Notas iniciais
ME DESCUUULPEM a demora!
Sério, fiquei super enrolada com o Carnaval e o Pós-Carnaval...
Sabe esse negócio que o Brasil só começa a funcionar depois do Carnaval? Então, foi bem assim nos meus estudos.
De qualquer forma: aqui está o capitulo lindo de vocês. Nele explica algumas coisas do passado negro desses dois... Espero mesmo que gostem!
* Só pra agradecer: amei a recomendação da Tamar Rangel, obrigada linda!

–Cozinha, sala e quarto – disse Percy indicando cada lugar dentro do apartamento.



O lugar tinha um tamanho razoável e era aconchegante. A sala era grande, tinha uma televisão enorme na parede, um sofá azul marinho com almofadas de cores pastéis, duas poltronas listradas e uma mesinha de centro com uma planta aquática estranha em um vaso de vidro. Eu podia ver o balcão de mármore da cozinha e seus armários de madeira clara que combinava com o assoalho. Tudo parecia em perfeita ordem.



Vi duas portas fechadas no corredor, onde ele indicara que era o quarto, a outra devia ser o banheiro.


–Quem mora aqui? – perguntei me virando para ele, eu sabia que Percy não manteria tudo arrumado.

–Eu.

–Sozinho? – perguntei um pouco chocada, não parecia haver dois quartos. Ele assentiu, me olhando como se minha pergunta fosse óbvia – E sua mãe?

–Em Nova York, onde mais?

–Sally te deixa morar aqui sozinho? – Não a Sally que eu conhecia.

–Ela não tem muita escolha. É a única cidade em que posso ficar.

Não entendi o que ele quis dizer com isso, mas seu tom dizia que ele já cansara das minhas perguntas insistentes.

Tirei a mochila de Luke do ombro e a abri, procurando roupas para um banho. Vasculhei entre as poucas roupas que trouxera de viajem. Tinha enviado a mochila com todas as minhas roupas para o acampamento, sem saber que acabaria num apartamento com Percy by CouponDropDown\">numa cidadezinha chamada Quedas do Demônio. Não, não estou brincando. Segundo Luke o nome vinha de uma série de cachoeiras altíssimas que secavam parte do ano e pareciam presas de demônio.

–As suas coisas estão no quarto. Piper e by CouponDropDown\">umas filhas de Afrodite mandaram ontem – disse Percy passando por mim em direção a cozinha.

Eu não sabia se devia me sentir feliz com minhas roupas estarem aqui, ou com medo do que as filhas de Afrodite poderiam ter enfiado na by CouponDropDown\">bolsa, sabendo que eu ficaria sozinha com Percy. Espero que Piper tenha feito sua opinião superior de conselheira valer, ela era um pouco mais sensata.

Andei até o quarto um pouco apreensiva, me sentindo uma estranha na casa alheia. Abri a porta branca entalhada, para encontrar um quarto simples e aconchegante. As paredes eram cor creme e a mobília era imaculadamente branca. A cama de casal estava feita com uma colcha azul escura simples, sem almofadas nem nada. Tinha um tapete grosso combinando com a colcha ao lado da cama e parecia impecavelmente limpo, como se nunca tivessem pisado nele. Havia uma estante cobrindo toda uma parede, mas estava vazia. A única decoração era um porta-retratos sem foto sobre a comoda e um quadro de natureza morta na parede, mas ainda assim o quarto tinha um quê feminino. Não como se uma mulher morasse lá, mas como se tivesse inicialmente sido feito para uma.

Percebi uma porta na parede a oeste, caminhei até ela e abri para um banheiro muito branco e limpo. Bom, talvez tivesse dois quartos. Voltei ao quarto e abri minha mala, que estava encolhida num canto e parecia mais cheia do que eu me lembrava. Além de algumas rendas a mais entre minhas lingeries e umas peças que não conhecia entre as blusas, não achei nada realmente preocupante. Fiquei muito feliz de elas terem somente acrescentado coisas e não terem feito uma censura entre as minhas próprias roupas.

