Margaery sentia que nunca ia se acostumar com as escadas de Harrenhal; elas eram uma subida longa e vertiginal, fazendo-a sentir-se como se escalasse as montanhas do Vale a pé ao invés de uma mula.

Um passo após o outro, seguido de mais outro, e mais outros, depois outro, de novo, e de novo…

Era insuportável.

Alleras estava logo atrás dela, e, atrás deste, estava o guarda da rainha, Sor Tumco Lho. Pouco atrás dos dois, estavam dois soldados com a libré dos Stark, com o lobo cozido no peitilho.

Margaery gostaria de poder perguntar sobre o que estava acontecendo para Alleras, mas sabia que o Esfinge não lhe explicaria nada. E, mesmo que pudesse, ele não ousaria revelar nada na frente dos soldados.

Margaery tinha um ódio pessoal com Tumco Lho, pois ele ousava envergar o manto branco da Guarda Real — como se ele fosse digno para tal coisa! Imagine só, aquela escória criada em arenas de luta de Essos nunca seria digna de ter para si o título de cavaleiro; nunca seria nada além de um estrangeiro feio.

Se ela pudesse, o empurraria escada abaixo. Tal queda mataria qualquer um.

A cada passo que dava, sentia-se mais e mais próxima de algum destino cruel.

O que queriam com ela? Aconteceu algo na Capital? Petyr havia sido encontrado?

Eram essas e outras perguntas que tinha dentro de sua mente, martelando em seu cérebro, reverberando pelo seu corpo, deixando-a aflita. Podia descartar algumas – De certo Petyr ainda não havia sido encontrado, e claramente algo ocorrera em Porto Real, dada a “conversa” que tivera com Alleras —, mas a agonia da curiosidade as faziam voltar em sua mente, ribombando dentro dela, como o badalar pesado de sinos.

Entretanto, por mais que a curiosidade a corroesse por dentro, sabia que as respostas tinham um alto preço: sua vida.

Margaery rezou a Mãe, O pai, A Velha e a Donzela para que a ajudassem neste que poderia ser a maior provação de sua vida. Rezou para o guerreiro — Podia rezar para o Estranho, mas duvidava que ele estivesse do lado dela, afinal, não matava ninguém que ela quisesse, pelo visto.

Agora estava a poucos passos da porta onde se encontravam os aposentos reais. A mera visão dos imaculados e da imensa porta de madeira e ferro a encheu de temor. Inspirou fundo, sentindo uma onda de agonia perpassando seu corpo. Sentiu a perspiração começar, com uma fina camada de suor se formando em sua testa.

Apesar do temor que se apossava dela, Margaery continuou a andar de forma resiliente e calma, com um rosto que em nada demonstrava seus reais anseios — permitiu-se ficar orgulhosa de si mesma por demonstrar tal altivez em uma situação tão amedrontadora.

Ela era forte; afinal, ela era uma Tyrell.

Um dos imaculados abriu a porta para que ela e os outros adentrassem no cômodo. Passaram pela soleira, e Margaery pode ver os três monarcas, a princesa Sansa, e a sacerdotisa Vermelha, sentados atrás de uma mesa oblonga. Velas de junco se encontravam sobre a madeira – uma forma de economizar dinheiro, pensou ela, pois as velas aromatizadas podiam ser vendidas (ou, mais provavelmente, estavam em falta, tamanha a necessidade de velas nos últimos tempos). Sabia que os juncos também deviam estar em falta, porque o inverno congelou a maioria deles, congelando os rios — de certo aqueles eram os últimos que os plebeus haviam retirado para confeccionar cestas, e retirados das margens das águas do Olho de Deus.

A princesa Sansa, sentada ao lado do irmão, perto da ponta da mesa, falava algo com um soldado, enquanto este se inclinava sobre ela para ouvir. Quando ela terminou de falar, o soldado se aprumou, assentiu, girou os calcanhares, caminhou para fora dos aposentos.

Quando o soldado passou por Margaery ela notou o símbolo Waynwood no peito de sua veste. Provavelmente era um aliado de Ronnel, não de Roland — todavia, tentou marcar alguns traços do sujeito, para o caso dele ser um espião de Ronnel.

Dado o rosto um tanto irritado da princesa Sansa para Margaery, podia imaginar que o soldado havia lhe contado sobre a visita dela e de Ysilla nos aposentos de Lorde Waynwood.

