Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
54 Um Presente
Margaery encontrou Lorde Brynden onde esperava; batendo espadas embotadas contra outro soldado, ao lado de outros companheiros que também estavam treinando.
Graças ao imenso tamanho de Harrenhal, aquele pátio era como um imenso acampamento, onde era possível ver os homens — pajens, escudeiros, cavaleiros, soldados — fazendo seus afazeres: ferrando os cavalos, forjando metal, preparando estribos, afiando lâminas, curtindo couro, batendo espadas embotadas uns nos outros ou em estafermos, usando arco e flechas…
Margaery não gostava de estar ali, pois temia estar muito exposta a praga. Além do mais, muitos iriam vê-la ali, e estariam loucos para avisar os monarcas sobre isso.
Tinha que ser rápida, decidiu. Tinha de falar com Lorde Brynden, a sós.
Graças a escuridão do ambiente, muitas tochas foram colocadas em diversos locais. Homens andavam para lá e pra cá, erguendo archotes brilhantes, fazendo uma grande fumaça escura e acre se formar pelo lugar. Apesar do calor do fogo, ainda era muito frio, e a neve ainda permanecia.
Ela percebeu que a grande maioria dos que estavam treinando eram pessoas do Tridente; Bracken, Malister, Blackwood, Tully, Paege, Piper, Mooton, Frey, Butterwell, Smallwood… Todos os símbolos podiam ser vistos cozidos nas vestes de alguns pajens, cavaleiros juramentos e nos próprios membros das respectivas casas.
Os olhos de Edmure Tully observavam as lutas e disparos de arco e flecha de seus soldados. Ele falava com lorde Bracken, enquanto estavam a andar por entre os soldados treinando.
Margaery vagueou pelo local, até ficar mais próxima de onde havia a flâmula Blackwood. Não tardou em encontrar Lorde Brynden, lutando contra algum de seus companheiros. Lâmina bateu contra lâmina, por algum tempo, até que Brynden conseguiu derrubar o seu adversário ao desviar de um golpe, virando-se para o lado quando a lâmina inimiga descia sobre ele. Ele avançou, enquanto o inimigo ainda tentava compreender como reagir ao seu movimento e a espada ainda descia, empurrando-o com a lateral de seu corpo, fazendo-o se desequilibrar e, por fim, cair, exaurido, no chão.
Com o falso combate terminado, Margaery bateu palmas, junto de outros espectadores, enquanto Brynden ajudava seu combatente a levantar-se.
Brynden Blackwood parabenizou o combatente, retirou o elmo, junto da almofada por debaixo do objeto, revelando os belos cabelos longos e escuros que tinha, e virou-se para a plateia.
Ele sorriu ao ver Margaery entre eles, e foi até ela.
— Milady — saudou-a, com uma voz um tanto esbaforida, fazendo uma vénia rápida. — É um prazer revê-la, embora eu tema não estar em estado digno.
O rosto de Brynden estava corado, com a pele brilhante pela perspiração, mas também estava sujo pela poeira em alguns lugares. Seus cabelos quase pretos estavam grudados em sua testa, por causa do suor.
Brynden era alto, praticamente do tamanho de Alleras, mas muito menor do que Sandor Clegane. Seus olhos eram negros e brilhantes, como lascas de ônix, e seu nariz adunco lembrava o bico de um corvo.
— Ora, não seja bobo — redarguiu Margaery, ignorando o cheiro acre que emanava do homenzarrão. — Você lutou muito bem, Milorde.
O homenzarrão sorriu, ela percebeu que suas faces ficaram ainda mais rubras.
— Obrigado, majestade. — Virou-se e gesticulou para que seu combatente se aproximasse. Quando este o fez, aquele voltou-se para encará-la. — Este é Robert, meu outro irmão.
Margaery sorriu e acenou com a cabeça para o rapaz. Era parecido com o irmão, mas com músculos menos desenvolvidos, sem um rosto tão bonito.
