Notas iniciais
Bom, eu ia esperar mais comentários pra postar esse capitulo, mas como estou de bom coração hoje...

Só quando ouvi o suave ronco de Luke abri os olhos. Deslizei silenciosamente para fora do saco de dormir, fitando seu rosto adormecido. Andei descalça até sua mochila, encostada numa árvore no limite da clareira. Meu coração batia tão alto em meus ouvidos que eu me surpreendia que Luke não acordasse com o barulho.

Algumas folhas secas quebraram em baixo do meu pé e minha garganta se trancou de medo. Eu já pensava numa desculpa, enquanto Luke se remexia como quem quer acordar. “Ah, só estou querendo um pouco de água...”, não acho realmente que isso fosse convencer. Ninguém corta amarras do pulso, levanta-se sorrateiramente no meio da noite e toma cuidado para não ser ouvido para beber água. Estava tão claro que eu ia fugir, Luke não é nenhum idiota. Dessa vez ele me amarraria mais firmemente e lembraria-se de confiscar minha adaga.

Ele respirou fundo e eu prendi o ar. Qual era a chance de eu correr mais que ele no meio de uma floresta que não conhecia, descalça e a noite? Nenhuma. Pensa, Annabeth, pensa!

Luke se remexeu um pouco mais, e quando meu coração quase saia pela boca ele virou para o outro lado e voltou a roncar baixinho. Soltei o ar em um suspiro forçado e voltei a caminhar suavemente até a mochila. Eu olhava para Luke enquanto abria o zipper, temendo que aquele zunido pudesse acordá-lo.

Peguei minhas meias e o tênis, que ele guardara para impedir minha fuga, sentei-me num tronco caído e cheio de musgos e calcei-os, olhando para Luke o tempo todo. Vasculhei a bolça, e roubei alguns quadradinhos de ambrosia, enchi um cantil com água e encontrei meu suporte de adaga. Tirei a blusa verde do uniforme da escola particular que entrara esse ano, que agora estava suja e queimada, e vesti uma do acampamento meio-sangue que Luke trouxera pra mim, mas que não tive tempo de vestir antes de receber aquela mensagem de Iris de Quíron que fez tudo virar de cabeça pra baixo e Luke me amarrar.

Prendi o suporte de couro na minha coxa e lembrei de ter deixado a adaga dentro do saco de dormir. Puxei o elástico do cabelo e arrumei em um rabo-de-cavalo mais firme. Eu tentava me concentrar estritamente no que fazia, pois tinha medo de pensar sobre o que viria a seguir e me desesperar demais para seguir com o plano.

Andei um pouco menos apreensiva até o saco de dormir, afinal se Luke acordasse eu poderia sair correndo, agora que já estava de tênis. Peguei a adaga e a guardei na bainha presa em minha coxa.

Quando olhei para Luke, dormindo tão calmo, meu peito se agitou. Eu nunca mais ia vê-lo, ele era meu mais velho amigo. Eu me sentia culpada com aquilo, mas afinal eu estava salvando sua vida. Estava salvando a vida de todos. Ele se remexeu e virou de barriga pra cima, esticando um braço pra perto de mim. Afastei o pé por precaução, com medo que ele tivesse acordado e me segurasse impedindo a fuga.

Meus olhos estavam ardendo, e estranhamente eu não estava tentando conter as lagrimas. Acho que já fiz isso por tempo demais e agora que minha certidão de óbito estava quase assinada, que diferença fazia? Levei a mão até meu colar do acampamento, como faço quando fico nervosa. Instintivamente meus olhos se fixaram na conta com um tridente. Percy.

Minha vontade de chorar aumentou, eu nem poderia esperá-lo. Não seria tão fácil fugir dele, como estava sendo fujir de Luke. Devo admitir que um fio de esperança surgiu (junto com ressentimento), quando ouvi Quíron dizer a Luke que entrou em contado com Percy (se ele tinha como entrar em contato com Percy, porque não me disse antes???) , sabendo que ele era o único que conseguiria me manter a salvo.

Eu sentia tanto a falta dele, não havia problema nenhum em admitir isso agora. Porque eu ia morrer. Era estranho como essa certeza era quase reconfortante. Eu ia morrer, então foda-se tudo. Eu me sentia livre, o que era absurdo. Uma sentença de morte não liberta ninguém.

Cabeça de Alga, eu sinto sua falta. Eu não devia ter te deixado ir. Eu devia ter ido atrás de você. Eu devia ter dito o que sentia. Eu não devia ter beijado Luke. Eu sinto tanto a sua falta, seu completo idiota!

Você vai ter tempo pra chorar, disse a mim mesma. Deixe para se lamentar quando estiver escondida.

– Eu sinto muito, Luke – murmurei num fio de voz. Voltei ao tronco e antes de me enfiar na parte oca dele abri um pequeno buraco com a adaga e pisei com força em um galho seco. Luke acordou imediatamente com o barulho, mas eu consegui me enfiar dentro de meu esconderijo antes que me visse.

