Marcas Da Morte
36 A Toca do Lobo, Parte II - O Covil do Negro
Notas iniciais
Na verdade, confesso que esse era apenas o começo de um capítulo maior. Mas, graças ao meu ilustre amigo, decidi reparti-lo em dois, e enviar o próximo para vocês assim que for possível. Ou... assim que eu o termina-lo.
Até lá...
Boa Leitura
A situação estava pior do que eles imaginavam.
Felipe não parava de encarar Zack... com uma fúria jamais vista em seus olhos claros antes. Cerrava os punhos no lugar onde estava sendo obrigado a ficar... junto com os outros. Não podia acreditar... não podia nem suportar. Se não fosse por sua moralidade e seu cérebro, aquele maldito já teria morrido faz tempo.
–Que nervosinho... quer um chazinho? Temos de camomila...
–Eu não quero seu chá...
–Está mesmo nervosinho... vou deixa-lo em paz, por enquanto.
Heloísa encarou Felipe por um segundo. Nunca o vira tão irado assim... mas ele tinha seus motivos, assim como ela. Não estava só sendo derrotada... sentia que sua alma, sua honra, seu sangue... tudo estava humilhado, jogado na lama. Ela estava furiosa... mas estava mais ainda com medo. Medo do que poderia acontecer de pior para eles...
Isso é se, claro, já não fosse pior do que o que já tinha acontecido.
Os cinco haviam sido levados até o interior da fortaleza... escoltados por Zack e pela tal de Aprendiz. O lugar, pelo interior, não era tão lustroso quanto o exterior... pelo menos em algumas partes. Azulejos de mármore negro revestiam os quatro lados dos corredores... e estavam polidos de tal forma que nem pareciam estar em uma fortaleza... mas logo a lembrança de onde a fortaleza está fazia as coisas fazerem mais sentido. Tochas estavam presas às paredes negras por belos arranjos de ferro... e emitiam uma sinistra luz sob os corredores e cômodos escuros da sala. Apesar de terem altas janelas de mármore branco... a escuridão era algo presente por aquela fria fortaleza.
O grupo caminharia lentamente e com tensão... se não fossem os empurrões e exclamações , por parte dos dois. Zack ia na frente... com seu sorriso malicioso, e ocasionais risadas para os prisioneiros... o que não estava ajudando em nada. Louis estava furioso com o cara... mas estava mais com medo da aparência alterada dele. Os cabelos naquele tom... misturado aos olhos... só faziam Louis querer mais e mais sair dali. Alguém com aparência de Demônio só deve fazer coisas do Demônio... pensa Louis. A tensão estava superando mais e mais qualquer outro sentimento deles... e dividia o espaço com o medo.
Heloísa estava mais calma... mais sua mente estava fervilhante. O que ele iria fazer com eles? Para onde os estava levando? Ele ia mata-los? Não... se era essa sua intenção, teria feito aquilo lá mesmo... ou será que ele não queria corpos atrapalhando o belo jardim? Mas de uma coisa ela sabia... eles não iriam sair bem daquela.
Kevin parecia ser o único mais neutro ali... estava quieto... e fez o percurso todo com a cabeça baixa... e o rosto oculto pelas sombras que o capuz produzia. Luca e Heloísa o olhavam preocupado... Kevin geralmente ficaria silencioso nessas ocasiões... mas nunca o viram tanto. Era como se a alma dele estivesse perturbada... como se o espírito guerreiro dele tivesse simplesmente evaporado com aquele golpe... aquele único golpe... que destruíra todos os planos que arrumaram e, talvez... possa destruir a vida deles. Mas não sabiam se Kevin estava se lamentando por dentro... ou tentando encarar tudo de frente... ou, simplesmente... nada? Um silêncio mortal de corpo e alma?
Isso nem ninguém ali e nem o tempo poderia responder.
Não podiam analisar com certeza onde estavam indo... a tensão havia domado a mente deles. Preocupações, ideias, pensamentos, possíveis rotas de fuga, orações... tudo o que eles não queriam que acontecesse na mente deles estava acontecendo. O jogo já era... e tinham perdido até o controle das próprias emoções. O resto... estava nas perigosas mãos de Zack.
