Maremoto
11 Apaixonada
Notas iniciais
E já vou avisando que o próximo pode demorar a vir, pois vou viajar essa semana. JURO tentar ao máximo escrever algo antes de viajar e deixar com alguma amiga para ela postar, ou tentar escrever durante a viagem. Entretanto não garanto nada.
Thalia segurou minha mão no ar antes que pudesse virar a terceira dose. Forçou meu braço de volta ao balcão, onde o impacto derrubou algumas gotículas na madeira
– Deixe de ser estraga prazeres – reclamei tentando erguer o copo.
Ela apertou mais meu braço, cravando em mim suas unhas pontiagudas e negras. Jogou novamente o copo contra o balcão.
– Qual é? Prometo ser Boazinha – ri de meu próprio trocadilho idiota enquanto tentava alcançar a bebida.
– Pare de agir feito criança!
– Não. Cansei de ser a responsável fria e inatingível. Eu não agüento mais... – meus olhos estavam à beira de uma inundação. Uma bêbada chorando, que surpreendente.
– Beber não vai melhorar nada – seu tom estava menos ferino. Eu quase podia identificar pena em sua voz. Ótimo. Digna de pena da melhor amiga.
– E daí? Não beber também não.
Eu sabia que estava sendo estúpida. Mas experimente ver o amor da sua vida (mesmo que você não seja o dele) subindo para o quarto de uma garota. Oh, e não uma garota qualquer. A namorada dele: muito mais gostosa, divertida e bonita que você. Sentiu?
Talvez fosse o calor do momento, mas de repente todo aquele papinho de Thalia e Zia de que “ele ainda gosta de você” parecia só isso: papinho.
Eu não era estúpida o bastante para ficar bêbada por isso. De coração partido ou não, eu era uma filha de Atena. Tudo o que eu queria era que a bebida criasse um véu em minha mente, para que eu pudesse pensar no mínimo de coisas possível.
– Olha, Annie, eu entendo que vo...
– Não, Thalia, não entende! Ninguém entende, esse é o problema! Ninguém quer entender. Você é minha melhor amiga, mas tudo o que sofri foi sozinha. Você não estava lá, Piper não estava lá, Percy não estava lá. Ninguém quis saber como eu estava. “Annabeth está sofrendo? Ela é filha de Atena. Ela supera” – eu não queria fazer isso, mas ou a represa de sentimentos já estava desgastada demais e vinha se rompendo em surtos de sinceridade dolorida, ou era somente a bebida soltando minha língua.
Pela expressão abatida nos olhos muito expressivos dela, eu acertara o ponto fraco. Ela já se sentia culpada.
Bom, tarde demais. Depois que começara, independente de quão doloroso fosse para ela, eu não me seguraria. Já contera meus sentimentos do suficiente por uma vida. Foram tantos sorrisos de “Está tudo bem”.
– Annie, eu não sabia...
– Não seja hipócrita. Eu não parei de comer porque sou doente mental. Eu só estou cansada. Não precisa dizer nada, não estou brava, mas cansei de fingir que está tudo bem. Porque não está. Eu sinto falta dele, estou morrendo de ciúmes, tem um monstro querendo me matar, esse mesmo monstro patético me prende a Percy quando ficar perto dele dói tanto... Não está tudo bem.
Eu quase acrescentei aquele trato forçado com Afrodite. Parecia muito sem sentido agora.
Thalia chegou mais perto, fazendo menção de me tocar, mas eu recuei.
– Estou indo – disse. Joguei uma nota de vinte dólares sobre o balcão, sabendo que era mais do que o suficiente por três doses de bebida vagabunda, e desci do banco.
– Pra onde? – Thalia se levantou também.
– Para o apartamento, não quero mais ficar aqui – ela abriu a boca para dizer algo, mas não a deixei falar, já sabendo que se ofereceria para ir comigo – Eu preciso de um tempo sozinha.
– Você está bem?
– Não – respondi sinceramente.
Ela fez uma careta.
– Você vai ficar?
– Claro. Somos meio-sangues, é isso o que a gente faz: sobrevive.
Não acreditei nem um pouco em minhas próprias palavras. Eu sobrevivera a muita coisa, sim. Mas nenhuma delas parecia se comparar a isso.
Seria eu incapaz de sobreviver a Percy Jackson?
Eu me virei de volta para o bar e tomei a ultima dose, realmente precisava enevoar meus pensamentos e aquilo estava demorando a fazer seu glorioso efeito. Thalia me olhou acusatoriamente, mas nem liguei.
– Avise Percy – pedi – ele vai ter um ataque se não me encontrar.