Peguei uma lingerie azul simples, um shorts limpo (tenho quase certeza de que ele não costumava ser tão curto) e uma bata branca velhinha. No bolso do lado estava uma necessaire pink que não conhecia, dentro havia os meus poucos cosméticos; shampoo, condicionador, hidratante, desodorante e um perfume; e alguns a mais também. Como um creme de lavanda que parecia bem caro. Peguei a necessaire e fui até o banheiro.

Tranquei a porta, coloquei tudo sobre o balcão e comecei a me despir mecanicamente, jogando as roupas no chão sem o menor asseio. Me virei para pegar o shampoo e o condicionador e me deparei com minha própria imagem nua. Eu estava pálida e abatida. Eu tinha quase certeza de que perdera algum peso a mais. Thalia me mataria.

Me abaixei verificando se não havia uma balança abaixo do armário. Tinha uma verde de sapinhos, que contrastou muito com toda a palidez do banheiro. Aquela balança só reforçou a minha perspectiva de que uma mulher já morara aqui.

Subi quase rezando para não haver alterações sobre o antigo numero. 53kg.

–Merda – praguejei.

Dois quilos a menos, Thalia com certeza me mataria. Ou melhor, Thalia contaria para Percy, o que é bem pior.

Tá tudo bem, assim que sair do banho vou ir ao Mc Donalds mais próximo e comer um cheeseburger e uma coca super size para resolver isso. Meu estomago se contraiu só com o pensamento do queijo e hambúrguer gordurosos no pão. Eca.

Não! Eca não, eu sempre adorei cheeseburger. Que porra está acontecendo comigo?

No fundo eu sabia exatamente o que estava acontecendo, mas era um pouco mais feliz negando isso para mim mesma.

Empurrei a balança de volta para o lugar e resolvi fingir que não tinha acontecido nada. Eu não tinha perdido dois quilos. Simples assim.

Peguei o shampoo e o condicionador, abri a ducha no mais gelada possível e entrei deliciada em sentir a água na pele. Lavei cada pedaço do meu corpo, tirando os vestígios de quase dois dias sem banho. Quando comecei a lavar os cabelos percebi que tinha finalmente tempo para pensar em toda a merda que acontecera nessas ultimas horas.

Enumerei os tópicos a pensar:

1° Por algum motivo desconhecido e provavelmente banal, Poseidon me quer morta, assim como minha mãe quer Percy morto.

2° Tem um monstro marinho de milhares de anos pronto para destruir a costa de Long Island e provavelmente todo o acampamento e a única coisa que pode aplacar sua fome sou eu.

3° Para a minha proteção eu ficarei em cárcere privado com Percy até que alguma coisa resolva a fome de Cetus.

4° Percy tem uma namorada agora. E não sou eu.

5° Há algum segredo entre Percy e Luke, que parecem se odiar mais do que nunca, e algo me diz que isso está muito ligado a mim.

6° Por outro motivo desconhecido, Percy tem que ficar em Quedas do Demônio. E tudo indica que ele passou o ano todo aqui.

7° Tenho quase certeza que há alguma espécie de presença feminina nesse apartamento e estou apavorada com a ideia de que pode ser Zia.

8° Perdi dois quilos. O que quer dizer que está acontecendo de novo, depois de todo o trabalho de Thalia em me fazer engordar.

Como um sinal, assim que pensei no ultimo tópico senti a familiar e agonizante dor em minha cabeça. Trinquei os dentes para não gritar e deixei o corpo cair contra os azulejos molhados da parede.

Meus olhos se reviravam de dor, cada músculo do meu corpo se contraiu e perdi o controle. Levei as mãos a cabeça inconscientemente, agarrando meus cabelos em agonia. Senti um impacto contra a têmpora além do latejar horrível.

Não parecia que ia passar, eu não conseguia respirar e água caia em meu rosto, mas eu não conseguia fazer nada. A sensação de afogamento se juntou a dor escruciante. Eu não pude me deixar levar pela dor e aceitar de bom grado o desmaio que acabaria com aquilo. Bem no fundo de minha mente eu sabia quem me encontraria se eu desmaiasse.