Logo, eles entraram em um espaço bem maior. Parecia uma espécie de masmorra... com um alto teto de rocha pura e úmida. As paredes eram da mesma forma... mas continham altos pilares de mármore cinza, sustentando o teto. Também continham buracos longos... por onde entravam feixes de luz, que pouco iluminavam o local. O piso parecia ser de uma terra negra, misturada com pedras. Haviam entrado por uma enorme porta dupla de madeira... mais ou menos no mesmo estilo que a que viram do lado de fora da fortaleza, só que em proporções menores. Haviam decido uma escada antes? Estavam no mesmo lugar? Não sabiam... mas, pelo simples fato do lugar estar onde está por magia... deveriam ter truques mágicos pela fortaleza aérea também. Certeza disso? Não... não tinham. Queriam poder ter explorado mais o lugar... porém o destino pregara uma peça neles.
Logo, a Aprendiz os agrupa em um canto da masmorra... com Zack mais ao longe, com um sorriso malicioso tão constante que fazia Louis ter ainda mais medo dele. Mesmo que a Aprendiz quase o tenha empurrado para ficar mais espremido ao grupo... ele continuava a encarar Zack, com um olhar totalmente domado pelo medo.
Já Heloísa prestava atenção em outra coisa... aquela tal de Aprendiz era um enigma completo. Se antes o rosto dela já estava coberto pela sombra do ambiente e do capuz... agora estava pior ainda. Nem um mísero detalhe... que não fosse altura e massa corporal, estavam aparentes. Será que ela a conhecia? Ela da escola? Todos os Negros são agressivos... então isso não permitia à Heloísa identificar a pessoa por esse detalhe. Personalidade era um mistério... e ela não havia dado uma palavra só em todo o percurso... o único que falara era Zack. Voz... nada. Kevin e Felipe tinham comentado apenas um nome para ela... mas... será que era mesmo?
Antes que Heloísa pudesse tirar mais possíveis conclusões... a tal Aprendiz dá alguns passos para trás, enquanto Zack se aproximava lentamente... aquele sorriso macabro continuava a deixar Heloísa arrepiada.
–Ora Ora... olha só o que temos aqui... Cinco dálmatas encardidos caídos da mudança...
Ele começa a bater palmas de leve, ainda encarando os cinco.
–Sabem o quanto eu sinto prazer em ver os mesmos que nos derrotaram naquele deserto... agora aqui, na palma da minha mão?
Nenhuma resposta... apenas mal olhados e até rosnados iam para Zack. Mas ele pouco se importava... logo parou de bater palmas, preguiçosamente.
–Vou me divertir muito com vocês hoje...
–Não... não vai nos matar?
Zack encarou Louis... o que o fez se encolher ainda mais na posição em que estava.
–Haha! Não... matar assim, tão rápido, é tão sem graça... o gostoso é torturar primeiro.
Isso fez a maioria ali engolir em seco... aquilo não estava indo nada bem...
–E por isso que eu os trouxe aqui... que tal uma lutinha de vida ou morte, para distrair?
Os quatro, tirando Kevin, se entreolharam, nervosos. Não bastava estarem em uma enrascada... mas iriam precisar morrer, deste modo? Não... não estavam tão preparados assim para morrer. Está certo que se arriscam na vida... mas sabem se desviar do perigo facilmente. Mas Zack não... já haviam visto o poder dele ao vivo... e Kevin só escapara dele por pura sorte.
Falando nele... era o único que não parecia sentir absolutamente nada lá. Continuava cabisbaixo... sem dar uma única palavra, ou olhar para nenhum ponto. Era... era como se a alma dele estivesse abalada... ou era isso, ou algo tenso estava se formando na cabeça dele. Quem sabe até... um plano? Ou será que era só puro sentimentalismo?
Porém... parecia que Zack estava pouco se lixando para isso.
–Ah... Lacaia... acho que terá a honra de matar seu primeiro Assassino Branco hoje...
Talvez só Heloísa tinha percebido... mas era impressão dela, ou a tal Aprendiz teve um movimento em algum lugar da cabeça e do pescoço... como se estivesse engolindo em seco? Será que era... medo? Ela nunca tinha matado antes, será?
Foi aí que Zack começa a apontar para os cinco... um de cada vez... como se estivesse escolhendo sua próxima vítima.
Até que o dedo para... apontando para uma única criatura viva na masmorra.
–Você... o quietinho.
