A garganta parecia estar melhorando; apesar disso, o meistre aconselhou que Margaery ainda não ingerisse grandes quantidades de comida sólida, pois a goela ainda encontrava-se ferida; por efeito, os músculos de seu corpo ainda estavam extenuados.

Isso não impediu a Rainha Daenerys de vê-la.

— Tenho sido informada de que está em boa recuperação — disse Daenerys, após ser anunciada e saudar Margaery.

A presença de sua êmulo abalou Margaery; entretanto, sabendo que esse reencontro um dia viria a acontecer, ela reuniu muito tempo para pensar sobre como ele viria a acontecer; seus anseios para tal evento cresciam e invadiam sua mente, sem que ela tivesse poder para barrá-los.

Quando Margaery acordou pela primeira vez em seu catre, ferida, desolada, perdida no vazio desesperançoso mais do que estava perdida na dor lancinante, acreditava não ter forças para nada; sem poder ou vontade de realizar fintas rebeldes nas sombras…

Isso tudo mudou após falar com Ysilla, entretanto; saber que os acontecimentos planejados contra Daenerys e seus aliados se realizaram como o planejado reacendeu o fogo em seu âmago há muito apagado. Agora, ela percebia que tinha capacidade para ferir sua algoz; e o faria. Faria o possível usar seus últimos momentos para derrubar Daenerys.

A Rainha usava um vestido de veludo grosso, cor de ameixa incrustado de ônix e espinelas escuras, as mangas eram em forma de sino, com renda de Myr (mostrando que era um vestido guardado há tempos, pois a cidade livre ainda se encontrava em guerra, até onde Margaery sabia), a bainha era vermelha; a roupa era fendada, mostrando uma anágua de pano de ouro, perfumada, fazia um farfalhar quando Daenerys andava; o cabelo trançado para cima, preso por rubis que brilhavam conforme movia a cabeça; brincos de ametistas bem gordas, lapidadas, envoltas em prata, balançavam, brilhavam em seus lóbulos; uma enorme corrente de prata pendia em seus ombros, com vários diamantes negros, rubis, ametistas. Era uma suntuosidade assaz!

Apesar de toda a riqueza que a monarca queria transparecer, não era possível sonegar as marcas de guerra; principalmente a enorme cicatriz que ia do canto de seu lábio até a bochecha, parecendo um imenso e asqueroso verme rosado e inchado.

Margaery não conseguia realmente acreditar que essa rainha (sanguinária! Maldita!) se importasse. De todo o modo, esquadrinhou os quadris da rainha, procurando sinais de gravidez.

— Obrigado, Majestade — retrucou Margaery, com a voz ainda enrouquecida.

Uma das aias de Daenerys trouxe uma cadeira para perto do catre de Margaery, para que a rainha pudesse se sentar. Atrás da Monarca, estava o feio Sor Jorah, Sor Tumco Lho, Belwas, Rakharo, Joggo, Aggo; todos fazendo guarda, ficando em alguns pontos do cômodo, com o luzir das chamas bruxuleantes os fazendo refletir a luz baça em seus corpos.

A rainha estava bem protegida; mas, talvez, mesmo assim, ela não se sentisse realmente segura.

Margaery bem sabia que a Rainha Dragão evita sair de seus aposentos. Ysilla lhe contara isso em um de seus encontros; Ysilla lhe contara muitas coisas. Embora, a bem da verdade, Margaery se lembrava da rainha ter tido a comida envenenada; não era uma surpresa que ela evitasse ser exposta — ainda mais grávida.

Após um tempo de silêncio, a Rainha, agora sentada, comentou:

— Lamento pelo nosso último encontro, milady.

Margaery assentiu. Bebericou um pouco de água (havia pego a caneca pouco antes da rainha entrar). Não falou nada; Daenerys talvez não gostasse, mas Margaery sabia que podia usar a desculpa de que sua garganta ainda encontrava-se ferida.

