Após parecer existir apenas o silêncio, A Rainha acordou com urrar dos deuses.

De chofre, abriu os olhos. Seus cílios eram fios brancos tão finos que quase sumiam. Seus vestes e jóias haviam sumido. Assim como sua aranha. Estava nua, estirada no chão de pedra e terra. Percebeu que, como que se fosse uma Sangue Quente, cobria suas intimidades, como uma mulher indefesa e amedrontada. Indefesa.

Odiava se sentir assim. Levantou-se em um gesto infinitesimal. Notou que seu belo cabelo também fora perdido na explosão. Observou a si mesma, perscrutando sua compleição física, movendo um pouco os braços para observá-los de perto.

Estava rachada. Seu corpo, seu belo e pálido corpo havia sido rachado em diversas partes. Cerrou a mão do braço que Ela havia aproximado para mais perto, para examinar, formando um punho. Seu orgulho – o orgulho dos deuses – estava ferido. Alquebrado. Ela se deixou ser ferida. Ela falhou.

Então percebeu a solidão do local, o silêncio fora da mente coletiva que a achincalhava.

Examinou o local com os olhos.

As sombras estavam no lugar agora. O terreno estava repleto de cinzas. A neve que caía do céu virava água antes mesmo de chegar ao chão, tamanha a temperatura. Os humanos, os animais, os filhos da floresta, os Wights, qualquer material de madeira, os sincelos – tudo foi pulverizado pelos malditos sacerdotes de fogo.

As vozes de seus filhos haviam sido silenciadas. Boq, Torrhen, Jeor, dentre seus outros filhos que estavam com ela no momento. Eles não tinham segunda vida. Eles não mais existiam. Acabou. Os anos de treino, devoção, luta, mortes – tudo isso foi apagado. A vida deles durara menos do que um sopro a serviço dos deuses.

《Você fracassou conosco》, a voz dos deuses estava carregada de desgosto.

Apenas sofri um contratempo, redarguiu ela, magoada com o quanto seu tempo de luta em nome dos deuses era ignorado, mas o quanto suas falhas eram sempre apontadas. Num gesto humano, franziu os lábios. Sentiu a irritação. Uma irritação humana.

Ser rachada a deixara exposta. Era como se pela primeira vez, após tantos milênios, voltasse ao estágio inicial. O estágio onde Daenys lutava contra os deuses.

Notar isso a perturbou. Daenys tinha de estar esquecida – ela era uma qualquer; uma qualquer que pensava em velejar com o pai que a erguia no alto, uma qualquer que corria para os abraços quentinhos e protetores da mãe. Uma gúria que sempre estava correndo atrás dos irmãos mais velhos…

Reprimiu as memórias. A reminiscência doeu de uma forma que Ela nunca imaginaria; fazendo-a tremer com a dor cruciante no peito, sentindo a garganta apertar. Ela era uma Rainha! Uma imperatriz! A Rainha das Trevas! A imperatriz das almas! A campeã dos deuses!

Meu corpo não é mais meu, lembrou a si mesma. Eu nada mais sou do que um receptáculo. Esse era seu mantra para se fortalecer, por que não estava funcionando agora? Sentia a dor no peito aumentar.

São as rachaduras cicatrizando, disse a si mesma. Contudo os deuses ainda estavam insatisfeitos.

《 Não falhe mais 》, era uma ordem e uma ameaça. Sem segundas chances.

Ela engoliu seco. Fazia séculos que não fazia tantos gestos com seu corpo. Evitar trejeitos humanos era uma forma de esquecer quem era – esquecer Daenys.

— Minha Imperatriz de Gelo e Morte?

A Rainha se virou. Era seus outros filhos-escravos. Havia muitos sobressalentes. Perdê-los não deveria ter qualquer significado. Eram só títeres no fim, não? Apenas carne transformada em gelo. Apenas neve esperando derreter.

Ela não se importaria com eles. Ela os esqueceria. Ela faria a vontade dos deuses.

Analisou os outros: Qarl, Zunni, Ned, Benjamin, Boros, Imry, Benjen, Karl, dentre tantos outros. Todos iguais. Todos seus.

