Notas iniciais
Sinceramente? Fiquei bem bolada com a quantidade de comentários. Como posso ter menos de vinte comentários em DOIS capítulos, tendo mais de vinte leitores?
Bom, sinceramente só postei esse graças as LINDAS Leeh Spears e AnnabethChase que favoritaram a história. Esse cap é pra vocês ;]

Eu não tenho certeza se devo me sentir aliviada ou apreensiva com o fato de Luke não ter entendido muito bem o que Percy quis dizer com procurar esconderijos. A parte boa é que ele não olhou dentro do tronco em que eu estava. A parte ruim é que ele voltou para perto do Penhasco Doce Sangue. Era incrível a capacidade de Percy de frustrar meus planos suicidas até mesmo a distância, eu tinha meia hora para chegar ao penhasco e agora Luke estava lá de vigia.

Senti algo incomodando entre meus seio, e lembrei-me da bodice dagger* de bronze celestial que tinha escondido lá ontem, na minha primeira tentativa de fuga. Foi um ótimo presente de natal, vindo de meu pai. Tive que me remexer bastante para ajeitá-la no lugar, estando dentro do tronco.

* Bodice Dagger ou Adaga de Peito é uma pequena adaga feita especialmente by CouponDropDown\">para mulheres, cujo cabo tem o formato de dois arcos que se separam, própria pra se encaixar entre os seios. Há a variação reta dela, feita para se encaixar no espartilho, foi usadas por mulheres na idade média. http://fc08.deviantart.net/images3/i/2004/097/6/7/Bodice_Dagger.jpg

Olhei no relógio de pulso e decidi esperar mais 10 minutos antes de sair de meu esconderijo. Seria tempo o suficiente para ver se Luke voltaria e bolar um by CouponDropDown\">plano, mas ainda me deixaria uma folga para qualquer possível emergência.

Ótimo, bolar um plano. Pense, pense. Luke está de guarda perto do penhasco, que seria o lugar certo para me jogar no mar e servir de lanchinho para Cetus. Talvez eu pudesse esperar Percy chegar e enquanto ele e Luke conversam eu desço da árvore em que estaria escondida, corro e me jogo num momento de distração. Péssimo plano: Percy me pegaria num piscar de olhos e provavelmente manipularia as ondas ou pularia atrás de mim antes mesmo que Cetus pudesse ver que eu estava a deriva no mar, esperando para ser devorada.

by CouponDropDown\">Próximo.

Talvez poderia fazer Luke achar que sou eu me movendo na floresta, quando Percy estivesse chegando. Subiria numa arvora e gritaria, ambos iam correr na direção da árvore e ao ouvir um ao outro correndo, pensariam se tratar de mim... Tá legal, não foi um novo grande plano. Como eu conseguiria sair da árvore e ir em direção ao penhasco sem ser notada por nenhum dos dois? Difícil.

Criei mais quatro outros planos completamente furados, principalmente porque a única prioridade de cada um deles era encontrar Percy antes de você sabe, hã, morrer. O desejo de morte de uma adolescente devia ser respeitado, certo? Eu queria tanto ver Percy... Incrível como a perspectiva de morte pode mudar suas prioridades. Afinal, não seria como mais uma missão perigosa, era a morte. Simples e crua. Sem possibilidade de volta. Sem espaço para arrependimentos tardios. Nunca mais estar com quem você ama, ficar apenas lá, a deriva no mundo inferior assistindo o sofrimento dos que te amam, como num filme ruim.

Meus pensamentos foram subitamente interrompidos, quando algo agarrou meus tornozelos e fui puxada para fora de meu esconderijo. Minha mente entrou em colapso, by CouponDropDown\">trabalhando em saídas. Luke me achara, preciso fugir. E se for Percy? Santa Atena, o que eu faço?

Meu coração palpitava assustadoramente rápido, latejando em minhas têmporas e retumbando em meus ouvidos como um tambor surdo e fúnebre. E eu estava fora. De volta a assustadora e muito iluminada noite da clareira.

Puxei meus pés das mãos que me seguravam, e girei o corpo ficando sentada, pronta lutar ou gritar, mas meu panico se foi quando vi a garota de olhos arregalados e mãos no ar, como se estivesse com medo de que fosse atacá-la. Uma ninfa dos bosques, muito bela, verde e assustada.

