Nymeria atravessava a densa bruma com todo o vigor que ainda possuía. Suas pernas afundavam na neve a cada gesto agitado que dava. Apesar da visão aguçada, a loba não conseguia ver praticamente nada naquele ar denso – era como estar presa em uma nuvem.

A loba forçava-se a correr – mesmo com as dores nas pernas, mesmo com todos os seus órgãos parecerem prestes a explodir. Até seus pelos pareciam se contorcer de dor.

Atrás da líder, sua matilha. Uma miríade de lobos, lobos gigantes e mestiços batiam suas patas poderosas contra a neve, forçando-se a achar brio o bastante para alcançar sua líder. Conforme o tempo passou durante sua trajetória, cascos se juntaram a corrida, assim como alguns pés e outros tipos de patas. A corrida da matilha de Nymeria fez com que muitos dos vivos e seus animais de guerra a vissem como uma espécie de figura de liderança.

Os mortos eram um impeditivo, mas o número de ressuscitados dentro de Harrenhal era menor do que o que estava de fora – e eram todos lentos, desajeitados, boa parte ainda enterrados na densa camada de flocos. O percurso, no geral, estava livre; um grupo anterior já passara por lá, imaginou Arya, e para isso tiveram de se livrar de uma boa parte dos mortos-vivos. A onda de calor abrasivo também havia ajudado a terraplanar o terreno e torrar alguns dos mortos. Ótimo. Um problema a menos em sua vida – faltavam apenas muitos outros para ela se preocupar.Sua loba – consequentemente, sua dona também – sentia o cheiro dos irmãos Stark. Estavam perto, junto de dezenas de milhares de outras pessoas.

Arya não teve escolha a não ser fugir. A figura da dita Rainha da Noite pareceu enervá-la; quase cedeu para ela. Perdeu o controle sobre si de um modo que não sabia explicar. Teve de bater em retirada para escapar dela; ficar seria suicidio… ou algo até pior.

Nem sequer pensou em Sor Gendry, Sandor ou qualquer outra pessoa – seus instintos diziam-lhe 《fuja!》 e ela o fez. Não tinha vergonha disso.

Sem parar. Nem mesmo o imenso e cegante clarão a fez estocar seus movimentos. Apenas correu, fugindo do calor que derretia a neve. Muitos dos servos mortos dos Vagantes pareceram derreter com as ondas massivas de calor – não eram resistentes ao calor, mesmo aos que uma pessoa normal suportava; por isso mantinham o mundo em total breu enregelante.

Nem todos os vivos conseguiram escapar da morte – Arya podia ouvir o ulular de centenas de humanos e animais que arderam ao serem tocados pela luz abrasiva. Bolhas rapidamente surgiram, estourando logo em seguida. Os olhos derreteram antes de tudo. A pele se desprendeu dos ossos, parecendo derreter, enquanto o sangue borbulhava, como se fosse algum tipo de lava. Os pelos corporais se desfizeram em instantes. Por fim, tudo o que sobrava era a estrutura óssea, rapidamente carbonizada. Aqueles mais perto da explosão tiveram um fim mais misericordioso – alguns nem puderam ver o lusco-fusco quando ele surgiu, consumindo-os, deixando apenas cinzas. Outros foram rapidamente cegados e incinerados, com os mais distantes talvez deixando uma pilha ou outra de restos de carne tostada para contar história.

Arya tentou não pensar nas mortes. Apenas correu.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Sansa aguardava no Bosque por Seja-Lá-O-Quê estava para chegar. Bran disse que Arya estava vindo, mas até o momento nenhum sinal dela.

A imensa explosão que surgiu assustou a todos, que entraram em total desespero, criando uma algazarra, cheia de cacofonia. O Magnar de Thenn precisou de seus homens para acalmar a multidão. O gigante Wun Wun também ajudou – pegou três homens que ousaram levantar armas contra os seus suseranos e os arremessou para longe, além de pisar em duas (ninguém sabia se eram realmente revoltosos ou só dois azarados que forma pisoteados sem querer, mas Sansa achou melhor usá-los como exemplo; pelo menos suas vidas não terminaram em vão).

Após isso, o carro de bois onde as damas de Sansa estavam foi arrastado até mais perto do represeiro onde Bran estava, por precaução. Barbara Bracken estava desmaiada, assim como Myranda. Wylla segurava o bebê dela, assim como segurava as lágrimas. Jeyne e Margaery quietas em seus respectivos cantos. Cynthea Frey estava chorando sem parar. A parteira que ajudou Randa no parto segurava o herdeiro de Alys Karstark, enquanto o pai do rebento ficava em guarda.