– Ele vai ter um ataque com ou sem aviso – resmungou Thalia, sabendo que seria ela a agüentar o surto do meu ex. Preciso me acostumar a chamá-lo assim.
Quando dei um passo em direção a porta, Thalia segurou meu braço.
– O que foi? – perguntei cansada, já não tínhamos passado dessa parte?
– Só... Tem certeza que não quer que eu te acompanhe? – sua voz mostrava certa incerteza, como se achasse que eu não era capaz de voltar sozinha – Sabe mesmo o caminho? E você bebeu... Essa coisa vai subir daqui a pouquinho.
– Relaxa, Thalia, estou Boazinha – eu disse num tom entediado, que me gerou certa culpa, afinal ela só estava preocupada comigo – Eu me viro. Percy deixou a chave na portaria e, além disso, não tem monstros nessa cidade, certo?
– Está tarde, os humanos também podem ser perigosos. E Poseidon está atrás de você, não é muito bom andar dando sopa por ai... Sabe, sem Percy.
Aquilo me irritou.
– Posso me cuidar sozinha.
– Eu sei que sim, mas sem monstros aqui... Poseidon pode apelar para métodos menos, hã, ortodoxos – ela parecia realmente preocupada.
– O que quer dizer?
– Artemis me disse que ele pode ser bem perigoso quando quer algo... Só tome cuidado, sim?
Assenti e voltei a andar, mas antes de dar mais que dois passos eu me senti culpada por tratá-la assim. Meio que corri ate Thalia e a abracei com força.
Não falamos nada, mas ao soltá-la me senti um pouco melhor.
Eu não estava muito preocupada em não achar o caminho... Até ter que achar o caminho. Assim que botei meus pés na rua, quis voltar correndo para dentro do pub e pedir ajuda a Thalia, mas eu era orgulhosa demais para isso.
A cidade parecia uma mini Nova York: muito concreto, muitos becos, pouca luz. Uma árvore a mais aqui ou ali, mas no básico era uma selva de pedra compacta.
Tudo que eu sabia sobre como ir de volta para o apartamento era: oito quadras para o norte (se eu devia virar a direita ou esquerda depois disso, e quantos quarteirões andava para esse lado eu não fazia idéia); um prédio verde-musgo de oito andares; e ninguém ali poderia me ajudar (bêbados demais).
Virei na esquina em que chegamos e comecei a ir em direção ao norte. Era uma cidade pequena, portanto com pouquíssimos prédios, então não seria assim tão difícil achar um verde-musgo, de oito andares (não, não fazia idéia do nome do edifício).
Eu me sentia realmente patética sempre que ia para a beira da calçada, evitando assim chegar perto demais da entrada dos becos. Sou Annabeth Chase, filha de Atena, eu havia feito coisas bilhões de vezes mais perigosas do que andar sozinha em uma cidade pequena. É, uma cidade pequena, fria, mal iluminada, macabra...
Por mais que eu tentasse, não conseguia sufocar um sentimento de aflição e de que alguma coisa ia dar errado. Também não conseguia parar de pensar no que Thalia havia dito sobre Poseidon jogar sujo...
Passei por seis quarteirões e meio ilesa... Sete. Ótimo, estava chegando na hora de escolher um lado. Já fui olhando para ambas as direções, mas de tão longe e com casas em volta eu não podia ver a existência de prédio algum.
Oito quarteirões, parei na esquina do cruzamento. Olhei para um lado, para o outro. Nada de visão de prédios.
Demorei até aquele momento para notar que a pinga havia feito efeito. Eu não estava delirando ou super alegre, mas meus pensamentos vinham com uma velocidade reduzida e consegui pensar somente no caminho, sem viajar com os pensamentos até o segundo andar do pub. Quando parei de andar, tive que “esperar o mundo parar de girar” por um segundo.
– Precisa de ajuda, senhorita? – uma voz grossa, masculina e gasta surgiu ao meu lado.
Não estou exagerando quando digo que dei um pulo em sobressalto.
Parecia um cara inofensivo, uns trinta anos, pálido, ruivo, baixo e levemente acima do peso. Nada em sua aparência me incomodava, então não havia névoa encobrindo um monstro (Não tem monstros nessa cidade, Annabeth sua burra!).
Entretanto, eu não vira de onde ele viera. Em um momento estava na esquina parada sozinha e no outro havia um gorduchinho simpático me abordando. Mau sinal, mau sinal.
– De onde você veio?! – a pergunta saiu antes que eu segurasse. Efeito Boazinha.
– Moro aqui – ele apontou a casa na esquina – estou chegando do meu vizinho. Noite do bingo.
– Humm... – aquilo me soou caseiro, então resolvi pedir ajuda – Estou procurando um prédio, não me lembro o nome, é verde-musgo e tem pouco menos de dez andares...