— Sentimos a Vossa agonia, Mãe — falou Qarl, cavalgando um urso negro de olhos brilhantes. — Alguns, mesmo os que não estavam com Vossa Majestade, quebraram-se, mas eu e o resto apenas rachamos um pouco. — Ele olhou para a beldade pálida que era o corpo pálido e esculpido D’ela antes de voltar a fitá-la nos olhos. Deu-lhe um sorriso lupino: — Os outros que morreram eram fracos demais para dar alguma proteção, Majestade. Eu e os meus viemos.

A Rainha nem lhe deu atenção alguma. Virou, num gesto finitesimal, voltando a olhar para a direção onde ela estava. Enquanto fazia o gesto, suas vestes ricas se formavam, seus cristais ganharam forma. Era A Rainha. Sua imensa coroa de cristal circundava sua cabeça; os pingentes tilintando conforme ela movia-se.

Uma espada longa formou-se, ela segurou o cabo de cristal em sua mão. A lâmina era larga, maior do que a mão de um homem.

A Rainha usou a visão de seus escravos revividos para observar o campo de fora. O maldito Rei do Norte ainda tentava lutar – apoiado por aquele lobo sarnento e uns fracassados que ainda se recusavam a cair, como aquele insuportável Stannis Baratheon.

A Rainha observava com seus mil olhos o quanto o Rei do Norte instigava todos a lutar. Ele era o empunhador da luz da alvorada. O líder do Povo Livre que voltara do reino dos mortos para lutar contra a escuridão.

A Rainha o olhava e o odiava. Odiava a sua luz. Odiava a radiância dela.

Havia sangue naquela espada, ela sabia, mas não como as atuais, do dito império valiriano; aquela era a mais antiga: o sangue de dragões e magia de sangue e fogo foram usados para enfeitiçar o aço; mas o que o temperava eram almas. Almas que eram aprisionadas naquela espada. Todos mortos por tal arma eram presos e escravizados nela. A magia talvez tivesse sido perdida, conforme Ela percebeu como o povo do remanescente do império pareceu perder sua ancestralidade, mas o Rei do Norte a ativou com o velho e simples ritual: o sangue para acender o fogo.

Não era uma surpresa que ele se mantivesse ainda de pé em meio a luta – eram as mãos de dezenas de milhares de almas que agarravam o punho daquela espada. Mil homens e mais um que a empunhava.

A Rainha já sentia-se farta daquele maldito nortenho e de sua família – a irmã mais nova ousou atacá-la quando ela lhe ofereceu poder. A outra, a tal Sansa, escapava por seus dedos vez ou outra. Nenhum era pior do que o mais novo – Bran. Ela era o novo Corvo de Três Olhos.

Vou matar as irmãs dele antes, pensou, observando a imagem do dito Rei Jon erguendo a espada pálida que luzia na escuridão, e matar o Corvo e absorver suas mentes. Ele verá os que ama morrer antes de eu absorvê-lo e tomar sua alma e corpo como escravo!

A esposa desse Rei iria morrer nos ares, como bem estava planejado – o dragão dela estava fraco o bastante. A Rainha Dragão não iria mais interferir.

Quando todos esses malditos Starks e a maldita valiriana morressem, o espírito humano morreria com eles – não haveria mais quem dar esperança de luta após eles. O último valiriano, ainda no Sul, será facilmente morto. O dragão dele temia os mortos; parecendo incapaz de obedecer seu dono e avançar a míriade de mortos, apenas queimando a primeira linha de frente dos cadáveres. Ia ser fácil matar aquele.

O frio agora já dominava novamente o ambiente de Harrenhal. O calor se extinguira. A neve caía, o vento rugia. Os Wights aproximavam-se aos montes. Uma miríade de corpos pálidos, dedos escuros e olhos rebrilhantes.

Com apenas o desejo de sua mente, os flocos que caíam começaram a dançar em círculos, imiscuindo-se. Em um período infinitesimal, uma nova Aranha estava pronta para a Rainha, que logo a montou. Havia outras aranhas também, cavalgadas por outros filhos D’a Rainha. Elas estavam subindo pelas muralhas do imenso castelo, matando qualquer Sangue Quente que achassem. Suas pinças perfuravam a carne de forma simples, bela, rápida, limpa.