As coisas não estavam realmente calmas, mas estavam menos atabalhoadas. Uma parte do povo dizia ser o poder do Deus da Luz, enquanto outros viam os deuses novos ou antigos por sabe-se-lá qual motivo. O denso clarão lusco-fusco derretera uma parte da neve acumulada no local; mas os flocos continuavam a cair em quantidade, fazendo a camada entumecer-se para como antes estava.

– Que houve? – indagou Sansa ao seu irmão, sussurrando, após as coisas se abrandarem.

– Melisandre convenceu Benerro – foi a resposta que seu irmão lhe deu. – Isso vai atrasar o inimigo, mas não impedi-lo. Os Outros já estão chegando para cá.

Um arrepio percorreu o corpo de Sansa. Ela se abraçou.

— E Melisandre, onde está? Ela…

— Está viva, se é o que quer saber. Está vindo, junto com seu velho amigo, Sansa.

A princesa franziu o cenho.

— Amigo dela? Refere-se a Jon ou Stannis?

Bran negou com um menear da cabeça, derrubando alguns flocos que acumulavam-se em seus ruivos cabelos.

— Seu amigo, Sansa — explicou-lhe. — Estão quase chegando.

— Meu amigo? — Nem sabia se ainda tinha amigos. Suas poucas amigas já estavam lá, com ela. O irmão se referia a Sandor? Bom, ele não tinha confirmado ser Jon…

Em meio aos seus pensamentos, ela foi assustada ao ouvir um distante som se fazer presente em meio ao silêncio. Um barulho estranho, aumentando pouco a pouco. Um marchar descompassado, um uivar distorcido. Ela voltou-se para frente. Para o local donde havia vindo. Escuridão. Uma densa bruma esbranquiçada.

— Em guarda! — ordenou o Magnar de Thenn em sua língua materna, empunhando um machado de guerra duplo e de bronze. Tal arma, Sansa sabia, era inútil para a guerra contra os vagantes. Homens e mulheres – mesmo aqueles que não falavam a língua dos primeiros homens – se poderam em riste: lanças, machados, flechas, espadas, adagas, punhais, estrelas-da-manhã, massas espinhentas de guerra, dentre tantas outras coisas.

O barulho aumentou – cascos, metal contra metal, metal contra pedra, gritos (tanto humanos quanto felinos), uivos, até mesmo balidos, foram ouvidos. Os corvos de Bran crocitavam em todos os lugares, enquanto batiam suas asas, até mesmo algumas corujas faziam seus “uh-uh”; facões faziam pidos, codornas piavam. A floresta ganha vida de modo açodado.

As pessoas no bosque se desesperam ainda mais conforme o barulho cresce – choram, gritam, rogam pragas, rezam, falam “eu te amo” para a pessoa ao lado, trocam abraços e beijos, pedem perdão; todo o tipo de coisa que se faz quando se está prestes a morrer.

Sansa teve o impulso de correr e ir abraçar Jeyne, mas, antes de fazer qualquer coisa, olhou para Bran. Ele era calmo, como um represeiro per se. Seus olhos errados estavam cravados para frente, donde vinha a algazarra.

Ao notar sua calmaria, a princesa tentou se controlar, voltou a olhar para frente. Havia apenas a encanecida névoa; uma parede de caiada.

Lembrou-se de que, quando os mortos atacavam, ainda podia-se ver a luz: seus olhos.

Quando a primeira figura surgiu da bruma, criando ondas nebulosas quando a névoa foi irrompida, avançando com boa velocidade até onde estava a coorte de pessoas.

— Não atirem! — ordenou Bran, com um vozear muito jovial, de quem ainda está na puberdade. Foi alto o bastante para ser obedecido porém. — É minha irmã, Arya! Meu Lorde tio e os outros estão logo atrás!

Apesar de confusos, os soldados deram espaço para a princesa passar. Sansa deu alguns passos à frente, um tanto retardada pela neve. Podia ver a figura cansada de Nymeria; olhos dourados penetrantes, um pelo bagunçado, salpicado de neve. Quando estocou sua corrida, diminuindo os passos aos poucos, a loba balançou o corpo, fazendo a neve espiralar. Havia diversas feridas em seu corpo, marcas onde o pelo fora agarrado e puxado, com ferimentos abertos aqui e ali. Arya desceu de sua montaria, enquanto Nymeria passou a lamber os machucados.