– Ah! Deve estar falando do Luminatra. Prédio bacana aquele, a filha do primo do meu cunhado mora lá. Quer dizer, morava. Ela morreu faz pouco menos de um ano. Helena, se não me engano. Tão nova a pobrezinha... E estava grávida!
– Eu sinto muito – murmurei um pouco sem paciência pra historias tristes – Pra onde ele fica?
– Seis quadras pra lá – ele apontou a outra esquina – é só ir direto. Vai passar na frente de uma frutaria chamada Fartura, fica no mesmo quarteirão.
– Obrigada – disse contendo o tom confuso. Seria difícil não ver um prédio se eu já estivesse no quarteirão dele.
– Sem problemas – disse sorrindo e se virou para a porta da casa azul na esquina. Tirou a chave do bolso e entrou.
Estranhamente não havia sequer um carro na rua, então atravessei sem nem olhar.
– Não seguiria ele se eu fosse você.
Ah, ótimo! Como se a noite não estivesse ruim o suficiente, Afrodite ainda aparecia para melhorar.
Ela surgiu à minha frente em todo seu esplendor de cabelos negros e olhos verdes. Estava enfiada em um longo vestido vermelho brilhante, com uma maquiagem perfeita (é claro) e segurava um daqueles extensores de cigarro entre os dedos, como se tivesse acabado de sair de um baile de gala dos anos 20. Desviei o olhar dela, incapaz de pensar sobre de quem vinha aquela aparência morena e perfeita.
– Não estou com paciência pra você hoje, Afrodite. Já te vi esses dias pelo resto da minha vida. Além disso, não acho que vá ser tão educada no meu estado semi-sóbria – disse ignorando seu aviso de não seguir o que o ruivo disse.
Se ele mentira por qualquer que fosse o motivo (mesmo que fosse com as piores intenções) ou se estava enganado, para mim não faria diferença. Eu não tinha mais estômago para agüentar essa deusa insolente, se no fim dos seis quarteirões não achasse o prédio, daria meia volta e tentaria o outro lado. Simples assim.
– Educada – ela desdenhou bufando – Como se algum dia tivesse sido educada comigo.
– Me acharia a pessoa mais educada do mundo se pudesse saber o que realmente penso antes editar minhas respostas mentalmente para só então verbalizá-las – disse desviando dela.
Era quase ridículo como ela soava deslocada com aquela aparência. Não combinava nem um pouco com o local, a cidade, e nem mesmo o século.
Ela me seguiu fazendo barulho com os saltos no asfalto. Infelizmente, por mais rápido que eu andasse, aqueles sapatos não pareciam atrasá-la nem um pouco.
– Não lhe disse que esse é o caminho errado?
– Não me importa. Resolvi parar de escutar você. Alias, o nosso trato, não acho que esteja mais de pé. Pretendo voltar para o acampamento amanha de manhã. Cansei de brincar de casinha. Se Percy acha que deve me proteger... Ótimo. Que ele mate Cetus, tanto faz pra mim. Se ele desistir dessa idéia estúpida... Ótimo também. Eu mesma me livro desse mostro patético, ou morro tentando – eu não parei para olhá-la enquanto cuspia meus planos secretos – A questão é: desisto de tentar forçar uma coisa a dar certo quando ela simplesmente não deve dar. Percy e eu... foi perfeito e feérico, mas acabou. Já está mais do que na hora de eu lidar verdadeiramente com isso.
Afrodite se calou por uns instantes, o que já foi um alívio. Porém a minha pequena e cautelosa chama de esperança que ela me deixaria em paz foi brutalmente apagada pela deusa.
– A bebida faz um bem imenso a essa sua tendência de reprimir os sentimentos – ela comentou, seguindo inabalável ao meu lado – Imagino o que aconteceria se tivesse uma conversa com Percy agora, nessa sua situação extremamente sincera.
Eu parei e soltei um grito de raiva.
– Argh! Você não me escutou?! Você escuta algo além do som da sua própria voz?! Percy e eu já era, acabou, terminou, finalizou... Fui clara o bastante agora ou precisa de mais sinônimos?!
Seus olhos se incendiaram um pouco. Ela parecia uma criança diabólica a quem foi negado doce. Percy e eu éramos sua diversão, ela não abdicaria tão fácil assim.
– Não vai se livrar de nosso trato. E vou lhe dar algo agora mesmo. Te prometi informação e vou dar uma prévia em troca de sua lição de casa, que, à propósito, é pra amanha. O que me diria se eu falasse que não é a única em perigo, que Percy está em apuros tanto quanto você?