–Me desculpe – ela balbuciou – Sou Leila, só estou tentando ajudar.

Me ajeitei, tirando a terra e o musgo de minha pele e roupas. Me virei um tanto zangada com a mancha verde em minha blusa e o arranhão na coxa.

–Ajudar?! Não estava presa, estava me escondendo – respondi um tanto rabugenta. Eu precisava trabalhar em conter minha hostilidade com desconhecidos, ela era só uma garotinha afinal, percebi quando ela se encolheu com minhas palavras raivosas.

Leila engoliu saliva com força antes de continuar um tanto cautelosa.

–Eu sei, seu amigo está te procurando no topo da minha árvore. Ele é um tanto pesado, quebrou dois galhos – seu jeito inocente de falar me fez sentir culpada por ser tão grossa – Quer ajuda de Leila?

Os olhos dela brilhavam muito.

–Bom, como pode me ajudar?

Ela sorriu feito uma criança no Natal com minha pergunta o que fez seus olhos verde escuros parecerem mais brilhantes ainda. Olhando bem, eu não lhe daria mais de doze anos se não soubesse que Leila não é humana. Era completamente meiga com seus lábios finos e bochechas altas, o cabelo verde claro era longo e muito liso e estava para trás com uma tiara de raízes. Estranhamente, eu senti vontade de abraçá-la, esse sentimento normalmente era limitado a uma pessoa em especial.

–Sabia que ia querer minha ajuda – ela riu tão alegre que não tive coragem de dizer que ainda não aceitara – Venha, venha. Tenho um esconderijo pra você bem pertinho do penhasco.

Ela pegou minha mão e se levantou comigo, já me puxando para o lado do penhasco Doce Sangue.

–Camile me disse para não me meter, sabe? Que nós ninfas devemos ficar quietinhas, porque é a única coisa que mantem o a fúria de Poseidon e o sal do mar bem longe de nossas raízes. Mas eu lhe disse: "Que custa ajudar? Leila conhece um lugar ótimo pra garota de cabelos dourados se esconder do garoto da cicatriz" — ela falava bastante rápido enquanto me puxava por caminhos estranhos na floresta — Camile insistiu "Seres da natureza não devem tentar a sorte no mundo das pessoas, os deuses se zangam", ela disse. Mas eu não acho que Poseidon vá se zangar, você não concorda? Ele te quer morta afinal, se eu estivesse ajudando Atena a matar o filho de Poseidon, ai sim teríamos problemas... Pobre Poseidon, perder mais um filho...

–O que você disse? Minha mãe quer Percy morto? Mais um filho de Poseidon? – interrompi alarmada e curiosa.

Ela arregalou os olhos infantis e me puxou mais rápido e menos cuidadosamente pela mata fechada, me enroscando em samambaias e me obrigando a desviar de galhos. Era quase como se ela quisesse me calar.

–Leila não disse isso – negou rapidamente, notando que falara demais.

–Disse sim.

Ela parou de andar e me olhou nos olhos antes de balançar a cabeça rapidamente.

–Não, não, não. Leila não disse nada. Se quer ajuda de Leila, não ouviu nada de Leila.

Eu confirme com a cabeça contra vontade, não tinha muitas opções. Ela sorriu inocentemente e voltou a me puxar, com mais cuidado.

Outro filho? Mas que filho Poseidon perdeu? E o que minha mãe está querendo com Percy?

Novamente não consegui seguir minha linha de raciocínio, sendo interrompida não por Leila, mas por uma pontada forte em minha cabeça.

Fechei meus olhos com força e senti minhas pernas falhando. Minha mão voou pra árvore mais próxima, buscando apoio. Meus membros pareciam feitos de gelatina e era como se um anzol tivesse sido preso em meu cérebro e puxado com força. Eu tinha consciência que ia passar rápido como sempre, mas, como sempre também, parecia uma agonia infinita.

Havia aquele retumbar em meus ouvidos, e eu não conseguia controlar nada. Podia sentir meu corpo se desmantelando e minha mente entrando em colapso, mas não podia controlar nenhum dos dois. Era agoniante, não só a maldita dor, mas a falta de controle.