Sansa aproximou-se mais da irmã, preocupada. Arya estava coberta de suor, com suas vestes rasgadas, cabelo desgrenhado e diversos arranhões e hematomas (se bem que estes dois últimos avistamentos eram bem comuns na vida de sua irmã, mesmo antes dela completar seis dias de seu nome). Arya passou um braço pelo rosto, tirando o suor gelado e grudento, sangue e um tanto de neve e cinzas. Retirou um pouco de sangue coagulado que descia pelo topo do canto da testa, alguma ferida aberta que era escondida pelo cabelo castanho.

— Como estão as coisas? — Perguntou Sansa, logo notando ser uma pergunta idiota. — Que aconteceu? Você está bem? E Jon?

— Ficou para lutar — Arya respondeu, tomando um pouco de fôlego. Estava ereta, mas a respiração estava agitada; logo foi diminuindo o ritmo, tornando-se compassada. A voz deixou de ser ofegante conforme a princesa pronunciava as palavras. — Tive que partir, vi a Rainha da Noite. Ela está por perto, mas acho que os sacerdotes do estúpido deus de nome idiota deram-lhe uma boa atrasada.

— Rainha da Noite? — A menção ao nome pareceu perfurar a armadura de Sansa. Lembrava-se da figura: esguia, jovem, bela… mortal. Puro ódio. O ódio de toda uma nação de gerações e mais gerações. — Oh, deuses…

Enquanto a princesa tentava começar a inquirição, outras pessoas eram cuspidas da bruma: Lorde Edmure, montando um carrano agitado e espumante; Lorde Waynwood, cuja montaria tinha o traseiro totalmente rosado e sem pelo, com o rabo sendo apenas uma fina camada de carne queimada (tiveram de segurá-lo para que o pobre animal parasse de correr; sacrificaram-no após retirar Roland, queimaram o corpo); o tio dele, Sor Donnel, estava montado na traseira de uma cabra pálida de fedida de Skagos, liderada por uma skagosi que balbuciava coisas sem sentido (os que entendiam preferiam não traduzir as obscenidades e insultos desvairados da mulher para com Sor Donnel e os sulistas).

Lorde Edmure claudicou até as sobrinhas.

— Quase fui cegado… — falou ele, exaurido, ofegante. Piscava os olhos de forma viciante. Provavelmente nem havia enxergado sua esposa e filho, logo na carroça ao lado. — Olhei para trás e acho que, mais um pouco, e meus olhos derretiam. Pelos deuses, vi um soldado Royce e Manderly terem seus olhos derretidos e vi um soldado Tully ter a cara derretida… Buurr – sacolejou-se, tanto de frio quanto de pavor —, preferia ter sido cegado antes de ter visto. — Pestanejar um pouco, parecendo tentar fitar melhor Sansa. — Onde estão Roslin e meus filhos? Eles…

— Milorde! — esganiçou Roslin, chorando. Isso acordou seu filho, que começou a abrir o berreiro novamente.

— Roslin! — Sem nem pensar, Edmure passou pelas sobrinhas de forma abrupta e rude, quase empurrando Sansa, que quase caiu na neve. Ele escalou a carroça, com a ajuda de alguns soldados, preocupados com que seu suserano caísse.

— Oh, graças aos deuses — exclamou Lorde Edmure, não podendo mais conter as lágrimas, enquanto abraçava a esposa e o filho, sem ligar para o choro deles. Quando se afastaram, ele tomou seu rebento, Robb, em seus braço, segurou a mão da esposa. Seu sorriso morreu ao olhar ao redor, apertando bem os olhos, notando que não havia sinal de seus outros filhinhos. Desesperado, ele fitou a esposa:

— Cadê Minisa e Hoster? — ele indagou, era possível sentir o desespero em sua cadência. — Cadê nossos filhos?

Roslin apenas desatou a chorar, abraçou seu marido, afundando o rosto em seu peito. Abalado, Edmure apenas pode reagir pousando um braço nas costas dela. Pareceu ficar com a mente embotada, olhando para o nada, de queixo caído, surdo aos choros de seu rebento e da companheira.

Sansa olhou de soslaio para Sigorn, o Magnar dos Thenn, que estava prostrado ao seu lado. Seus olhos cinzentos fitavam o lorde do Tridente, o queixo tremia, os punhos estavam cerrados.