Meu coração se agitou. Não parara para pensar sobre isso. Mas era claro que, sabendo que Percy estava a salvo de sua trapaça nojenta sobre o cheiro de semideus, minha mãe tomaria outras medidas.
– Eu diria que está desesperada. Ou que é uma mentirosa... – conseguia manter a descrença viva em minhas palavras, mas me remoia por dentro de medo – Ou que é uma mentirosa desesperada.
O fogo queimou em seus olhos verdes novamente, talvez ela tivesse aprendido esse truque com seu amante temperamental. Tive que segurar a língua sobre esse comentário, pouco poderia piorar minha situação neste momento. Eu simplesmente chamara Afrodite de desesperada.
Um vento antinatural surgiu na rua, levantando papéis e poeira. A deusa estreitou os olhos para mim e seu cabelo voou para trás, criando uma expressão de poder assustadora.
– Nunca fale assim comigo. Vou ignorar dessa vez pois está claramente fora de si, estou de ótimo humor e além disso você transformada em pó parece um fim terrível para essa história.
Quase perguntei se Ares havia lhe dado um trato para estar de tão bom humor assim, entretanto não achei que ela seria indulgente uma segunda vez em uma noite.
– Agora, — continuou inabalável, enquanto o vento voltava a ser a brisa leve e fria – seu caminho é pra lá – ela apontou o lado que viemos. Confesso que só então percebi que estávamos paradas no meio da faixa de pedestres.
Feito uma criança fazendo birra, cruzei os braços e lhe dei as costas seguindo para onde mandara. Foi irritante ter que acatar uma ordem dela. A palavra vadia dançou em minha mente louca para ser verbalizada, mas a contive só em meus pensamentos.
Vadia, vadia, vadia, vadia, vadia...
– E para provar que não sou uma mentirosa desesperada: as informações.
Novamente a pinga quase me fez dizer coisas que não devia. Fiquei tentada falar que dispensava as informações somente para irritá-la. No entanto eu não podia me dar ao luxo. Percy era muito mais importante que meu orgulho (demorei, mas percebi).
– É filha de Atena, então acho que deve entender de química. Imagine duas soluções com concentrações iguais de água e sal. O que acontece com a concentração se misturá-las?
– A concentração se manterá, só aumentará o volume – respondi mesmo que não entendesse onde ela queria chegar com aquelas analogias (que me pareciam inteligentes demais para Afrodite).
– Ótimo. Imagine que essa água com sal seja seu cheiro de semideusa. Sendo praticamente iguais, mesmo que esteja junto com mais semideuses não vai aumentar o cheiro, só a quantidade.
Pode soar um pouco ingênuo, mais nunca achei que Afrodite ensinaria esse tipo de química.
– Agora imagine uma mesma quantidade de água, mas com o dobro de sal.
Eu entendi o que ela queria.
– Cheiro de semideus duas vezes mais forte, isso chama mais atenção de monstros que vários e vários semideuses juntos. O que quer dizer que...
– Percy está em perigo – terminei a frase.
Afrodite sorriu e uniu as pontas dos dedos das duas mãos de uma forma conspirativa. Eu cigarro apagado havia sumido.
– Entretanto... o que se faz para diminuir a concentração?
– É só por mais água.
Ela olhou sugestivamente para mim.
– Então se quiser diminuir o cheiro de Percy...
– Deve colocá-lo com alguém sem cheiro – terminei novamente sua frase.
Era isso. Percy estava tão atado a mim quanto eu a ele. Se por um lado Rachel previra que só ele poderia matar Cetus (e também era o único capaz de me impedir de ser voluntária), eu era a única que poderia mantê-lo seguro.
Um humano comum teria de ser tão asqueroso quanto Percy costumava falar ser Gabe Cheiroso. Mas uma semideusa cujo cheiro havia sido tirado... Meu cheiro era negativo, o suficiente para normalizar o de Percy.
Inconscientemente (ou com um dedinho de Afrodite), tudo que Poseidon e Atena conseguiram com essa rivalidade estúpida foi amarrar Percy e eu mais forte do que antes.
– Só por curiosidade, qual é seu grau de participação nessas brilhantes idéias dos dois deuses? – perguntei um tanto ressentida.
Afrodite riu abertamente e se desfez em uma porção de glitter, que se agitou levemente na brisa antes de cair na calçada.
Perdi a vivacidade nos passos.
Eu simplesmente não podia ir embora. Não sem deixar Percy para trás em perigo.
Comigo perto da costa, Cetus se agitaria mais do que este ano todo. Percy teria que tomar alguma providencia imediata, o que significava ele deixando a cidade... deixando a segurança.
Não importava o quanto eu estivesse queimando por dentro, eu não podia fazer isso.
Antes que pudesse pensar mais, fui brutalmente interrompida.