Ele se levantou rápido, olhou em volta e tentou escutar algo, enquanto eu espionava pelo buraco. A essa altura meus olhos já tinham transbordado, e só consegui conter meus soluços bem a tempo de ver Luke seguindo para o sul. Eu chorava com força então, soluçando e fungando feito uma idiota.

Eu não queria morrer sem ver Percy nem uma ultima vez. Mas eu não tinha opção, eu sabia que se o encontrasse não teria chance de fuga. Foi um ano bem difícil sem ele.

Bom, não fui atacada por nenhum monstro esse ano, nada de sobrenatural aconteceu em São Francisco, me entendi muito bem com minha família, ninguém na escola ousou se meter a valentão comigo (principalmente pela surra que dei em Melody Moore no terceiro dia de aula), consegui estudar facilmente com o material para disléxicos da escola particular, fiz uma amiga mortal, frequentei um curso de desenho arquitetônico... Em resumo, meu ano teve tudo para ser perfeito, mas foi terrível.

Tudo em que eu conseguia pensar era em Percy, durante as aulas, o curso, esportes e de noite na minha cama. Eu tive pesadelos horríveis o ano todo, de acordar gritando seu nome no meio da noite. Eu ligava toda semana para Sally e Quíron, procurando noticias sobre ele, que nunca apareciam. Ele simplesmente tinha sumido do mapa. Eu acordava todo dia contendo as lágrimas em imaginar que enquanto eu acordava em uma cama macia, Percy estava perdido e sozinho, morando sabe-se lá onde.

A pior parte é que eu sabia que toda essa merda era culpa minha. Se eu não tivesse sido uma burra estúpida e orgulhosa... O que eu estava pensando? É claro que Percy não faria aquilo comigo, essa merda de insegurança! Mas afinal o que ele poderia ter visto em mim? Com todas aquelas filhas de Afrodite lindas atrás dele, o que ele poderia ter visto justo em mim?

Mas ele viu algo, e eu não aproveitei a droga de sorte que tenho. Logo após a melhor noite da minha vida, eu consegui estragar absolutamente tudo, antes das nove horas da manhã.

A ultima coisa que ele me disse antes de jogar a mochila nas costas e deixar o acampamento foi:

– Decepcionante.

Só isso, nem uma palavra a mais. Mas pensando bem, isso foi mais do que necessário pra acabar comigo.

Pensar no passado acabou sendo pior que pensar no futuro. Me concentrei na realidade, estou enfiada dentro de um tronco velho e provavelmente cheio de aranhas... isso não é assim tão melhor.

Luke voltou finalmente ofegando da corrida, e veio no que parecia ser a minha direção. Ele se abaixou na minha frente e meu coração bateu mais forte, me encolhi no tronco. Talvez eu devesse ter achado um esconderijo melhor. Eu tinha ficado orgulhosa do meu plano. Não sabendo onde ficava o Penhasco Doce Sangue, onde eu tinha um encontro marcado com a fera do mar Cetus (e consequentemente com a morte), eu bolei um jeito de fazer Luke me mostrar onde fica. Assim que percebeu que eu sumi ele correu exatamente para onde eu deveria ir. Agora era só esperar ele sair me procurando em outra direção... caso ele não me achasse neste momento.

Fiquei aliviada quando percebi que ele só estava mexendo na mochila atrás de alguns dracmas para uma Mensagem de Íris.

– Ó Íris, deusa do arco Íris. Aceite minha oferenda, mostre-me Perseu Jackson – meu coração se agitou de novo. Percy?

Uma nevoa tremulou bem na frente de Luke, e eu pude ver perfeitamente a imagem de Percy se formando, meu coração parou, junto com as lágrimas e a respiração. O fundo parecia um banheiro masculino de uma lanchonete fast food e ele vestia uma camiseta verde escura, com algumas marcas de queimado na barra, mas que parecia limpa.

Ele estava ainda mais lindo do que antes, o ano lhe fizera bem. Estava mais alto, magro e forte. O cabelo estava mais curto e tão escuro quanto antes. Seu rosto amadurecera também, ficando com feições mais másculas e marcadas. Os olhos pareciam ainda mais verde-mar do que antes, se é que isso é possível.

–Annabeth fugiu – disse Luke sem rodeios.

–Como você pode deixá-la fugir? – explodiu Percy. Sua voz. Eu quase me esquecera de como era deliciosa de se ouvir. Ele parecia realmente bravo e ameaçador, e meu sangue ferveu ao ver o quanto ele ainda se importa comigo.

–Eu não a deixei fugir! – defendeu-se Luke – Ela estava amarrada e eu dorm...

–Como se amarras segurassem Annabeth! – interrompeu Percy e eu sorri com seu comentário.

–Onde você está?

–Não muito longe, numa cidadezinha a uns 30 minutos dai. Procure perto de pedras ou troncos, ele provavelmente está escondida e vai ficar até o amanhecer – droga, Percy! Por que tinha que me conhecer tão bem? – Eu chego logo.

Notas finais
Esperam que tenham gostado e desvendado os rolos do passado desses dois. Hot hot o percy hein?
Deixem comentários! O próximo cap só vem se eu tiver bastaaante, ainda nem comecei a escrever e preciso de motivação ;P
bjs