Compadecida, tocou-lhe o ombro. Gesto pareceu tirar a concentração de Sigorn, que a encarou, deu um leve sorriso triste.

— Caso não sobreviva — pediu ele, na língua dos primeiros homens, obrigando Sansa a se esforçar para entender seu jargão —, gostar-me-ia de que a princesa cuidasse de meu herdeiro. Alys e eu confiamos nos Starks.

Sansa assentiu. Sabia que aquele homem não queria ouvir nada gentil e esperançoso no momento.

Outros se aproximaram: Sor Roland, Sor Ronnel e sor Gendry. A princesa selvagem, Val, havia chegado e estava logo atrás deles.

— Que deu em você? — sibilou Sor Gendry, fulminando Arya com um olhar tempestuoso. Seu rosto era uma carranca feiosa, até Sansa se assustou.

Arya apenas o fitou, sem falar nada.

— Tive que fugir…

Eu pude perceber — atalhou ele.

— Parem vocês dois! — Sansa ordenou, sem paciência. Virou-se para os Waynwoods. — E onde está Lorde Royce? Stannis?

— Nem sinal de Yohn ou Andar — respondeu Sor Ronnel, antes de seu sobrinho, que o olhou irritado.

— Stannis ficou para trás, com vosso irmão, princesa — falou Val, empurrando os dois Waynwood, ficando ao lado de Sansa. — Não faço ideia do que…

— Jon e Stannis estão tentando abrir caminho pelos mortos. — Bran sempre tinha a resposta. Todos se voltaram para ele, como se tivessem se esquecido de que estava fincado ali. Pareciam ter se acostumado tanto com sua imagem estacada ali que bem podiam achar que era apenas uma árvore.

— Eles vão conseguir? — Sua irmã Arya perguntou, parecendo aos poucos voltar a si. Estava bem abalada. A cor escapa de seu rosto longo e sujo.

— Isso eu apenas posso esperar para que sim. Sei que vão.

Você sabe realmente muito, não é, irmãozinho?, pensou Sansa, vendo a figura de seu irmão, intrínseca ao Represeiro retorcido e feio de Harrenhal. As raízes pareciam consumí-lo, imiscuir-se em sua carne como pálidos vermes. Era aterrador pensar o que ele tornaria se a situação se prolongasse.

A princesa virou-se para os senhores do Vale, encarou Sor Ronnel, Lorde dos Portões da Lua pelo casamento.

— E minha esposa? — ele indagou antes que Sansa conseguisse dizer uma palavra sequer. Seus olhos escuros estavam aflitos. — Onde está Randa?

Compadecida, a princesa gesticulou, lânguida, para o grande carro de bois. Ronnel se virou, deu alguns passos apressados, escalou o veículo, quase derrubando Lorde Edmure e sua família. Foi tão rápido que Sansa nem sequer pôde lhe falar do nascimento de sua primogênita.

Ronnel andou, bambo, quase escorregando na neve, por pouco não esbarrando nas ladies assentadas no veículo, ajoelhou-se ao lado do corpo desmaiado de Randa. Afastou a coberta feita de pele de cavalo – horrível, toda puída e rasgada, tendo sido costurada com uma manta de pele de esquilo – que lhe cobria o rosto, colocada para afastar o frio.

O rosto de sua esposa estava sem cor, os cabelos bagunçados, salpicados de neve. Afastou algumas mechas, grudadas na tez por uma camada gelada de lágrimas e suor. As pestanas também estavam grudadas pelos cílios. Ronnel acariciou-lhe o rosto, mas não obteve resposta. Tomando coragem, deu uns tapinhas na bochecha. Nada. Desesperado, segurou com força os ombros largos da desfalecida Myranda e começou a balançá-los.

— Randa? Randa! — Ele pressionou mais os dedos, fazendo balanços mais bruscos. — Randa! Sou eu, Ronnel! Vamos, vamos, vamos! — Ele forçou um sorriso, mas estava tendo que fazer muita força para curvar os lábios. Seu peito se apertava, sentia as lágrimas ardendo em suas bochechas, pingando no rosto de sua companheira. — Sou eu, seu cavaleiro galante, eu vim te salvar…

— Ela está viva, Sor. Apenas desmaiada. Estamos de olho em sua respiração.