O irmão de Ysilla seria um problema, como ela havia deduzido. Ah, se ele pudesse superar a honra e o dever, e ajudá-la contra os monarcas! Teria uma das casas mais honradas do Vale a apoiando em sua empreitada!

Além do olhar de Sansa, os outros também a olharam, fitando-a com um desgosto seco e analítico. O azul profundo, escuro e duro de Stannis; o vívido azul-claro de Sansa; o violeta ardente de Daenerys, queimando tanto quanto o fogo de seus temíveis filhos monstruosos; o vermelho profundo e misterioso da alta e temível Melisandre, que, por algum motivo, escrutinava a imagem de Margaery com desconfiança e rancor.

Nenhum dos olhares, entretanto, era tão bizarro e enervante quanto o do Rei do Norte.

O olhar era desigual, com um vermelho-sangue que parecia ser calmo e raivoso ao mesmo tempo. Parecia pulsar. O outro olho, um olho falso, feito de vidro de dragão, era uma pedra de um negrume lúgubre, parecia não ver nada.

O rosto de Jon era uma estátua, fitando sem emoção alguma. Como se estivesse numa análise fria da moça a sua frente. Vendo cada detalhe em seu corpo.

Num olhar adrede, muitos poderiam pensar que o Rei do Norte em nada se parecia com um Stark, muito menos com qualquer nortenho. Seu cabelo era pálido e quebrado, e seus olhos uniam o vermelho e o negro. Mais facilmente poderia-se dizer que ele era um parente de Daenerys do que de qualquer um dos filhos do falecido Ned Stark.

Entretanto, era possível ver o brutal e duro olhar Stark nele. Era a mesma força do olhar de Arya e Sansa, mesmo com cores diferentes — Do mesmo modo que Alleras e suas meia-irmãs tinham o mesmo olhar petulante e valente do falecido pai, o Víbora Vermelha.

O olhar dele em nada tinha do frio olhar cinzento do Stark, mas tinha toda a dureza do Norte. A força de fúria fria e quieta dos nortenhos, como se tivesse uma tempestade de gelo dentro de si

Uma tempestade silenciosa, sim, mas ainda assim devastadora. A fúria fria do enregelante Norte encarnada.

Margaery não vacilou ante os olhares severos sobre ela. Caminhou até a mesa oblonga, sentando-se de frente aos monarcas. As pequenas chamas das velas expeliam fumaça acre no ar, criando pequenas ondulações cinzentas no ambiente, que rapidamente se dissipavam.

Por que havia tão pouca luz?

Atrás da realeza sentada, estavam soldados em pé. Sandor estava em pé, com a mão no cabo. Era um homenzarrão, maior até do que Melisandre. Seus olhos eram duros e desiguais — um era cego, tomado pelo cinza, pois foi queimado pelas chamas. O outro, escuro e furioso.

Por trás de Daenerys, estava o feio e bruto Sor Jorah. Um exilado de westeros. Ele era alto, robusto, de peito estufado, furioso e muito, muito feio.

A princesa e a Rainha tem seus defensores, pensou Margaery, curiosa para saber porque aqueles homens defendiam aquelas moças.

Um tipo diferente de soldado era o que estava atrás do Rei do Norte: uma bela e alta mulher, com roupas de pele de cervo, brancas como a neve, com olhos azuis beirando ao cinza, e uma longa trança loira. Não parecia ter uma espada, mas tinha uma faca no cinto.

Margaery lembrava-se de Ysilla lhe falando sobre ela; Val, a princesa selvagem. Ela era bela, e, desde que Margaery e as aias se mudaram com Daenerys para o quarto do Rei, era comum ver Val por perto.

Seria ela amante do Rei Nortenho? Bem, de certo muitos a tomariam para sua cama, e nortenhos eram um povo bruto, então não seria uma surpresa.

Quando deixavam o quarto do Rei e da Rainha — para a “consumação” que devia ser feita —, Val nunca deixava o cômodo. Se era para fazer guarda, Jon facilmente poderia ter guardas masculinos… E, além do mais, por que os guardas de Daenerys mandava os próprios guardas embora?

