Maremoto

8 Capítulo bônus - Águas passadas


Notas iniciais
Me descuuuuuulpem por não postar depois de 130 reviews! Eu fiz uma confusão e jurava que tinha pedido 140 reviews e fiquei esperando. Só hoje que estava relendo o capitulo pra começar a escrever o 9 (esse já ta pronto faz tempo) que vi que pedi 130.
Bom, de qualquer forma, esse capitulo é um flashback do verão passado. Já estou esperando MUITOS comentários em CAPS LOCK! Leiam e entendam porque.

~ 1 ANO ATRÁS ~

–Não! Não, Percy! – gritei enquanto ele se afastava, sumindo na névoa. Eu tentei correr mas eu era lenta demais. Ele andava calmamente e eu ainda assim não conseguia alcançar.

Estava tão frio! Eu levantava as folhas secas do chão enquanto corria tentando inutilmente chegar até ele. Minha garganta doía de tanto gritar seu nome, mas eu não podia parar. Ele estava indo embora.

Quando ele sumiu em meio a névoa, sem sequer olhar para trás, eu entendi que acabara. Minha força, meu fôlego, minha energia, tudo havia me deixado. Eu afundei de joelhos no chão poeirento.

–Não, não, não... – chorei balançando a cabeça.

–Hey, Annabeth, acorde – ouvi perto do meu ouvido.

Depois de alguma confusão, abri os olhos para o fim do meu pesadelo.

Percy pairava sobre mim com uma expressão preocupada. Olhei em volta e me encontrei dentro de seu chalé, levemente iluminado pela luz da lua que entrava pela janela dos fundos. Ele estava sentado somente com a boxer preta na beira do colchão de solteiro, inclinado sobre mim. Eu estava com frio e sabia que era porque ele havia deixado a cama.

–Tá tudo bem – ele disse docemente acariciando meu rosto.

Ergui a mão para por sobre a sua, notando finalmente que estava nua sob seus lençóis. Feito uma tsunami, as memórias voltaram a minha mente lavando totalmente a confusão de depois de acordar. Corei furiosamente ao lembrar de tudo.

Percy e eu havíamos... Oh!

–Por que você saiu? – perguntei fragilmente.

–Só fui beber água – ele me tranquilizou.

Passei os braços por seu pescoço e o puxei para perto. Ele se colocou abaixo do lençol novamente e me abraçou com força.

–Não me deixe – pedi contra seu peito quente. Ele afagou meu cabelo tranquilamente.

–Nunca – respondeu firmemente.

Eu acreditei.

–Que horas são? – murmurei subindo um pouco em seu peito para poder ver seus olhos.

–Muito cedo – ele respondeu.

Eu estava estranhando suas respostas frias e monossílabas. Olhei em seus olhos muito claros e toquei seu rosto. Ele sorriu de leve, quase que por obrigação. Seus braços apertavam firmemente minha cintura e sua mão acariciava meu cabelo suavemente, mas ele não estava ali comigo. Não em pensamentos pelo menos.

–Por que está tão longe assim? – perguntei apreensiva. Eu já não tinha certeza de como me sentia em estar nua em sua cama, estava ao ponto de me levantar e correr para o meu chalé, com ou sem harpias.

–Estou bem aqui – ele estreitou os braços ainda mais a minha volta, como se não tivesse entendido minha pergunta.

–Sabe que não é disso que estou falando – respondi com um bolo na garganta. Sentia angustia com a forma que ele me tratava.

Eu não sei porque, mas de repente uma cena de filme clichê veio a minha cabeça. A em que o homem deixa a mocinha depois de conseguir o que queria dela. Eu sabia o quanto isso era estúpido. Não era como se Percy fosse assim. Eu o conhecia, sabia o quanto gosta de mim... Mas talvez toda essa coisa tenha me deixado sensível.

Ele não disse nada de imediato e de repente senti uma necessidade de esconder meu rosto. Me virei, na medida do possível, me escondendo no travesseiro. Eu me sentia a beira do choro.

Percy se moveu, me puxando mais para ele. Logo em seguida nos rodou, e eu acabei deitada em cima de seu peito, sem poder mais me esconder. Ele segurou meu queixo e me olhou nos olhos. É claro que percebera como me sentia.

