Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
59 Quebrados
Apesar do fino fio gelado que subia pela sua espinha, a donzela Tyrrell manteve a postura firme. Olhou para O Esfinge sem medo.
— Se nos matar — avisou Margaery, enrouquecida —, haverá guardas…
— Pouco me importa — retrucou Alleras, com seu contralto macio, falando rápido, num tom musical, como era de praste do sotaque dornês. — Perdi tudo, perdi todos, nada tenho a temer a morte.
O Esfinge posicionou-se para o ataque; a lâmina do punhal em uma das mãos, o corpo solto e ereto, olhos cravados em Petyr. O rosto feminino do algoz era belo, escuro, duro, e, de algum modo, suave.
Margaery não sabia o que fazer, mas tentou tomar um pouco de autocontrole para si. Petyr vacilou, olhando para o celerado serpentiforme a alguns metros a sua frente. Seus olhos cansados pareciam analisar a situação, provavelmente procurando uma forma de driblar aquela adversidade, desesperadamente.
Ysilla estava quieta, colada de costas na parede cinzenta, fitando para Alleras. Parecia calma, entretanto. A única prova de nervosismo era a óbvia respiração profunda que ela fazia.
Silêncio. Todos se entreolhavam, relanceando olhares nervosos uns aos outros, sem saber o que veria a seguir, como se esperassem que alguém fizesse algo.
Margaery sabia que O Esfinge poderia matar a todos, assim como apenas podia matar quem queria e partir; um simples lance da lâmina, pronto, Petyr estaria morto. Quanto às outras duas, podia apenas deixá-las em paz; mas duvidava de tal possibilidade — todos estavam afundados até o pescoço naquela trama.
O tempo se estendeu, embora Margaery nem soubesse dizer o quanto (uma hora, um instante, que diferença faria? A agonia de tudo aquilo deixou-os abstraídos do tempo que se passava, parecendo que estavam eternamente parados, só aguardando o próximo momento que nunca dava as caras).
Por que Alleras nada fazia? Bem podia já ter acabado com tudo aquilo; entretanto, os olhos estavam arregalados, o rosto brilhava pela perspiração. Ele parecia escrutinar o rosto de todos, pensando… pensando…
(Pensando o quê?)
Vendo que tempo demais havia passado, Margaery abriu a boca para falar, já seca novamente, ignorando o laço invisível em volta do pescoço. Entretanto, não a voz dela que se fez ouvir:
— Alleras — Ysilla tinha a voz suave, mas séria —, não faça isso conosco, ainda pode-mo-lhes ser útil…
— Cala a boca! — Alleras a interrompeu, berrando, expondo a irritabilidade que tinha, mas não olhou para ela. Margaery o viu engolir seco. Ele deu dois passos para frente, fazendo Petyr tentar dar um passo para trás, mas esbarrando na cama. O Esfinge não lhe tirou os olhos dele em nenhum momento. — Não sabe o que sinto.
— Nossa trama ainda não teve fim — Margaery falou, finalmente tendo voz, mesmo que fraca. Usou um pouco de coragem para levantar-se da cama, ficando ereta. — Nossas tramas deram frutos… ainda podemos…
— Cala-te também, sua cadela! — ordenou-lhe. — Você também está na minha mira!
Margaery se calou. A cólera na voz era palpável; ele iria matá-la. Engoliu seco e voltou a assentar-se levemente na beirada do colchão. Que chance teria? Nenhuma.
— Margaery está certa — Ysilla ecoou. Sua voz parecia firme, embora o rosto não estivesse tão calmo quanto ela queria transparecer que estava. — Marwyn se foi, Sansa está numa situação desgostosa, a opinião sobre Daenerys não melhorou. Ainda podemos fazer o plano funcionar, Alleras.
Lentamente, ele relanceou o olhar escuro para ela, como se tivesse disposto a ouvir o que ela tinha a dizer.
Margaery fez o mesmo, olhando-a com leve curiosidade; era hora de ver se essa moça era mesmo inteligente ou incompetente. Suas vidas estavam nas pequenas e frágeis mãos de Ysilla.
— Após toda esta trama terminar — continuou ela —, cada um terá seu rumo a seguir; Petyr e você podem resolver-se como bem entender.
Petyr mostrou-se desagradado com a proposta da Royce.
— Minha cabeça não está para ser entesourada…
— Silêncio, Mindinho! — Alleras bradou. — Sua cabeça é minha, imbecil.
Margaery esticou um braço, pousando a mão no ombro caído de Petyr, indicando que permanecesse calado.
— Todos nós temos nossos problemas — Ysilla voltou a falar —; mas todos temos um objetivo em comum.
— Ambos queremos que o governo de Daenerys não vingue — ecoou Margaery, aproveitando a deixa. Fitou Alleras no olhar, vendo seu corpanzil, agora mais sinuoso, com pequenos seios torneando o torso. — Sua prima ainda pode viver no fim. Pense nisso.
A mulher a sua frente a olhou com desconfiança, apertando os olhos escuros.
— E você lá quer que ela viva? não faça-se de tonta; ambos sabemos que você não é.
Ele tinha razão; Margaery nunca permitiria que Arianne saísse impune dos seus atos contra a sua família. A Martell tinha que morrer.
— Suas irmãs morreram; meus irmãos também; assim como meu pai, minhas primas, avó e mãe também. Deixemos assim.
— Cínica! — ralhou O Esfinge. — Crê mesmo que não acho que você e Petyr vão tirar-me de jogo na primeira chance?
— É uma aposta para se arriscar, Esfinge — Petyr Baelish debochou, seco.
— Ambos vamos morrer no fim de tudo — Falou Margaery, com a voz bem baixa pela rouquidão. — Ninguém realmente nada a perder; entretanto, podemos puxar os vilões conosco para os sete infernos.
A face escura da mulher pareceu sopesar todas aquelas palavras; esmiuçando cada significado que havia por trás daquela fala.
Ysilla deu um passo a frente, parecendo ter adquirido elação o bastante para. A cabeça estava bem erguida.