Mas não mudava nada Val ser amante ou não de Jon; ele poderia ser consorte da rainha, mas ninguém realmente iria atrás de um monte que trai a sua esposa — Claro, se Daenerys tivesse amantes seria um cenário diferente, onde facilmente muitos diriam que era o ato mais descarado dela, mesmo contando às pessoas que ela matou, mas a Rainha, até onde se sabia, não tinha amantes vivos. Entretanto, se pudesse provar que ela tinha outros homens em leito…

Curiosamente, Stannis não tinha guarda alguma consigo, apenas sua misteriosa sacerdotisa de Asshai.

Margaery os odiava. Não conseguia não pensar em como eles mataram o amor da vida de seu falecido irmão, Loras. Foi por causa deles, e de sua estúpida magia e ambição, que fez com que Mace se voltasse para os Lannister. Foi por culpa deles que ela casou-se com Joff e se viu obrigada a matá-lo, foi por culpa deles que Loras atacou Pedra do Dragão e morreu.

Foi culpa deles!

Tudo que deu errado em sua vida, foi por culpa de Stannis Baratheon e sua violenta ambição.

Até Daenerys era culpa dele — sua incompetência em matar ela e o irmão quando eram crianças, deixando-os fugir para Essos, selou o destino de Margaery e sua família.

Sor Tumco Lho ficou em pé, pouco atrás de Margaery. Ela podia sentir a sua presença, mesmo que nenhum dos dois se olhasse.

Alleras foi até a princesa, ladeando-a, e sussurrou algo para ela, o qual Sansa e Jon assentiram.

Um silêncio durou por um tempo, até que Daenerys o interrompeu:

— Recebemos uma carta de Porto Real.

Margaery acenou com a cabeça.

— Era sobre minha família? — indagou, tentando manter a calma. Por sorte, estava conseguindo.

A Rainha assentiu.

— Antes de falar o que realmente queremos — avisou Daenerys, com um olhar sério, porém piedoso — devo avisar-lhe do falecimento de sua mãe, Milady.

Aquilo foi um golpe mais forte do que ela esperava. Por um tempo, nem teve reação alguma, só fitando a rainha.

— O quê? — Foi tudo o que saiu de sua boca.

— Ela… Morreu há tempos. Só soubemos agora, porém. Foi de uma doença, pelo visto. — Vendo que Margaery ainda não falava nada, continuou: — Dado que ela nada representava para Aegon, acredito que seja verdade. Sua prima, Megga, também morreu pela praga, temo. — Finalizou: — Meus pêsames, milady.

Megga também!?, Havia perdido todos os que amava?

Margaery levou os dedos até o anel que tinha no anelar. Era o anel de sua mãe.

Era tudo o que havia sobrado dela.

Engolindo a dor, Margaery fechou os olhos, inspirou fundo, os abriu novamente e disse:

— Continuem — Sua voz era um tanto baixa, mas ainda alta. Engoliu seco, enquanto sentia um enjoo se formar.

Daenerys assentiu.

— Houve uma tentativa de assassinato contra o usurpador Aegon e sua consorte, Arianne — revelou.

Margaery tomou para si um tempo para refletir o que aquelas palavras queriam dizer

Deduziu que a palavra “tentativa” mostrava que, infelizmente, Aegon e sua rainha estavam vivos… teriam descoberto o envolvimento de Margaery? Ou de algum envolvido?

Algum parente de Alleras havia morrido, de qualquer forma, afinal, o Esfinge quase a degolou pelo conteúdo da carta. Não, alguém morreu — quem seria, afinal?

Margaery apertou os braços da cadeira, segurando-os com força. Não sabia até que ponto poderia transparecer a sua curiosidade — Qualquer um no lugar dela teria, mas talvez essa maldita rainha louca podia ver traição em qualquer gesto que ela desse.

Quando nada mais foi dito, ela franziu o cenho, fingindo confusão.

— Majestade, não entendo o que minha família…

— Sua avó, Olenna, e sua prima, Elinor, foram acusadas de matar as primas de Arianne, as serpentes de Areia.

Margaery empalideceu. Sentiu o calor escorrer para fora de seu corpo, enquanto sentia o medo tomar conta dela. Continuou a fitar Daenerys, mas já nem via mais ela.

Sua avó estava presa? Ou então morta? E Elinor? Ela estava novamente presa? E como as malditas serpentes morreram e Arianne não? E quanto a Matthis e Randyll? Estavam vivos?

Abriu a boca para falar, porém nada conseguiu sair. Ficou sem fala.