Sem qualquer aviso prévio, som de alerta ou preparação, senti uma maciez úmida contra minha boca e nariz. Tentei lutar, mas um abraço rígido entornou minha cintura imobilizando meus braços. Cravei minhas unhas no que imaginava ser o braço de alguém.
O cheiro de clorofórmio invadiu minhas vias respiratórias através o pano sufocante. Meus sentidos se entorpeceram e meu corpo cedeu um pouco.
O surto de adrenalina, entretanto, forçou minha mente a uma compreensão rápida. Clorofórmio: eu desmaiaria em segundos. O pânico somente pioraria a situação, parei de lutar então. Prendi a respiração e fechei os olhos ardentes. Deixei o corpo ceder, que foi logo amparado por aqueles braços.
O descuido de meu atacante foi minha salvação. Ao me sentir mole, o pano foi retirado de meu rosto, aliviando imediatamente o desconforto. Me mantive no falso desmaio, esperando o momento para revidar.
O abraço cedeu, libertando meus braços. Quem quer que fosse me segurou por trás, abraçando minha cintura com ambos os braços. Não era minha melhor oportunidade, mas podia ser a única.
Fechei uma das mãos em um punho e bati com toda minha força nas costas de sua mão pousada em minha barriga. O golpe foi o suficiente para ele abri-la. Agarrei seu dedo médio e o forcei para fora, escapando de seus braços num giro.
Eu senti o estalo de seu dedo se quebrando com a força que aplicava. De frente para ele, ainda segurando sua mão, chutei a virilha do homem.
Quando ergui os olhos para seu rosto notei com surpresa que era o simpático ruivo do bingo. Mais ou menos.
Seus olhos estavam brancos e emitiam uma luz no mesmo tom verde doentio que a fumaça do antigo oráculo. Ele era humano sim, mas fora enfeitiçado.
As palavras de Thalia invadiram minha mente, “sem monstros aqui... Poseidon pode apelar para métodos menos, hã, ortodoxos”.
Eu não fazia idéia de os deuses podiam fazer coisa assim, mas como quer que essa possessão funcionasse, de uma coisa eu tinha certeza: era poderosa. O pobre homem não demonstrava qualquer reação de dor ao dedo quebrado e o chute nas partes íntimas. Assim que soltei sua mão, ele avançou contra mim novamente, tentando me agarrar. E conseguiu
Empurrou-me contra a parede, arrancando o ar de meus pulmões com o impacto. Sua mão agarrou o decote de minha blusa e puxou com força, rasgando-a de cima a baixo. Ele espalmou minha barriga.
Medusa. A lembrança apareceu de repente. Quando se tem doze anos é mais fácil acreditar que ela foi namorada de Poseidon, mas aos dezessete Quíron desmente essas amenizações da história. Medusa nunca foi namorada do Deus dos Mares, ela foi estuprada no chão de um templo de minha mãe. Se ele fez isso com ela e esse homem está sobre seu comando...
Puxei minha perna para o peito e o chutei com força na barriga. O golpe foi forte e o jogou para trás, mas logo ele voltou inabalável a tentar me agarrar.
Seus movimentos eram um pouco mais lentos que o normal e ele não podia ser machucado, então fiz a única coisa sensata a se fazer: corri.
– Annabeth! – ouvi alguém gritando, mas com o sangue pulsando em meus ouvidos e o pânico correndo a níveis assustadores em minhas veias, não pude ouvir quem era. Saberia ele o meu nome?
Forcei minhas pernas ao máximo, ignorando o quanto as sapatilhas machucavam meus pés. Minha respiração estava a mil, minha mente girava e eu não via mais nada a minha frente.
Atravessei ruas sem sequer olhar, sem tempo para isso. Eu podia ouvir os passos fortes e rápidos atrás de mim. Ele gritava meu nome, mas eu ainda não conseguia reconhecer a voz em meio à agitação.
O boné de invisibilidade estava dentro de minha blusa, mas eu não conseguiria pegar correndo e não tinha coragem de parar para isso. Eu não sabia mais quanto tempo agüentaria correr, meus pulmões queimavam tanto quanto as pernas latejavam.
Talvez tivesse corrido três quarteirões quando notei o que Afrodite fizera. Eu estava no caminho errado. O homem não estava enfeitiçado quando meu deu a informação. Qualquer que fosse o motivo psicótico que a fez mentir, ela queria que eu me encrencasse. Talvez minha morte fosse uma reviravolta aceitável afinal.