— Pense nisso, Alleras, você é o único que pode detê-los caso eles queiram machucar sua família.
Por fim, ele abaixou o punhal.
— E se eles forem tramar contra mim? Quem vai impedi-los? Você, Ysilla? Não brinque…
— Eles têm seus planos, você sabe disso — interrompeu-o. — Mas você é esperto demais para ser ludibriado; vai saber como resolver isso.
Margaery e Petyr olharam para Ysilla; a moça estaria mesmo apenas tentando convencer seu algoz ou tinha algum plano nisso tudo? (Não que estivesse a mentir, pois Margaery sabia que Petyr era um facínora de alto nível, um celerado por natureza; capaz dos mais crueis atos para ter o que queria.)
Alleras guardou a lâmina na manga de sua veste de serva. Fitou o trio defronte.
— Não temos amor uns pelos outros — falou ele, com o corpo e a voz da mulher —; nosso objetivo é o mesmo, entretanto.
— E quando tudo isto terminar? — grunhiu Mindinho, olhos fitavam o chão, mas era perceptível que não gostava nada de toda a situação.
A figura de Baelish já não era mais o homem divertido, com uma piada ácida na ponta da língua: seu poder se fora quase por inteiro; seu grande plano contra a coroa dera errado; não existiam mais aliados poderosos, estava ele à mercê de apoiadores que o odiavam; agora era uma figura pequena, esquecida, sem mais ilusões de reais ganhos no fim de tudo. Margaery sabia disso tudo, e imaginava que o próprio também o sabia; era um homem ambicioso, mas nada tolo como Cersei — sabia que toda a alicantina em que havia se metido seria sua última.
— Quando esta pantomima acabar — respondeu Alleras —, cada um segue seu próprio rumo.
Margaery deu um riso amargo.
— Quer dizer que finalmente vamos nos matar — retrucou ela, desdenhosa.
— Que seja — finalizou ele. — Estamos de acordo? — Varreu as três figuras com olhos rápidos.
Os três se entreolharam momentaneamente, voltaram a fitar Alleras, assentiram, homogeneizados em seus gestos, numa concordância muda.
Alleras ficou menos tenso, mas ainda ereto como uma lança, olhar altivo, expressão fria. Andou calmamente até eles. Margaery e Petyr trocaram olhares, ambos nervosos que ele fosse fazer algo, tentando usar a guarda baixa.
— Beeem… — Petyr disse, tentando não parecer tenso, mas foi interrompido quando Alleras fez um gesto rápido com o braço, jogando algo voar pelo ar, em direção ao pequeno homem, que fez um pigarreio assustado quando o objeto passou de raspão em sua orelha, atingiu a cortina do catre de Margaery, cortando o tecido, parando apenas ao trespassar a outra cortina, perdendo mais a velocidade e caindo no chão.
Petyr deu um grunhido de dor ao ser atingido, fez uma careta, levou a palma da mão até a orelha. Suas pernas esmoreceram, fazendo-o deslizar no chão, até cair sentado. Mordia o lábio para não gritar, gemendo de dor, enquanto alguns finos fios de sangue escorriam pelo pescoço e braço.
Margaery, que tinha sufocado um grito de susto com o gesto de Alleras, encontrava-se meio encolhida, colada na cabeceira de sua cama, encostando o braço e o ombro nelas, percebeu que respirava de forma arrítmica, com o coração a palpitar, olhando para a figura de Baelish, ainda sentado no chão, grunhindo. Olhou para Alleras, que terminava de andar, ainda calmo e inexpressivo, parando quando ficou a centímetros do homem que agonizava.
Ele o envenenou?
Petyr abriu ergueu a cabeça, abriu os olhos e fitou a figura feminina e esguia a sua frente, temeroso do que ela faria a seguir agora que encontrava-se indefeso ante O Esfinge.
Ambos se olharam por um tempo; Margaery e Ysilla fitavam as duas figuras.
Um brilho surgiu
— Lembre-se disso, Baelish — O Esfinge falou, enquanto a figura de Alleras, num instante, voltava a surgir —, posso lhe destruir quando bem entender. E eu vou.
O mesmo vale para mim, Margaery sabia.
Petyr franziu o cenho, causando vários vincos na pele enrugada, fitando Alleras com ódio.
— Feriu-me! — respondeu Mindinho.
— Ora, deixai o choro de lado! — desdenhou Alleras. — És apenas um arranhão; nada tem com o que se preocupar. Logo vai passar, mas ficará dolorido.
Irritado, Petyr Baelish tentou erguer-se num salto, mas suas pernas pareceram travar e ele soltou outro grunhido de dor, ainda curvado sobre si. Não era um homem velho, mas era um homem desgastado pelos maus tempos que passara e estava a passar. Alleras nada o fez para lhe ajudar a aprumar-se, observando a expressão de Petyr enquanto este lutava para se endireitar. Um estalo foi ouvido quando conseguiu melhorar a postura; embora ainda estivesse um tanto curvado.
Não precisava de Alleras; logo sua vida já encontraria o fim, qualquer um podia ver isso.
Por fim, a cara de Petyr estava inchada, vermelha, com bolsas escuras nos olhos, e o pequeno lorde lutava para respirar, totalmente cansado. Fitava Alleras, mas sem nenhuma imponência. Sangue escorria pela sua orelha (provavelmente o corte da lâmina lhe tirara um minúsculo pedaço da parte lateral da orelha; apenas um pouco, menos que um dedal, mas o bastante para tirar sangue), escorrendo por parte da bochecha e descendo pelo pescoço. A palma da mão estava suja com o líquido.
Alleras, cuja figura exalava galhardia, olhava a frágil e patética figura a sua frente com desdém, parecendo levemente divertido com todo o esforço de Baelish.
Limpando a garganta, enquanto aproveitou a tentativa frustrada de Baelish para se recompor, Margaery repôs suas forças, levanto, bem altiva, e falou:
— Deixem suas brigas para depois — demandou —; agora, nós precisamos pensar em como agir.