— Lutou muito bem, Robert. Sem dúvidas será um combatente habilidoso.
O irmão de Brynden não falou nada, apenas sorriu, assentiu, enquanto corava, ficando vermelho até quase atingir as orelhas.
Brynden o dispensou, enquanto dois rapazes, com a libré dos Blackwood cozida nos peitos, se aproximavam de seu lorde, indo ajudá-lo a soltar-se da armadura.
Eram pajens bem novos. Não era nada incomum, é claro, mas Margaery já havia notado que muitos dos serviçais que vira no pátio eram, em sua grande maioria, rapazotes.
Claro, pensou, a maioria dos adultos estavam mortos.
— Poderia falar comigo a sós, milorde?
Brynden assentiu, dispensou os servos com um gesto brusco, aproximou-se dela, e ambos começaram a caminhar pelo local.
Com sorte, o som dos metais, cascos e gritos iria acabar por silenciar um pouco as falas deles — embora ela soubesse que ainda devia tomar cuidado; nunca se sabe quando alguém estaria observando-os, escutando-os.
Por sorte, a escuridão tomava conta de tudo, e a neve caía em peso em tudo. Podiam até reconhecer Lorde Brynden, mas Margaery podia passar despercebida com o capuz e a escuridão — ninguém a esperaria vê-la ali, de modo que ninguém sequer iria olhar de esguelha para ela.
— O que gostaria de falar comigo, milady? — indagou Brynden, enquanto caminhavam.
Ela umedeceu os lábios. Tinha que ser cuidadosa, mas como impedir qualquer murmúrio sobre ela? Mesmo que estivessem nos aposentos privados de Brynden, alguém a delataria…
Vão falar de mim de qualquer modo, disse a si mesma. Não tenho porque me conter mais.
— Seu irmão, Hos, onde ele está?
Brynden bufou.
— Deve estar a estúpida Wylla… Hmm… — Franziu o cenho. — Não. Deve estar nos aposentos.
— Por que acha isso?
— Por que quer saber? — rebateu ele, olhando-a de lado.
Margaery sorriu.
— Porque eu posso ter uma solução para o seu irmão.
Brynden separou as sobrancelhas, sumindo com os vincos no cenho. Olhou para frente.
— Continue.
— Seu irmão ama Wylla, mas ela não é Lady de Porto Branco, não é?
Ele assentiu, ainda mantendo o olhar para frente. Eles se afastaram um do outro, deixando um escudeiro, que segurava as peças da armadura do cavaleiro que servia, passar por eles, apressado.
Quando o garoto se afastou, eles voltaram a se unir e Margaery continuou:
— Bem, você aceitaria um casamento de seu primo com Wynafryd?
O homenzarrão deu um sorriso de lado, ainda sem olhar para ela, meneando a cabeça.
— Claro que esse casamento seria mais promissor — admitiu ele. — Mas não tem como isso acontecer; Wynafryd parece detestá-lo. E meu irmão é um cachorrinho para Wylla.
Uma gorda mosca roxa ziguezagueou pelo rosto de Lorde Brynden, irritando-o com seu zumbido. Ele a xingou.
— Malditas pragas! — Ele afastou o inseto, meneando o braço, batendo a mão no ar, a esmo. Por fim, a mosca logo desistiu e se afastou. — Deuses, de onde vieram essas pragas?
Margaery ignorou toda a cena.
— Você disse que Wynafryd não gosta de seu irmão… Por isso ele não estaria com Wylla agora?
Ele voltou-se para ela por um instante. Por fim, voltou a olhar para frente e assentiu.
— Hmm… — Margaery voltou a olhar para frente.
Uma carroça passou na frente da dupla, levando algumas armas do arsenal. Eles pararam, esperaram até que ela tivesse passado e seguiram em frente.
— E você? — ela indagou. — Tem problemas em casar seu irmão com a Senhora de Porto Branco?
Lorde Brynden meneou a cabeça.