— Entendo caso não queira voltar a ser minha dama de companhia — Daenerys falou, conforme o silêncio de Margaery permanecia. — Dado todas as suas perdas…

— Não. — A voz de Margaery estava um tanto embargada; a tristeza das perdas a deixou assim. Apesar de todos os abalos, além do fato de odiar a Rainha, não deixaria parecer fraca e perder a chance de estar próxima da rainha, capaz de usar a proximidade entre elas para tramar algo quando a oportunidade surgisse.

Daenerys parou de falar e a fitou por mais uns instantes, esquadrinhando-a. Seus olhos púrpuras pareciam estudar minuciosamente Margaery, movendo pouco as íris.

— Estaria interessada em ser aia de Sansa? — perguntou a rainha, sem rodeios.

Margaery, surpresa, a encarou, silenciosa. Não tardou para que entendesse o que ela queria.

— Quer que eu seja sua espiã — não era uma pergunta.

Daenerys assentiu de imediato.

— Creio que sabe que a princesa nortenha não se encontra em boa imagem.

Margaery perguntou a si mesma: teria sido Daenerys quem enviou Ysilla alguns dias atrás? Bom, era um modo de deixá-la a par de tudo… de todo o modo, sabia que a rainha louca já saberia da conversa.

Ela assentiu para a monarca; bebericou mais um pouco de água. Lambeu os lábios, sentindo mais um pouco do frescor d’água em seus lábios.

— A união dela ao Esfinge lhe deixou malquista; arruinou nossa aliança com todo o Banco de Ferro.

Mas a sua imagem também não está abalada?, ela quis indagar. Daenerys podia não ter a imagem tão próxima quanto a de Sansa no tangia Alleras, mas muitos ainda sabiam que eles tiveram alguma proximidade com O Esfinge.

— Soube da escolha dela para o herdeiro do Vale? — perguntou a Rainha.

Margaery fez que sim. Ysilla lhe contara sobre a decisão da princesa em uma de suas visitas. Foi algo tão estapafúrdio que custou para que desse crédito às palavras da Royce.

— Legitimar o bastardo do marido, deixando-o como governante de todo o Vale, deixando as pretensões de todos os Lordes do Leste que vieram apoiá-la… — A Rainha chacoalhou a cabeça, fazendo as joias de sua cabeça brilharem enquanto o fazia. — O pesar a deixou louca, temo. Não é preciso dizer que todos os bons lordes se mostraram desgostosos com tal insanidade!

Tenho certeza que você realmente se importou muito com isso ao se casar com o bastardo de Ned Stark.

— Ela deve… estar sozinha — comentou Margaery, deixando que a Rainha soubesse que estava compreendendo sua linha de pensamento (já bastante óbvia), sabendo onde ela queria chegar.

Daenerys aquiesceu.

— De fato, pobrezinha; minha querida cunhada precisa de uma boa companheira. Soube que Lady Wynafryd deixou seus serviços? O marido, Hoster, também.

— Não, Vossa Graça. Imagino que a irmã dessa Lady, a tal Wylla, também está inconsolável; diziam que ela amava o tal Hoster.

— Sim, sim, de fato… — Daenerys gesticulou com a mão, indicando que ambas já estavam a par de tudo. — Me alegraria saber que a princesa Sansa teria uma boa amiga ao seu lado.

— E Lady Jeyne e Lady Myranda?

— Sempre se pode ter mais amigas — retrucou ela, seca. — Além do mais, o marido dessa tal Myranda a deixa muito ocupada, temo; e Jeyne… — Deu de ombros. — Ela tem suas complicações. Não intrometam-mo-nos em seus apuros, entendeu? Deixe-a.

Mais uma vez, ela assentiu, mostrando aquiescer às ordens. Bebeu mais um gole de água, esperando ver o que mais teria a ser dito.

— Acredito que a princesa irá ficar feliz em ter uma nova-velha amiga em seu séquito, não acha, Milady? Uma companhia que não lhe permita cometer erros tolos, que custem ao reino. — Continuou: — Tenho certeza de que você garantirá isso, Milady; é mais velha, já a ajudou antes… Sim. De certo ela será apegada a você, ainda mais nesse momento.