Ambos os homens a olharam, parecendo terem sido arrancados de uma hipnose.
— Eu fui ferido! — Baelish apontou com o dedo indicador da mão ensanguentada para a orelha que ainda jorrava sangue.
— Com todo o respeito, lorde Mindinho, seu ferimento é algo pueril; se dependesse de mim, sofria de verdade, algo digno de alguém tão facínora como você merece.
Aquilo era totalmente verdadeiro — mas ela torceu para que talvez isso fizesse com que Alleras a visse não apenas como inimiga de seu inimigo, mas uma possível aliada.
Petyr a fitou com raiva óbvia, mas resguardou as palavras para si.
— E o que faremos agora? — indagou ele, com um esgar odioso no rosto.
— O de sempre — respondeu ela. — Tramar.
— Isso é o que fazemos de melhor — murmurou Alleras, sem orgulho algum na voz.
Ysilla retirou um fino lenço da manga de seu vestido e deu-o a Petyr, que o pegou, em silêncio, e usou-o para pressionar a região aberta da orelha, impedindo o fluxo de sangue. O fluido vermelho que escorrera em seu rosto encontrava-se em grande seco, criando uma camada de coágulo.
— O Banco de Ferro está fora jogada — lembrou-lhes Petyr, olhando de soslaio para O Esfinge. Este o ignorou e virou-se, para fazer deuses-sabem-o-quê.
Petyr aproveitou o momento para uma rápida insanidade: num gesto rápido, levou uma mão até dentro do manto, retirou de lá uma faca. Ergueu-a no ar, fazendo um aro, pronto para descê-la e usá-la para cortar a carne das costas d’O Esfinge.
Margaery e Ysilla arfaram com o gesto, tentando gritar algo — embora Margaery nem soubesse o que dizer, e duvidava que Ysilla fosse diferente. Petyr, assim que retirou a lâmina do manto, girou os calcanhares, para ficar bem de frente as costas de Alleras. Este, porém, foi mais rápido, dando um giro sobre si mesmo, erguendo o braço até o pescoço de Baelish, que parou de mover-se, ainda segurando a faca no ar.
Margaery viu uma nova lâmina na mão de Alleras, que a deixava encostada no pescoço de Petyr Baelish; bem numa veia verde que pulsava.
— Este simples corte vai pintar o chão com seu sangue sujo — avisou-lhe Alleras, calmo, mas irritado. — Vamos, Petyr, me dê um motivo para pintar esse belo quadro… quem sabe a bela Sansa não o gosta?
Infelizmente, ele não realizou os sonhos d’O Esfinge. Largou a faca, deixando-a cair no chão. Alleras abaixou o braço, girou os calcanhares e retomou o caminho que estava para fazer, dando a volta na cama de Margaery. Esta o seguiu com o olhar, desconfiada.
Petyr tentou agachar-se, com dificuldade, mas parou, fazendo um ganido e levando uma mão até as costas. Ysilla foi ao seu auxílio, pegando o lenço no chão e ajudando Petyr a se aprumar. Ele sentou-se no colchão, esbaforido. Ele usou o lenço para tirar o suor, mas acabou por sujar-se com um pouco de sangue.
Essa é a equipe que me restou?, Margery se viu indagando. Uma rapariga ignorada, um ninguém, e um inimigo. Como podia derrotar Daenerys com essas pessoas?
Alleras chegou até o lado oposto da cama, abaixou-se, fugaz, e pegou o punhal. Fez o objeto sumir num instante, botando-o na manga com candidez.
— Temos que parar com essas maluquices — Margery falou, farta de tudo aquilo, erguendo-se do colchão. Voltou-se para Alleras. — O Tesouro, onde está?
Ele a olhou de soslaio, parecendo indiferente. Deu de ombros.
— Está guardado.
— Onde está? — perguntou incisiva, entredente. Não queria gastar a sua voz com esse imbecil.
Alleras deu um meio sorriso. Um sorriso bonito, sensual, lindo de se ver, com seus belos lábios que eram uma promessa carnuda de prazer.
— Em vários cantos, Milady — revelou ele. — Buracos, tijolos soltos, várias partes daquele septo abandonado, o feno dos seleiros…
— Andou ocupado — ela desdenhou.
— Foi você que ajudou os bravosis a fugir? — indagou Ysilla.
Ele aquiesceu.
— Indiquei-lhes saídas há tempos, antes do nosso plano cruel dar frutos, disfarçado de estrangeira, falando apenas que queria ouro.
— Quer dizer que estava disfarçado com o seu verdadeiro corpo — ismicuiu-se Petyr, pressionando o pano contra a ferida.
Alleras não deixou-se levar pelas aporrinhações de Baelish.
— Por fim, eles sabiam algumas saídas, tiveram de acreditar e arriscar quando… — a voz emudeceu.
— Quando sua façanha foi descoberta — terminou Margaery, sorrindo. — Um grande espetáculo, de fato!
Ele fez uma carranca em resposta.
— Não me teste, mulher! Posso matá-la com um gesto!
Ela fê-lo. Sabia que ele podia tirar sua vida num instante. Andou até uma mesinha ao lado da cama, pegando uma jarra de vinho.
— Sansa é, talvez, a principal culpabilizada por isso — lembrou-lhes Petyr, referindo-se ao rompimento do Banco de Ferro com a Trindade do Norte. — Ninguém a respeita após isso. — Olhou para Alleras, como que esperando uma reação, mas este não falou nada.
— Daenerys me quer a serviço da cunhada — revelou Margaery, pegando uma caneca de estanho, tomando um pouco um gole de vinho.
Alleras franziu o cenho.
— Que pretende ela com isso?
Margaery o olhou e sorriu.
— Ela precisa de alguma espiã, imagino. E, ademais, creio que será útil ter alguém perto da princesa nortenha; não que eu acredite que Myranda, Jeyne ou qualquer uma das amigas dela facilitem meu trabalho.
— Que seja — retrucou ele —, a bela princesa e a Rainha não deviam ser nosso alvo.