— Não seria minha escolha, mas, recusar Porto Branco? Nunca. — deu uma risadinha. — Fora que meu irmão talvez tivesse um bom choque de realidade com tudo isso. — Voltou para ela, ainda sorrindo. — Imagina a cara dela vendo que casou com ela? Rá! Eu venderia Corvarbor para ver isso!
Margaery sorriu. Sabia o que devia fazer.
— Talvez não tenha de gastar tanto, Milorde — ela comentou.
O passo de Lorde Brynden ficou mais lento, até que finalmente parou, virou-se para ela, com um cenho franzido, e indagou:
— Que tem em mente?
Ela olhou em volta. Ninguém os estava olhando, parecendo ocupados, mas Margaery havia aprendido que eram rostos distraídos quem mais podiam ser perigosos.
Voltou a fitar seus olhos de corça nos olhos de corvo de Brynden.
— Aqui não.
Ele rapidamente a compreendeu, assentiu e eles foram até um estábulo — por sorte não estavam longes de uma enorme linha de estábulos, que se alongavam até onde a vista alcançava.
Os cavalos, éguas, mulas, asnos, e até mesmo alguns zebralos, comiam grandes quantidades de feno, enquanto outros animais do tipo eram ferrados pelos ferreiros.
O cheiro de feno sujo e fezes encheram as narinas de Margaery, sendo ainda pior que o cheiro azedo que emanava de Brynden Blackwood.
Margaery tomou cuidado quando foram para uma parte mais vazia do local, desviando de um monte fumegante de vezes, dando a volta pelo dejeto.
Muitos estavam usando o estrume para aquecer o fogo. Isso fez a memória de péssimos momentos na casa de Mindinho, onde os criados usavam fezes para aquecer as chamas, empesteando o lugar.
De certa forma, era reconfortante pensar que estar naquela torre fedida — que Petyr Baelish chamava de “Casa” — não era o pior local pelo qual ela passara.
Entretanto, também era perturbador pensar nisso. Degradante.
Quando a maioria das pessoas pareceu ficar distante, gritando, indo para lá e pra cá, fazendo seus afazeres, Margaery, que sabia que estava agora num local sem luz algum por perto, falou:
— Crê que a Princesa Sansa casará seu irmão com Wylla?
Lorde Brynden assentiu.
— Acho que ela logo fará algo para que eu e Wynafryd aceitemos isso. — Deu de ombros. — Talvez bons casamentos? Alguma alta posição nessa nova Corte de Jon? Quem sabe?
— E você aceitaria? — Ela o perguntou, curiosa.
— Se eu tivesse um casamento melhor para o meu irmão? Não. Mas não tenho; Sansa de certo sabe disso. E ela é a irmã do Rei.
Ela assentiu. Ele devia estar certo sobre tudo isso.
— E você acha que seu irmão estaria disposto a casar-se com Wylla em segredo? No bosque, talvez?
Brynden bufou.
— Pior que não tenho dúvidas! Ele está totalmente enamorado por ela; parece até enfeitiçado!
— Mas nós temos nossos próprios feitiços.
Quando ela lhe disse isso, um brilho pareceu piscar nos olhos do Lorde de Corvarbor.
— Que tem em mente, Milady? Fale.
Margaery respirou fundo. Seu vestido parecia apertado nela, como se estivesse difícil respirar. Sentiu um suor nas mãos, o que a fez tremer os dedos, como que para fazer a comichão e a perspiração parar.
Por que estava sentindo isso?
Umedeceu os lábios.
— Tenho algo para seu irmão. Um presente.
Brynden juntou as sobrancelhas.
— Um presente?
Ela forçou um sorriso.
— Presente envenenado.
Detestava confiar em Arya, mas era tudo o que tinha — Com sorte, Sor Gendry lhe contara a verdade e Arya foi tola em menosprezar a sagacidade de Margaery.
Retirou o frasco de seu bolso. Brynden olhou para o local onde a mão dela estava, erguendo as ervas, mas ela achava que estava muito escuro para que ele visualizasse algo.