A Rainha e seu exército começaram a marchar.


X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Alleras estava de pé ao lado do corpo caído da sacerdotisa vermelha. Seu pálido corpo estava caído no chão. Ele tentou tocá-la, mas ela estava muito quente ao toque. O ambiente inteiro estava quente; o calor havia sido emanado dela enquanto praticava o feitiço. Alleras tivera de se nudar, à conselho da própria feiticeira, para que não fervesse demais. O corvo que fazia companhia aos dois jazia no chão, de costas. A pele torcida, as penas soltas do corpo. Fervido até a morte.

Não podiam parar agora – tinham de ir até Sansa e Bran, ir até o Bosque Sagrado, ajudar as pessoas que lá estavam escondidas. Não tardaria para os Vagantes Brancos se recuperarem do golpe de luz e fogo que a sacerdotisa jogou contra eles. Fora um plano excelente, mas não capaz de derrotar a Longa Noite. A Treva se aproximava de seu confronto final, Alleras não poderia morrer sem lutar.

Seu corpo também estava esgotado. Nunca realizara uma magia como essa, ainda mais com as trevas – treinara um pouco de tal sortilégio, com Marwyn sendo seu professor e o instruindo a passar um período em Qarth.

Contudo, nunca sentiu-se tão dentro da escuridão. Aquilo o esgotou. Sentiu sua energia vital sendo sugada para sabe-se-os-deuses-onde. Era como abrir um vácuo, lutar para não ser sugado por ele, enquanto ainda tinha de mantê-lo aberto. Com muita afã seus dedos entrelaçaram as trevas, movendo-as, mesclando-as. Conforme a labuta se estendia, sua mente turvou, seu espírito minguou, seus dedos atrofiaram, enquanto os ossos ardiam. Rangera os dentes, o corpo perspirando de forma sulfúrica. Um ruído na nuca. As sombras girando nas paredes, mudando de forma. Alleras vira algumas – pessoas gritando em chamas, um homem gigante brincando com pessoinhas que estavam amarradas em seus dedos, um lobo matando um dragão, comendo seu coração; corvos para todo o lado, assistindo o caos. Era como um sonho febril, anuviando a mente, esquentando-o como se fosse um animal fervendo no caldeirão. Uma velha crocitava palavras que faziam ouvidos sangrarem enquanto seu rosto iluminado parecia tornar-se um mini-sol. As cenas eram tão perturbadoras que encheram Alleras de medo; pareciam adoecer seu coração.

Era um milagre estar de pé – como Melisandre aguentava uma vida assim?

Não era uma surpresa um homem como Marwyn ser tão pertubado e paranoico – a magia consumira seu eu. Corroera a sua mente, destruira o bom senso; deixara um sábio amalucado no lugar de um sábio arquimeistre.

Será que é isso que me aguarda?, pensar em se tornar um ser esquisito como o Mago Marwyn o fez ter um tremelique, sentindo um frio subir por seu corpo. Sua pele arrepiou-se.

Quando soltou o ar, ele saiu denso por seus lábios. Estava ficando frio – e bem rápido.

Olhou de relance para a entrada. Estava fechada, mas não trancada, não havia como segurar se Os Outros quisessem acometê-la.

Pressionou a mandíbula, tenso. Seu queixo estava dolorido tamanha pressão que fizera enquanto compartilhava o encanto com ela. As pontas de seus dedos era onde mais sentia dores agudas. Era como se sua pele estivesse sendo furada nas pontas por agulhas incandescentes; conforme a agonia acometia-se dele, a pele pareceu ser esfolada; então foi como se a parte esfolada fosse passada nas brasas de um archote.

Tomando um tempo que não deveria desperdiçar, Alleras observou seus dedos rijos . As pontas estavam enegrecidas. Quando os moveu sentiu-os doendo, mas ignorou os protestos e continuou a fazer o gesto de abrir e fechá-los. Estudou o corte em sua mão, aberto pela adaga valeriana que o Stark lhe dera. O sangue parecia ser mais escuro, como piche, mas não tinha como ter certeza sem luz.