— Não vai me querer mais em seus serviços, então, Majestade? — indagou de volta.

Daenerys aquiesceu a pergunta óbvia.

— Você fará isso, espero?

— Por que não Ysilla? — quis Margaery saber, sabendo que ambas não precisavam fingir mais uma para outra.

— Ysilla não tem mais a confiança de Sansa — Daenerys foi rápida em responder.

— Khaleesi… — grunhiu Sor Jorah, em tom de aviso, mas a Rainha o silenciou com o simples levantar de sua mão.

— E você parece ser mais esperta — continuou ela a falar. — Sabe do que sou capaz de fazer se me trair, não sabe?

Margaery aquiesceu; não tinha dúvida alguma sobre o poder e crueldade da Rainha Dragão.

— Ótimo. — Daenerys se levantou. — imagino que talvez ainda queira um tempo para descansar antes de ir prestar seus serviços.

Ela a respondeu com um menear da cabeça. Sua garganta parecia lutar, mas achou forças para falar:

— Ela saberá que sou sua espiã… — avisou.

— Tenho certeza de que essa dúvida existirá — Daenerys retrucou, não se abalando com a possibilidade. — Mas, creio eu, o abalo e a solidão deixa as pessoas mais vulneráveis. — Abaixou a cabeça, levantou os braços, levando as mãos até o ventre. Os olhos púrpura fitaram a região por um tempo.

Sim, ela estava grávida; o gesto dificilmente era forjado, deduziu Margaery. A Rainha voltou-se para ela, fazendo os rubis refletirem o luzir das labaredas das tochas, fazendo-os parecerem chamejar.

— Creio que saberá cumprir o seu dever para com a sua Rainha, Lady Margaery. E espero que saiba que posso ser muito benevolente com aqueles que me bem servem.

Ela anuiu, embora não tivesse grandes certezas sobre aquilo; duvidava que essa temível Rainha lhe daria as duas coisas das quais seu coração mais ansiava: que seu último irmão vivente, Willas, sobrevivesse; e, é claro, a morte da Casa Targaryen (o que, obviamente, estendia-se para a própria Rainha Puta).

Não havia reais motivos para Margaery ajudar Daenerys, a Tirana; era uma assassina cruel, que nada a agradaria vê-la beneficiada. Entretanto, podia ser bom estar perto de Sansa: ela odiava a cunhada, e, como a própria rainha foi rápida em lembrar, podia estar em um bom estado para ser usada por Margaery; afinal, ela era boa em enternecer pessoas tristes, como a própria Sansa bem sabia.

Os únicos impecilhos eram Jeyne e Myranda… mas Margaery podia cuidar delas — caso não, talvez Daenerys se livrasse delas.

— Apenas… apenas peço mais tempo para me recuperar, Vossa Graça.

— Que seja — Daenerys respondeu. — Não resta muito tempo mesmo. Apenas tente ser rápida. — Deu meia-volta, fazendo as saias do vestido rumorejar no piso, arrastando-as enquanto andava para fora do cômodo, seguida pelo seu séquito.

Quanta benevolência…A Rainha, por debaixo de todo verniz de toda aquela pomposidade vestual e assaz elação, estava perturbada, isso era perceptível; agora, o que seria? Ela tinha tamanho receio de sua cunhada nortenha? Era a gravidez que a deixava nervosa? Ou… havia outro motivo? Aegon, talvez?

Margaery tomou um tempo para matutar sobre essa e outras questões; descobriu que isso era bom para que ela parasse de pensar em sua família, ignorando a dor e tristeza que acompanhavam tais pensamentos.

Só podia pensar em duas coisas: melhorar e tramar. Melhorar e tramar.

Margaery levantou-se de seu catre, começou a andar pelo imenso quarto. Acabaria por se esgotar rápido, mas era uma forma de exercitar o corpo, anuviar a mente de pensamentos pesarosos. Um passo, depois outro, mais outro, seguido doutro…

Melhorar e tramar.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Ysilla veio lhe ver algumas horas mais tarde, sendo acompanhada por um servo que trajava um manto cinzento longo, gorduroso, de capuz grande, o qual cobria-lhe a cabeça, a libré dos Stark cozida no peitilho.