Ronnel ergueu o olhar. Encontrou os olhos de corça de Margaery. Ela estava sentada, coberta por um manto negro, fedido. A pele dela parecia musselina brilhante, contrastando com o pretume do tecido grosseiro que ela usava.

Ronnel fez um esgar ao encará-la. Lembrava-se de que aquela mulher era culpada por muito do que afligia Myranda: Sor Robar estava morto muito por culpa de Margaery. Apenas Ronnel viu o quanto sua esposa ainda chorava pelo fato de que o irmão fora decapitado sem julgamento, enquanto Margaery ainda tinha direito de desfilar como uma aia cobiçada.

— Ela vai sair viva de tudo isso — vivia ela a reclamar. — Vai aprontar, e vai escapar; Albar nem sequer teve direito a um julgamento por combate!

Havia sempre cólera na voz e no olhar, mas qualquer um que conhecesse bem a Royce sabia seu verdadeiro sentimento: tristeza. Perdera o pai e o irmão, nem sequer podia fazer nada contra os que finalizaram-os: Daenerys queimou Lorde Nestor, mas era a Rainha, no que Jon matara Albar, mas, como um Rei, ninguém iria contra ele.

No fim, Myranda nem sequer pode velar o irmão ou guardar seu corpo no gelo até voltarem ao Vale: ele virara comida para a fera de Daenerys antes mesmo da audiência em que ele morreu acabasse. Ele era ração.

E ainda havia Margaery – ela pode não ter sido a única culpada, mas grande parte das ações que levaram Albar à morte foram culpa dela. Ou pelo menos era o que Ronnel e Myranda pensavam a respeito da Tyrell.

— Me poupe de suas palavras… — Sentia uma dor angustiante na garganta, quase sem conseguir achar forças o bastante para não gritar. — Sei bem que quer a morte de Myranda. — Seu queixo tremia.

Margaery o olhou com indiferença antes de virar o rosto.

— Pense o que quiser — redarguiu Margaery, mesmo que soubesse que ele estava certo. De todo o modo, as palavras ainda lhe afligiram. Apertou as vestes contra si, sentindo a intempérie piorar.

Antes que algo mais pudesse ser dito, Wylla se ergueu um pouco.

— Sor Ronnel… — Desajeitada, ela esticou o bebê em seus braços, tomando cuidado para não derrubá-lo. — Essa é… é a filha de Myranda. Sua filha, Sor.

Ronnel ergueu o olhar, confuso, parecendo nem enxergar bem a moça defronte a ele, demorando até apontar os olhos para o rebento que se remexia no amontoado de peles oleosas.

— Minha filha… — falou, enquanto fitava a bebê, ainda sem reagir. Quando a bebê começou a se remexer, grunhindo, a cor avermelhada sumiu do rosto longo de Ronnel. — Minha filha! Minha filha!

Ele rastejou os joelhos, percebendo tardiamente a dor que lhes afligia, mas ignorou. Esticou os braços, palmas abertas. Apesar de relutante, Wylla lhe entregou a bebezinha, que agora acordava, fazia careta, incomodada. Estava fedendo, talvez fossem das peles oleosas, mas provavelmente ela estava cagada.

Ronnel Waynwood a embalou, levou-a até perto de seu peito. Oh, ela era uma coisinha! Bem rubicunda, com nariz de pug. Teve medo de quebrar a coitada.

Irritada – fosse de fome, frio, por estar suja, ou todas essas coisas –, a bebê ficou mais vermelha, começou a chorar, dando um gritinho que afligiu o coração de seu pai como se estivesse sendo furado por alfinetes de gelo. Perdido, sem saber o que fazer, começou a bala

Sem saber exatamente o que fazer, Ronnel começou a balançar a filha primogênita.

— Shh… shhh, calma, calma… — Ele mesmo estava segurando o choro.

Minha filha, pensou, desesperado com a ideia. Sua filha, sangue de seu sangue, uma criação de carne e sangue, fruto do amor de Ronnel e Myranda. Um rebento miúdo, nascido no caos, nascido no que podia ser o fim de tudo.

Minha filha. A palavra era tanto um misto de amor, esperança, medo.

Minha filha. Minha primeira filha. Meu bebê, minha bebezinha. Minha filha! Minha filha!

— Minha filha — pronunciou a frase, monocórdico, ainda balançando-a, parecendo nem ouvir seu estridente choro. — Minha filha. — Ele fitava o rostinho inchado, chorão, vermelho, sem parecer enxergá-lo. O boquinha aberta como um bocão.