Seriam essas mudanças efeitos permanentes?

Seu corpo espasmo novamente, seu estômago se fechou, enroscando-se. Olhou em volta, sentindo que estava prestes a ser atacado. Os olhos bem abertos, de olho em cada fresta. As sombras, ele percebeu, pareciam-no observar. Parecia ter um murmúrio em algum lugar, em todos lugares talvez, mas não parecia mais ninguém no lugar.

Vestiu-se com movimento assaz, ignorando as dores em diferentes partes de seu corpo. Seus dedos pareciam em carne viva, sensíveis ao toque.

Voltou-se a virar para Melisandre. Esta ainda jazia no chão, parecendo estar em um sono profundo. Seu corpo, mesmo ainda quente, não brilhava mais – voltara a palidez perfeita, como uma pérola humana ou estátua de mármore escupida em perfeição divina. Seus únicos cabelos ruivos estavam espalhados como uma mancha de sangue escarlate no chão escuro e seco. O glamour que estava engastado na gargantilha não brilhava tanto agora. A luz amainara quando a explosão ocorreu.

Todos os sacerdotes se sacrificaram. Deviam haver poucos agora – Melisandre sendo uma deles.

Alleras olhou para a porta. Ainda estava parada. Não havia som algum, exceto pelo estranho barulho de arrastar que ele não sabia de onde vinha – era como se um corpo rastejasse bem ao lado dele, mas invisível.

São apenas sombras, disse a si mesmo. Talvez fosse um efeito da sombra da Tarde que ele tomara pouco antes de fazer o ritual com a sacerdotisa vermelha. Seus lábios estavam azuis por conta disso, não por conta do frio. O frio estava apenas se aproximando. O frio iria pegá-lo, matá-lo, escravizá-lo….

Tremeu, pertubado. Sua cabeça estava estranha. Seus dedos se contorcendo, parecendo estar agonia. Até a sua cabeça mexeu-se num espasmo estranho. Que havia com ele? Que bruxaria Melisandre fizera com ele?

Não havia tempo para isso. Tinha de acordar Melisandre.

Melisandre sentia seu corpo arder. Sua cabeça parecia prestes a explodir. O calor em seu peito era como se um vulcão estivesse em erupção. Lava escorria pelas suas veias.

Apesar de tanto ardor, não havia luz. Havia apenas treva. Tudo era escuridão.

Onde estava seu deus?

— Milady! — Ela ouviu uma voz a chamando, distante das sombras. Era difícil entender; seus tímpanos pareciam prestes a explodir com um zunido ininterrupto. Ela não gostava do som, queria silêncio. Queria luz. Queria sua mãe, mas achava que seu rosto estava perdido para ela, assim como o nome. Seu próprio nome estava apagado; era apenas Melisandre, antes disso, “Lote Sete”. Nada antes.

Sentiu ser perturbada, balançada. Gemeu, fazendo uma careta. Apertou as pálpebras. Tudo doía. Tudo era ruído. Tudo era escuridão. Onde estava seu deus? Onde estava a luz?

— Milady, acorde!

Stannis?, pensou, sentindo sua agonia desvanecer. Não. A voz era suava demais, desesperada demais. Seu Rei não era assim, nem seu outro rei, Jon. Harry talvez, mas este era apenas um fantasma.

Edmure? Ele não era um rei, mas era seduzível como se fosse um. ele sempre a desejou, foi fácil levá-lo para a cama. Foi fácil convencê-lo a seguir seus conselhos.

Acreditar. Edmure precisava saber; não podia ser como Jon e ignorar as adagas em mãos amigas. Edmure precisava viver. Edmure devia saber para salvar sua família.

— Melisandre, maldita seja!

Davos? Bem poderia ser, mas o cavaleiro das cebolas estava morto para desgosto de Stannis. Tantos estavam mortos… entregues para a escuridão…

Estava ela morta? Se sim, onde estava seu deus? Onde estava a Luz? A esperança?