–Está tudo bem – ele afirmou – Só estou pensando longe.

–Em que?

–Em você – ele respondeu, não parecia mentir. Mas eu tinha certeza que ocultava algo.

–Eu estou bem aqui.

Percy sorriu, sinceramente desta vez. Mas ainda havia um traço de dor em seus olhos.

–Agora – ele disse num tom triste, pouco depois. Seu sorriso voltou a sumir.

Isso só confirmou que ele me escondia algo. A forma como ele falou não indicava o fato de em algumas horas teríamos que levantar. Era como se eu fosse partir, deixá-lo. Não tinha qualquer perspectiva disso acontecer e ele deveria saber disso.

–Eu não vou a lugar nenhum – disse calmamente, sabendo que não adiantaria tentar arrancar o que ele estava escondendo.

Percy não respondeu e seus olhos deixaram os meus. De alguma forma, o que eu disse pareceu fazê-lo se fechar mais.

–Quero um beijo – eu disse, numa tentativa de animá-lo.

Ele voltou a me encarar e sorriu divertido com o que eu disse.

–Só um? – perguntou brincando.

–O que você acha? – arqueei uma sobrancelha sugestivamente.

–Acho que quer só um – ele respondeu com seu habitual desejo de me irritar.

–Acha é?

Ele riu.

–Acho sim – confirmou brincando, ainda de bom humor. Fiquei absurdamente feliz em conseguir colocar um sorriso em seus lábios.

–Me beija logo – ordenei severamente.

–Deixa comigo – ele respondeu e nos virou na cama, caindo sobre mim.

Ri e me agarrei a seu pescoço deliciada. Um de seus braços enlaçou minha cintura como de costume, ele sabia o quanto eu amava isso, e ele acariciou minha bochecha com a outra mão.

Percy me torturou, aproximando seus lábios dos meus, mas sem me tocar. Eu arfei frustrada e tentei chegar mais perto para encontrar sua boca, mas ele se afastou e sorriu calmamente para mim. Tentei puxá-lo com meus braços numa ânsia de seu toque, mas nem um pouco surpreendentemente ele resistiu sem esforço algum. Percy sempre soube como me provocar.

Meu peito se inflou de desejo, incapaz de suprir todo o ar que eu precisava naquele momento, e eu inconscientemente me arqueei mais contra Percy buscando contato. Eu não segurei o gemido, que escapou de meus lábios quando ele se aproximou, encostando seu peito forte em meus seios. Fechei os olhos em antecipação, ele era muito bom nisso de me deixar em chamas. Senti seus lábios na minha bochecha, muito perto de minha boca e arfei contrariada.

Ele distribuiu beijos muito leves perto de meus lábios, e quando eu tinha certeza que ele enfim pararia com essa deliciosa tortura, ele se afastava. Minha boca já estava entreaberta e eu não conseguia parar de arfar de desejo por seu toque. Percy puxou minha cintura ainda mais contra si, antes de se inclinar para beijar meu ombro.

Um caminho de fogo o levou até meu pescoço. Ele moveu sua mão de minha bochecha para a nuca antes de traçar uma linha de beijos macios pelo meu maxilar. Nem tentei conter o gemido de apreciação, quando desfez o abraço em minha cintura, para acariciar a pele da minha coxa, a enroscando em seu quadril.

Como em todas as vezes que ele me tocava, tudo que eu podia sentir era aquele desejo sufocante e crescente que arrepiava todo o meu corpo, fazia o sangue bombear rápido demais por minhas veias e um prazer la no fundo que impulsionava gemidos através de mim. Era como uma necessidade dele, do seu toque. Nenhuma proximidade, nenhum beijo, nenhuma carícia era o bastante... Aquele desejo voraz arrebatador que me tirava qualquer pensamento coerente.

Numa tentativa de lhe devolver pelo menos parte da tentação que me causava, tirei uma das mãos de sua nuca e acariciei seu peito forte. Ele continuou me beijando provocativamente enquanto eu desenhava os contornos de seu abdome definido com a ponta dos dedos. Me senti incrível quando Percy contraio seu abdome pelo meu toque.

Ele se afastou um pouco, tirando seus lábios de mim. Eu gemi incomodada pela distancia. Ele me olhou calmamente.