— São… Ervas do amor — Ela explicou.
Ele voltou a erguer os olhos, fitando-a.
— Como você…?
— Não importa — Ela o cortou. Temia que a verdade o fizesse hesitar. — Vai fazer com que seu irmão seja tomado pela volúpia.
O Lorde de Covarbor virou um pouco a cabeça para o lado, dando-lhe ainda mais o aspecto de um corvo, perscrutando algo.
— Prossiga — ele demandou, afinando os olhos, parecendo desconfiado.
— Seu irmão estará louco por Wylla — ela falou —, mais do que de costume. Após dar-lhe a erva, avise-o de que ela o quer ver, pode ser no imenso e afastado Bosque Sagrado, e, quando ele ver que ela está por perto…
— E por que eu deixaria que meu irmão tomasse Wylla? — questionou Brynden.
Margaery tinha a resposta na ponta da língua:
— E quem disse que será com Wylla que ele irá se encontrar?
Ao ouvir aquilo, Brynden inicialmente pareceu não compreender, franzindo ainda mais o cenho; quando entendeu, porém, arqueou as sobrancelhas, arregou os olhos, ficando com a face anuviada. Pareceu pairar entre a surpresa e o horror daquela infame finta.
Margaery esperou que ele falasse algo antes de continuar. Quando isso não aconteceu, ela prosseguiu:
— Até chegar no bosque, Hoster estará perdido em luxúria, e, mesmo que possa reconhecer que não é Wylla na escuridão, será tarde demais; ele será um animal selvagem a esta altura. Não poderia parar, nem mesmo se quisesse.
Um silêncio se instalou após ela terminar de falar. Lorde Blackwood ainda a olhava, atônito.
— Q-Quem — ele gaguejou — você tem em mente?
— Temos de fazer Wynafryd saber que sua irmã quer se encontrar com Hoster — ela respondeu, sabendo que isso era autoexplicativo. — Entretanto, a própria Wylla não saberá de nada.
Brynden assentiu, lentamente, sem falar nada. Ele a estava deixando falar tudo antes de sequer falar que concordava com o plano.
O problema é que nem ela sabia bem qual era o seu plano; esperava alguma ajuda, já que era esse homenzarrão (esse inútil!) na sua frente quem deveria pensar em algo.
— Mande algum de seus homens avisar ela… — Margaery o aconselhou. — Ou, não sei, deixe alguma carta que pareça ter sido escrita por Hoster…
Vendo que aquilo não parecia estar convencendo Lorde Blackwood, ela tentou pensar em algo melhor.
Após um tempo, franzindo o cenho, pensando em algo, Margaery teve outra ideia:
— Existem diversos servos. Tente conseguir vestir uma serva sua com a roupa que tenha a libré dos Manderly… Você deve conseguir achar alguma com as lavadeiras, elas estão sobrecarregadas com tantas roupas que nem vão dar falta… e a faça afastar Wylla para um canto e convença Wynafryd a ir para o outro, após lhe dar as ervas. — Finalizou: — Acho este modo mais seguro do que subornar um servo ou serva de Porto Branco.
Ela esperou ele falar algo. Demorou um tempo, com uma brisa gelada perpassando suas vestes e fazendo Margaery tremer, até que Brynden falasse:
— E… Depois?
— Você irá até o bosque. Dirá que descobriu tudo tarde demais, e, quando você chegar…
— Hos terá desonrado a Lady de Porto Branco — ele pareceu analisar cada palavra que falava, analisando o significado delas e de toda a frase.
Outro calafrio percorreu a espinha de Margaery. Este, porém, não era causado pelo frio.
Ela assentiu.
— Tem de dar as ervas para ela também — ela o avisou, desesperada ao pensar no que aconteceria caso a pobrezinha não a tivesse. — Ou ela terá uma dor horrível.
Brynden assentiu, mas seu rosto estava lívido. Parecia ainda tentar entender tudo o que lhe estava sendo dito.