Seu corpo estava tremendo, agarrado pelos lados. Ela forçou-se a abrir os olhos, as pestanas pesando como chumbo. Apertou-os um pouco, piscando, para ver o rosto à sua frente.

Alleras. O rosto d’O Esfinge era repleto de desespero. Melisandre podia ver a mácula das sombras em seus olhos.

Balançou a cabeça, tentando pensar no que dizer.

— Onde estamos, Alleras? — Perguntou, tropeçando nas palavras com sua língua pesada. Notou tardiamente que falou em Asshaí.

— Em harrenhal — respondeu O Esfinge, na língua materna de Melisandre. Quase sem sotaque. Alleras parecia ser um bom poliglota.

— Harrenhal…? — No começo, lembroui-se da primeira batalha dela no castelo. Edmure estava com ela. Assim como seu tio-avô e Harry, ambos ainda vivos. Assistiam Arya trazer uma alcateia, enquanto Melisandre queimava um cavaleiro qualquer.

— Milady — falou Alleras —, lamento que estejais cansadas, mas temos de ir. Os Outros estão vindo…

A frase fez a reminiscência arrebatar sua mente – as sombras se contorcendo em seus dedos, o calor queimando-a internamente, a explosão…

De chofre, abriu os olhos, num movimento infinitesimal estava em pé, com Alleras permanecendo ajoelhado. Ele ergueu os olhos, encontrou os dela.

— Levanta, Esfinge — demandou ela. — Nosso deus não terminou conosco.

Alleras a olhou com o que parecia ser medo e fascínio, então anuiu, ergueu-se num salto.

— Certo. Mas seu deus não é o meu.

Melisandre sorriu. Seu deus era real. Ela era sua campeã – não havia mais como ter dúvidas disso. Era um axioma que apenas tolos ignoravam.

— Teologia para depois, Esfinge. Temos de ir.

Com um aceno infinitesimal da cabeça, Alleras concordou. Pegou o cajado do chão, segurando-o com sua mão enluvada. Aquele objeto era mágico, Melisandre sabia. Possivelmente Alleras o usou como um catalisador de sua magia.

O Esfinge teve um espasmo rápido, mexendo um pouco a cabeça, quase piscando um dos olhos. Melisandre podia ver a perturbação em seu olhar, sentir a escuridão insertada em seu corpo. A pele marrom de Alleras estava sem cor, sombras acumulavam-se em baixo dos olhos oblíquos.

— A magia mexeu em você — Ela observou. Alleras não era treinado como ela. Mesmo um habilidoso umbromante de Asshai poderia morrer ou ficar insano ao perturbar as sombras de tal modo. Melisandre passou um tempo além do que muitos tinham para aprender tal prática e mesmo ela poderia ter morrido se não tivesse obtido apoio.

Alleras não era um mago realmente experiente – era um rapagão brincando de feitiços e de desafiar normas impostas. Era talentoso, sim, ninguém poderia duvidar disso; mas ainda precisava de muito para ser um mago real.

— Não importa — disse o rapagão, engolindo seco, mas ela notou como ele parecia pertubardo. — Temos de sair.

Melisandre aquiesceu. Os dois sabiam dos riscos de suas escolhas.

Se sobreviver a Longa Noite, estará sozinho, Esfinge. Quase pronunciou tais palavras, mas sabia que o fado dele já estava traçado, assim como o dela.

Alleras ainda precisava salvar sua princesa.

Este virou-se para a porta.

— Não sei se já estão sobre nós — comentou. — Os mortos são lentos, mas os vagantes…

Parou de falar quando Melisandre virou-se, caminhou até a janela. Parou rente a borda, olhando para baixo com seus olhos vermelhos como rubis.

— Eles já estão aqui.

Alleras empalideceu, deixando a pele mais cinzenta.

— Quê? — Sem acreditar, caminhou apressado até ela.

Quase deu um grito de susto ao ver o que subia pela torta torre: uma imensa criatura de cristal, parecida com uma aranha, escalando a rocha fundida com suas pinças, sem fazer som qualquer. Um vagante estava assentado em seu torso, sorrindo. Este deu um sorriso cruel ao ver as duas figuras na janelas. Ergueu a mão, palma aberta.