–Como você pode ser tão linda? – perguntou me encarando num tom admirado.

Eu sorri corando e voltei a enlaçar seu pescoço com os braços, o puxando pra mim. Ele cedeu e tomou meus lábios finalmente em um beijo profundo, macio e com gosto de menta.

Apertei minhas pernas e braços a sua volta, precisando mais e mais dele. Felizmente, Percy parecia sofrer da mesma necessidade, acariciando e apertando qualquer pedaço de pele que pudesse alcançar do meu corpo.

Seus lábios se moviam com experiencia contra os meus, a língua se enlaçando na minha numa luta deliciosa e sexy. Ele mordia e repuxava meu lábio inferior com suavidade periodicamente e eu gemia a cada vez, me arqueando contra ele para que tomasse minha boca novamente.

Não tinha certeza nenhuma de como devia encarar aquela situação. Era muito além do que Percy costumava nos permitir ir, pelo menos até essa noite. Na maior parte das vezes estávamos em lugares do acampamento que qualquer um poderia alcançar e era necessário que ele regulasse o nível de agarração (principalmente porque eu perdia essa capacidade depois que ele começava a beijar meu pescoço) e neste momento eu estava nua embaixo dele em sua cama. Era diferente e eu entendia isso, pois havíamos passado de base, tínhamos privacidade, mas eu ainda não sabia como me sentia sobre isso. Era perfeito enquanto eu estava ali nos braços de Percy, mas como seria de manhã quando tivéssemos que sair dessa bolha de felicidade, encarar as consequências de eu ter dormido em seu chalé, fazer treinos e as vezes até missões separados? Eu me sentia mais dele do que nunca e isso era assustador.

É muito mais do que obvio que ele percebeu minha ansiedade e parou o beijo.

–Não precisa racionalizar tudo, sabia? – sussurrou com suavidade.

Eu sorri, ele sempre sabia o que dizer. Havia crescido muito além daquele garoto de doze anos que eu conhecera e só falava besteiras.

–Desde quando se tornou tão inteligente? – perguntei, me sentindo boba por ter que parar aquilo graças as minhas inseguranças tolas.

–Eu tinha que acompanhar minha namorada.

Ri baixinho, realmente divertida com o que ele disse.

–Como vai ser amanhã? – perguntei com certa insegurança na voz.

–Quem precisa saber?

Havia razão no que ele disse. Há uma semana eu não imaginava que o fato de um filho asqueroso de Ares me dar um tapa na bunda me faria transar com Percy.

Suspirei e sei que ele entendeu que eu concordava e me sentia boba por todo esse drama.

Ele saiu de cima de mim e se deitou de lado, me aninhando em seu peito largo. Eu sabia que havia arruinado o clima, mas ele não pareceu se importar nenhum pouco. Na verdade, me olhava como se só o fato de eu estar ali já fosse perfeito, com ou sem segunda-rodada.

–Você é bom demais para mim – murmurei abraçando sua cintura.

–Nem em sonho – ele respondeu ironicamente, como se somente negar minha afirmação não fosse o suficiente para ridicularizar o que eu disse. Eu sabia, assim como qualquer um que via nossa relação de fora, que ele estava muito além de mim; mas na visão dele eu era boa demais para ele, por mais ridículo que isso possa ser – Acho melhor dormirmos.

–É... – respondi minimamente e fechei os olhos.

Senti ele beijando o topo de minha cabeça e me apertando mais contra seu peito antes de adormecer.

Eu não sonhei com nada aquela noite, nem pesadelos, nem sonhos bons, só um sono profundo e escuro.

Acordei levemente atordoada com as batidas insistentes na porta, consciente do que isso podia significar. Abri os olhos com o coração batendo muito rápido e percebi pela luz que devia ser de manha e que Percy ainda dormia serenamente. Como ele podia ser assim tão perfeito? Senti um aperto em ter que despertá-lo de toda a doçura de seu sono. Ele respirava suavemente e os cabelos estavam desengrenhados e mesmo assim ele parecia muito sexy.

–Percy! Percy, tem alguém na porta – sussurrei acariciando suavemente seu rosto.

Ele abriu os olhos verdes e me encarou confuso por alguns segundos. Só percebeu o que acontecia quando bateram novamente na porta. A consciência tomou conta de seu rosto e ele se levantou num pulo.