Ysilla franziu o cenho:
— Quem, então? — ela indagou. — O Rei do Norte? Ou… Bran? Aquele príncipe me dá calafrios; sinto que seus corvos me observam.
— A mim também — concordou Petyr —; mas ele não pode fazer nada contra nós; só aquele bando de faminto acreditam nele, e eles não podem fazer-nos nenhuma ameaça.
— Falo da outra princesa — explicou O Esfinge.
— Arya? — Margaery pousou a caneca na mesinha. — Sei que ela é perigosa, mas por que perdemos tempo com ela e não com a rainha ou os reis? Ou até mesmo a sacerdotisa de Stannis?
— Não sinto boa coisa vindo de Arya — revelou ele. — Acho-a perigosa.
— Nisso concordamos — ela falou. — Todavia, apesar dela não ter uma guarda além dos amantes, ela é muito esguia para atacarmos, pelo menos por ora.
— Ela também não é tão hábil na política — Pontuou Ysilla. — Daenerys e Sansa são os principais focos políticos, pelo menos os quais nós temos como nos aproximar; Jon, Stannis e os outros irmãos Starks estão além de nossas capacidades.
Alleras voltou a aproximar-se do grupelho, enquanto Petyr, agora recuperado, levantava-se do colchão, um tanto atabalhoado nos movimentos.
— Pode ser — concordou o bastardo dornês. — Mas Arya não pode ser descartada.
— Afinal — indagou Margaery —, o que ela tem de tão sombrio? Eu fiquei com ela durante mais de uma volta da lua, vi suas bruxarias, mas…
— Há coisas ruins em Arya — ele lhe interrompeu. — Não sei bem o quê, mas sei que nada de bom há de sair dela.
— E como tem certeza?
— Não o tenho — ele respondeu. — Mas, quando ainda tinha… artefatos que me faziam ver coisas, vi uma figura que mudava de forma, fazendo sua face dançar; uma dança da morte, enquanto as pessoas morriam pelos seus movimentos macabros, ela ria, arrancando a própria cara; no fim de tudo, ela uivava, livre. Acredito tratar-se de Arya. — Continuou: — E, com o que vi nos últimos tempos, só posso crer que ela deve ser detida. Ela é perigosa; venenosa para o reino.
Margaery o fitou como se estivesse insano; nada do que lhe falava fazia o mínimo sentido. Todos nos sete reinos teriam ficado insanos?
— Artefatos? Que artefatos?
Ele chacoalhou a cabeça.
— Não importa, você não entenderia. Além do mais, está certa: que cuidemos da rainha e da princesa, então.
Margaery achava que havia algo mais ali; algo que Alleras não estava lhe contando. Ele ficara tempos bisbilhotando as pessoas por tempos, então, bem podia ter descobertos coisas que não lhe contava.
Ademais, Arya era realmente uma mulher perigosa, e o fato de ter ajudado Margaery com as ervas para Hoster e defender a inocência dela ante os monarcas, deixava-a extremamente confusa — talvez Arya não tivesse menosprezado Margaery… Mas e se não? E se realmente estivesse a planear algo?
Balançou a cabeça, tentando deixar tais questionamentos de lado. Tinha que deixar esses assuntos para depois; precisava lidar com assuntos mais pertinentes, e rápido.
— Teremos a vida de Arya depois, Alleras — respondeu-lhe. — No fim, prometo, ela será uma das primeiras a morrer.
— E o irmão dela? — Ysilla indagou, imiscuindo-se na conversa. — E Bran?
Margaery descartou a preocupação da moça com gesticular da mão, desdenhando da periculosidade do príncipe. Por que aquela tola temia tanto ele?
— É um apenas um aleijado qualquer — desdenhou ela. — Além do mais, nem ele, nem Arya, foram capazes de ver através de minhas mentiras; são incompetentes, minha cara.
— Ainda não sei como puderam ser ludibriados — Alleras falou, vincando o cenho. — Como, com aquelas habilidades… — ele vacilou. — Bem, Bran eu posso entender, mas Arya…
— Porque — Margaery o cortou, farta das divagações e resumos sem sentido d’O Esfinge —, eles não são tão poderosos quanto a soberba lhes faz achar; olhe como louvam Bran e seu irmão bastardos! Os endeusam, acreditam neles! Mas, no fim, eles todos verão a própria mortalidade.
O rapagão a fitou, cravando seu olhar escuro nos olhos de corça dela.
— Fala de soberba, mas eu vejo a real soberba e amargura em você.
Margaery respirou fundo.
— Não comece a comover-se, Esfinge — falou ela. — Ambos sabemos que estamos juntos nessa.
— Por enquanto — ele retrucou.
— Por enquanto — ela aquiesceu.
— Bem, já terminaram? — Petyr indagou, ainda tampando o sangramento com um pano, ainda fazendo uma careta feia. — Temos assuntos de verdade para tramar. — Olhou para o homem que o feriu, que parecia um gigante em comparação ao seu pequeno tamanho. — Você disse que o ouro está guardado, certo? — Alleras assentiu. — Ótimo! Podemos usá-lo!
— Como? — indagou Ysilla. — Os lordes não vão se vender por ouro e prata.
— De fato — ele concordou. — Nunca pretendi que o fizessem; falo de homens de baixa índole.
— Mercenários? — indagou Margaery.
Baelish aquiesceu.
— Muitos permaneceram, mas poucos são de confiança; apenas estão aqui pois acreditam que Daenerys ainda pode ganhar. — Sorriu. Seu velho sorriso facínora. — Bom, ou isso…
— Ou uma quantia de dinheiro melhor — Margaery completou. — E quem vai cuidar de comprá-los?
— Deixem isso comigo e com nosso caro Esfinge. Podemos ir e vir, sem problemas.
Margaery assentiu.
— Isto tudo não é o bastante — falou Alleras. — Os mercenários que sobraram ainda não seriam capazes de matar os apoiadores dos monarcas.
— A menos que esses apoiadores também voltem contra eles.