Assim que Melisandre teve um vislumbre do que parecia uma lança tomando forma, ela deu um bracejar. Uma bola incandescente voou até a mão do invasor. Este deu um guincho que mais parecia gelo a trincar, enquanto sua arma semi formada derretia, virando pingos.

Quando um estrondo fez-se ouvido, Alleras virou-se no mesmo segundo. A ponta estava derrubada, um vagante adentrava.

Sem pensar, agarrou seu cajado com mais força, botou-se para correr até ele, ignorando o perigo martelando em sua cabeça e coração. O vagante avançou, igualmente rápido ou até mais, com espada fina e letal em mãos.

A lâmina partiu-se quando o cajado valiriano de Alleras a atingiu. O Vagante Branco saltou para trás, silvando de fúria. Mas Alleras não se assustou, empurrou o cajado para frente, em direção ao pálido ser; a criatura deu outro salto, escapando do golpe, depois mais outro, até que, no terceiro golpe, Alleras empurrou a ponta curvada contra o peitoral da armadura de gelo translúcido. O objeto se estilhaçou como vidro, a pele deu um silvar agonizante, como água ao ser atingida pelos metais incandescentes de um ferreiro.

O inimigo de Alleras, gritando de uma forma que apenas gelo poderia fazer, levou as mãos até o cabo de metal, talvez para tentar aparta-lo, mas assim que seus dedos pálidos entravam em contato com o metal escuro pareceram se queimar e afastaram-se no mesmo instante. O gesto era repetido numa velocidade infinitesimal.

Sem hesitar com o som, Alleras continuou a empurrar a haste contra o peito da criatura. Estava derretendo diante dele; tudo era exposto de forma aterrorizante – a pele por baixo da armadura, os ossos transparentes, os órgãos; tudo derretendo assim que era exposto.

No fim, apenas uma poça restou da temível coisa que aterrorizou Alleras. Uma simples pocinha de água fria e inofensiva que escorria pelo chão escuro.

Alleras sentiu-se num estupor. A adrenalina pareceu sumir de seu sangue, deixando-o com as pernas bambas, dedos rígidos, olhos pesados, pestanas pesadas. Suor transudava em seu rosto belo em bicas. A parte de trás de sua nuca, ardendo.

Virou a cabeça para trás, olhando por cima do ombro. Melisandre parecia jorrar fogo no inimigo que tentava escalar.

Alleras voltou a observar a porta. Devia ter mais Vagantes vindo, tinha certeza disso. De todo o modo, a porta era muito frágil para suportar, o aposento tinha apenas mobília velha demais para servir como barreira.

Passou a mão pelo rosto, sentindo a úmida perspiração acumulada em sua face escura, brilhosa e lisa. Os cabelos também estavam molhados, mas flocos já haviam acumulado-se neles. Um desconforto enregelante enervava seus sentidos. Seu cérebro parecia ter dificuldade para raciocinar. Isso não era nem um pouco comum para Alleras. Ele era um homem racional.

Após passar a mão enluvada na face, lembrou-se de que não havia pego a máscara de aço. Virou os calcanhares, olhou para o chão, tentou achar o objeto. Devia estar mais apressado, mas não conseguia. Seu corpo parecia estar com problemas para assimilar os riscos de sua atual situação. Seus dedos pareciam pesados, os ossos pareciam estar enferrujados.

A máscara estava jogada ao lado de seu aljava e do arco. Tinha esquecido de pegá-los, tamanha a pressa em que estava. Passou a tira de couro do aljava sobre o ombro. Parecia distante de tudo aquilo.

Quando ouviu um sussurro atrás da nuca, virou a cabeça de chofre, assustado. Seu corpo inteiro voltou a disparar.

Nada. Não havia nada. Mas, de algum modo, ainda sentia um sussurro distante atrás de sua nuca. Sempre que virava, sumia. Era como se a pessoa atrás dele se deslocasse infinitesimalmente.

Depressa! — urgiu Melisandre, ainda tendo dificuldades em lidar com o vagante Branco.