Vestiu a calça do pijama enquanto andava até a porta.

–Já vai!

Eu me encolhi em baixo dos lençóis e cobri meus seios nus, olhando aflita para a porta.

Percy abriu somente uma fresta, para que não pudessem me ver.

–Grover? O que foi, cara? – perguntou Percy parecendo aliviado.

–Rachel quer falar com você agora, acho que teve alguns sonhos essa noite que precisa te contar.

–Agora? – perguntou e olhou para mim.

–Sim, deixe de ser preguiçoso.

–Vou me trocar – respondeu categoricamente.

–Ok. – respondeu Grover e quando Percy estava quase fechando a porta ele acrescentou: – Sabe onde Annabeth está?

Meu coração parou.

–Por que? – perguntou Percy cauteloso.

–Seus irmãos não a viram chegando no chalé ontem e nem saindo hoje.

–Ah, ficamos na praia até tarde ontem a noite e ela me disse que ia estudar umas runas que encontrou no punho de Zeus hoje de manhã – inventou Percy genialmente.

A história das runas era verdade, embora eu tenha as traduzido ontem e se tratam somente de nomes de casais combinados, feitos pelas filhas de Afrodite.

–Ok, vou avisar Amber e Liana. Elas estavam procurando a irmã.

–Tudo bem. Tchau – disse Percy um pouco grosseiramente e fechou a porta na cara de Grover.

Ele se virou para mim e sorriu como quem diz que já passou. Andou até a cama e se sentou a na beira.

–Tenho que ir.

–Não quero que Rachel de roube de mim – resmunguei me enrolando no lençol para me cobrir. Me sentei no seu colo, abraçando seu pescoço.

Ele colocou os braços ao meu redor e riu pelo nariz.

–Devo desconsiderar o duplo sentido da frase? – perguntou parecendo divertido.

–Não, não deve – felei séria – Ainda não esqueci que ela te beijou.

Ele suspirou.

–Me arrependo amargamente de ter te contado isso – reclamou.

Eu bufei e desviei os olhos dele.

Percy segurou meu queixo e puxou meu rosto, fazendo-me encará-lo.

–Aquilo não foi nada – ele disse me olhando profundamente com aqueles olhos verdes. Eu tinha certeza que ele entendia o poder daquele olhar sobre mim – Não gosto da Rachel deste jeito.

–Nem um pouquinho? – desafiei levantando uma sobrancelha.

–Nem um pouquinho – confirmou – É você que eu amo. Sempre amei. E sempre vou amar. Devia saber disso.

–Se continuar falando assim vou acabar acreditando.

–Já devia ter acreditado – respondeu sério.

–É muito mais fácil pra você, – reclamei – nunca teve que lidar com concorrência.

–Nunca?! – ele se espantou – E quanto a Luke?

Não era a mesma coisa. Eu nunca tinha beijado Luke e qualquer coisa que eu achei que pudesse sentir por ele, quando era muito mais nova, virou pó desde minha primeira missão com Percy.

–Nunca beijei Luke. Além disso ele é o único que pode superficialmente ser considerado concorrência. Rachel não é a única para mim. Tem Calipso...

–Outra que eu me arrependo de ter contado a você – interrompeu.

–Drew e mais um monte de filhas de Afrodite; filhas de Apolo; aquela campista nova, filha de Deméter; aquela amazona; Zara, a humana da ultima missão... – continuei.

–Só beijei Rachel. Como você é exagerada – disse rindo.

–Sou realista!

–Cala a boca – disse suavemente antes de me beijar.

Eu correspondi o beijo, é claro, não dava para evitar. Deixei que ele movesse seus lábios contra os meus e sua língua dançasse com a minha, tentando me convencer que me ama. E ele conseguiu, é claro que conseguiu. É difícil acreditar que ele possa se interessar por outra ou cogitar a ideia de que possa me deixar quando ele está por perto. Quando não está que é o problema.

Percy segurou meu rosto e acariciou minha cintura languidamente, me beijando pra me fazer esquecer de qualquer possível motivo para ficar brava. Enquanto eu me agarrava a seu pescoço como se minha vida dependesse disso, sem conseguir pensar em mais nada. Ele só afastou seus lábios quando o ar se fez demasiado necessário.