Eu estava desarmada (pelo menos contra um humano, considerando que o bronze celestial de minha bodice dagger somente o atravessaria) e não correria por mais muito tempo, não conseguia bolar plano algum com a pinga e o clorofórmio conturbando minha mente e não havia destino final para mim. Por mais tempo que eu corresse, não chegaria ao prédio. Minha melhor chance era o boné, mas eu não sabia se conseguiria pegá-lo a tempo de evitar outro ataque caso parasse de correr.
Meus pensamentos se mostraram inúteis quando fui finalmente vencida. Meu braço foi agarrado e ele girou meu corpo me empurrando contra a parede. Fechei os olhos com força esperando o que quer que fosse vir.
Podia sentir seu corpo contra o meu, embora me parecesse diferente: mais rígido do que sua forma gordinha. Ainda assim, me recusei a abrir os olhos, aterrorizada demais para encarar aquilo. Fiquei imóvel, arfando.
Não entendi a demora de sua reação, era como se ele estivesse retomando o fôlego, mas antes ele não havia demonstrado fraqueza humana.
– Que diabos você estava pensando?! – ele disse finalmente, bravo e um pouco arfante.
Meus olhos se abriram quase por vontade própria, para vê-lo.
– Percy?
– Você ficou louca, Annabeth?! Tem idéia do que poderia... – seu tom de raiva foi interrompido quando pulei sobre ele, abraçando seu pescoço com força.
O alívio e felicidade me sufocaram enquanto o segurava com o máximo de força que podia. Seu cheiro de mar transmitia uma segurança inimaginável.
Esquecendo-se momentaneamente da bronca, ele me abraçou de volta com força. Seu alívio parecia tão grande quanto o meu.
Após vários minutos, menos do que eu gostaria, ele se afastou um pouco. Segurou meu rosto e me olhou nos olhos tão profundamente que fiquei zonza.
– Annabeth, você tem alguma idéia do quanto fiquei preocupado? – o tom acusatório se fora.
– Desculpe – sussurrei –, mas eu não podia mais ficar lá.
Ele entendeu o que eu queria dizer, é claro. E não insistiu no assunto.
– Vamos – ele chamou.
Passou o braço por meu ombro e começamos a voltar andando. Puxei meu casaco sobre o peito descoberto pela blusa rasgada e me mantive aninhada ao seu lado. Ele não fez qualquer objeção sobre isso.
O caminho foi rápido, paramos somente ao passar pelo corpo desmaiado do ruivo na calçada.
– Como fez isso? – perguntei num fio de voz ao lembrar-me de seu ataque.
– Não sei. Foi só eu chegar perto que ele desmaiou – disse Percy sem dar muita atenção. Ele claramente não sabia da participação de seu pai nisso – Você provavelmente o nocauteou.
Eu não quis dizer naquele momento o que realmente aconteceu.
– Ele vai ter uma manhã difícil – comentei aleatoriamente após alguns passos à frente.
– Gostaria de ter sido eu a desmaiá-lo – Percy disse e pude senti-lo mais rígido.
Ele me olhou de cima, provavelmente analisando os estragos. Felizmente a blusa era o único realmente relevante.
– Tá tudo bem – menti.
– Não, não está. – discordou furioso – Você está tremendo e só de pensar que tipo de coisa nojenta ele queria com você... – ele ficou rígido de novo, como se quisesse se segurar para não voltar e chutar o corpo inerte do homem.
Não tinha percebido que estava tremendo.
Fechei o casaco melhor sobre o peito, aquela blusa rasgada era uma imensa denuncia do tipo de intenção nefasta que queria o homem. Bom, não exatamente o homem. O que Percy pensaria se soubesse que quem acabara de tentar me estuprar fora, na verdade, seu pai agindo através de um humano?
Estremeci somente com o pensamento, o que fez Percy imediatamente me abraçar com mais força.
– O que está fazendo aqui? – perguntei realmente curiosa. Ele não devia estar no quarto de Zia?
– Desci logo que você saiu e Thalia me disse que tinha ido embora.
– E você veio atrás de mim – completei me sentindo mal. Eu precisava dar tanto trabalho? – Não devia ter deixado Zia.
Ele pareceu um pouco nervoso com a menção de seu nome.
– Annabeth, sobre Zia... – seu tom era explicativo. Eu não acho que agüentaria ouvir esse tipo de explicações.
– Sinceramente, Percy, eu não quero saber – o cortei antes que ele pudesse terminar.
– Não é o que você está pensando... – ele tentou novamente.
– Nem eu sei o que eu estou pensando! – e Boazinha mais uma vez fez sua mágica maldita, me fazendo vomitar tudo o que pensava – Eu amo você, sabe disso, e quero te ver o mais feliz possível, mas, por mais egoísta que isso soe, não quero saber nada sobre sua vida amorosa. É muito mais do que posso engolir.