Todos os olhares seguiram para Kevin. Não... de todos que poderiam pegar ali, teriam que pegar justo o Kevin? Todos ali teriam se oferecido no lugar... não podia ser Kevin. Nenhum deles sabia... mas, de alguma forma, não queriam que ele fosse.
Zack continuava apontando para Kevin... com o mesmo sorrisinho no rosto. Era igual aquela vez, apenas uma semana antes... Kevin tinha que ir lá. Sabia disso... sabia muito bem disso.
Estava começando a andar... quando é barrado belo braço de Heloísa.
–Você está doido? Está mesmo pensando em ir lá?
–Eu não estou pensando eu ir... eu vou – o tom da conversa era tão baixo que só os 5 a escutavam.
–Sabe que não precisa fazer isso...
–Nós vamos morrer, de qualquer jeito... pelo menos vou fazer isso entretendo alguém.
–Kevin! Nem parece você!
Ele apenas levanta o olhar levemente para ela... se bem que a falta de luminosidade a impedia de ver muita coisa. A voz estava seca e fria... geralmente é o tom que usavam quando praticavam seus atos impiedosos... e sem sentimentos.
–Ah... você tem um plano? – continuou ela.
–Não... ainda não consegui bolar um decente. Alguma idéia?
–Vamos ver o que vai acontecer... – Luca aparece, ao lado de Kevin e Heloísa – talvez surja uma brecha...
–ARGH! – grita Zack – Eu odeio esses cochichos! Você!
O dedo de Zack aponta de Kevin para Luca. E foi a vez dele de arregalar de leve os olhos.
–E-eu...?
–Não... minha mãe. Claro que é você... na verdade... vocês dois – ele aponta para Kevin e Luca – venham aqui na frente... agora.
Luca hesitou. Não estava decidido a obedecer as ordens daquele sádico... por isso ficou apenas o encarando por um tempo, pela sombra do capuz. Luca não aparentava... mas estava com medo. Não queria ir... tinha medo de morrer. Sabia se desviar da morte... mas sabia que essa era inevitável.
Ficou assim por uns segundos... quando Kevin começou a caminhar, lentamente, até Zack. Fazia isso cabisbaixo... como se, apesar de todas as coisas que estava pensando no momento... continuava caminhando. Parecia que pensava “Pra que resistir? Morrerei mesmo...”. Ou... talvez... esteja formulando uma saída. Mas, do nosso ponto de vista, e até do próprio Kevin, isso era uma coisa confusa e obscura para se dizer com 100% de certeza o que é e o que não é.
Sem mais escolhas, e não querendo deixar o companheiro dinamarquês a só... Luca seguiu os passos de Kevin. Lentos e pesados... parecia que aqueles momentos estavam demorado vários minutos para acontecer... e não poucos segundos. Os companheiros abriam passagem para os dois... cabisbaixos, inexpressivo... pelo menos por fora. O interior estava explosivo... ansioso... tenso. Aquilo tem inúmeras possibilidades de meio e fim... e estavam extremamente atentos a tudo isso.
Mas, para Kevin e Luca, a situação era diferente... e bem pior.
–Bom... – dizia Zack, enquanto os dois se posicionavam em sua frente – Muito Bom... agora, cuidemos para que não aja “imprevistos”, não?
Nem tiveram tanto tempo assim para pensar no significado daquelas palavras... com um único movimento com a mão, algo acontece.
De repente e do nada, uma parede de fogo azul explode do chão negro... e sobre até o teto. O susto dos Assassinos foi grande... a ponto de se afastarem, ofegantes... da recém-formada parede de chamas azuis que, naquele exato momento, separavam eles dos dois amigos.
–Espero que curtam o “camarote” especial – disse Zack – é confortável... é só não cruzarem as chamas. Simples, não?
Eles o encararam, furiosos. A situação estava ficando cada vez pior... Além de verem os amigos correrem um perigo mortal... ainda não iriam poder fazer absolutamente nada. Pela primeira vez em muito tempo... um sentimento começou a se fortalecer novamente, e tomar lugar junto da tensão e do medo.
Era a raiva, o ódio. O instinto assassino gritando dentro deles.
–Agora... ninguém poderá nos interromper – disse Zack, com um sorriso no rosto – a casa é nossa.