Vendo o choque de Margaery, Daenerys limpou a garganta e corrigiu-se:

— Ou melhor, sua prima e avó seriam acusadas, caso estivessem vivas.

Novamente, um silêncio.

Foi como se sua mente não tivesse entendido o que estava lhe sendo dito. Era como se Margaery estivesse fora do corpo; sentia a realidade se distanciar dela — estava presa em uma confusão, esquecendo-se tudo o que lhe fora dito, tudo o que tivera passado em sua vida era agora uma pequena anedota apagada em sua mente.

Ela esqueceu por um instante quem era, onde estava, o que havia feito, passado, sentido…

— Margaery? — Alguém a chamou.

Como se isso tivesse quebrado um transe, Margaery ergueu, lentamente, os olhos e a cabeça — nem sequer sabia que havia os abaixo.

Sentiu que seus olhos ardiam e a vista estava embaçada. Piscou, expulsando as lágrimas, que escorreram por seu rosto, queimando suas bochechas.

E então viu quem havia lhe chamado.

Daenerys.

Ela era o mal em sua vida; ela era o motivo da vida de Margaery estar um inferno — se tivesse ficado quieta em Essos, tudo estaria certo! Nada daquilo estaria acontecendo!

Nesse momento, enquanto fitava o púrpura de Daenerys, Margaery soube o que era ódio, o que era encarar a morte ardente encarnada e rebater seu olhar sem vacilar. Ela sentiu o gelo em seu corpo amedrontado derreter e começar a ferver. O ódio percorreu por suas veias, aquecendo-a por inteiro. Era como se tivesse lava dentro dela.

Nada mais importava. Nem mesmo as mortes, a tristeza, a solidão, o vazio, as dúvidas, as mágoas…

Só existia Daenerys. Apenas ela.

A rainha pareceu se compadecer ao olhar para Margaery, que permaneceu quieta, ainda tentando entender o golpe em seu coração. Era como se uma faca estivesse enfiada nela, girando, machucando-a ainda mais.

— Talvez devêssemos deixar que Lady Margaery se recupere — sugeriu a rainha, num tom condoido, virando seu rosto para a face longa de Jon. O timbre de sua voz parecia genuíno, sem nem um tom sarcástico.

Era alguma armadilha? Não era possível que Daenerys realmente acreditasse que Margaery era tão tola a ponto de acreditar que aquela mulher era capaz de ter empatia.

Maldita seja! Margaery não iria cair nessa armadilha!

— Não — ela falou, passando as costas das mãos pelo rosto, limpando-o das lágrimas e do ranho que escorria pelo nariz e se acumulava por cima do lábio superior. A água e a gosma se uniam em suas mãos, criando uma sensação nojenta, mas ela ignorou.

Encarou todos de frente, tomando o ódio que sentia como uma força motora. Fitou-os, sem vacilar, com altivez.

— Continue.

Sansa se intrometeu, parecendo aflita ao ver o estado em que se encontrava a antiga amiga.

— Margaery…

— Por favor — insistiu ela —, eu preciso saber.

Todos se entreolharam, parecendo duvidosos quanto ao que poderiam dizer, hesitando.

— Atrasar o inevitável — falou Stannis Baratheon, com dureza em sua voz embargada — não o torna menos real. — Acenou para Margaery com o queixo. — A moça merece saber tudo.

Daenerys assentiu e voltou a encarar a moça à sua frente. Respirou fundo e começou a falar.

Quanto mais Margaery ouvia, sentia que nada daquilo fazia sentido. Daemon voltou-se contra Arianne? Por que? E Olenna realmente sabia do veneno? E quanto a Willas? Como tinham certeza de que ele não tinha nada a ver?

Ela segurou-se para não olhar para Alleras. O Esfinge devia saber tanto quanto ela — talvez menos —, mas ambos deviam permanecer longe um do outro. Ninguém poderia saber que eles se viam.

Quando tudo terminou de ser dito, todos esperaram uma reação da donzela Tyrell. Margaery, ainda desnorteada e agonizante, umedeceu os lábios. Tentou encontrar alguma força dentro de si para poder falar:

— Vossas graças — começou a falar, embora sentisse que a língua estava pesada —, eu… — parou e respirou um pouco, não sabendo bem o que dizer. — E-espero que não acreditem que tenho algo a ver com isso…

— Não dissemos que tinha — retrucou Stannis.