— Certo, certo… Mas, acha que dará certo?
Ela deu de ombros.
— Eu lhe dei o presente, milorde — estendeu a mão, para que ele pegasse o frasco nela. — Use-o como bem entender.
Brynden pegou o frasco com a mão robusta. Levou-o até perto do rosto, perscrutando o conteúdo, depois ergueu os olhos, olhando-a desconfiado.
— Sim, você me deu um presente… Por que?
Porque preciso de aliados.
Mas homens como Brynden nunca se agradariam com essa resposta. Não, ele não podia ser um mero aliado, assim como ela não podia apenas estar sendo esperta e sorrateira.
Tinha que ter algo mais.
— Porque eu e você somos as únicas pessoas com a cabeça no lugar — ela arriscou-se a dizer. — Nós dois tivemos perdas, e ambos sabemos o que está errado nessa nova maldita corte em que estamos acorrentados.
Brynden a fitou, esquadrinhando seu rosto com os olhos negros, como o de um corvo, enquanto parecia analisar as palavras dela.
Por fim, ele assentiu.
— Posso ver a dor em seus belos olhos de corça, Milady — ele disse, por fim. — Posso ver a dor em suas lágrimas contidas, na voz, em seu belo rosto…
Brynden guardou o frasco. Então, esticou o braço e tomou a mão dela na sua. Era quente, enorme, cheia de calos.
— Posso ver que tens sofrido, amada e bela Lady. — Deu um apertão suave na mão dela. — Mas saiba que está certa ao confiar em mim.
As palavras de Margaery continham uma dor verdadeira nelas, mas eram as palavras de Brynden que eram totalmente honestas.
— Obrigada — a voz dela era monótona. Sentia-se oca, introspectiva.
Ele soltou a mão dela.
— Farei como você planejou. Sei que tenho homens e mulheres fieis a mim. Eles farão o que eu mandar; de certo vão enganar aqueles três.
Margaery assentiu, lentamente.
— Ninguém deve saber de meu envolvimento — ela o avisou.
Brynden acenou com a cabeça.
— Fique tranquila, milady. — Ele levou a mão até o peito. — Dou-lhe minha palavra, Milady, de que nenhum mal recairá sobre você.
Margaery assentiu.
— E lembre: Wynafryd precisa tomar as ervas. Por favor, por todos os deuses, não se esqueça…
— Não vou, acredite. Não tenho mágoa com Wynafryd; apenas faço o melhor para minha casa.
Ela assentiu. Ainda se sentia… vazia. Era como se tivesse retirado a sua alma.
— Eu… Eu preciso ir, milorde. A rainha pode estranhar minha ausência.
Brynden anuiu. Ela passou por ele, sem nem lhe dirigir o olhar.
Parte dela queria nunca mais vê-lo de novo.
Ela vagueou, sem nem parecer saber para onde ia. Os homens e mulheres passavam por ela, como vultos. Ela não os via, nem os ouvia. Nem mesmo o calor dos archotes que passavam perto dela eram perceptíveis para ela. Até o toque frio dos flocos enregelantes pareciam não ter efeitos nela.
Margaery sentia-se perdida, pelo menos de certa forma. Era como se o que havia acabado de fazer tivesse tirado algo dela.
Nunca conheceu Hoster, Wylla ou Wynafryd direito. Viu-os de relance, apenas uma vez ou outra.
Só sabia que Hoster gostava de ler e que Wylla tinha língua afiada.
Isso a lembrou de sua família, mas nem sabia o porquê. Nem sequer queria lembrar de sua família; eles estavam longe, e ela, ali. Não havia motivos para pensar em Wyllas sentado numa cadeira lendo algo, ou em Olenna falando algo que deixava todos sem graça.
Mas as memórias vinham sem ser convidadas. Ela tentava evitá-las — todavia, nunca tinha sucesso.
Queria botar certas emoções e memórias numa caixinha, colocá-la no fundo de sua mente, escondendo-a de si mesma.