Meus ouvidos pareciam que iam explodir. Todo o meu corpo parecia que ia explodir. Eu ansiava pelo fim, como jamais conseguira. Eu estava consciente de tudo, não perdera a razão como sempre e isso só fazia tudo pior. Eu podia sentir-me arrancando os meus próprios cabelos na ânsia por alívio.

Então veio, no habitual baque no fundo da mente, e eu estava bem. O corpo estava todo relaxado e eu não me movi, por pior que fosse minha posição encolhida sob a água no canto do box. Minha respiração voltou aos poucos e a garganta ardia pela água que entrara nas vias respiratórias.

A dormência se espalhou pelo meu corpo e permiti-me afundar no chão, soltando as mãos dos cabelos.

Abri meus olhos quando retomei meu corpo. Estiquei a mão para o registro e abri o da água quente, ainda no chão. Olhei minhas mãos e havia alguns fios de cabelo nela. Deixei a água levar os fios loiros para o ralo e me levantei, segurando o registro.

Minhas pernas estavam fracas e eu sentia que podia desabar a qualquer segundo. Enxaguei o shampoo e passei o condicionador desembaraçando o cabelo com os dedos apressadamente. Assim que meu cabelo não tinha mais vestígios de creme, sai do box e cambaleei até apoiar-me na bancada da pia.

Eu estava arfante. Vi minha própria imagem patética no espelho. Nua, pálida, molhada e sem fôlego. Fechei os olhos me concentrando.

Tudo bem, Annabeth. Você vai se vestir, vai até a cozinha,vai comer a primeira coisa que achar na geladeira e vai ficar tudo bem.

Me sequei rapidamente e vesti minhas roupas. Minha blusa branca era meio transparente, justa no peito e mais solta na cintura, e percebi que isso me fazia parecer ainda mais magra. Percy não ia perceber, fazia muito tempo que não me via. Cacei a escova na necessaire e passei rapidamente pelo cabelo. Mal terminei de pentear e as pontas já começaram a cachear, mas estava me sentindo muito mal para ter um surto de vaidade no banheiro. Joguei minhas roupas sujas de qualquer jeito atrás da mala e sai do quarto.

Percy estava sentado do outro lado do balcão com um copo de água na frente. Tentei andar o mais devagar possível para não desequilibrar. Ele ergueu os olhos para mim, me olhou dos pés descalços até os cabelos molhados. Ele encarou meu tronco por alguns segundos e rezei para não estar reparando na minha magreza e sim no sutiã azul aparecendo na blusa.

Ele franziu o cenho, mas abaixou os olhos de volta ao próprio copo, como se quisesse conter um comentário. Ele percebera.

–Você emagreceu – ele disse sem emoção. Eu não sabia se era um comentário solto ou uma represália.

–Impressão sua – respondi, me arrependendo imediatamente. É claro que ele sabia que eu tinha emagrecido. Ele já passara muito tempo com as mãos em meu corpo para saber.

Fiquei feliz por ele não parecer se importar o bastante para insistir e continuei caminhando.

Quando os músculos da minha coxa começaram a ter espasmos leves a cada passo, eu tive raiva de mim mesma de não ter rejeitado o néctar a ambrosia. Desde meu surto em abril eu sabia que não devia mais tomar isso de estômago vazio.

–Tem comida na geladeira – disse calmamente, tomando um gole da própria água.

–Tá bom.

Abri a geladeira orgulhosa de mim mesma por não ter desmaiado ainda.

Eu não imaginava nem em um milhão de anos o estado da geladeira. Estava completamente organizada e cheia. Muitas frutas, legumes, dois tipos de sucos, frios e mais várias outras coisas. Nem minha madrasta mantinha nossa geladeira tão saudável e em tão perfeita ordem.

Peguei queijo branco, tomate e peito de peru para um lanche natural. Achei um pão integral num armário alto e montei dois lanches para mim, beliscando pedaços de queijo. Acabou sendo pior, pois quanto mais comia fatiazinhas de queijo, mais dolorosa era a sensação de fome.