–Você não pode me beijar sempre que eu estiver brigando contigo – reclamei ofegante, nem remotamente irritada com sua atitude.

–É claro que posso. Mas agora tenho mesmo que ir.

Eu levantei de contragosto de seu colo e voltei a me jogar na cama.

Percy reuniu suas roupas do chão, onde eu as jogara ontem a noite e foi para o banheiro. Ele tomou um banho de menos de três minutos e saiu vestindo somente uma bermuda azul marinho e o tênis, secando os cabelos numa toalha branca com a camiseta do acampamento jogada sobre o ombro. Por que ele precisava ser tão lindo e sexy? E como alguém podia ter um tanquinho daqueles?

–Pode dormir um pouco mais, são só oito horas – disse parando para vestir a camiseta.

–Não quero dormir sem você. Não queria que fosse agora – disse manhosa.

Ele sorriu complacente e sentou na beirada da cama. Se inclinou para mim e beijou minha testa.

–Eu não queria ir – respondeu. Ele estava cheiroso e o aroma refrescante de menta em sua boca, ainda mais forte.

Sorri amarelo e ele se levantou. Olhou para mim antes de fechar a porta.

Assim que ele não estava mais comigo me senti mal por estar sozinha em seu chalé (ainda ignorando o fato de eu estar completamente nua). Me levantei e arrastei o lençol comigo enquanto caçava minhas roupas pelo chão. Felizmente, eu havia pensado que acabaria dormindo aqui e trouxera uma pequena bolsa com uma troca de roupa.

Eu só percebi que jamais entrara no banheiro do chalé de Poseidon naquele momento. Assim como o resto do lugar, o teto era baixo e dava a impressão de estarmos abaixo da superfície. As paredes e o piso eram de madrepérola leitosa e cintilante e havia três repartições feitas de coral com portas de madeira envelhecida que parecia vinda dos restos de um naufrágio. A pia era feita de rocha marinha e havia pontos verdes, como se houvesse musgo nela; logo a cima um espelho com os cantos charmosamente envelhecidos por maresia refletia minha imagem loura. Estranhamente, minha palidez e os cabelos claros pareciam combinar com a sutileza do lugar.

Deixei minha bolsa sobre a pia e me desenrolei do lençol o colocando em um bolo no chão próximo a porta. Entrei no primeiro box, que parecia ser o que Percy havia usado. Dentro era maior do que eu imaginara: havia um vaso sanitário de madrepérola, um suporte para toalha com uma igual a de Percy e uma cortina feita de rede de pescar com a trama bem justa que separava o chuveiro. Fechei o trinco da porta de madeira por precaução e entrei no chuveiro.

A água não era nem quente, nem fria, mas fresca. Na temperatura de Percy, embora ele possa ser bem quente as vezes... Retirei qualquer imagem do corpo quente dele de minha mente e tentei terminar o banho o mais rápido possível. Senti um certo ardor em minha virilha, mas ignorei sabendo que era normal.

Mesmo tendo certeza que não havia ninguém no chalé, eu espirei por uma fresta da porta antes de sair enrolada na toalha. Me sequei e me vesti rapidamente, prendi o cabelo e guardei minhas roupas sujas na bolsa.

Eu decidi deixar minha bolsa ali e buscar mais tarde, e a coloquei sobre a cama que arrumei metodicamente. Deixei o quarto olhando para trás uma ultima vez e tentei andar calmamente assim que estava no patio entre chalés. Me senti como se estivesse acordando de um sonho louco ao notar a normalidade que tudo se passava ali. Então talvez o mundo só tivesse ficado mais colorido na minha mente perturbada.

Não me importei nem um pouco. Eu me sentia tão bem e olhava para o mundo com uma prepotência insana. Ninguém sabia, nem saberia de nada. Era tão estranhamente bom esse segredo que passeava em minha mente

–Annabeth? O que estava fazendo no chalé de Poseidon? – meu sangue gelou.

Olhei para trás atordoada e quase suspirei de alivio ao constatar que era só Luke e que ele não parecia desconfiar de nada.

–Estava procurando Percy – menti.