Alleras deu um tapa em si mesmo, tentando voltar a si. Pegou a máscara, amarrou-a no rosto, ignorando o protesto dos dedos enquanto o fazia. Esticou o braço para pegar o arco de madeira dourada…

Voltou a sentir a pele arrepiar, mas dessa vez, não houve qualquer som. Apenas frio e silêncio. De toda forma, ele virou o rosto, por precaução…

O simples gesto salvou sua vida.

Ao se virar, a máscara valiriana de Marwyn chocou-se com os dedos pálidos de um Vagante Branco, fazendo-os arder com o contato. A entidade quase matou Alleras de susto com sua carranca horripilante e seu guinchar de agonia e fúria; um fantasma personificado de olhar azulado e cruel.

O rosto perfeitamente simétrico se contorceu numa careta de dor, afastando a mão fumegante. Os olhos fitavam Alleras com muita cólera e indignação. Com um gesto infinitesimal, parecendo esquecer a dor, a criatura partiu com fúria para atacá-lo. Os olhos luzindo com um fúria gélida.

Sem parar para pensar, o dornês foi rápido em deslizar sua lâmina pela manga. Assim que a criatura pálida estava sobre ele, ela soltou um ruído de agonia – o punhal atravessara sua armadura como se fosse feita de vidro fino. O Caminhante caiu no chão, liquefazendo. Levou os pálidos dedos até o cabo de osso de dragão, agarrou-o, começou a puxar, tentando parar o processo de liquefação.

Enquanto lutava pela sua vida, a criatura voltou rapidamente os olhos para Alleras, fitando-o de soslaio, quando este fez um gesto brusco.

A última coisa que seus olhos azuis captaram foi o cetro de Alleras descendo em sua direção. Bastou um baque para que a cabeça do Vagante se estilhasse como vidro. O corpo terminou de derreter em seguida, virando só mais uma inofensiva pocinha. O punhal caiu no chão molhado.

Alleras resfolegou. O coração acelerado não parava de bater. Apesar do ambiente enregelante, seu nariz pingava de suor. Sua boca hauria ar; quando soltava, saía uma fumacinha branca.

Fitou o punhal no chão. Intacto. Quando curvou-se para pegá-lo, quase o soltou de tão frio que estava. Guardou-o em uma pequena bainha entre os tecidos de sua manga. Se empertigou, voltou a olhar Melisandre.

A sacerdotisa conseguiu derreter três aranhas de gelo enquanto Alleras se arrumava. Todavia, isso nem de longe bastava; umas quatro ou cinco estavam escalando a pedra negra e fundida que formava a torre, cada vez mais próximas. Por pouco um vagante não a atingiu com uma lança de gelo.

De forma rude e abrupta, Alleras a empurrou para o lado, usando o próprio corpo. Com gestos assaz, pegou as flechas do aljava, às encaixou na corda do arco, puxou, soltou – pouco antes de lançá-las, as pontas negrumes explodiram em chamas. Quando acertava os alvos, mirando bem nas altas figuras empalidecidas que montavam as horrendas criaturas de cristal, estes gritavam agonia, caíam do dorso de suas montarias, indo direto para o chão. As aranhas se estilhaçaram logo depois.

Em um período infinitesimal, Alleras acertou quatro Vagantes Brancos. Mesmo Melisandre ficou chocada.

Uma aranha saltou para o lado, escapando da flecha. O pulo era em diagonal – subindo pelos lados. Os outros dois vagantes pareceram dar a volta na torre, sumindo da vista de Alleras.

Eles assimilaram as habilidades de Alleras, pensou Melisandre. Provavelmente foi por isso que estavam indo em peso até a torre – assim que o primeiro Vagante os viu lá, reconheceu-os, deixando todos os servos d’O Grande Outro em alerta.

Eles sabiam da periculosidade dos dois ali – precisavam sair antes que toda a horda de servos frientos estivesse em cima deles.

Melisandre uniu as mãos, acumulou calor, deixando a luz irradiar – um mar de chamas jorrou de suas palmas endourecidas. A aranha saltou, mas um segundo foi o bastante para que as ondas de calor a derretessem. O montador caiu para o chão, mas sabia que este iria sobreviver.