Eu podia sentir alguém perto, tentando me ajudar, mas não conseguia me concentrar o suficiente para pensar claramente em quem era. Tentei abrir os olhos, mas as imagens pareceram piorar tudo. O preto e branco da noite borrada e desfocada da floresta, olhos muito brilhantes... Verde. Verde. Verde. Fechei os olhos com força de novo e senti-me desabando.

Então em um baque suave e ecoante no fundo de minha mente, eu estava bem. A tontura, a dor e a dormência haviam me deixado. Senti somente aquele alívio súbito que eu já conhecia. Me mantive respirando sem me mover, eu sabia que se fizesse qualquer coisa que tivesse que me esforçar remotamente a dor iria voltar, e eu tinha certeza que não teria a sorte de não desmaiar. O alívio foi passando e eu podia sentir meus membros novamente.

Abri os olhos, e pude ver o rosto assustado de Leila pairando acima de mim. Ela parecia pálida, mas eu não podia ter certeza, afinal ela era verde. Eu estava caída no chão, com a cabeça no colo de Leila.

–Oh! Graças aos deuses! O que aconteceu? Você assustou Leila! – ela disse alarmada.

–Foi uma tontura, acontece de vez em quando – murmurei e tentei me levantar, mas minha mão doeu quando apoiei no chão, olhei para ele e percebi que tinha a cortado, provavelmente na grossa casca da árvore. Minha cabeça incomodou um pouco também e imaginei que tivesse batido, mas não me importei.

Sai do chão e me virei oferecendo a mão boa para Leila se levantar. Precisávamos ir logo, achar o esconderijo, não sabia se tinha ficado nesses meus habituais surtos por dois minutos ou dez. Eu nunca sei. Percy podia estar chegando e eu precisava estar escondida o mais rápido possível.

Leila segurou minha mão e se levantou, antes de voltar a me puxar pela floresta, olhou pra mim calmamente.

–Leila gosta de você, não assuste Leila de novo – eu não pude deixar de sorrir com o que ela disse.

–Não vou.

Ela sorriu também.

–Vamos, o filho de Poseidon deve estar chegando – ela disse e me puxou rapidamente pela floresta.

Ela pegou caminhos estranhos, virando e virando, e olhava periodicamente para mim, como se tivesse medo que eu passasse mal novamente. Ao pensar nisso meu estomago se contraiu. Eu devia ter comido alguma coisa... Ah, dane-se, eu vou morrer mesmo.

Eu estava achando que não chegaríamos nunca quando pude ver o mar, atrás de mais umas poucas árvores que delimitavam o fim da floresta. Estava escuro e água era negra, mas eu podia ver a lua cheia, muito grande e brilhante. Alguns paços depois eu estava sobre uma rocha lisa que era a ultima coisa antes da abominável queda do penhasco Doce Sangue.

Ela parou na beirada do penhasco.

–Aqui – ela disse simplesmente.

Olhei para baixo. Leila me empurraria agora?

–Aqui?

Ela virou o corpo e desceu uma perna no penhasco. Eu achei que ela estivesse ficando louca quando desceu a outra perna, mas ela pareceu encontrar um lugar para apoiar os pés.

–Não dá pra ver de noite, mas tem uma descida até o mar aqui. Quase uma escada – Leila explicou e acenou para que eu a acompanhasse. Me virei e fiz como ela, colocando uma perna pra baixo antes, testando o chão. Encontrei o degrau e desci a outra perna.

Desembainhei minha faca e deixei o bronze celestial iluminar levemente a descida. Os degraus tinham tamanhos irregulares, mas eram planos.

–Pode ficar aqui escondida, ver seu amigo, que sei que quer ver, e depois... Pular – ela disse parecendo abatida.

–Obrigada, Leila – disse sorrindo.

–Eu gostei de você, não queria que morresse – disse com os olhos brilhando, com lágrimas – Talvez volte como uma ninfa, seria muito legal.

Eu não acreditei que fosse acontecer, mas não quis dizer isso a Leila. Guardei minha faca e cheguei mais perto dela.

–Sim, seria bem legal – concordei e a abracei. Ela pareceu achar estranho isso vindo de mim, mas retribuiu com força e eu pude sentir novamente a bodice dagger pressionando meu peito incomodamente.