–Quer um? – perguntei por cortesia, torcendo para que ele negasse e eu pudesse comer. Me senti até um pouco culpada por isso.

–Já comi.

Coloquei meu prato sobre a balcão e peguei um copo de suco de uva. Só tive tempo de por o copo ao lado do prato antes de sentir a facada de dor em minha cabeça. Levei a mão a têmpora arfando de dor e tentei me apoiar nas costas da cadeira, mas senti meu corpo desabando.

–Annabeth!

Algo me segurou antes que caísse. Não houve agonia desta vez, a dor durou somente o tempo de eu perder a consciência.

Foi como cochilar por segundos e eu podia ouvir tudo a minha volta novamente. Mas havia mais vozes do que deveria.

–O que está acontecendo? – era a voz de Thalia. Merda.

–Eu não sei, ela desabou de repente! – respondeu Percy.

–Argh! Não posso acreditar que ela fez isso de novo!

–O que ela fez de novo?

–Eu jurei que não ia contar se ela parasse. Mas agora... Tem uma coisa que precisa saber, Percy... – ela não podia falar.

Abri os olhos e me encontrei nos braços de Percy na cozinha. Obtive sua atenção imediatamente, que esqueceu momentaneamente de Thalia na Mensagem de Íris próxima a pia. Como ela conseguira mandar uma Mensagem exatamente no momento do meu desmaio? Tinha alguma coisa muito errada com a intuição dela.

–Annabeth? – Percy me olhou profundamente, segurando meu rosto – Você tá bem?

Assenti, incapaz de falar com a forma que ele me olhava.

–Nem tão bem. Não acredito que voltou com isso – me virei para Thalia que parecia muito brava e preocupada na névoa da mensagem. Usava os habituais trajes de Caçadora e tinha como fundo uma cidade – Temos que conversar, Percy.

Olhei desesperada para ela, ainda sem conseguir falar. Percy me pegou no colo, como se pesasse 5kg e me pois na cadeira suavemente.

–O que foi? – perguntou Percy, ainda me dando mais atenção do que a ela.

Thalia! – alguém gritou atrás de Thalia. Ela olhou para trás e falou com alguém, não pude ouvir o que.

–Tenho que ir. Me mande uma Mensagem de Íris em cinco minutos, Percy. E quanto a você, Annabeth, é melhor comer antes que eu te mate – disse Thalia ameaçadoramente.

A nevoa se desfez e eu suspirei de alívio.

–Do que ela tá falando? – perguntou Percy muito sério. Talvez ele não estivesse tão distraído comigo quanto pensava.

–Não é nada – respondi evasiva.

Eu sei que ele não caiu, mas também sabia que eu não diria nada.

–Coma – disse friamente.

Abaixei os olhos para meu prato e mordi um sanduíche. Ele me olhou comendo, encostado em silêncio no balcão. Quando terminei o primeiro, senti meu estômago cheio, mas só de olhar para Percy tive certeza que ele não me deixaria comer só um. Engoli o suco por cima.

Quando terminei, já se passara um pouco mais do que cinco minutos. Eu estava torcendo para que Percy não se lembrasse de Thalia, mas sabia que isso não aconteceria.

Ele andou até sua mochila, ainda jogada no sofá e mexeu um pouco nela. Meu coração bateu mais forte quando ele voltou para perto de mim com um dracma na mão.

Percy esticou a mão para seu copo d'água. Eu segurei sua mão no ar.

–Não. Por favor.

–Você vai me contar?

É claro que ele já tinha entendido que era algo sério.

Eu franzi o cenho e pressionei os lábios. Ele entendeu que eu não diria nada.

Percy pegou o copo e jogou a água para o alto. Antes que ela pudesse cair ele fez um movimento com o punho e ela se transformou em vapor. Eu sempre ficava impressionada com seus dons de filho de Poseidon. Ele jogou o dracma em meio a névoa e recitou a oferenda.

Fui incapaz de ficar e ouvir a conversa, então corri de volta ao quarto. Quando consegui me sentar na cama, estava me sentindo tonta e enjoada. Sabia que não podia correr assim logo após o desmaio.