–Ah... – ele disse e desviou os olhos de mim. Eu estranhei a atitude, não era como se ele desconfiasse ou estivesse enciumado com o que eu disse. Não, ele parecia saber de algo.

–O que foi?

–Não fique brava, mas acabei de ver Percy na caverna de Rachel – ele disse parecendo ansioso.

–Por que deveria ficar? – perguntei um pouco irritada, qual é o problema dessas pessoas que acham que se ele conversar com ela eu vou ter um ataque. Ela é o oráculo agora, qual é?

–Bom, não que eu quisesse ouvir, – é claro que queria ouvir, Luke – mas eles estavam falando de você.

De mim?

–O que estavam falando?

Luke pareceu ficar ansioso com minha pergunta.

–Ele ainda deve estar lá. Por que não vê por si mesma?

Sem dizer nada a mais, lhe dei as costas e segui muito curiosa até o a caverna de Rachel.

Eu estava praticamente correndo e, desatenta, esbarrei em uma filha de Afrodite. Ela tinha uma maleta de maquiagens nas mãos e todo o conteúdo se espalhou não chão pelo encontrão.

–Preste atenção onde anda! – ela gritou com os olhos azuis brilhando de raiva.

–Foi mal – murmurei, me abaixei e a ajudei a recolher tudo rapidamente, jogando sem qualquer cuidado as coisas na maleta roxa.

Fiz tudo correndo e terminei em menos de dois minutos. Sem esperar ela se levantar, voltei a andar em direção a caverna.

–Está tudo bem. Já a atrasei – ouvi a voz da filha de Afrodite atras de mim. Olhei para trás estranhando o comentário e e vi falando com uma irmã. As duas me olhavam com sorrisos estranhos, mas deixei para pensar nisso depois.

Subi o pequeno trecho de colina até lá e as vozes de Percy e Rachel me alcançaram antes mesmo de eu chegar a porta.

Como assim ainda não disse a Annabeth que vai deixá-la? – ouvi Rachel quase gritando.

Mas do que ela estava falando...? Eu paralisei.

Não consegui – respondeu Percy.

Não conseguiu? Tem que dizer, Percy! Você sabe que ela tem o direito de saber, e quanto mais cedo falar, mais rápido ela vai entender...

Eu sei, Rachel! Mas não consegui dizer ontem...

Então a ache e diga hoje! Se não fizer isso, eu mesma vou. E vai ser bem pior ela saber por mim.

Apesar de ser apenas um pequeno trecho da conversa, eu não consegui mais ouvir despenquei colina a baixo. Corri para a parte de trás do chalé de Atena, onde sabia que não haveria ninguém. Eu não conseguia pensar. Não queria pensar.

Quando parei, estava ofegando pela corrida. Ao mesmo tempo que o arfar diminuía, a consciência ia tomando meu corpo. Aquilo explodiu dentro de mim, era forte demais e gritei do fundo de minha garganta sabendo que ninguém escutaria. Soquei a parede repetidamente numa ânsia de arrancar aquilo de mim, não parei nem quando senti minha mão se esfolando e começando a sangrar. Não, não, não!

Minha cabeça estava latejando e eu podia sentir o suor escorrendo da minha testa.

Afundei de joelhos no chão e levei as mãos ao rosto. O meu sonho! É claro, era um preságio. Malditos sonhos significativos de semideuses! E o modo como ele estava falando... tão ausente. Ele deixou a cama... Eu sabia! Por que neguei a mim mesma?

A dor era tão real! Meu coração parecia espartilhado.

Que tipo de atrocidade foi essa, Afrodite? Baixo até pra você! Foi como mostrar um playground feito de doces a uma criança, e depois proibi-la de brincar lá.

O que eu deveria fazer agora? Aceitar simplesmente que acabou e, como ele sempre foi demais para mim, me sentir gratificada pela oportunidade? Não, não, não!

Eu não queria mais ficar aqui. Podia pegar qualquer missão estupida... mas eu precisava ficar longe...! Eu não queria... eu não podia... Gritei agoniada outra vez.

Nenhuma lagrima escorria de meus olhos, mas de que adiantava, se doía tanto?