–Adeus, garota dos cabelos dourados – ela disse quando se afastou e subiu para a beira do penhasco. Ela saiu sem olhar pra trás e a vi erguendo uma das mãos ao rosto, provavelmente limpando uma lágrima.

Senti um bolo em minha garganta. Ela tomou a forma de uma árvore.

–Adeus, Leila – sussurrei com os olhos ardendo.

Um vento frio bateu e eu me arrepiei, ouvi as árvores farfalhando e ergui os olhos. Foi como um aviso, pois pude ver Luke saindo da floresta.

Me abaixei rapidamente e senti um puxão no cabelo, percebi que ele ficar preso numa ponta da rocha. Puxei com força e ele soltou, mas meu elástico de cabelo estourou e eu não podia garantir que Luke não tinha visto meu cabelo voando no vento forte do mar.

Me ergui um pouco para me certificar que não fora descoberta e espiei Luke. Ele estava olhando para o outro lado, felizmente. Como se tivesse vendo alguém chegar.

Oh, santa Atena! Ele está vendo alguém chegar: Percy!

Busquei ar e me encolhi um pouco mais para espiar sem ser descoberta.

Vi alguém andando rápido por entre as árvores na direção oposta da que Luke chegara. Comecei a superventilar. E lá estava ele.

Caminhou rápido e firmemente em direção a Luke. Ele não parecia muito feliz, as mãos em punhos, mas estava absurdamente sexy. Aquele estilo bad boy, herói, arrogante e irritado.

–Cara, ainda bem que você chegou. Não a encontrei em lugar nenh... – Luke foi subitamente interrompido.

Assim que o alcançou, Percy desferiu um soco no rosto de Luke. Eu arfei alto, quando vi Luke caindo no chão. Percy se inclinou sobre ele.

–Esse foi por deixar Annabeth fugir – ele lhe de mais um soco – e esse foi por transar com ela.

Transar com ela? Nunca transei com Luke. Na verdade nunca transei com ninguém além de Percy. Tá na cara que eu não era o ela. Então de quem ele estava falando? E por que Percy se importava tanto com isso ao ponto de socar Luke?

Me abaixei quando Percy se levantou e ergueu os olhos em minha direção. Puxei meu cabelo e o segurei, para não balançar com o vento.

–Procure onde estavam acampando, Annabeth não iria muito longe não sabendo onde fica o penhasco – disse Percy friamente, mais uma vez mostrando o quanto me conhece. Quando continuou sua voz era ameaçadora – E saiba que se qualquer coisa acontecer com ela, se conseguir se matar ou tiver um arranhão no braço quando a acharmos, vou te fazer desejar ser devorado por Cetus.

Ouvi Luke se levantar gemendo de dor e depois seus paços pesados se afastando.

Me encolhi mais. Percy não disse onde procuraria, e se resolvesse ver exatamente aqui? Não, claro que não. Não é um esconderijo obvio, ele não acha que ficaria esperando para vê-lo se estiver tão perto do mar.

Relaxe Annabeth, dê tempo para que ele se afaste e acabe logo com isso.

Respirei fundo e soltei meu cabelo, deixando o voar. É só esperar.

Minha mente voou diretamente para ela. Quem era a garota? Por que Percy se importava se Luke tinha transado com ela? Então é isso? Eu o magoei demais e ele seguiu em frente? Eu não posso acreditar. Ele não sente mais nada por mim, é claro. E por que sentiria? Sinceramente nunca entendi o que vira em mim. E depois que estraguei tudo... Percy me esqueceu.

De repente a perspectiva de morte não parecia mais tão ruim.

Eu fiquei lá, encolhida, chorando em silêncio e sentindo pena de mim mesma. Não ouvi mais nada acima de mim. Nem os paços de Percy se afastando, nem o farfalhar das folhas com o vento, embora ele estivesse bem forte e gelado.

Olhei no relógio e me dei mais cinco minutos. Percy provavelmente já estaria bem afastado neste momento, mas era melhor prevenir. Alem disso eu queria mais alguns minutos para me lamentar e fantasiar um pouco.

Respirei fundo e parei de chorar para pensar em coisas mais felizes. Me lembrar da minha primeira (e única) vez.