Todos a olharam, quietos, esperando que ela explicasse como tal absurdo seria possível.
— Sansa irritou os Lordes do Vale; eles, em grande parte, estão desgostosos com o descaso dela para com o reino deles.
— Nem todos — apontou Ysilla. — Meu pai ainda é fiel, Margaery.
Margaery não esqueceu disso; mas não temia: Ysilla podia ser uma boa refém, caso viesse a ser necessário.
— Ele pode mudar de lado quando ver que todos farão isso. — Achou que essa seria uma resposta melhor para ser dita, apesar de não ter parecido ser capaz de convencer a filha de Yohn Royce.
— O Vale é um inimigo notável — admitiu Alleras. — Estão mais descansados e fortificados que os outros dois reinos, mais numerosos… Todavia, não sei se seriam capazes de derrotar o Norte, Tridente e os apoiadores de Essos.
— Não estou falando apenas do Vale — retrucou Margaery. — O Tridente também é um reino desgostoso; lembrem-se: Daenerys deixou seus selvagens destruírem essas terras.
— Ela matou Euron e ajudou a tirar os homens de ferro — treplicou Ysilla.
— Não muda o que houve — insistiu Margaery, incisiva. — Sei que poderemos achar apoiadores, confiem em mim.
— E quanto aos lordes nortenhos? — indagou Petyr.
— Os nortenhos sentem falta de suas casas, e estão desgostosos com a união de seu rei com a rainha que matou familiares e amigos deles. — Continuou: — Sei também que estão desgostosos com as princesas, ainda mais agora, que culpam Sansa pela perda do Banco de Ferro.
— Margaery — Ysilla falou, não compartilhando de sua confiança —, acho que você está a menosprezar a lealdade dos lordes nortenhos. Eles…
— Sei como a lealdade é! — interrompeu-a. — Eu e minha família fomos traídos Lordes leias! Acredite, todos tem seu preço!
Ysilla comprimiu os lábios, dando um olhar petulante para Margaery, segurando qualquer resposta que tinha em mente, mas claramente entrando em discordância com o raciocínio dela.
O que deu nela?, Margaery indagou-se. A moça parecia-se com Arya Stark com esse desaforamento no olhar.
— Se estiver mesmo certa — indagou Alleras —, quem tens em mente? Sansa e Daenerys podem não estar na glória do povo, mas ainda seus aliados fieis. E Jon e Stannis também não podem ser ignorados. — Avisou ele, com afinco.
Margaery não precisava dos avisos ociosos d’O Esfinge; sabia bem que aliados eram inflexíveis para com seus soberanos, assim como sabia quais estavam desgostosos com o reinado pagão, tirano e depravado que estavam sendo obrigados a ver se instaurar. Não, ela não era a única irritada com a nova ordem que Daenerys estava instaurando — e com a qual o Rei do Norte os obrigava a serem coniventes.
— Stannis logo será esquecido — ela redarguiu. — De todo o modo, Alleras, sei bem que quem estaria disposto a ir contra seus amados reis para impedir as mudanças. — Sorriu. — Sor Lyle, por exemplo, estaria bem disposto a ir contra sua amada e bela princesa nortenha.
Alleras franziu o cenho e fez um som abafado de irritação.
— Sor Lyle é um homem perigoso, Milady — falou Ysilla, intrometendo-se na interlocução entre os dois. — Melhor seria se nós não confabularmos com ele.
Margaery fitou o rosto perfeitamente pálido e oblongo de Ysilla. Escondeu a irritação ao fazê-lo, pensando que essa moça estava terrivelmente irritante com suas imiscuídas.
— Homens como Lorde Lyle são perigosos e gananciosos — concordou ela. — Por isso mesmo é bom tê-los como aliados.
— E que garantia teríamos de sua fidelidade? — indagou Alleras. — Mesmo que ele odeie a princesa Sansa, e talvez seu irmão e a Rainha, isso não quer dizer que mudaria de lado e se voltaria contra eles; o dragão de Daenerys são só um dentre os vários motivos para ele acreditar que não seria uma boa ideia virar-lhes a casaca. — Continuou: — Fora que ele traiu todo o Oeste para ter as terras de Darry; não temos como acreditar que alguém tão desleal possa ser nosso confidente em algo.
— Tenho a solução para isso — Petyr falou e todos olharam-no, virando suas cabeças em direção a seu perfil maltrapilho.
— É claro que tem… — murmurou Alleras.
Petyr deu um sorriso afável.
— Sor Lyle tem um filho — lembrou-lhes. Foi tudo o que precisou para se fazer compreender.
Um arrepio frio percorreu a espinha de Margaery quando uma súbita e assustadora compreensão veio a sua mente. Arregalou os olhos. Esse homem é abominável, até para mim. Perguntou a si mesma se Petyr seria capaz de superar Daenerys em crueldade, e não teve muitas dúvidas quando rapidamente imaginou que a resposta era afirmativa.
Tentou ignorar o horror que permeou seu corpo com a maligna proposta de Baelish, volvendo-se para os pensamentos odiosos contra Daenerys e a ideia de que, no fim, tudo valeria a pena se esta viesse a cair.
Ysilla pigarreou e deu um sorriso nervoso e rápido de incredulidade:
— Não pode estar falando sério! O filho do atual Lorde de Darry nem sequer fez um ano!
O Esfinge era menos cético:
— Espere o pior de Baelish — ele falou —, e, mesmo assim, ele nunca deixará de surpreender-lhe.
Ysilla olhou para Baelish, fitando-o com seus belos olhos que eram tanto castanhos quanto cinzentos, como se estivesse a olhar para alguém que a qualquer momento poderia tirar-lhe a vida.
— Lorde Lyle é um homem ambcioso — Mindinho voltou a falar, indo até a banqueta ao lado da cama. — Homens ambciosos, mesmo os mais frios estariam dispostos a ver o mundo queimar para serem reis do que sobrou; mas, uma coisa que eu sei, é que homens assim anseiam para ver sua linhagem vingar. Sor Lyle seria capaz de tudo para ter a garantia de que sua linhagem há de vingar.