Eu pretendia ficar ali até ter condições de encarar Percy, embora eu já tivesse decidido terminar com ele antes que ele pudesse fazê-lo. Me recusava a sair por baixo. Infelizmente, minha ideia de esperar até ficar bem não deu certo, pois tive que sair dali. Ouvi as folhas secas no chão se quebrando sobre os pés de alguém, que vinha em minha direção.

Me levantei rapidamente e andei na direção contrária a que vinha alguém, sem sequer ter coragem de erguer os olhos para ver quem era.

Contornei o chalé de Atena e saltei sobre cerca da varanda lateral para cortar caminho, percebi que a pessoa me seguia e apertei o passo, descendo os degraus da frente praticamente pulando. Estava ao ponto de correr, só para não ter que encarar quem quer que fosse o curioso que me seguia, quando ouvi-o chamar.

–Annabeth, espera! – Luke.

Me virei e ele descia os degraus e vinha em minha direção.

–O que você quer? – perguntei ferina. Por Hades, ele sabia o que eu havia ouvido!

–Saber como você está. Te vi no chão lá atrás e acho que deve ter ouvido o que eles falavam... Eu sinto muito – sua voz era calma e compreensiva.

Ele parou na minha frente, o rosto complacente.

As vezes eu me esquecia que Luke era bonito, de tanto evitar seu olhar. Eu me sentia culpada em olhar seus olhos por não corresponder o que eu sabia que ele sentia por mim. Mas ele era. Muito bonito. Estranhei notar isso novamente agora.

–Se tiver algo que eu possa fazer... – ele deu um passo a frente, ficando mais próximo de mim, mas não o suficiente para me deixar incomodada.

Não sei de onde veio, mas de repente havia algo que Luke podia fazer por mim. Eu sentia dor demais no momento para perceber o quanto aquilo era horrível, então o fiz. Dei um longo passo em sua direção, agarrei a frente de sua camiseta do acampamento e o puxei para meus lábios.

Luke pareceu muito surpreso, mas segundos depois segurou minha cintura e correspondeu.

Se fosse com Percy, eu não chamaria aquilo de beijo. Somente um selinho forte. Mas era Luke, e aquilo foi demais para mim. A razão retomou minha mente em colapso e eu me afastei do filho de Hermes.

Eu não acredito que tinha...

Luke me fitou nos olhos parecendo confuso, mas ainda assim satisfeito. Abri a boca para me desculpar antes de correr para o mais longe possível dele, mas ele foi mais rápido.

–Não peça desculpas – disse, seu tom magoado por saber que aquilo não significava nada para mim além de vergonha.

Fiz que não com a cabeça, me sentindo uma pessoa horrível por fazer isso com ele.

–Eu sinto muito, Luke – sussurrei, incapaz de elevar a voz, e corri para dentro de meu chalé.

Bati a porta com força, para mantê-lo fora e corri para minha cama. Nenhum dos meus irmãos estava lá dentro o que foi um alívio, mas eu podia ouvir o chuveiro e sabia que era questão de tempo até alguém sair do banheiro.

Percy estava certo em me deixar. Que tipo de pessoa eu era afinal? Havia beijado Luke somente para despertar a ira de Percy e satisfazer um pouco meu ego ferido.

Cedo demais, o som que vinha do banheiro parou. Afundei a cabeça no travesseiro e esperei, torcendo para que, quem quer que seja, não me incomodasse com perguntas.

–Annie? O que aconteceu? – perguntou Kyle.

–Me deixe em paz! – gritei, mas a voz saiu abafada pelo travesseiro.

Kyle não insistiu, provavelmente pelo meu tom que mostrava que o espancaria se continuasse a me importunar. Senti ainda mais culpa por tratá-lo assim quando só queria meu bem, mas eu podia pedir desculpas mais tarde. Naquele momento eu estava além da razão.

Ouvi seus passos se afastando e a porta abrindo e fechando logo em seguida.

Não sei quanto tempo mais passei encontrando defeitos em mim e nutrindo uma raiva pelo mundo, antes ser novamente interrompida. Sem o som da porta de aviso, senti o colchão afundando ao meu lado. Alguém pousou a mão sobre meu cabelo e o acariciou suavemente.

Por Atena, que não seja Percy!, foi o que pensei repetidamente. Afinal ele provavelmente não sabia o que eu havia feito ainda, e o fato de querer terminar não anularia o sentimento que ele tinha por mim. Mesmo esse sentimento sendo, diferente do que eu gostaria, estritamente fraterno.