A primeira coisa que me veio a cabeça foi o sorriso descarado que Percy deu depois que eu, com muito constrangimento e coloração nas bochechas, disse que tinha vontade de transar. Só de lembrar da conversa que tivemos na arena algumas horas antes de acontecer já senti minhas bochechas pegando fogo.

–Pode ser mais clara por favor? – ele pediu, na hora não notei que ele já entendera o que eu estivera por meia hora enrolando pra dizer e só queria me constranger por diversão. Tão Percy.

–O que estou tentando dizer é que eu tenho, hã, vontade de... Hã, você sabe... – eu não queria dizer a palavra desde o começo, e não consegui dizer naquele momento também – Quando duas pessoas se gostam elas...

–Transam? – ele perguntou com naturalidade, como se dissesse “Olha, hoje é terça”.

–É, isso – murmurei sentindo meu rosto mais vermelho ainda.

–Então você sente vontade de transar? – perguntou e parecia conter o riso.

–Bom, sim...

–O tempo todo? Porque se for, você devia buscar tratamento... – Percy brincou rindo, como se eu não estivesse quase morrendo de vergonha.

Lembro que aquilo me irritou muito e eu estapeei seu peito enquanto ele ria.

–Como eu odeio você! Eu aqui morrendo pra dizer isso e você fazendo piada!

Ele se controlou um pouco e parou de rir.

–Mas você não disse nada até agora.

–Ok, Perseu Jackson, o que estou tentando dizer o tempo todo é que eu te amo e quero que seja o primeiro – apesar da frase de origem romântica, eu fui rabugenta.

Ele abriu um enorme sorriso e me puxou para seus braços, não se importando nem um pouco de eu ter cruzado meus braços de birra.

–Feliz agora? – consegui parecer brava, mas na verdade eu estava morrendo de nervosismo por ele não ter dito nada. Foi a primeira vez que disse que o amava.

–Excepcionalmente – ele respondeu inabalável. Há muito tempo ele parara de se importar com meus surtos de mal humor – Você não sabe como é incrível ouvir isso.

Eu cedi, derretida com o que ele disse e o abracei de volta. Ele me puxou para seu colo, os braços se estreitaram a minha volta. Fechei meus olhos deliciada e senti-o beijando meu cabelo.

Meus olhos se abriram com o fim da lembrança. Olhei no relógio. Três minutos se passaram. Está acabando. Lembrar de coisas felizes não estava aumentando meu desejo pela morte, mas eu já passara um ano me martirizando com coisas tristes.

Forcei outra lembrança feliz. A primeira coisa que veio a minha mente naquele momento foram os olhos de Percy, poucas horas mais tarde daquela conversa.

Eu estava me sentindo tão bem, não quis abrir os olhos de início. Estava nua, encolhida no peito de Percy, minutos depois de termos feito. Nossas respirações já tinham voltado ao normal e, apesar do leve suor, a pele dele já tinha voltado a aquela temperatura morna e fresca que só ele tem, e que eu sempre amei.

Ele me puxou um pouco pra cima e o lençol sobre nós, percebi que ele deixara meu rosto no nível do dele. Seus braços ainda estavam a minha volta e minhas mãos pressionadas contra seu peito, tão próximos e apertados um ao outro que ocupávamos o mesmo espaço que uma pessoa na cama de solteiro.

Abri meu olhos quando senti sua respiração soprando de leve contra minha bochecha. Cheiro que menta. Até hoje lembro disso ao escovar os dentes. Encontrei-o me encarando, assim que meus olhos estavam abertos.

Eu perdi o fôlego ao ver seus olhos, seu olhar. Os olhos verde-mar estavam mais escuros que o habitual, eclipsados. Mas não foi isso que me fez delirar, e sim a forma como ele me olhava. Tão intenso, como se pudesse ver além de mim ao fitar meus olhos. Ele me olhava como se escondesse um segredo e, ao mesmo tempo, como se conhecesse todos os meus.

–Eu te amo – ele disse calmamente, mas ao meus tempo cheio de emoções na voz.

Meus olhos se arregalaram um pouco, e entendi o que ele quis dizer com “Você não sabe como é incrível ouvir isso”. É difícil descrever como me senti. Era como se meu coração esquentasse de repente, e o mundo fosse unicórnios e arco-íris. Não havia problemas e preocupações. Eu não estava bem, estava perfeita.