Margaery o olhou, segurando a raiva. Renly devia ter cumprido sua promessa e esmagado aquele homem com seu exército!

Apesar desse pequeno deslize, ela conseguiu recuperar a sua fala.

— Eu apenas estou abalada pelas notícias — insistiu. — Desculpe, Majestade, mas ainda não sei o que pensar…

— Ninguém pode criticá-la por seu abalo, Milady — disse Daenerys, que olhou de esguelha para Stannis, como se reprovasse a atitude dele, antes de voltar-se para Margaery: — Mas temo que seu nome não está a salvo.

Margaery lutou para não gritar.

— Por que diz isso? — indagou ela. Engoliu seco.

— O Veneno que matou as primas de Arianne e o bastardo de Graça Divina foi o mesmo que você usou para matar Joffrey.

Ela já esperava por isso. Estava tudo bem, ela já esperava por isso. Simplesmente acenou com a cabeça.

— Sim. Posso entender o motivo de vossas dúvidas.

— Existe outro ponto — avisou Sansa. Virou-se para Alleras, que acenou de volta e voltou-se para Margaery.

— O veneno também foi o mesmo que matou Harrold Hardying.

Margaery, fingindo surpresa, arregalou os olhos e suspirou — era estranho fazer isso com Alleras, visto que ambos estavam tendo de fingir um para o outro.

— Não apenas isso — o Rei do Norte se fez notar, embora Margaery achasse bizarro ter de olhar para o seu rosto.

Jon I Stark voltou-se para seu fiel lobo, que estava deitado no canto do imenso quarto, apontando para ele com o queixo. Depois, voltou a fitar Margaery com seu olhar colorido e severo.

— Tentaram envenenar meu lobo.

Margaery franziu o cenho, tentando assimilar aquilo. O que estava acontecendo? Petyr fez aquilo sem falar para ela saber?

— Eu…

O Rei do Norte levantou uma mão enluvada, fazendo-a parar de falar, e continuou:

— Houve também uma outra tentativa de assassinato. Alguém envenenou a comida que viria para o meu cômodo.

Nada daquilo era de conhecimento de Margaery. Ela nem sequer conseguiu conter a confusão em sua face — isso era bom, de certa forma, pois assim tornaria mais fácil que eles acreditassem nela.

Vendo que esperavam que ela falasse algo, Margaery, mais uma vez, lutou para encontrar palavras:

— Ma-majestades — gaguejou —, juro a vocês, por todos os sete deuses, que não sei de nada disso… — Balançou a cabeça, sentindo um sino bater dentro de seu crânio. — Eu nunca envenenei ninguém aqui, nem sequer sabia que meus parentes… — Ao falar aquilo, a dor em seu peito voltou, e ela sentiu se engasgar nas palavras. — Nunca pensei que algo assim fosse acontecer…

Sentiu o ritmo cardíaco acelerar, como se mil tambores batessem dentro dela. A saliva em sua boca e garganta secaram, fazendo-a pigarrear.

Ao sentir a ardência em seu rosto, notou que devia estar voltando a falar.

Não conseguia pensar, falar, agir. Não havia saída. Estava sem a avó, a prima se foi, assim como seu pai e sua mãe, seus irmãos…

Era isso, estava sozinha. Não aguentava mais, não podia suportar aquela dor e solidão. O vazio que estava dentro dela, sempre aumentando.

Chacoalhou a cabeça, como que para expulsar os pensamentos crueis de sua mente.

Não ouvia mais nada. Ninguém parecia estar lá.

Como se não pudesse mais aguentar a angústia dentro de si, Margaery jogou a cabeça para trás e gritou. Um grito esganiçado, que tentava expelir a dor que sentia dentro de si.

O som era carregado por todo o ódio e tristeza que ela andava guardando. Por tudo que ela guardou nesses últimos anos em sua vida; sempre guardando para si a desilusão que sua vida estava sendo. Sempre segurando as lágrimas, rancor, agonia, desespero, medo, dúvidas, entre tantos outros sentimentos.

Gritou até sentir seus pulmões implorarem para que aquilo parasse. Sua garganta estava dolorida, com sangue saindo dela.

Quando parou de gritar, curvou-se sobre si, ainda chorando, sentido as lágrimas riscarem sua face. Ainda sentia o sangue em sua boca, mas se importava tanto com ele quanto se importava com as lágrimas.