Eis que ficam, no campo principal, quatro seres distintos. De um lado... haviam dois encapuzados de branco... com suas cabeças fervilhantes encobertas pelo capuz, e a sombra que este gerava... do outro, um sádico e cruel garoto... acompanhado de uma misteriosa Aprendiz. Eles mal podiam se ver direito... mas os olhares dos quatro iam de um lado para o outro... apenas pensando no que fazer, e como fazer. Planos? Idéias? Orações? Precauções? Acredite se quiser... havia um pouco de tudo e muito mais nos neurônios deles... e isso estaria prestes a entrar em ebulição.
–Você... – Zack aponta para Luca – você lutará comigo.
Luca pareceu estar engolindo em seco... e não havia motivos para não fazer. Já havia visto a luta entre Kevin e Zack ao vivo... e sabia que o fato de Kevin ainda estar vivo do lado dele era pura sorte... isso sem contar que Kevin sabia usar a magia melhor que ele, até. Não... não estava com um bom pressentimento disso. Mas... algo crescia dentro dele... finalmente a possibilidade de lutar e mostrar para aquele Negro seu verdadeiro potencial... e isso estava crescendo mais e mais nele.
–E você... – Zack aponta para Kevin... só que, dessa vez, com um sorriso sádico acompanhando – terá a honra de ser o primeiro Branco morto da minha querida Aprendiz...
E, pela primeira vez, os dois se olharam fixamente. Ou tentaram... a falta de luminosidade os impedia de ver qualquer coisa um do outro. Kevin se esforça ao máximo... mas nada. Não parecia conhecer a garota por trás daquela escuridão... não fazia a mínima idéia, não conseguia reconhecer nem a altura... e nenhum sentimento ou sensação o estava ocupando. Nunca havia sentido uma neutralidade tão alta quando via a garota que, possivelmente, poderia ser essa Aprendiz... será que os Negros sabiam ocultar isso? Ou se trataria de alguém novo?
Kevin disso não tinha certeza... mas tinha certeza de outra coisa. No meio de tanta tensão... medo... aflição... algo estava tomando conta, e ficando acima de todas as outras. Agora... queria acabar com aquilo. Se aquele era o único jeito de poder voltar para sua família, para sua amada e seus amigos... iria destruir aqueles Negros. Iria batalhar com aquela Negra até a morte , se preciso... só para fazê-los pagarem por tudo o que já fizeram à Kevin e a seu povo.
Ele agora a olhava com um olhar diferente... cerrando os punhos, os dentes a mostra. A garota nem via nada disso... apenas um ou outro traço dos dentes. Mas, de alguma forma, ela conseguia sentir uma raiva e um ódio tão crescentes... que chegavam a dar arrepios em sua coluna. Só Zack havia tido esse... esse instinto assassino antes... e só ele havia tido nessa intensidade. Mas parecia que o novo inimigo a sua frente tinha cartas na manga... Ela estava confiante, mas uma pequena preocupação começa a ficar cada vez maior.
–Aprendiz... – diz Zack... já ficando em posição de luta, encarando Luca – ele é todinho seu...
Por um longo e tenso segundo... nada aconteceu. Nenhum movimento surgia... nem do lado Branco, nem do lado Negro. Apenas ficavam se olhando... ou tentando se olhar... em uma linha única, tensa e fria de olhar. Luca encarava Zack com uma crescente raiva... mas ainda tenso demais para poder atacar, ou sair da posição de batalha. Já Zack estava calmo... disposto... e com um sorriso sádico, como se dissesse “Isso vai ser fácil... e muito divertido”.
Mas as coisas pareciam diferentes do outro lado... enquanto a Aprendiz aparentava estar indecisa sobre o que e como fazer... Kevin estava com o sangue fervendo. As pontas do dedo começavam a doer, de tanto cerrar os punhos... o olhar parecia prestes a soltar faíscas. Encima de tantos acontecimentos e sentimentos... um único desejo se sobressaía, e estava quase dominando-o por completo.
Quando isso aconteceu... ele atacou.
Kevin começa a correr, em direção à Aprendiz. A distância era curta... mas cada passo parecia durar mais tempo, tanto para um lado quanto para outro. Os passos eram firmes... fortes... decididos. O olhar firme na vítima... que só reagiu à situação depois da largada. O medo e a desorientação foram tantos que demorou para ela ficar em posição de Defesa. Ela sabia que ele iria vir... mas não quando. Por isso, a surpresa foi imediata.