Lembrar doía. Era como uma facada no peito. Ao mesmo tempo, era como ter um buraco no coração. Era uma sensação que ela não conseguia nem descrever como sentia. Podia pensar em algumas palavras — dor, tristeza, vazio, agonia, impotência etc —, mas nada iria descrever o sentimento em si.
Quando algo a puxou de forma abrupta pelo ombro, ela pareceu voltar a si. O susto acelerou seu coração. Percebeu estar sozinha, dentro das sombras, puxada para o que parecia um beco sem tochas.
Quando piscou, notou um ardência nos olhos e bochechas, e uma visão um tanto turva. Foi então que entendeu que estava chorando havia um tempo.
Percebeu que havia algo frio e fino sendo pressionado contra seu fino e pálido pescoço. Era uma adaga.
Tinha alguém atrás dela. Sentia o peito estufado colado nas costas dela. Também sentia uma mão calejada segurando seu braço com uma firmeza suave.
Arya? Não. Era um homem. E dos grandes.
Gendry? Possivelmente, mas ela tinha um palpite melhor.
— Me diga, Milady, por que eu não deveria te matar?
O ódio na voz de Alleras era palpável, apesar da calma.
Apesar de toda a situação, Margaery se sentia distante de tudo. Sua cabeça doía, sentia a lâmina no pescoço, a mão a agarrando, o coração tamborilando, o vento endurecendo seu rosto… Tudo era distante. Era como se ela não estivesse ali. Estava num sono.
De todo o modo, ela se esforçou para falar algo que a ajudasse, por mais confusa que estivesse.
— Existem guardas…
— Que não estão aqui — retrucou ele. — E eu cortaria seu belo pescocinho antes que você pudesse gritar.
Era verdade.
— Alleras, estamos do mesmo lado… — Ela parou de falar ao sentir a pressão da lâmina em seu pescoço aumentar. Sentiu uma ardência na região e soube que ele havia feito um leve corte na carne.
Não era grave, mas Margaery sabia de quais surpresas O Esfinge era capaz de fazer.
— A lâmina está envenenada? — ela indagou, sentindo o sangue morno escorrer.
Ele deu risinho amargo e de escárnio.
— Não. Desta vez, é apenas aço frio, minha bela Margaery. — o sussurro de sua voz rouca era como o de um amante sussurrando palavras de amor para sua mulher; no caso de Alleras, entretanto, ressoava mais como ódio frio também.
Depois de um tempo onde só o vento fazia barulho, Alleras disse:
— Onde está Petyr? — ele quis saber.
A trama do Sul deve ter dado frutos, ela deduziu. Só isso explicaria todo o ódio de Alleras. Mas como ele sabia? Um corvo da corte de Aegon, talvez? Daenerys já sabia?
— Você sabe que eu não sei — Margaery respondeu.
— Então, sua vida é inútil — decretou ele.
— Alleras, vamos conversar…
— Não! — O ódio na voz dele, o veneno no timbre, a fez tremer. A lâmina que ele segurava também tremeu. — Eu vou mandar vocês dois para arder nos sete infernos!
Parte dela, talvez, quisesse aquilo.
Mas não podia ser agora. Não, tinha que viver ainda. Tinha que viver mais para ter seu plano concretizado. Precisava viver para… para…
— Se seu te cortar aqui e agora — Alleras sibilou —, duvido que te achem. A neve irá te cobrir, e seu corpo ficará escondido aqui até a chegada da primavera.
Ela sabia que ele falava a verdade.
A mão que agarrava o punhal pareceu começar a tremer mais, e ela entendeu que ele estava se perdendo na fúria e no ódio.
— Alleras, acredite — Margaery insistiu —, se algo aconteceu, eu não tive nada a ver com isso…
O tempo passou com uma lesma. Apenas o sussurrar do vento emitia algum som.
— E por que eu deveria acreditar em você?