Seus olhos estavam fechados, de modo que nem sabia qual era a reação das pessoas no cômodo ao verem aquilo. Que olhassem! Que falassem! Não se importava mais!

Sentindo o aperto sobre si aumentar, ao mesmo tempo que a sensação de impotência também, ela tentou se libertar daquela sensação, levando as mãos até as vestes que a prendiam e as puxando com toda a força que tinha.

O tecido se contraia e arrebentava conforme ela os puxava. Nem sentia-se fazendo isso, mas estava. Também não sentia enquanto continuava a gritar.

Não sabia quanto tempo ficou assim. Pareciam anos e segundos de dor e confusão. Logo, porém, sentiu punhos a segurando pelos pulsos, forçando-a a parar.

Margaery demonstrou uma força que não sabia que existia, pois, com um sopetão, conseguiu soltar-se de seu algoz, empurrá-lo com ambas as mãos, fazendo-o cair.

Sem entender o que estava acontecendo, ela sentiu algo bater contra seu corpo. Não sentiu dor, porém, ainda batendo as mãos e a parte de trás da cabeça em algo duro que estava contra ela, talvez uma parede, enquanto chutava o ar.

Então parou, voltando a sentir seus pulsos presos novamente.

— Margaery! — uma voz gritava. — Margaery, pare!

Ela abriu os olhos, mas ainda tinha uma visão borrada. Não por lágrimas, mas por sangue. Ainda soluçava, sentindo que a dor em seu peito nunca iria sumir.

Os rostos começaram a ganhar alguma forma. Era o feioso Sor Jorah, Sor Tumco Lho e Alleras. Os dois soldados de Daenerys agarravam os punhos de Margaery, cada um segurava um pulso com duas forças.

— Margaery, pare! — bradava Alleras. — Precisa parar!

Ela meneou a cabeça.

— Não consigo! A dor, Alleras! Ela me destroi! Eu não suporto mais isso! Faça parar! FAÇA PARAR! PELOS DEUSES, ALGUÉM FAÇA PARAR! FAÇA ISSO ACABAR!

Os homens a obrigaram a ficar em pé, embora ela lutasse contra. Continuou a se debater, tentando soltar as suas mãos, mas era inútil.

— Levem Margaery para longe daqui! — ordenou Daenerys. Voltou-se para o Esfinge. — Dê-lhe algo para acalmar os nervos. A pobrezinha está fora de si.

Tendo um lampejo de sanidade, Margaery compreendeu o perigo de Alleras lhe dar medicamentos.

— NÃO! — berrou, voltando a tentar lutar para se soltar.

Sansa levantou-se.

— Margaery, se acalme — ela pediu. — Ninguém suspeita de você, acredite…

— Não! — Melisandre falou. Deu um passo adiante, fazendo o seu vestido dançar atrás dela, virou-se para os monarcas sentado, e disse: — Majestades — voltou a encarar Margaery com aqueles belos e sinistros olhos de rubi, apontando para ela um longo dedo pálido —, peço-lhes que matem essa mulher!

Neste momento, todos pararam. Até mesmo Margaery, agora sentindo o cansaço de seu corpo tomar conta dela, fazendo-a parar de tentar. Sua respiração estava pesada e ela sentia a camada intensa de suor a besuntando. As áreas onde havia se arranhado estavam começando a arder.

Ao pensar na situação em que estava, uma onda de horror e vergonha a consumiu. Agora ela queria se soltar das mãos dos guardas que a seguravam, mas, agora, era para tentar se cobrir.

Quando começou a raciocinar melhor, olhou para Melisandre, ainda se sentindo aturdida, sem nem entender o que a mulher estava falando.

— Silêncio, mulher! — ralhou Stannis. — A jovem está em agonia! Não pode querer…

— Não se enganem sobre o rosto inocente! — avisou ela, num tom agourento óbvio. Voltou-se para Margaery. — Esta jovem tem o destino de muitos na mão. Eu a vi, cercada de chamas verdes, como esmeraldas de fogo, enquanto mil vozes gritavam e, no mesmo instante, eram silenciadas.

Margaery fitou o olhar de sangue da sacerdotisa. O rubi em sua garganta brilhava, como se pulsasse, vivo.

A imagem vermelha da imensa mulher fez com que Margaery se enchesse de raiva, ganhando alguma força. Tentou avançar contra Melisandre, mas um puxão de Sor Jorah a fez recuar de novo.