Ela mal havia feito a defesa... e o ataque veio. No fim da corrida, Kevin salta, com o pé apontado diretamente e firmemente para o rosto da Aprendiz. Ela havia percebido isso no momento de fazer um X com os braços, defendendo seu rosto. Mas não bastou... a voadora de Kevin foi forte e violenta demais. A sola da bota atingiu em cheio os braços da Aprendiz... e a força foi tão imensa que a joga para trás.
Tanto ela quanto Kevin foram arremessados pelo ar. A Aprendiz cai no chão assustada, com medo e dúvida aumentando enquanto capotava pela terra e pelas pedras negras. Kevin capota logo ao lado... mas não tão desengonçadamente quanto sua inimiga. Cada rodopio parecia uma acrobacia, mas sem todos os cálculos que te impediriam de escapar da morte.
E foi isso que ele aproveitou, no meio de uma cambalhota ergueu as mãos se arremessando para cima antes de cair outra vez no chão dessa vez com mais controle. Ao impedir que seu corpo se engajasse no chão pela inércia colocou um das mãos no chão e foi arrasado para trás criando sulcos na terra
Quando terminou... ele estava de joelhos pronto para levantar, e isso tudo durou apenas segundos. Mas fora tempo o suficiente para que a Aprendiz pudesse retomar sua posição, se levantando desajeitadamente, e mente agitada e ainda confusa sobre o que fazer. Porém, nem para se ajeitar Kevin deu tempo para ela... ele estava irado, e queria enfim por um ponto final em toda essa história. Cerrando os dentes, dá um passo firme em direção à inimiga próxima, preparando um soco forte na mão direita. A Aprendiz, desajeitada e um pouco assustada, tenta rapidamente repelir o golpe o mais rápido que pôde, apenas elevando o braço esquerdo na direção do golpe. Quando este veio, a garota empurra seu braço para o lado, o que empurra o braço de Kevin também.
Kevin foi jogado para o lado junto... deixando-o totalmente exposto para ataques. E ele veio... de uma forma fraca e medrosa, por parte da Aprendiz, que dá um fraco soco no rosto encapuzado de Kevin. Mesmo sem poder ver o rosto oculto, o golpe atinge Kevin. Ele, impulsionado tanto pela defesa quanto pelo golpe, acaba caindo direto ao chão.
A queda foi rápida para todos, lenta para Kevin. Ele tinha começado bem... mas estava começando a perder. Caiu no chão se sentindo humilhado, derrotado. Não... não podia perder... não para aquela Negra maldita... não para aqueles Negros malditos. A queda foi longa... mas a permanência no chão foi curta. Aproveitando a queda, Kevin se apoia com os dois braços no chão, e passa uma forte rasteira sob os pés da Aprendiz. Mas... como se fosse algo estranho, ela rapidamente pula para trás, se esquivando por pouco da rasteira nervosa de Kevin.
A coisa estava tensa... mais do que deveria ser. Kevin lentamente se levanta... enquanto a Aprendiz ainda permanecia parada, longe de Kevin. Ela arfava... mas era uma respiração mais tensa, mais nervosa. Parecia que aquele golpe em Kevin havia renovado suas forças... e estava despertando o próprio instinto assassino negro nela... enquanto o de Kevin continuava a aumentar. Ele só estava atacando sem pensar direito... estava se esquecendo do cérebro. Tinha que utilizar mais táticas... se antes sua inimiga não estava com gosto assassino... não era agora que a coisa ia ficar mais fácil.
E tudo pareceu retornar à situação inicial. Os dois ficaram estáticos, em posição de ataque... se encarando com um fogo ardente na alma. Arfavam... o suor escorria pelo rosto, e o calor aumentava, juntamente com a tensão, com o medo, com a fúria. Os nervos e os músculos nunca estiveram tão agitados, com tanto sangue correndo por eles... Tanto de um lado da batalha quanto de outro. A Aprendiz parecia olhar para ele com aquele olhar... o olhar que Kevin estava usando nesse momento. E sua ansiedade com tudo era tão grande que ele nem sabia como conseguiu permanecer parado.
Era arriscado... era perigoso. Mas foi aí que o olhar de Kevin virou para observar o que rolava ao seu redor.
E não era tão motivador.