–Calma – disse suavemente, e senti realmente uma calma se espalhando sorrateira e superficialmente por mim – Percy te contou, não foi?

–Piper? – me virei para ela.

–Seu irmão me chamou – respondeu. Eu me sentei e encarei seus olhos, estavam mais brilhantes hoje do que o normal, mas sem cor definida como sempre.

–Não vai me dizer que já sabe sobre Percy – disse com um bolo na garganta. Rachel, Luke e até Piper sabiam antes de mim.

–Jason me contou. Ele também vai – respondeu calmamente.

–Vai aonde? – perguntei confusa. Jason também vai deixá-la?

–Na missão. Olha, Annabeth, não é nada demais. Sei que praticamente nunca ficaram separados em uma missão, mas ele vai voltar logo. Vocês já mataram Medusa uma vez e Quíron disse que só vai demorar se ela não tiver renascido no Empório de Jardim da Tia Eme. Rachel não conseguiu ver se ela estará lá, mas sua visão foi muito clara e Percy só poderá escolher dois garotos para acompanhá-lo. – explicou em seu tom suave e apaziguador.

Minha mente girou em compreensão. Oh, santa Atena!

Como assim ainda não disse a Annabeth que vai deixá-la?, dissera Rachel. Percy ia me deixar no acampamento, não poderia me levar na missão. E quanto a ontem de noite quando ele disse aquele “Agora”, era como se fossemos ficar separados...

Ele não ia terminar comigo. Só ia numa missão sem eu!

Novamente eu havia duvidado do que ele sentia por mim e pensara e fizera besteiras! Eu beijei Luke cassete!

Me levantei num pulo, assustando Piper.

–Onde você vai? – perguntou um pouco sobressaltada.

–Preciso ver Percy – respondi já correndo.

Atravessei a varanda feito um foguete, e disparei pelo pátio entre os chalés em direção ao de Poseidon. Esperei que Percy já tivesse voltado depois de falar com Rachel. Eu sabia que ele voltaria para me ver assim que saísse de lá. Porque ele me ama. Como pude duvidar?

Bati na porta com força e meus dedos machucados doeram, o que só me lembrou de como sou patética.

–Entra! – respondeu Percy. Meu estômago deu um salto, como fizesse séculos que eu não escutava sua voz. Provavelmente me convencera bem demais que era nosso fim, até que acreditara que estivéssemos separado já.

Abri a porta e encontrei-o de costas para mim, colocando um cantil de néctar na mochila que costuma usar em missões.

–Percy, – disse com um bolo na garganta. Eu me sentia tão mal em ter que lhe contar que beijara Luke, mas eu precisava. Implorei mentalmente que ele não me deixasse de verdade por isso – tem algo que preciso te falar.

Ele se virou para mim com uma expressão um pouco sombria, mas eu simplesmente continuei falando.

–Eu sinto muito, muito mesmo. Mas, por favor, me deixa explicar antes de...

–Eu já sei – disse num tom sem emoção. Só pela forma que disse, eu percebi que ele realmente sabia.

–Como? – perguntei quase sem voz. Não, não, não! Eu não podia perdê-lo! Eu precisava explicar; precisava que ele entendesse; eu precisava dele.

Percy me deu as costas, fechou o zipper da mochila com um puxão rápido e jogou-a sobre o ombro.

–Eu vi – respondeu sem olhar para mim ainda.

Não. Ele soubera da pior forma possível.

Percy andou em minha direção, mas desviou quando passou por mim. Eu virei e o vi abrindo a porta. Demorei alguns segundos para conseguir seguí-lo para fora.

–Por favor... – comecei quase correndo atrás dele, que se afastava em passos largos.

Ele parou e me encarou. Em seus olhos duros percebi que eu o perdera.

Só disse uma coisa antes de me dar as costas e seguir colina a cima, enquanto eu não conseguia sair do lugar em choque:

–Decepcionante.

Notas finais
Viiiiu gente, demorou, mas pelo menos o cap foi enooooorme!
165 comentários para o próximo (aaah, e é isso ao todo! Não 165 só nesse)
bjsss