Melhorar e tramar.

Margaery, sentada em sua cama, com as costa na cabeceira da cama, imaginou o que tal visita realmente significava ao ver a tensão nos olhos diferenciados de Ysilla, que foi até perto de seu catre e sentou na banqueta que ali deixaram.

— Milady — ela saudou Margaery. Esta não esboçou reação, olhando para o pequeno criado que deixava uma tigela de mingau na mesa perto da cama. Olhou novamente para Ysilla, que assentiu, sabendo a pergunta que estava nos olhos de corça de Margaery.

Voltou a olhar para o servo, que deixava uma colher de madeira ao lado da tigela marrom do mingau de aveia. Quando terminou, girou os calcanhares, foi até perto das duas, e, ao parar, afastou o capuz.

— Lorde Baelish — disse Margaery, afastando-se da cabeceira. Sentou na beirada da cama.

Petyr Baelish estava mais acabado do que a última vez que se viram: as orelhas encovadas, o castanho-queimado do cabelo se perdera, ficando inteiramente grisalho, o verde-cinzento dos olhos estava fosco, havia grandes sombras debaixo dos olhos. Mesmo assim, Mindinho ainda tinha o mesmo sorriso trocista nos finos lábios.

— Vejo que Milady já aguardava uma visita minha — comentou ele, parecendo divertido com a seriedade marcada no rosto de Margaery. — Espero não ter demorado muito. Creio que é uma jovem inteligente o bastante para saber que tais encontros devem esperar um pouco; não queremos ninguém bisbilhotando nossas conversas e contando-as para as pessoas erradas, não é mesmo?

Ela assentiu, franzindo o cenho. Tinha muito o que falar com aquele homem perverso e cheio de pilhérias. Cravou os olhos no olhar verde de Baelish, observando a palidez. O brilho havia diminuído, assim como a alegria, mas ainda era possível ver um divertimento nas íris.

— A Capital — Margaery disse, tentando dar alguma força no timbre de seu soprano*, agora grave.

Baelish foi rápido em entender aonde ela queria dizer. Seu sorriso morreu, ele abaixou o olhar, claramente desgostoso.

— O Duende me enganou — falou ele, com amargura na voz, perdendo o tom da troça de antanho. Ergueu o olhar, encontrando os olhos escuros de Margaery. Sua boca tinha um esgar irritado. — Acredite, nada tive haver com o assassinato de sua prima.

Margaery não acreditava nele.

— De verdade? — ela o questionou.

Ele apenas deu um dar de ombros.

— Bom, talvez ela fosse um fruto a ser retirado logo — admitiu ele. — De todo modo, era para Arianne e Aegon morrerem, junto das primas. Assim como os lordes Tarly e Rowan.

— E por que não morreram? — interpelou ela, sentindo a ardência tomarem conta das bochechas; imaginou que enrubescendo. O sangue das primas de Arianne não eram o bastante; precisava da vida de Aegon, da própria Arianne, de Varys, do Alto Septão…

O toque acalentador de Ysilla em sua mão a acalmou um pouco. Olhou para a moça, vendo a genuína preocupação em seus olhos castanhos-acinzentados. Conforme o sangue corria pelo seu rosto, ela fechou os olhos e respirou fundo, acalmando-se. Ao abrir, notando que um pouco d’água havia se acumulado (mas ignorando isso), fitou novamente os olhos de Petyr.

— Como sabe que foi Tyrion? — ela exigiu saber, deixando a voz rouca endurecida o bastante.

— E quem mais seria? — rebateu ele, usando outra pergunta como resposta. — Varys jamais deixaria alguém machucar a realeza. — Chacoalhou a cabeça. — Não. Foi o maldito anão Lannister, tenho certeza. Pensei muito nesses últimos… e terríveis… dias, Miladies. Apenas ele sobrou como suspeito.

— Tyrion ajudou Aegon — pontificou Ysilla. — Além do mais, ele traiu Daenerys, que ganharia ele enfraquecendo o próprio lado?