A luta parecia tensa entre Luca e Zack. Luca estava dando uma sequência de golpes forte e nervosamente... com a fúria sendo aberta para vazar nos punhos e nas pernas. Eram tantos e tão rápidos que Kevin achou incrível ele ainda estar mantendo a velocidade e a força... mas, apesar da incrível dedicação, o efeito parecia nulo. Zack parecia calmo e leve como uma folha na brisa... se desviando e bloqueando todos os golpes com uma facilidade e qualidade tão absurdas que Kevin fica com mais medo ainda dele. Eram rápidos, precisos... e totalmente despreocupastes. Zack parecia nem ter a tensão da batalha... ele parecia estar sentindo um prazer imenso com isso, pois fazia tudo com um pequeno sorriso no rosto.
Do outro lado, mais longe... a parede de fogo continuava intensa e quente, como se tivesse sendo abastecida por um tanque infinito de gás. O azul das chamas, apesar de intenso, não impedia Kevin de visualizar seus amigos. Estavam todos lá, aparentemente bem... e agitados, vibrando. Pareciam totalmente excitados com as batalhas... e aparentavam estar gritando algo. Mas nada Kevin ouvia... provavelmente aquela parede de chamas deveria estar equipada com uma espécie de silenciador... mas não era isso que parecia incomodar os três colegas aprisionados. Estavam vendo os amigos correrem um risco enorme bem na frente deles... e nada podiam fazer. E a raiva que sentiam por isso era presente no jeito que gritavam... no jeito que tentavam agir para ajudar os companheiros. Sabiam que, se alguém, de qualquer forma, se prejudicar... eles se sentiriam culpados. Não... mais que culpados...
Infelizmente, Kevin teve muito pouco tempo para pensar nisso.
Mal teve tempo para se virar e encarar sua inimiga face a face... quando ela lança um ataque. A Aprendiz rapidamente eleva seu braço direito até a altura dos olhos... sombrios e brilhantes olhos, que viam o ataque todo em sua mente, antes mesmo de ocorrer. Ao abrir a palma de sua mão, cristais de gelo se formavam e tomavam tamanho em seus dedos, formando pontas afiadas, longas e letais. Mas Kevin mal teve tempo de reagir ao possível ataque... com um leve movimento das mãos, as lâminas letais de gelo explodem em vapor, e são lançadas em direção a Kevin.
Foram rápidas... mas letais. As lâminas rasgam o ar em uma velocidade colossal. Kevin foi capaz apenas de virar o corpo levemente para a esquerda... colocando seu braço direito na rota das lâminas. E logo estas penetram fundo na carne do braço direito de Kevin.
A dor havia sido sem limites. Kevin cai de joelhos, agarrando onde as três lâminas de gelo penetraram. Os nervos estavam fervendo... e a dor tomava conta de tudo. Kevin queria gritar... queria liberar toda aquela dor, toda aquela raiva. Mas, por motivos que desconhece, se conteve. Tanto que foi capaz apenas de pronunciar um murmuro tão baixo que nem se alguém estivesse do lado dele poderia escutar com precisão.
Não sabia como ou porque... mas não conseguia pronunciar nada corretamente. Se levantou lentamente... agarrando um braço, com o tecido manchado de sangue. A Aprendiz retoma sua posição de ataque... como se estivesse aguardando o resultado de seu ataque, com um invisível sorriso no rosto. Parecia sentir prazer com tudo isso... parecia compreender finalmente o que seu Mestre tanto fazia na presença dela. O medo estava deixando a alma dela... e dando espaço para inúmeras outras coisas. Coisas que ela gostava... que a faziam feliz... ver o sangue, a dor, o sofrimento... não tão intenso, e fazia ela pensar, de certa forma. Mas, de uma maneira ou de outra, estava gostando do que via.
A situação era diferente do outro lado da batalha.
Kevin encarava a Aprendiz pelo capuz... com uma raiva colossal, e que aumentava a cada segundo que passava. A dor ainda era imensa... mas estava ficando cada vez menor... cada vez mais oprimida pela fúria. O olhar era tenso... como se raios pudessem sair deles, e transformar aquela Negra ingrata em pó. Kevin não sabia quem era... e nem queria saber. Só queria que aquela enviada do demônio voltasse para junto dele... que ela sofra tanto quanto ele sofreu...
Que ela morra.
Notas finais
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