Margaery fechou os olhos, pensou na frieza cruel do plano de Baelish; usar uma criança, um simples bebê sem mãe, para controlar o progenitor era de uma impiedade tremenda. No entanto, era quase impossível negar a eficácia de tal maldade.
E, quando pensou até onde poderiam expandir esse plano, uma ideia cruel surgiu-se em sua mente.
Abriu os olhos e olhou para Petyr:
— O tio de Sansa é felizmente fiel para com sua família — disse ela. — Suas sobrinhas e sobrinhos significam muito para ele…
Petyr levantou uma sobrancelha. Um brilho no olhar revelou um divertimento curioso com o que ela tinha para lhe dizer.
—... Mas não são as coisas mais preciosas para ele — ela continuou, apesar de não ser capaz de falar o resto do que pretendia dizer. Ao invés disso, falou de forma mais indireta, como Petyr o fez antes: — Recentemente, através de Ysilla, soube que, além do primogênito de nome Robb, Edmure Tully foi agraciado por um casal de gêmeos, após um parto muito complicado e desgastante de sua esposa.
Petyr abriu um pouco os olhos diante das palavras obscuras e não pronunciadas por Margaery. Depois, gargalhou.
— Ah, a pequena rosa dourada tem espinhos pelo que vejo, tal qual a avó.
Margaery irritou-se, mas segurou-se. Tentou não pensar nos filhos de Edmure e Lorde Lyle como crianças inocentes — nunca os vira, então era fácil tentar pensar nos recém-nascidos como pessoa-objetos, ou, então, pessoas-peça. Sim, tinha de tentar não os ver como crianças; tinha de ignorar o fato de que a esposa de Edmure, Roslin, era uma pessoa real e mãe das crianças; precisava ignorar Edmure como um lorde, pensaria em como era um desconhecido para ela, alguém que apoiava os seus inimigos — tinha de ignorar os Tully como pessoas; eles eram peças de um jogo. Sim, tinha de pensar neles assim, era melhor para ela.
Quanto a Sor Lyle… Ele era um bruto arrogante, era mais fácil. Sim, bem mais fácil. Ele era um bruto; talvez nem tivesse de raptar seu bebê — se é que conseguiriam seguir este plano, de todo modo.
Apesar disso, seu peito ainda parecia doer. Precisava limpar a mente, ou não conseguiria ir muito longe.
— Me vejo obrigada a falar contra tamanha crueldade — Ysilla exclamou, apreensiva, indo para o lado da Tyrell. — Não somos Freys ou Lannisters para rebaixar-mo-nos no nível de Baelish, Margaery. — Tocou em seu ombro, com sua mão pequena, como a de uma criança, com as unhas bem rosadinhas. — Falo pelo teu bem; nada de bom virá de fazer parte de tal perfídia.
Sabia que o que ela estava lhe dizendo podia ser verdade… Entretanto, não tinha mais escolhas ou motivos para seguir outro caminho. Não tinha nada a perder — era ganhar ou morrer, e sabia que esta última era inevitável. Afastou-se do toque, contraindo o ombro num gesto brusco.
— Chegamos muito longe para pararmos agora, Ysilla — retrucou. Cravou seus olhos de corça nos olhos castanho-acinzentados dela, olhando-os bem no fundo de seu âmago, enquanto tomava as mãos pequenas da moça nas suas, dando um aperto delicado. — Sei de seus medos; entretanto, acredita mesmo que Daenerys e Jon seriam bons monarcas? Seja sincera.
Ysilla a olhava de volta, embora não tivesse qualquer firmeza no olhar. Após alguns instantes, ela abaixou os olhos e afastou as mãos.
— Eu não sei… — Retraiu-se um pouco.
A fraqueza de pensamentos e atitudes dela irritavam Margaery; irritava-a pela sua flacidez de espírito, sua falta de atitude, o modo como seus temores a barravam. Não sabia bem o porquê, apenas sabia que era irritante para ela.
Margaery franziu o cenho.
— Como pode ainda não saber? Olhe que bem estes ditos monarcas lhe trouxeram!
Ysilla esfregou as mãos, talvez pelo frio, mas parecia apenas nervosa. Era como se tentasse limpá-las.
— Não gosto de Daenerys, isto já está mais do que óbvio a essa altura. Entretanto, não gosto da ideia de nos rebaixarmos para derrubá-la. Parece… baixo. É como chafurdar na lama, Margaery. Somos melhor do que isso!
Petyr deu um risinho com escarninho.
— Ainda não aprendeu, criança? Não existe mais honra; isto morreu com Ned Stark em Porto Real.
Ela o olhou de soslaio, ainda titubeante.
— De qualquer forma — continou Petyr —, caso siga-mos os planos de sequestro, como poderemos realizarmo-os? — Olhou de canto para Arellas.
— Não vou machucar bebês!
— Não disse que ia — zombou Baelish.
— Alleras — Margaery virou-se para o rapagão —, acredite em minha palavra, não existe necessidade para machucarmos as crianças. Apenas queremos que você as capture e as deixe como reféns, apenas para que possamos usar os pais delas. Acredite, não pretendemos machucar inocentes.
O esgar feio no belo rosto do jovem, agora distorcido pela colera, fez Margaery acreditar que ele ia cuspir no rosto dela.
— Não sou um mero capanguinha que pode usar para livrar-se de qualquer sujeira que possa afetar suas mãozinhas! — ralhou.
Margaery o encarou, não abalando-se pela aspereza de tais palavras cuspidas contra sua pessoa.
— Você vai nos ajudar ou não? — questionou ela, irritada pela negação e reprimendas dele. — Não creio que vai desistir agora.
O homenzarrão a fitou, dando uma fungada que dilatou as narinas. Por fim, respondeu:
— Está bem — aquiesceu ele —, mas não posso dar garantias de que posso sequestrar qualquer criança. Além do mais, como eu…
— No momento certo — ela o interrompeu. — Apenas espione e tente não ser pego; quando a hora certa chegar, você agirá.