Sentia seu rosto cheio de sangue quente. As bochechas estavam em brasas, os olhos ardiam, o cabelo castanho estava com fios grudados em diversas partes de sua face, atrapalhando um pouco sua visão.

— Seja lá o que tiver para dizer, Senhora Melisandre — vociferou Daenerys —, de certo pode esperar até que levem Margaery daqui.

Por mais surpreendente que fosse, Sansa ecoou as palavras da rainha:

— Se tiver algo para falar — disse ela —, pode falar para nós, sem atormentar a coitada.

Melisandre pigarreou:

— Mas…

— Você ouviu. — O Rei do Norte se ergueu. — Margaery precisa de cuidados. É óbvio que aguentou muito por um dia.

Margaery sentia a força se esvaindo dela. Parecia que seus braços viraram água, ficando caídos. Até suas pernas perdiam a força. Estava tão tonta, que se não fossem pelos guardas, ela poderia ter caído no chão. Fechou os olhos por um instante, tentando ignorar como tudo parecia girar, girar, girar…

Abriu os olhos novamente, ainda sentindo a vertigem. Sua visão estava um tanto conturbada, mas Margaery se esforçou para ver o que estava a sua frente.

— Eu insisto que Margaery Tyrell deve morrer! — Vociferou Melisandre. — Não estou dizendo que devemos queimá-la; podem apenas decapitá-la ou degolá-la.

Aturdida, Margaery se encolheu ao ouvir aquilo.

— Pelos deuses! — exclamou Sansa. — Como pode falar algo assim, de forma tão leviana? — Gesticulou para a moça que estava sendo segurada pelos pulsos. — Não vê que ela está em agonia?

— Agonia ou não — insistiu a sacerdotisa —, não prova que ela é inocente; pode muito bem estar triste porque o plano deu errado e se desesperou.

— É o que veremos — falou Jon. Ele voltou-se para um canto do imenso cômodo e chamou: — Irmã.

Saindo das sombras, como se fosse uma verdadeira assombração, uma figura se fez visível, caminhando lentamente até o grupo perto da mesa oblonga. Ao seu lado, um enorme e elegante Gato-das-sombras, andando de forma majestosa, como uma sombra viva.

Ver o animal encheu Margaery de terror, pois a lembrou da perseguição de tais animais em sua viagem pelas montanhas. O grito selvagem, o modo como rasgavam a pele e orgãos, o esmagar dos ossos...

A figura afastou o capuz, revelando ser Arya, como era óbvio. Seus olhos eram cinzentos e duros, como os olhos cortados de seu gato-das-sombras, e havia um sorriso insolente estava estampado no rosto.

Margaery perguntou-se: os lábios da princesa lobo estavam mesmo azulados ou se era sua visão que brincava com sua mente?

— E então? — indagou o Rei do Norte.

— Ela fala a verdade — declarou Arya. — Não sabe de nada sobre a trama de Aegon.

— E como pode saber? — indagou Daenerys, parecendo desconfiada.

— Tenho meus métodos, Vossa Graça — zombou Arya. Apontou para Margaery com o queixo. — A linguagem de seu corpo, o desespero, é de uma inocente.

— O desespero é pela família! — Corrigiu Melisandre, ficando irritada.

Arya deu de ombros.

— Que seja. Mas ela é inocente.

— Não tenho tanta certeza — Sansa disse, embora parecesse não gostar de estar falando aquilo. Fitou Margaery com seus olhos azuis. — Você esteve com Lorde Waynwood, não esteve?

Margaery lambeu os lábios. Estavam rachados. Sentiu um leve gosto de metal, onde havia um corte.

— Apenas quis dar minhas condolências — respondeu com uma voz enrouquecida. Era a melhor desculpa que tinha.

Sansa voltou-se para Arya. A irmã assentiu, embora ninguém parecesse lhe dar créditos.

— Sua irmã teve um péssimo professor, Stark — ralhou Stannis, se dirigindo ao Stark mais velho, Jon I. — Não pode acreditar que vamos mesmo cair nessa ladainha, não é?

— É verdade! — insistiu Arya, irritada.

Margaery, tentando pensar melhor, se perguntou porquê Arya confirmava suas mentiras — claro, ela não fez parte do envenenamento de Daenerys e o lobo de Jon Stark, mas havia mentido sobre não saber dos problemas da Capital e sobre a conversa com Lorde Roland.