Eu praticamente me joguei sobre ele. Me enterrando mais ainda em seus braços, e apoiando a cabeça em seu pescoço. Senti uma única lágrima de felicidade descendo por minha bochecha e caindo em sua pele. Beijei seu ombro e sussurrei:

–Eu também.

Abri meus olhos chorando desta vez. Meus olhos transbordaram, lágrima após lágrima como uma torneira aberta. Soluços sufocantes irromperam de meu peito e eu me abracei. A tristeza me afogou, ao notar que aquela época se fora e nunca mais voltaria, por culpa de uma estupidez minha. Onde estaria agora se não tivesse sido estúpida aquele ponto? Não havia tempo para essas perguntas inúteis. Olhei no relógio novamente. Sete minutos se passaram. Estava na hora.

Limpei as lágrimas e me contive. Fechei os olhos por dois segundos e ao abrir, estava pronta. Tirei minha faca da bainha presa a coxa. Eu lutaria, mesmo que fosse inútil.

Sem me levantar, comecei a descer os degraus. Só estiquei as pernas quando estava num patamar que não seria vista de cima, estando de pé. Meu coração estava contido, numa frieza que até eu estranhava.

Acabou. Pai, eu te amo, sinto muito.

Faltava um pouco ainda para chegar ao mar, eu me sentia pior a cada pequeno e ansioso passo que dava.

–Annabeth!

Meu corpo paralisou. Em um segundo eu andava em direção ao mar, completamente concentrada em não acabar capotando descida abaixo e no outro eu estava parada em uma pedra. Meu corpo parara por vontade própria, reagindo da forma estranha e tipica que ocorre sempre que estou perto dele. Percy.

Olhei para trás e meu cabelo voou no meu rosto pela brisa marinha. Afastei as mexas douradas de meus olhos e lá estava ele. Meu coração bateu mais rápido, faltou ar em meus pulmões, minhas mãos suavam, minhas pernas estavam bambas e pude sentir minhas bochechas ardendo fortemente. Tipico.

Percy estava parado na beira do penhasco, completamente intimidante. Seus olhos estavam escuros e, apesar da fúria que o resto de seu corpo mostrava, aliviados. Estava exatamente como na mensagem de Iris: alto, forte e tão bonito que devia ser contra lei. Seus punhos estavam serrados e os braços tensos, como se fosse socar alguém. Provavelmente seria eu desta vez.

Eu fiquei lá, parada com os cabelos voando, em meu transe esperando o que quer que seja. Eu devia parecer muito patética e arfante, mas não conseguia me mexer.

–Vai subir aqui, ou vou ter que ir te buscar? – ele quebrou o silêncio friamente. Aquilo pareceu despertar minha mente. Sem conseguir dizer nada, girei os calcanhares e corri. Para longe dele.

Não me preocupei em tropeçar desta vez, mesmo não vendo um palmo a frente do nariz. A superfície da água era escura demais para enxergar qualquer coisa e meus cabelos estavam em meus olhos novamente, mas eu sabia que Cetus devia estar logo a baixo da superfície a minha espera. Eu só precisava ser mais rápida que Percy. Eu tinha uma folga, mas ele era veloz. Só alguns metros...

Não estava pronta pra isso, mas não havia escolha. Pisei em falso e torci o pé, doeu horrívelemente, mas forcei minhas pernas a ir mais rápido, assim que estivesse na água não haveria muito mais o que fazer. Espero que Cetus não resolva me mastigar, pois ser triturada por uma mandíbula enorme não parece muito atraente.

Eu pude ouvir os paços de Percy bem próximos, eu já estava quase na água. Não olhei para trás no momento em que toquei o chão a ultima vez, impulsionando-me dolorosamente com o pé ruim para o mar, mas estava feliz de tê-lo visto uma ultima vez. Fechei os olhos com força esperando o frio da água noturna.

Pensei nos olhos, no olhar, de Percy e senti o impacto.

Notas finais
Já vou avisando que com menos de 35 comentários (e eu sei que tenho leitores pra isso) não vou postar o próximo capítulo, não adianta chorarem!
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