— Sor Ronnel! — Sansa o chamava. Quanto tempo ela o estava fazendo? Ele não sabia dizer. Não sabia o que fazer.

Minha filha.

— Sor?

Ele ergueu o rosto de chofre. Era Lady Wylla – sor Wylla.

— A princesa o chama — Ela falava como se ele fosse uma criancinha. Um olhar compadecido. — Dê-me a bebê. A ama vai cuidar dele, Sor. Ela ficara bem.

Ronnel percebeu que ainda estava chorando, mas nem sentia. A dor, o choro da filha, a esposa desmaiada, as mortes, o caos iminente – tudo parecia vazio. Era como se sua mente estivesse com muita coisa para assimilar.

Minha filha. Eu tenho uma filha. Myranda e eu somos pais.

Randa. Minha esposa. Minha esposa deu-me uma vida.

Ele olha de esguelha para baixo. Randa ainda estava lá. Sua Randa. Sua esposa. A mãe de sua filha. A filha deles.

Ela gemeu, parecendo com dor, mas não teve força para abrir os olhos grudados. Voltou a parar de mover-se.

Ronnel se virou, fitou a bebê em seus braços, desatando a chorar. Fitou a mulher ajoelhada a sua fronte. Era Wylla. Wylla era a dama de companhia de Sansa. Sim, podia confiar nela.

— Você… você pode cuidar da… da minha filha? E… E da minha esposa.

Apesar de inicialmente fitá-lo como se ele fosse um insano, a Manderly forçou um sorriso, aquiescendo. Esticou os braços.

Apesar de seu coração protestar, ele entregou sua filha para ela. Fitava o rosto da bebezinha enquanto o fazia. Deuses, como ela chorava!

Antes de ir até a princesa, Ronnel agachou-se, deu um beijo na bochecha de sua esposa. Ela ainda estava bem fria. Ele usou de sua capa desgastada para limpar o rosto dela.

— Espera por mim, Randa — sussurrou, pegando na mão dela. Ele apertou, esfregando-a entre as suas, como que para aquecê-la. — Eu vou voltar, levar você e nossa filha para casa. Acredite. Espera por mim, esposa. Eu não vou te abandonar.

Margaery olhou para a cena. A visão lhe deu um súbito sentimento de tristeza; todos ali se importavam com Randa: seu marido, as outras damas de companhia, a princesa – agora, tinha uma filha. Não havia ninguém para Margaery. Estava sozinha naquela treva fria.

Quem choraria por ela? Havia ainda algo dela para fazer falta no coração de alguém?

Quando Sor Ronnel afastou-se, a parteira que ajudou Randa, ainda segurando o herdeiro de Karstark e Thenns, balançou a cabeça, fazendo estalinhos com a língua.

— A bebê não vai viver — sussurrou. — Ela é muito fraca; sorte terá se passar de algumas horas nesse frio. Além do mais, nem valeu o esforço, nem sequer é um herdeiro varão!

Wylla e Margaery olharam para mulher com raiva.

— Uma pena que não entrou para a ordem das irmãs silenciosas — Comentou Margaery. — Porque sua língua não faz falta alguma!

A mulher se retraiu, aconchegando o bebê Karstark para mais perto dela.

Edmure e Ronnel desceram da carroça. Ambos eram os mais visivelmente abalados do grupo, parecendo nem ouvir o que era dito. Os olhos pareciam nem ter vida. Sor Roose e Meera também estavam com o grupo, com Sigorn e Val parecendo mais régios que eles, mesmo estando acabados. Os lobos dos príncipes Starks faziam vigia. Sansa estava de frente aos soldados – com exceção de Aly Mormont e Val –, atrás dela, o príncipe Bran, no alto de seu trono-árvore, observando a todos com seus olhos.

— Onde estão os Redforts? — indagou Sansa, perscrutando o grupo. Mychell merecia saber sobre Mya… isso se ele ainda estivesse vivo. Fitou, em especial, os Waynwoods.

Roland balançou a cabeça.

— Ficou para trás — revelou Roland, com neve salpicando o cabelo oleoso. — Todos os Redforts ficaram, creio…

— Mychel estava conosco — insistiu Edmure, agora sentindo a visão melhorar. — Estava mais para trás, mas…

— Se ficou para trás agora é cinzas — cortou a princesa selvagem. Desceu o olhar até Sansa. — Lamento, princesa, mas não podemos perder tempo…

A princesa abaixou o olhar.