Não havia motivos para Arya defendê-la. Não, ela realmente devia acreditar em Margaery.

Será que a dor dela enganou os sentidos aguçados da princesa loba? Ou ela apenas não era boa em detectar mentiras?

Uma batida foi ouvida na porta.

— O QUE FOI!? — Jon e Daenerys questionaram, em uníssono, no auge da cólera.

A porta foi aberta por um dos imaculados, e um rapaz nortenho apareceu diante de todos.

Margaery o reconheceu como um dos irmãos Ryswell, mas não sabia qual dos dois era quem estava ali.

— Roose — Jon disse, esclarecendo quem era. Fez um gesto com a mão deformada. — Aproxime.

O rapaz se aproximou, andando o mais rápido que podia, sem correr.

Sor Jorah e Tumco Lho, puxaram Margaery para o canto, para deixar que o nortenho se aproximasse e ficasse de frente. Ele deu um olhar nervoso para Margaery, fitando-a de soslaio, apenas por alguns segundos, antes de voltar a encarar o Rei do Norte.

— T-trago uma notícia — anunciou ele. — Do pri-princípe Bran.

Jon e Daenerys se entreolharam, Sansa franziu o cenho, assim como Stannis. Todos voltaram-se para Roose.

O Rei do Norte acenou:

— Prossiga.

— E-ele me disse que Margaery é inocente. Ele a seguiu com seus mil olhos e mais um. Ela não fez nada.

Margaery estremeceu. O que aquele príncipe aleijado estava tramando? Ele mandou espiões para vigiá-la? Mas… Quem?

Quem quer fossem, eram bem incompetentes, ou…

Então, lembrou-se do corvo. Do crocitar e o bater de asas do animal.

Seria possível? Bran Stark era um Warg? Bom, dado a loucura de todo aquele grupo, não seria a coisa mais insana de todas.

Entretanto, nenhuma explicação fazia sentido: se Bran a vigiava, como não sabia da traição? Da conversa dela com Petyr, Alleras, Ysilla, Roland, Brynden…

Nada fazia sentido.

Devia ser o cansaço. Sim, estava cansada. Exausta. Sua lente estava embotada. Tinha que descansar.

Queria dormir, sem nunca abrir os olhos.

Todos no aposento se entreolharam. Pareciam tão perdidos quanto Margaery ao ouvir as palavras de Roose Ryswell.

Melisandre não vacilou.

— Não acredito na inocência de Margaery.

— Nós vamos deixar registrado — zombou Arya. — Até lá, continue olhando as chamas, Milady.

Melisandre a olhou de soslaio.

— Também não confio em você, princesa. Nem no seu irmão.

— Parem com isso vocês duas! — ralhou Stannis.

Um estrombo foi ouvido na mesa, ribombando pelo cômodo, fazendo todos se voltarem, assustados, para a mesa.

O punho do Rei do Norte desceu com tanta força sobre a mesa, criando uma rachadura imensa na superfície. Era a mão queimada, que parecia descascar e expelir fumaça.

Todos ficaram em silêncio, assustados.

O rei do Norte se recompôs, retirando o punho da mesa e ficando reto como um lança. Olhou para os soldados que seguravam Margaery. Seu olhar era tão frio, que ela acreditou que ele iria ordenar que os guardas a fizessem se ajoelhar, para que ele a decapitasse ali mesmo, como fez com Sor Albar.

— Sor Tumco Lho, tire Margaery daqui — ele ordenou. Sua voz era calma, baixa e gelada. — Alleras fica, aqui. Mandem outro meistre cuidar dela.

Os soldados olharam para Daenerys, que foi rápida em acenar, como se tivesse se irritado com a demora deles.

Num instante, Margaery sentiu Sor Jorah soltar seu pulso, enquanto Sor Tumco Lho a puxava pelo outro, levando-a dali.

Ela não lutou contra, estava cansada demais para isso. E, por agora, parecia que eles tinham dúvidas sobre a periculosidade dela.

Que seja, depois pensaria nisso. Estava cansada, sem vontade de fazer qualquer coisa naquele momento.

Queria apenas deitar, esquecer-se de seus problemas, e desejar que tudo aquilo sumisse.

Queria fechar os olhos e nunca mais abri-los.