Eu não ergui os olhos para ele imediatamente, mas ao sentir seu olhar queimando sobre mim, fui incapaz de me conter.
Ele sorria. O sorriso desafiador e sutil que sempre ostentava quando me escondia algo realmente bom. Percy ficara satisfeito com meu discursinho humilhante e declaratório? Vai com fé, chuta cachorro morto.
O que quer que estivesse pensando, ele guardou para si mesmo.
– Não devia ter saído daquele jeito – disse, trocando de assunto – Se precisava tanto ir embora podia pedir para Thalia te acompanhar.
– Eu precisava pensar. Estava tudo bem até Afrodite se meter.
– Vi de longe vocês conversando no meio da rua – comentou sem qualquer malicia na voz.
Eu corei absurdamente. Ele me vira no meio da rua, conversando com a Deusa do Amor. E “coincidentemente” essa deusa no momento parecia bastante com a irmã mais velha que ele não tinha.
– Ela me disse o caminho errado – continuei ignorando minha vergonha – Provavelmente sabia que você estava atrás de mim e me salvaria. Odeio esses joguinhos dela.
Percy riu.
– Teria sido mais romântico se não tivesse sido você a nocauteá-lo e se não tivesse corrido de mim achando ser o cara.
Como ele podia usar a palavra romântico tão naturalmente?
– Fico feliz em estragar os planos dela – eu disse sem emoção.
Ele riu novamente.
– Ela não é tão má, Annabeth. Foi quem indicou a Quíron que me colocasse nessa cidade por causa do probleminha que sua mãe me deu.
Ela ainda conseguira conquistar Percy. Vadia.
– Ela é má sim – contrariei com ódio nas palavras – Também foi ela quem disse a minha mãe para que fizesse isso com você. Provavelmente foi quem convenceu seu pai a libertar Cetus contra mim.
Ele me olhou como se tivesse ficado louca.
– Da onde tirou isso? – perguntou confuso.
– Raciocínio simples. Você é o único que pode matar Cetus e eu sou a única que pode diminuir seu cheiro fora desta cidade. Foi uma forma dela de nos manter forçadamente juntos. Nossos pais provavelmente perceberam, mas como estávamos brigados isso não era um problema – expliquei feliz por conseguir manter a coerência após três doses de pinga.
Percy pareceu refletir sobre o que eu disse.
– Cassete! Isso faz muito sentido – praguejou parecendo cheio de raiva.
Ri de seu pequeno surto.
Eu estava ficando zonza ultimamente com esses seus picos de humor. Havia horas que ele era a pessoa mais fria e estúpida do mundo, principalmente comigo. Em outros momentos voltava a sua forma meiga e doce. Não posso negar que em qualquer de seus momentos ele era absolutamente perfeito e sexy para mim, mas eu já me sentia frustrada de não saber o que esperar. Conhecer Percy Jackson tem sido uma das únicas coisas que podia me gabar.
Ainda assim, ri de sua irritação. Foi algo pequeno, mas foi um lembrete mascarado de que ele não mudara tanto assim. Continuava com um pouco sua lerdeza característica, embora bem reduzida. Não deixava de ser um alívio.
Novamente senti seus olhos sobre mim. Estávamos num cruzamento, mas nenhum dos dois olhava a rua (o que era bem desnecessário considerando seu estado completamente vazio). Olhei para ele parando de rir. Tão rápido quanto viera, a raiva parecia ter sumido e ele mantinha um sorriso quase imperceptível.
– O que foi? – perguntei levando a mão a bochecha – Tem algo no meu rosto?
Seu sorriso cresceu um pouco.
– Não... – sua voz estava serena e gentil – É só que faz muito tempo que não te vejo rir.
Minhas bochechas pegaram fogo e foram se contraindo em um sorriso que não pude conter. Olhei para meus pés.
Ninguém mais falou nada.
Chegamos ao prédio, tocamos o interfone e entramos sem falar nada. Percy tirou o braço de meus ombros para andar até o balcão do porteiro pegar a chave. Eu me afastei do olhar daquele homem, indo para a escada e ficando de costas para ele.
Só subi ao sentir a mão de Percy em minhas costas, me puxando com ele escada acima.
Dentro do apartamento o clima estava denso. Cada um foi para seu canto.
Percy entrou primeiro no banheiro, logo após pegar o pijama na cômoda. Ele saiu menos de dois minutos depois, vestindo uma calça verde escura larga e nenhuma blusa. Desviei os olhos dele assim que percebi que estava sem camiseta, dava muito trabalho fazer isso depois que já tivesse fixado em seu peito e abdome.
Minha mala ainda estava no banheiro, e ao passar por ele para entrar, evitei seus olhos.
