrangeira.

— Que fazemos?

— Vocês — disse uma outra voz estrangeira, saindo das neblinas, mas vindo da direção em que Harrenhal se encontrava (embora sua imensa figura estivesse baça, tamanha a bruma densa, quase impossível de ver) — Procuram os reis, ficam atrás de nós e continuam a luta.

Era Benerro, o sacerdote supremo do Deus Vermelho. Ao seu lado, Moqorro. Outros sacerdotes e sacerdotisas saltavam das névoas. Em frente a eles, vinham os soldados da Mão Vermelha, passando por outrem no caminho, cortando a escuridão com suas lanças flamejantes.

Parecendo nem ver o grupelho, todos passaram por eles, com suas vestes carmesins brilhando como se tecidas por fogo. Melisandre os seguiu, deixando os companheiros.

— Que farão eles? — perguntou Gendry, olhando para Arya. Esta nada respondeu, apenas deixou sua loba, Nymeria, se aproximar; afagou-lhe as orelhas, enquanto olhava para grupo sacerdotal se distanciando.

— Sentiram isso? — falou Arya, sentindo um tremor surgindo, como uma onda nos pés.

Os homens se viraram para ela.

— O que? — indagou Gendry e Ned.

A princesa sentiu a onda aumentar. Sua loba virou-se num instante, arreganhando os dentes para a neblina.

O tremor aumentou, todos os homens se desequilibraram (exceto Arya), algumas pessoas por perto correram; dessa vez, até alguns dos lobos da alcateia de Nymeria correram, enquanto alguns ainda se mantiveram. Seis estrelas surgiram alguns metros deles, alguns metros acima de suas cabeças.

— Ah, merda… — xingou Sandor, retirando a espada da bainha, enquanto observava os gigantes peludos se aproximarem deles. — Onde estão os malditos fanáticos do fogo quando se precisa deles?

Melisandre, sem nada falar, seguiu Benerro e os outros seguidores de seu Deus até a linha onde estava o fosso — agora escondido pela neve, descredibilizando toda a afã para fazê-lo. Quando pararam, os soldados da Mão Ardente estavam formando uma muralha à frente deles, impedindo o exército do Grande Outro avançar, imbuindo seus corpos com chamas; embora logo fossem cair perante a quantidade exacerbada de inimigos. Sabiam que ficariam isolados, mas estavam dispostos a se sacrificar pelo seu deus.

Todos os sacerdotes ergueram as mãos; Benerro exclamou:

Se ōños hen jaes mīsagon īlva!

Todos repetiram a frase. A barreira fulgurosa formou-se, derretendo a neve, queimando as estacas de madeira, revelando as lâminas afiadas de vidro de dragão.

Não era perfeito; mas iria atrasar o inimigo — pelo menos por ora.