Margaery tentou pensar em algo. A vida em seu corpo parecia voltar. Sua respiração pareceu acelerar, mesmo que pouco, criando névoas finas no ar escuro da noite. Engoliu seco.
— Porque… — tentou falar, mas nada veio. — Porque eu e você ainda podemos matar Petyr e fazer o plano vingar. Acredite, não tenho nada…
Ela o ouviu aspirar profundamente.
— Não acredito em você — ele respondeu.
— Que outra escolha você tem? — Ela indagou, embargada. — Você adulterou o ouro, envenenou Marwyn, e é o único, creio eu, que saberia do que seja-lá-o-que aconteceu na Capital. — Concluiu: — Sua imagem está em frangalhos, precisa de mim para continuar…
— Cala a boca, cala a boca, cala a boca! — Crocitou ele, no auge da cólera. — Eu tenho tantos pecados por sua causa! Sua puta!
Foi você que resolveu arriscar tudo. Não poderia falar aquilo, entretanto. Seria tolice.
— Lady Ysilla…
Ele deu uma gargalhada amarga.
— Ah, aquela tolinha. Ela seria a mais fácil de matar. — A voz ficou dura: — Dúvido que alguém além do pai chore por ela.
Era verdade. Mesmo que suspeitassem de Alleras pelas mortes, ele já teria matado os três comparsas.
— Alleras me diga o que houve! — Margaer disse, sentindo o aperto no braço aumentar. — Tenho que entender para…
— Você — ele a cortou —, já viveu demais. Não preciso de você para matar Petyr. Ele logo irá aparecer. Vou cortar o pau dele, enfiar na goela, depois vou cortar a cabeça e dar de bandeja para Sansa.
Margaery notou que, apesar de carregada de asco, a voz estava quebrando de tristeza.
Teria Baelish matado todos os Martell na corte? E sua família? Onde eles estavam nisso tudo?
— Alleras, minha família…
— Sua família! — ele escarneceu. — Claro, por que alguém se importaria com a minha, não é?
— Não foi isso que eu…
— Eu sei. — A Voz agora era monótona. — Eu sei.
A adaga abaixou, afastando-se do pescoço de Margaery. O Esfinge parou de segurar o braço dela.
Aproveitando a chance, Margaery se afastou dele, sem pensar. Virou-se, pronta para encará-lo.
Os olhos de Alleras estavam inchados e vermelhos. Ele a olhou com um rosto de pedra, vermelho, cansado, e introspectivo.
Eles se entreolharam por um tempo, sem falar nada. Não deram atenção para a neve, nem ao vento violento que rodopiava por entre eles, fazendo as vestes de Margaery esvoaçarem no vento. Até o capuz que ela usava para cobrir o belo cabelo cacheado caiu, fazendo com que os caracois de seu cabelo esvoaçarem um pouco.
O Esfinge ainda segurava a adaga na mão.
Margaery tentou não prestar atenção naquilo.
— Conte-me o que houve, Alleras — Ela pediu.
Silêncio. Apenas os ventos pareciam conversar.
Finalmente, Alleras disse:
— Você logo vai descobrir… — Ele avançou um passo, fazendo-a recuar, assustada.
Será que ela poderia fugir se quisesse?
Quando Alleras pareceu dar outro passo em sua direção, Margaery, assustada, girou, rodopiando as saias, anáguas e a bainha do manto, fazendo a neve voar, e tentou correr dali.
Foi inútil.
Sentiu um aperto em volta do cotovelo. Então, um puxão rude. Alleras voltou a puxá-la para si, prendendo-a com um mero aperto no braço.
Ela se sentiu inútil ao tentar se soltar e não conseguir.
Quando viu que ele não a soltaria, ela olhou para o Rapagão, erguendo seus olhos de corça para fitá-lo.
Notou que a lâmina estava escondida.
— Se você ousar tentar algo… — Era para a voz sair dura e desafiante, mas saiu murcha e fraca.
— Vou entregá-la para a rainha — ele a avisou, enquanto começava a andar, fazendo com que ela o seguisse à força.
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