Tirei as roupas mecanicamente e lavei o rosto para arrancar o rímel (que felizmente não era a prova d’água e saiu facilmente). Ao vasculhar a mala atrás de meu pijama tive a infeliz lembrança de que foram as filhas de Afrodite a fazê-la. Ele não estava lá.
Em seu lugar havia três peças de cetim: um pijama de frio rosa-bebê com renda branca nos pulsos; um de calor azul marinho de com minúsculas bolinhas brancas, um pouco curto (não exageradamente, graça aos deuses!) e também com renda branca nos detalhes; e o ultimo era um baby-doll cinza-chumbo constrangedor até de se ver dobrado.
Peguei o mais razoável, irritada em ver como Afrodite podia me incomodar até indiretamente.
Vesti a peça de bolinhas e ajustei as alças finas. Nem me olhei no espelho muito atentamente, sem paciência para ver o estrago.
– Eu odeio as filhas de Afrodite – murmurei ao sair do banheiro. Percy, que estava de costas, se virou para mim.
Seus olhos varreram meu corpo.
– Eu gostei – disse cara-de-pau.
– Idiota.
Ele riu e pegou um travesseiro na cama, e foi indo em direção a porta.
Claro que não dormiríamos juntos, mas não precisava ser ele a ficar no sofá.
– Dorme aqui – eu disse – Vai ficar com dor nas costas...
– Eu fico com o sofá – ele disse simplesmente.
– Mas...
– Annabeth, você me conhece – ele interrompeu – acha mesmo que vou te deixar no sofá e ficar com a cama?
De jeito nenhum.
– Então... boa noite – respondi e me senti estúpida quando aquilo soou como pergunta.
– Boa noite.
Eu juro que tentei dormir, mas ao ficar sozinha novamente minha mente foi preenchida de pensamentos e mais pensamentos reprimidos. Pelos deuses, cheguei perto de ser estuprada há minutos atrás. Cheguei perto de ser estuprada pelo pai do cara que amo. Ugh!
E o pior nem foi isso. Mas uma idéia que vinha incomodando em minha mente desde que falei com Zia, de repente ganhou força. Zia parecia boa demais para trair Percy, com Luke então? E Thalia havia desconfiado que eu transara com o filho de Hermes...
No dia em que Percy me contou sobre Zia supostamente ter ido pra cama com Luke, me pareceu muito que não era dela que ele estava falando. Ele ficou irritado quando perguntei quem havia transado com o loiro...
Pelos deuses!
Eu era ela.
Por algum motivo, Percy achava que eu havia feito aquilo. Thalia também.
E o pior era que ele havia batido em Luke por mim! Não pela namorada. Ele a deixou hoje para correr mais uma vez atrás de mim. Me tratou da maneira mais fofa após ver que eu não estava especialmente bem com o ataque...
Ele ainda me amava, disso eu sabia. Mas só naquele momento tive certeza do que Thalia, Afrodite e Zia haviam me dito: Percy ainda era apaixonado por mim.
Isso explicava completamente seus picos de humor. Ao mesmo tempo em que gostava de mim e se preocupava, estava ressentido e de coração partido e não sabia lidar com todas essas emoções conflitantes.
Joguei a coberta de lado e pulei da cama. Eu precisava explicar essa história. Precisava por todos os pingos nos Is. E mais do que tudo, eu precisava de Percy.
Andei até a sala, esperando que ele ainda não tivesse dormido.
– Não, Annabeth, não! – ouvi sua voz. Percebi imediatamente que ele não só já dormira, como estava tendo um pesadelo. Comigo.
Corri até ele e me sentei na beirada do sofá. Ele estava agitado, se movendo enquanto dormia com os olhos apertados e a testa franzida.
– Percy! Percy, acorda! – coloquei as mãos em seu rosto e o chamei mais.
Ele parou de se mover e segundos depois abriu os olhos confuso, respirando rapidamente.
– Está tudo bem? – perguntei apreensiva, minha mão ainda pousada em sua bochecha.
A confusão foi deixando seus olhos e o alívio o tomou.
Em um movimento mais rápido do que eu poderia prever, ele envolveu minha cintura e me puxou para si ao mesmo tempo em que girava o corpo. Acabei deitada junto a ele no sofá, um de frente para o outro, com seus braços muito apertados a minha volta.
Puxou meu rosto e me beijou muito suavemente nos lábios.
– Agora está – ele respondeu e beijou meu cabelo, como que para se certificar que eu realmente estava ali.
Após o susto, cedi e abracei-o também, me aconchegando a seu peito. Dormi mais rápido do que eu julgava possível.
Notas finais
Quanto mais comentários, maior minha disposição para escrever um novo antes da viagem ainda.
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