— Mya está morta — ela falou. Ergueu o olhar.

Os dois Waynwood ergueram as sobrancelhas.

— Mya? — Ronnel perguntou, mas ela achou que ele estava apenas mais triste pelo golpe que a esposa deve ter sentido; Mya era a única amiga verdadeira de Myranda.

Roland cerrou os punhos.

— Choremos por ela depois — ele declarou, mas era óbvio que ele ficara abalado ao saber da morte da colega. — Mychel também, caso ainda esteja entre nós.

Sansa acenou. Não era hora para o luto.

— Quanto tempo temos? — Quis ela saber.

— Poucos minutos, diria — Bran respondeu, sem que ela o olhasse. — Não temos vivos para distrair a Sacerdotisa.

A princesa inalou ar de forma exasperada, parecendo querer manter a postura controlada. 《Não vou aborrecer-me com esse esquisito》.

Sigorn propôs:

— Devemos mandar batedores.

Sansa negou a ideia com um meneio.

— Isso seria inútil, apenas iríamos perder mais soldados.

— E que propõem? — indagou Arya. — Ficarmos aqui e esperar o abate?

Sansa fitou-a com raiva, dardejando seus olhos azuis contra seus olhos cinzas. Estava farta de toda aquela petulância de Arya – ela largou-a quando precisou de ajuda, tinha segredos estranhos que recusava-se revelar; não permitiria que ela atrapalhasse sua liderança. Não agora.

— Tem alguma ideia? — Quis saber. Exigiu. — Foi você quem bateu em retirada antes de todos; então me diga, querida irmã: tem alguma ideia ou vai apenas reclamar enquanto o nosso fim se aproxima?

Arya ficou abalada no começo, chocada com a rispidez; mas logo a raiva surgiu, com Arya fazendo um esgar, enquanto Nymeria começava a rosnar, arreganhando os dentes.

Antes que a princesa falasse algo, porém, Sor Gendry pousou seu braço carbonizado em seu ombro, olhando-a de soslaio.

Por fim, apesar do olhar petulante de Arya, ela não fez nada além de olhar para o amante e depois para a irmã.

Nesse momento, Sansa percebeu mais alguém que estava faltando.

— Onde está Lorde Edric? — indagou, temendo a resposta.

Perguntar aquilo foi como um golpe para sua irmã. Esta perdeu toda a cisusidade em seu rosto; foi como se a antiga Arya voltasse: a Arya criança, uma garotinha inocente e assustada. Ela desceu os olhos cinzentos, fitando os pés, enquanto mordia o lábio inferior. Era como quando ela levava uma bronca da mãe ou da septã Mordane.

Sor Gendry falou pela amante:

— Ned está morto.

Sansa fitou a irmã por mais um tempo, mas segurou sua vontade de ir até ela e abraçá-la. Não era hora para isso.

(Mas e se não tiver tempo isso no futuro?)

— Então estamos com cada vez menos soldados — declarou Val, varrendo o local com seus olhos verde-cinzelados. A grande maioria era de plebeus velhos, mulheres, crianças, doentes, feridos e aleijados. A maior parte dos guerreiros eram pessoas que bateram em retirada e haviam acabado de chegar – estavam todos cansados, feridos, apavorados. Mormente estavam com queimaduras e sendo tratados da melhor forma possível – praticamente nenhuma, visto que não havia condições de tratar de tantas pessoas, ainda mais em condições escassas como aquela.

Estava tudo condenado. Jon estava longe – se é que ele e Stannis ainda estavam vivos –, a Rainha da Noite se aproximava, boa parte das pessoas estavam mortas.

— Que podemos fazer? — Sansa indagou, se virando, até ficar defronte a Bran. — Diga-me, que chance temos? Temos mesmo alguma?

Bran fitou a irmã mais velha. Seu olhar era de ancião.

Ele sorri.

— Seu amigo está vindo. E nosso irmão e Stannis logo hão de chegar. Parece que pelo menos dois Redforts estão vivos, creio. Quanto a Daenerys… bem, eu não posso vê-la daqui com clareza, está longe de meus corvos; mas creio que ela logo terá ajuda.

Sansa não falou nada, apenas o fitou. As palavras de seu irmão eram ocas para ela.

— Princesa? — o Magnar dos Thenns a chamou.

Ela nem o encarou, apenas caminhou até a carroça. Ia ficar com Jeyne e suas outras amigas até que o fim chegasse.