— Ela tem razão — concordou Margaery. — Mesmo que Tyrion fizesse isso para ter o perdão da Rainha, o que acho que nem ele acredita que seja possível, ele teria matado o próprio Rei.

Lorde Petyr assentiu, parecendo ficar mais cansado e velho conforme absorvia tudo o que lhe era dito.

— É verdade… — Ele suspirou, depois fez um muxoxo, meneando a cabeça. — Não sei mais quem seria, então.

— Então — comentou Ysilla —, não temos mais como nos comunicarmos com a corte da Capital.

A pergunta foi dirigida para Petyr, mas foi Margaery quem aquiesceu e disse:

— Teremos de nos contentar em não ser pegos aqui; mas nem tudo está perdido. — Tirou a mão por debaixo do toque acalentador de Ysilla, colocou-a por cima da mão dela, apertou. — Os monarcas perderam o ouro; Daenerys está temerosa; Stannis tem pouco apoio; Sansa perdeu a boa imagem de antes, de certo também está abalada com todos esses acontecimentos.

— Margaery, não sabemos onde está Alleras — a cúmplice de suas fintas lembrou-a. — Como você disse, ele não deve ter fugido, mesmo estando entesourado; pode ainda estar aqui, pode nos envenenar…

— Não acho — Petyr comentou. — Ele já poderia ter feito isso, e nada aconteceu.

Margaery assentiu.

— Concordo. Se ele quisesse me envenenar, já o teria feito quando estava acamada. — Olhou para Ysilla. — E ele também não lhe fez mal, imagino.

Ela torceu a boca, não correspondendo às certezas de Margaery, mas assentiu, a contragosto.

— Foi o que pensei. — Limpou a garganta, sentindo que estava ficando seca e dolorida. Percebeu que devia ter falado demais, mas, mesmo assim, continuou: — Nós não podemos deixar a sombra do Esfinge nos atemorizar. Temos que agir, antes que Daenerys tome seu próximo passo.

— O que sugere? — indagou Petyr, tendo um esgar de irritação e desdém. — Que devemos envenenar os dragões? Ou talvez os lobos? Nem sequer conseguiremos chegar perto do aleijado insano que balbucia pra’quelas bocas famintas e imundas que o deificam como se a nova face dos sete deuses, como teremos chances de afetar alguns dos outros?

Quando Petyr falou sobre envenenar lobos, Margaery lembrou-se que deveria avisá-lo sobre o envenenamento do lobo do Rei do Norte e a tentativa de envenenar a Rainha.

Entretanto, quando abriu a boca, a secura pareceu atingir com força a sua garganta, fazendo toda a umidade sumir. Isso a fez tossir ruidosamente, expelindo algumas gotas de saliva, que saltavam para fora. Cerrou a mão num punho, levou-o para frente da boca, fazendo o pigarreio atingi-lo. Curvou-se, arqueando as costas, enquanto ainda continuava a tossir. Por um instante, sentiu-se de volta a Porto Real, na Fortaleza Vermelha, tossindo ruidosamente, sentindo seus pulmões parecendo se contorcer dentro dela, prestes a saltar com força para fora de sua boca. Seu estômago se agitou, quase expelindo o conteúdo que Margaery havia comido.

Sentiu uma pequena mão acalentadora dando tapinhas em suas costas. Era Ysilla, parecendo preocupada. Quando Margaery parou de tossir, a moça levantou-se quase que num salto.

— Vou pegar água — avisou ela, rodopiando as saias ao dar meia volta. — Não force a tosse! — Ela passou por Petyr, indo até a jarra d’água.

Margaery respirava de forma errática, desesperada para recuperar o fôlego. Ainda estava curvada, um tanto zonza, agoniada com tudo. Percebeu que estava começando a perspirar. Ergueu a cabeça, afastou uma mecha do cabelo da frente de sua vista.

— Está realmente muito mal, Milady — comentou Petyr, enquanto Ysilla passava por ele com uma caneca de estanho, cheia de água. Quando ela se aproximou mais de Margaery, esta se aprumou, tomou a caneca em suas mãos, tremendo um pouco.