— Edmure sempre foi um tolo de coração mole — comentou Petyr. — Ele irá se desesperar, xingar, mas, no fim, não terá coragem. Ele estará na nossa rede.
E pensar que ele fala assim de alguém que cresceu junto dele, refletiu Margaery, ainda enojada com a forma como Petyr, que foi criado com Edmure e as suas irmãs desde muito novo, podia ser tão cruel e insensível.
— Lorde Bracken também tem filhos — lembrou-lhes Mindinho.
— Muito velhas — falou Margaery. — Mas, quem sabe…
— A mais velha, Bárbara, está no séquito de Sansa. Talvez você consiga algo com ela.
Ela assentiu.
— Acha que o pai dela iria se render caso tivéssemos uma filha dele como refém?
— Talvez nem precisemos — ele respondeu, dando de ombros. — Brackens odeiam os Blackwoods, isso é sabido por todos. Quem sabe o ódio entre as duas casas não volta a falar mais alto?
Na verdade, ela tinha em mente que os Blackwood fossem inimigos.
— Vamos ver todas as possibilidades possíveis — foi tudo o que ela lhe disse. — De toda a forma, temos que ser rápidos em nossa busca por aliados; pode fazer isso?
Petyr sorriu e levantou-se da banqueta, agora parecendo mais jovial e divertido.
— Posso ver o que posso fazer — ele retrucou. — A princesa suspeita que ainda estou aqui.
Margaery arregalou os olhos.
— Como?
— O Cão de Caça dela está farejando meus rastros — explicou. — Ela sabe que estou por aqui.
— Como sabe disso? — Ysilla lhe indagou, sendo visível a curiosidade em seu rosto.
— Tenho olhos, pois? Eu tenho notado ele andando por Harrenhal, entre a plebe. Claro, Sandor não é o tipo de pessoa que passa despercebido.
— Ele feriu-se esses tempos — Ysilla comentou. — Bem, na verdade, ele foi atacado e conseguiram lhe arranhar; os três atacantes foram mortos. Um, inclusive, perdeu o braço com um golpe da espada do Cão.
Margaery estranhou a irracionalidade de tal estratagema.
— Sandor, sozinho? Por qual motivo não há uma guarda inteira?
Petyr afagou o cavanhaque.
— Sansa me quer morto — ele falou. — E acho que ela quer dispensar o julgamento, e até mesmo a minha subida pelo cadafalso.
— Não imagino o porque… — desdenhou O Esfinge.
Margaery entendeu até onde Petyr queria chegar.
— O que você sabe dela? — perguntou, sem circunlóquio.
Petyr deu um rápido riso. Cada vez mais parecia voltar a sua vivacidade de outrora.
— A morte de meu filho, é claro.
Todos os outros três no cômodo se entreolharam, sem entender. Voltaram a fitar Baelish, aguardando respostas.
— Robert Arryn, é claro! — Ele riu.
Margaery deu um passo para trás, inconsciente, sentindo-se subitamente assustada por estar perto daquele homem. Alleras o amaldiçoou, Ysilla levou uma mão até a boca, horrorizada.
— Não pode estar falando sério… — Ysilla falou.
— Você não se atreveria… C-como pode? — Margaery indagou.
— Você é um monstro! — xingou Alleras.
Petyr pareceu divertir-se mais com as reações.
— Ora, será que já não passamos por situações piores? Para que todo este drama, eu lhes pergunto?
Margaery fez o símbolo da estrela das sete pontas, protegendo-se de todo o mal daquele pequeno homem asqueroso.
— Sansa fez parte nisso? — O rosto de Alleras era de total incredulidade; a raiva e nojo ficaram para trás.
— Fez.
— Você mente! — acusou Ysilla, indo até perto de Baelish. — A princesa pode ter seus defeitos; mas nunca mataria o próprio primo!
Ele rebateu lhe dando um olhar de pena e um sorriso de deboche como resposta.
— Ficaria chocada com a ambição dela. Lembram-se de que fui eu quem a ajudou a sair de Porto Real e a ter o apoio no vale? Bem… olhem o que recebi por isso!
— Não seja cínico! — retrucou Margaery, enojada com as pantomimas que aquele insano criava para si. — Todos sabem de seu envolvimento com Harrold e suas ideias absurdas!
— Harry sempre foi um tolo, minha cara — ele rebateu, sem se abalar. — Eu apenas o ajudei a cair mais rapidamente, digamos assim.
— Como? — indagou Ysilla. — Como matou Lorde Robert?
— Ora, não poderia ter sido mais simples; o pequeno Pisco Doce sempre amara comer doces e beber leite. — Virou-se para Alleras. — Creio que o nosso precioso Esfinge possa resolver tal mistério. Qual o veneno que até um meistre poderia recomendar?
Alleras franziu o cenho, matutando o enigma de Baelish. De repente, seus olhos se abriram e arqueou as sobrancelhas.
— Sonodoce — respondeu. — Você lhe deu sonodoce.
Petyr assentiu.
— Exato. O meistre lhe deu apenas algumas doses, para não lhe matar, mas acalmar.
— Mas ele não sabia que você estava envenenando a criança com as guloseimas que lhe eram servidas. — A Voz de Ysilla era um sussurro sinistro, horrorizado. — Como lhe deixamos escapar?
— Da mesma forma que Sansa me deixou; vocês queriam o fedelho morto, e o jovem e belo falcão no lugar. Mesmo seu honroso e pomposo pai deixou-se levar pelo rosto bonito de Harrold, e a glória que ele traria para ele, mas nunca com a questão realmente importante, e a qual todos os lordes ignoram: seria esta pessoa competente para governar. — Deu um risinho abafado e com escarninho. — Grandes Lordes, sempre sendo levados por ideais tolos e antiquados.
O rosto de Ysilla agora era uma máscara dura e fria.
— Quando tudo acabar — ela avisou —, eu verei Alleras cortar-lhe a garganta, banhar-me-ei no teu sangue.