Eu não podia ouvir Thalia recitando cada segredo sórdido do meu ano a Percy. Eu sabia que era questão de minutos até ele entrar por aquela porta. Eu sabia como o antigo Percy reagiria: sentiria um misto poderoso de culpa e fúria; cobraria explicações raivosamente; quando eu finalmente começasse a chorar me sentindo péssima, ele me abraçaria, diria que está tudo bem, e imploraria para nunca mais fazer esse tipo de coisa estúpida. Infelizmente, eu não sabia nada sobre como esse Percy reagiria.

Abracei a mim mesma e deitei-me encolhida na cama, de costas para a porta.

Não consegui deter a forma como as memórias voltaram, me encurralando numa avalanche de culpa e vergonha.

Quando voltei para casa, antes do fim do verão passado, eu não conseguia sair do quarto. Passei duas semanas alternando entre minha cama e o banheiro. Eu não queria comer, não queria pensar, sinceramente não queria nem respirar.

Eu comia duas vezes por dia, quando minha madrasta conseguia me convencer com agrados doces. Mas na maior parte das vezes a comida me lembrava a ele, então eu mastigava um ou dois cookies na frente dela e dava o resto para meus irmãozinhos.

Quando as aulas voltaram eu não podia mais ficar em estado vegetativo embaixo das cobertas, então saia de casa, ia para a escola e ficava a maioria das aulas desenhando Percy nas contracapas de cadernos e cantinhos de folhas. No terceiro dia de aula, Melody Moore, uma garota com o cabelo castanho mais liso e brilhante que já vi na vida, me viu desenhando e começou a caçoar para as amigas líderes de torcida.

Ela pegou um desenho numa folha sulfite que estava dentro de meu caderno e era de longe o mais bonito, e ficou fazendo elogios irritantes, espalhou para todos que aquele era uma paixão platônica minha e mais um monte de coisas estúpidas. Somente na quarta aula, quando eu estava além da minha paciência e ela disse que se aquele garoto realmente existia eu nunca iria tê-lo, eu tomei uma atitude.

Agarrei seu cabelo perfeito e a joguei no chão no meio da quadra de vôlei, pulando sobre ela e e segurando suas mãos acima da cabeça. Suas amigas patéticas tentaram me tirar de cima dela, mas acertei um soco em uma e as outras se afastaram e eu pude me concentrar na vadia. A única coisa que Melody conseguiu fazer contra mim naquela briga, foi arranhar minha bochecha com as unhas enormes, quando a soltei para socar sua amiga.

Foi necessário três jogadores de futebol americano para me afastar de Melody. Ela foi parar na enfermaria e ficou lá pelo resto da aula, enquanto eu, na maior calma, fiquei sentada na sala de espera da diretoria lendo um livro em grego. Acabei não falando com a diretora naquele dia, pois Melody foi levada para um hospital.

No dia seguinte, porém, eu tive que ouvir quarenta minutos de sermão da diretora junto com uma muito acabada Melody. Ela tinha mais roxos pelo corpo do que eu podia contar, sua boca esta inchada, ela tinha fraturado a clavícula e duas costelas, além duma quantidade considerável de fios de cabelo a menos. Eu só não fiquei mais tempo na detenção (duas semanas inteiras), pelo fato da diretora realmente detestar Melody e ter afirmado que ela havia ultrapassado a cota provocações. É claro que ela não podia dizer que eu estava certa, e ficou com o discurso clichê de que violência não é resposta para nada, mas depois que dispensou Melody e ficou sozinha comigo disse que já passara da hora de alguém dar uma lição naquela garota.

Foi depois disso que entrei em colapso. Ninguém da escola queria chegar perto de mim, fora alguns jogadores estúpidos que acharam minha atitude sexy. Eu comecei a passar ainda mais tempo sozinha e isolada, evitava as horas do almoço e lanche, pois não queria ficar perto das pessoas.

Eu não comia em casa, não comia na escola. E quando sentia que ia desmaiar, engolia um ou dois quadradinhos de ambrosia. Aos poucos comecei a ter febre e dores de cabeça de vez em quando, que eu resolvia tomando néctar ou comendo mais ambrosia.