— Sansa? — a voz de Arya. Não importava. Não olharia para trás.

Já estava naquela situação antes – quando parecia que Stannis estava derrotando os Lannisters. Cersei disse que ela morreria, junto de todas as damas da corte, antes de que ele pudesse chegar a fortaleza. Sansa achava que aquela poderia ser sua última noite viva, e ela foi até seus aposentos e esperou. Assim como quando os aliados de seu pai foram atacados e ela e Jeyne ficaram chorando no quarto. Assim como esperou Daenerys chegar até Winterfell e aguardou se ela a queimaria ou não.

Era isso que ela faria agora: esperar. Esperar para saber se esse seria seu fim ou viveria para ver o sol nascer novamente.

Quando estava prestes a subir na carroça, notou alguma gritaria advindo das pessoas feridas. Notou o que parecia um animal veloz; notou ser um cavalo ao se virar, assustada quando os soldados dos Thenns e os soldados perto de Bran botaram as armas em riste.

O cavalo – parecia um cavalo dos Dothraki, espumando pela agitação –, estacou sua corrida quando teve as rédeas puxadas. Ouviu o montador soltar um grunhido antes de falar uma palavra que Daenerys não entendeu. Sansa só percebeu que havia outra pessoa montada no cavalo quando esta caiu no chão de neve, fazendo os flocos voarem.

Adrede, ela achou serem dothrakis perdidos e assustados, até notar que o montador trajava uma armadura de escamas brancas, o manto branco totalmente imundo de lama, sangue e cinzas. Não era Sor Jorah; era mais jovem, com pele e olhos pretos. Era Tumco Lho. Ele balbuciava algo que Sansa não conseguia entender, enquanto algumas pessoas corriam até ele, prontos para ajudá-lo a descer de seu animal. Uma mulher segurava as rédeas, tentando acalmar o cavalo apavorado.

Outras pessoas ajudavam o homem caído, retirando-o da neve, levando um cobertor qualquer para aquecê-lo.

Tumco Lho ajoelhou ao sair de sua cela, fazendo careta. Algumas pessoas começaram a tirar a sua armadura de escamas, parecendo ter dificuldade. Quando tentaram puxar, ele grunhiu, rogando uma praga em outra língua. Era o que se imaginava: o calor de sua armadura derreteu algumas partes do metal esmaltado.

— Coloquem eles aqui! — ordenou Sansa, aproximando-se de onde eles estavam, levantando a bainha rasgada do vestido. — Temos algum espaço sobrando…

Parou de falar quando o homenzarrão caído foi erguido por três homens corpulentos que o agarravam por debaixo das axilas. O fraco lume das tochas revelou seu rosto desfigurado. De começo, pensou que a queimadura era por conta da explosão de luz e calor que atingiu ele e Sor Tumco Lho; até que percebeu ser Sandor, que exibia uma ferida horrível no suvaco.

Ele e Sor Tumco Lho passaram por ela, levados até a carroça.

— Vindo… — Sandor balbuciava. — Estão vindo…

— Tão frio… — Foi o que Sor Tumco Lho falou, entre palavras de sua língua materna. — Frio…

Enquanto colocavam os dois feridos na carroça, Sansa caminhou até o represeiro onde estava Bran, passando por Arya, Gendry, Aly, Sigorn, Val e ficando ladeada pelo desfigurado Sor Roose.

— Esse é meu amigo que tanto falava? — indagou, erguendo a cabeça para fitar Bran. Seu irmão a olhava de cabeça baixa. Se era mesmo Sandor, onde estava Melisandre? Ela até agora não havia aparecido.

Ele negou com a cabeça.

— Não, este ainda está por vir. Na verdade… — Ele parou de falar, olhou para o céu, erguendo cabeça e olhos, quando um som distante surgiu no topo do mundo.

Sansa repetiu o gesto. No começo, apenas negrume e pontos brancos que caíam, copiosos. Depois, luzes pareceram surgir, mas esmaecidas pela nuvem, junto do que pareciam trovões.

— Estamos ganhando? — Ela perguntou, já sabendo ser Daenerys, enquanto ainda olhava para o cimo do mundo. Não ousou ter esperança até seu irmão falar.

— Se o que eu sonhei estiver certo. — Bran ainda olhava para o céu nebuloso com pontos claros, parecendo bem calmo. — Sinto que posso ver… meu poder está crescendo.