Quando bebeu a água, saboreou o gosto metálico que passava correndo pela sua língua, renovando as suas forças, graças ao seu frescor. Conforme engolia a água, a dor em sua goela cessou, conforme um córrego escorria por ela.

Margaery tomou o conteúdo do recipiente de uma vez só. Agradeceu e o entregou para Ysilla, enquanto passava as costas da mão pelos lábios rosados. Respirou fundo, saboreando em silêncio pela umidade em sua boca, ainda sentido o efervescente gosto metálico que havia revitalizado suas forças. Suspirou, feliz pela crise de tosse ter passado — entretanto, ficou irritada pela leve dor de garganta que voltava a ser sentida.

Fechou os olhos, respirou fundo, dando uma fungada. Suspirando, abriu os olhos, cravando-os em Baelish, que parecia realmente chocado com a visão de Margaery.

Melhorar e tramar.

— Tenho tido algumas complicações — ela falou, abruptamente. A voz ainda estava fraca; a respiração, ofegante. — Mas sobrevivo, Milorde.

— Percebo isso. — Não existia troça na voz do homem; ele estava mesmo surpreso pelo estado dela.

— Alguém envenenou o lobo do Rei do Norte — ela revelou, abruptamente. — Assim como tentaram envenenar a Rainha Daenerys.

Petyr arregalou os olhos, surpreso com tudo aquilo.

— Não foi você… — ela falou, quase que num sussurro, ao ver o choque em seu rosto.

Petyr chacoalhou a cabeça.

— Não, nem sequer tenho meios para tal.

— Pelos deuses — exclamou Ysilla, mais chocada que Mindinho. — Alleras?

Margaery meneou a cabeça, descartando a ideia.

— Não creio — respondeu. — Ele estava ocupado com o ouro; talvez ele tentasse algo contra os lobos, mas porque não a alcateia? Ou com o próprio Rei do Norte? Fora que ele sabe que não poderia matar a Rainha. — Deu de ombros. — De todo modo, não dúvido que haja tal possibilidade; apenas ele é tão venenoso e sorrateiro.

— Pode até ser — concordou Petyr. — De todo o modo, nós…

A porta se abriu, abruptamente, fazendo Petyr se calar e erguer o capuz, cobrindo o rosto. Ysilla também tentou conter a surpresa, aprumando-se, encarando Margaery, que gelou ao ver a pessoa entrar em seus aposentos.

Era uma simples serva, trajando um grosso vestido marrom para se proteger do frio. Uma mulher alta, de belos cabelos encaracolados e escuros, com a cor podendo ser facilmente confundida com negro; a pele era escura, como teca. Ela trazia um pouco de lenha para alimentar a lareira.

Ao ver a silhueta escura passando pelo umbral, Margaery levantou-se de imediato, assustando Ysilla, que levantou-se em seguida. A “serva” virou-se e fechou a porta.

Margaery sabia que não era uma serva; não era servida por gente de Essos. E reconhecia aquele belo olhar escuro.

O Esfinge retorna para mais uma finta sangrenta.

— Alleras — disse Margaery, quando a “serva” voltou-se para o grupo. — Ou, agora, seria Sarella? — Tentava manter a voz controlada, assim como lutava contra a fraqueza das pernas, para parecer segura. Seu corpo pareceu ficar enregelado, e o peito se apertou.

O olhar escuro da mulher pareceu brilhar ao passar por Margaery e fitar a figura encapuzada de Petyr. Este se virou quando Margaery revelou a verdadeira identidade da mulher que adentrava no cômodo.

— Finalmente — falou a moça, deixando a lenha cair no chão, fazendo um baque surdo soar, mas sem dar qualquer atenção.

A lâmina do punhal teve um brilho fosco quando foi retirada da manga marrom do vestido. A luz das chamas refletiram no metal, fazendo-o parecer incandescente.

*Eu imagino que tais termos não seriam usados em Westeros, mas admito, gosto de usá-los, para não usar palavras repetitivas.