Em abril, quando Thalia foi me fazer uma visita notou que eu emagrecera. Ela não deu muita importância até notar que eu vivia passando mal e que minhas dores de cabeça estavam cada vez piores. Foi numa terça, quando a gente estava andando no pátio da minha escola que eu surtei de vez. Eu tive a primeira dor de cabeça mais forte, de perder os sentidos, gritar de agonia e desmaiar em seguida. Melody viu do treino da torcida e claro que espalhou que eu tivera um ataque de pânico na escola, mas desmentiu logo depois que Thalia a confrontou perguntando se queria mais uma surra.

De qualquer forma, minha amiga Caçadora extremamente irritante ficou mais duas semanas em São Francisco, me fez ganhar os oito quilos que perdera e me fez jurar que não faria aquilo de novo. Não confiando muito em mim, colocou meu pai, minha madrasta e até meus irmãos para patrulhar minha alimentação.

O ano melhorou quando Jenna entrou na escola. Ela era muito doce e boa, mas parecia não ter senso de autopreservação, então tomei suas dores e comecei a defendê-la das líderes de torcida e de Melody. Ficamos amigas rápido e até começamos a sair e agir como adolescentes normais.

Fui em algumas festas; saia para bares e lanchonetes; fiz algumas amizades superficiais a mais e coisas como essa. Eu conseguia esquecer de meus motivos para chorar na maior parte do tempo, bebia um pouco e conseguia aproveitar festas, tinha voltado a comer e não fazia mais loucuras estúpidas. Cheguei até a me desculpar com Melody e ser menos odiada na escola. Estava tudo ótimo, eu conseguia até me divertir as vezes, praticamente esquecera de como era ser uma meio-sangue constantemente atacada.

Como toda alegria de meio-sangue, é claro, durou pouco. Jenna voltou para a sua antiga cidade e com ela foi toda a minha ilusão de felicidade e vida normal. Apesar de Melody não me encher e ninguém mais me odiar, eu me isolei de novo, pois fato dela ir embora me lembrou quando Percy se foi. E foi assim que, seis meses depois de ter parado com aqueles hábitos nada saudáveis, eu os retomei.

É claro que menos de uma semana depois disso, antes que eu pudesse perder mais de 5kg e ter um grande ataque, Thalia já havia reaparecido com o aviso de meu pai. Novamente ela me fez ganhar todo o peso de volta e pregou um sermão enorme, que no geral dizia que não posso simplesmente parar de comer sempre que me sentir sozinha e que se fizesse de novo Percy saberia.

Ela não disse, é claro, mas cada palavra de seu discurso remetia a mesma coisa nas entrelinhas: Eu sei que sente falta dele; Mas não se mate por isso.

Ouvi a porta do quarto se abrindo e saí de meus devaneios. Fechei os olhos com força, sem coragem de olhar para ele. Já dera tempo de Thalia contar tudo, e até um pouco mais. Ele provavelmente teve que digerir um pouco essa história toda.

Senti ele se sentando na cama, atrás de mim. Não movi um músculo.

–Temos que conversar – disse parecendo calmo, mas no fundo podia ouvir certa ansiedade.

–Não temos.

Ele bufou.

–Você parou de comer, entrou num estado de semi-depressão, se entupiu de ambrosia, encheu a cara por ai... Acho que temos muito o que conversar.

Me virei para ele bruscamente, sentando.

–Já passou – disse dura.

–Com certeza, por isso está magra de novo e desmaiou hoje.

Eu não conseguia entendê-lo. Eu não sabia se ele se importava ou só se sentia culpado. Se estava preocupado ou irritado.

–Sinceramente, Percy, você se importa? – perguntei frustrada e irritada.

Ele me encarou friamente por alguns segundos antes de responder:

–Mais do que deveria.

Notas finais
105 comentários para o próximo (força, gente!)
E quero pedir: qualquer errinho de português ou algo do tipo, me avisem por favor. Tô sem beta e mal revisei para postar, acho que já esperaram muito! BJS