Usar demasiada magia por tanto tempo fazia o corpo da sacerdotisa arder. Estava queimando de dentro para fora. Seus pulmões e estômago, mesmo que não mais usados há tempo, pareciam estar em erosão avançada.

— Não tenho muitas flechas agora… — falou Alleras, se virando para ela. A voz era exaurida, abafada pela máscara.

Melisandre sabia que tentar abrir caminho pelos corredores era suícidio – os vagantes logo estariam no aposento onde eles estavam, e decerto estariam acompanhados. Além deles, a miríade de escravos de necromancia. Ela e Alleras Morreriam no primeiro lanço de escadas.

Não, teriam de fugir de outro modo.

— Você confia em mim? — Sua cadência era calma. O cabelo esvoaçava.

Alleras fitou-a por alguns instantes, seu rosto escondido por trás de uma camada cinzenta de aço esfumaçado e lavrado com ondas escuras, quase pretas. Os olhos amostrados; escuros, brilhantes, quentes, parecendo engastados com carvão. Flocos voavam entre as duas figuras.

Alleras assentiu em silêncio.

Melisandre pegou a sua mão, enquanto levantava uma perna. Fincou o pé descalço na beirada da janela.

— O que você…?

— Sem perguntas! Agora, rápido! — incidiu ela.

De chofre, a porta de madeira explodiu em várias lascas geladas. Três vagantes adentraram em fúria no local, passando pelo umbral sem um som sequer. Das laterais, duas aranhas de cristal avançavam sobre eles, com os montadores erguendo dois dardos de cristal.

Sem pensar, Alleras colocou força nas pernas; estava ao lado de Melisandre em um instante.

Assim que as duas lanças de gelo foram jogadas, os dois saltaram.

Alleras mal teve tempo de gritar – em menos de um piscar de olhos, o chão explodiu em dourado sobre seus pés. O brilho feriu seus olhos, mas ele os forçou a ficarem abertos. Sentiu-se beijado pelo sol. O calor era semelhante ao fulgor dos raios solares de Dorne.

— Não pare! — bradou Melisandre, com o vento estourando os tímpanos de ambos. Ela puxou-o, ainda agarrando sua mão, enquanto dava um passo para frente.

Sem saber o que fazer, Alleras seguiu os mesmos movimentos, percebendo que o piso de fogo em que ele estava pisando estava esmaecendo.

Quando pareceu que estava prestes a cair, uma nova chama nasceu, delineada no ar em um quadrado incandescente. A luz espantou as sombras e derreteu os flocos. Estava um pouco mais elevado que a plataforma anterior, que havia se dissipado.

Instintivamente, Alleras e Melisandre repetiram o gesto de andar. Era como correr numa escada, mas sem ver o próximo degrau e tendo de fazer isso antes que o anterior sumisse. No começo foi desajeitado, até que as pernas de Alleras se acostumaram com o ritmo frenético, entrando em estado que parecia autônomo. Seus pés se moviam numa concentração que nem ele parecia raciocinar totalmente. Era correr para não morrer.

O corpo de Alleras não parava de suar, suas axilas estavam parecendo ser dissolvidas. Não fechava os olhos; por sorte o calor espantava os flocos.

Um zunido fez-se ouvir, cortando o ar. Um assobio passou pelo ouvido esquerdo de Alleras; mas ele nem sequer se deu ao trabalho de verificar se fora machucado, ignorando a ardência na orelha, o zumbir no tímpano.

Continuou a correr nas chamas, q subir na noite. Sentia Melisandre arder enquanto segurava a sua mãe, tão comcentrada quando ele.

O glaumor em formato de rubi no pescoço dela parecia prestes a explodir de tão incandescente.

Era a única luz – além da escada de chamas – na treva densa, sem qualquer sinal de estrelas ou lua. Era como subir para o nada. Um vazio inifinito.

Em contraste com o silêncio sepulcrau que havia no solo infestado por Caminhantes, trovões e rugidos eram ouvidos do além, ribombando no ar frio, parecendo haver uma tempestade no vazio.