Petyr, novamente, deu outro riso.
— Aguardarei por este dia, isso eu juro. Até lá, viverei para ver a queda da Casa Stark.
Um silêncio alongou-se pelo local; ninguém sabia o que falar. A tensão tornou-se palpável, desconcertante até.
— Acho melhor que encerremos o assunto por hoje — sugeriu Margaery, vendo que todos estavam prestes a matar Petyr Baelish (não que ela fosse contra, mas, no momento, ela acreditava que ele podia ser-lhe útil).
— Nem sequer discutimos o que fazer a seguir — protestou Alleras, embora este não parecesse realmente com vontade de ficar mais tempo ali.
Ela já sabia como resolver esta questão.
— Lorde Petyr — ela virou-se para ele —, este… pecado que o liga com a princesa nortenha, você pode usá-lo?
Os olhos dele brilharam.
— Usar? Como assim, milady?
Maldito seja!
— Você sabe o que quero dizer — ela falou, entredentes. Voltava a sentir a voz falhar, a garganta parecia enfraquecer-se.
Dando um meio sorriso, ele assentiu.
— Ora, é claro, isto já está a ser comentado nas castas mais baixas; a plebe que fica de fora das muralhas do castelo, onde eu me escondo em diversos momentos, para não arriscar ser reconhecido. — Concluiu: — Logo, eu espero, os murmúrios aumentaram, e a imagem de Sansa estará desacreditada.
— Ela ainda é muito amada pelo povo nortenho! — contrapôs Ysilla, parecendo irritada.
Será que teremos de matá-la?, perguntou Margaery a si mesma. Rezou para não chegar a tal; Ysilla era uma tola, mas não uma ameaça. Mesmo assim, era bom ficar de olho nela. Com sorte, esta voltaria a si quando Margaery a controla-se, sendo amigável com ela, fazendo-a esquecer de opiniões contrárias e irritantes.
Tocou no braço de Ysilla, tentando acalmá-la.
— Sei de suas dúvidas, minha amiga — disse Margaery. — Mas, assim como eu, você deve acreditar que estamos fazendo isso pelo bem dos Sete Reinos.
Ysilla a olhou nos olhos por um tempo, calada.
— Eu… devo falar com meu pai agora.
Margaery sorriu.
— Você e ele sempre reportam tudo para os reis, não é?
Quase que imperceptivelmente, Ysilla assentiu. Margaery repetiu o gesto, afastando a mão.
— Vá, minha amiga, pois eu tenho total confiança em você.
Ysilla deu o que era para ser um meio sorriso (mas era fraco demais para tal), e subiu o capuz de seu belo manto de samito cor de jade, forrado com arminho, girou os calcanhares, saiu dali em silêncio.
— Confia nela? — indagou Mindinho, quando a moça se fora.
Margaery o ignorou e virou-se para Alleras.
— Vigie-a — ordenou. Ele apenas assentiu, apesar de seu olhar escuro indicar que ele estava detestando receber ordens dela.
Que reclame, pensou, enquanto observava Alleras sair de seus aposentos com passos contidos, mas irritados. Ele depende de nós, de qualquer forma.
No fim, ela sabia que Alleras e Petyr morreriam; um mataria o outro, embora ela não soubesse quem fosse dar o primeiro ataque — nem se obteria sucesso ao fazê-lo. De todo o modo, nenhum dos dois iria sobreviver: nenhum lorde deixaria Petyr viver, Alleras também não teria tal misericórdia.
De todo o modo, Margaery sabia que muito provavelmente Alleras, o mesmo Petyr, tentaria matá-la quando toda aquela finta chegasse ao seu fim. Não importava, tudo que ela queria era derrubar Daenerys, ou morrer tentando. Era a última coisa que precisava fazer.
O Esfinge parou de andar e deu um giro sobre si, voltando-se para Margaery e Petyr.
— Você ainda não me respondeu — disse Alleras, antes de sair. — Quem tem em mente para nos apoiar? Dúvido que seja Sor Lyle.
Margaery imaginou que existia uma grande possibilidade d’O Esfinge já saber quem ela tinha em mente (afinal, ele provara-se um ardiloso nato; um gatuno serpentiforme). Entretanto, caso ele não o soubesse, que descobrisse por si só; ela não lhe daria respostas.
— Você saberá no momento certo — redarguiu ela. — Não quero revelar nada antes da hora. Só saiba que eu tenho meus métodos.
Alleras fez um estalo com a língua, girou os calcanhares, voltou a dirigir-se até a porta. Num instante, a figura esbelta de uma mulher surgiu, abriu a porta e saiu.
Margaery e Petyr se encararam.
— vamos ter de nos livrar dele e da garota em algum momento — ele falou.
Ela tentou dar ouvidos moucos para as ideias frias daquele homenzinho.
— Alleras dará-nos o que precisamos por agora. Depois, você e ele que se resolvam, Lorde Mindinho.
— Ele também vai atrás de você.
— Que venha — rebateu. — Lidarei com ele, se preciso for. Por agora, tenho que botar meus planos em andamento.
Petyr assentiu.
— Uhum… Ah, e eu temo não saber os detalhes, também? Imagino que você goste de guardar suas próprias surpresas.
— Imaginou certo.
— Bem, pelo menos posso saber como pretende realmente ter alguma garantia de que você irá conseguir manter este suposto apoio? Afinal, estamos numa situação perigosa.
Margaery sabia que, apesar de Lorde Brynden ter dado as ervas para Hoster e, assim, concretizado o plano dos dois, Petyr tinha razão: Daenerys e Jon eram figiras muito poderosas para se ir contra sem qualquer garantia. Entretanto, Margaery também sabia que havia apenas uma coisa para oferecer a alguém — algo que fizesse homens se sacrificassem por; algo que era talvez sua maior arma, e se maior triunfo por ainda não ter perdido tal coisa.
— Creio que talvez já o tenha em mente, Milorde — ela retrucou.
Petyr sorriu. Sorriso malicioso, assim como o brilho no olhar.
— Sua donzelice.
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