Marcas Da Morte
37 A Toca do Lobo, Parte III - A Queda
Notas iniciais
Sei que demoramos, mas não nos restam mais tantos capítulos pela frente, e espero a colaboração de todos aí! E, para presentear-tes, lhes dou um capítulo meio longo hoje.
Recomendo que leiam os trechos finais do capítulo anterior, pois pode os ajudar a se localizarem na linha de acontecimentos.
Por enquanto é só. Boa Leitura.
Com raiva e força extremos, agarra as lâminas de gelo com o punho esquerdo e as arranca bruscamente do braço, uma de cada vez. Isso gera ainda mais dor... acompanhada de uma leva ainda maior de sangue. Apesar de tudo... a dor era a menor preocupação em sua mente. Bufava nervosamente, os olhos encaravam a inimiga com um único propósito... uma única sede. Queria vingança... queria que ela derramasse seu sangue... queria que ela virasse pó. Suas mãos ensanguentadas se cerravam, enquanto ele lentamente se levantava. Nunca havia sentido uma raiva assim tão grande... nem com Jimmy havia sido assim. Mas... dessa vez essa ele TINHA que fazer realidade.
A Aprendiz, apesar de confiante, recua um passo, assustada. Não podia ver nenhuma expressão daquele Branco, não podia dizer ao certo seu estado emocional... mas sabia que nenhuma criatura em sã consciência retiraria as lâminas de forma tão bruta assim...
Mas uma coisa ela mesmo já estava sabendo: Aquele Branco não estava com a consciência sã.
Kevin permanece em pé por poucos segundos, a cabeça baixa... sangue escorrendo pelo braço e pingando da ponta dos dedos. Não dava para saber o que ia vir depois... tanto que a Aprendiz retoma firmemente sua posição, só que dessa vez de defesa. Não sabia quando... mas sabia que algo ia vir...
E veio. Kevin pressiona com força a sola da bota direita no chão, iniciando uma corrida, em direção à Aprendiz. Cada passo era forte... nervoso... decisivo. Conforme sua velocidade aumentava, seu instinto de sangue começa a aumentar, mais ainda do que já estava. A raiva, o ódio e a fúria substituíram a tensão das horas anteriores. E... para piorar a situação para a Aprendiz... Kevin prepara um soco com o punho direito. Porém... algo acontece. Uma pequena faísca saí de seus dedos, e simplesmente incinera todo o sangue, que escorria no punho de Kevin, como se fosse uma gasolina em chamas... uma gasolina mortal, e que produzia intensas chamas.
A Aprendiz não sabia se sangue pegava fogo... mas sabia que tinha que fazer algo.
Quando o Branco estava bem próximo, a Aprendiz ergue seu braço direito, formando uma linha de defesa, enfrente ao seu rosto. No exato instante, um tipo de fogo azul se forma em seu antebraço... e começa a tomar forma, e se condensar em uma espécie de escudo de plasma. O plasma formava uma superfície dura e lisa tão rápido quanto o medo da Aprendiz aumentavam... mas nem essa velocidade, que era alta, foi capaz de deter o golpe de Kevin.
O soco atinge o escudo, antes mesmo que este tenha se formado totalmente, liberando toda a raiva e força de Kevin. O impacto transferiu toda a força e parte das chamas para o escudo, que não suportou o que fora produzido para suportar. Uma série de enormes trincos se forma, e o escudo se despedaça em uma explosão, como se fosse vidro azul. A explosão faz a Aprendiz ser impulsionada um pouco para trás. Mas nem o tempo permitiu a ela um tempo para conectar tudo o que havia acontecido. O punho flamejante de Kevin simplesmente atravessa a barreira estilhaçada, e atinge o peito da Aprendiz.
Se a explosão a havia jogado... o soco praticamente a fez voar. O impacto fora tão violento que arremessa a Aprendiz direto para uma das paredes de pedra, onde demorou pouquíssimo tempo para entrar em contato. A força do impacto foi tão destrutiva quanto o soco, de tal modo que abre uma cratera na rocha, do tamanho do corpo da Aprendiz... com pedras se estilhaçando e voando para todo o lado.
Foi tão rápido que os três colegas aprisionados puderam captar e conectar tudo apenas depois que tudo aconteceu. Em um segundo, estavam prestes a dar um golpe... depois de outro, a Negra estava atingindo uma parede de pedra. O imenso barulho do impacto quase fez Felipe saltar para trás. E, quando puderam analisar mais profundamente, a situação ainda estava se desenrolando.
A Aprendiz fica fixa no buraco por poucos segundos, antes de despencar, direto para o chão. Cai de joelhos, apertando o peito com a mão direita, enquanto tossia sangue. A cabeça estava baixa... o sangue escorria em gotas pelo lábio. O peito doía... e não era só isso que doía. Ela se sentia totalmente derrotada... totalmente indefesa. Se sentia uma garotinha frágil, incapaz de ser uma mulher forte... uma Negra forte. Sentia cada vez mais vontade de cair... de deixar tudo acabar... Mas não... não podia ser assim... não ia ser assim...
Do outro lado, a coisa estava diferente. Kevin lentamente abaixou o braço... as chamas cessaram, mas o sangue continuava a escorrer lentamente. Kevin queria sorrir... mas não conseguia. Sabia que aquilo não tinha acabado... apesar do golpe. Havia sentido um osso se partir quando o atingiu com seu punho... mesmo assim, nada parecia o animar, dar energia a ele. Era como... como se algo o impedisse disso. Mas ele não fazia ideia de onde havia surgido essa neutralidade emocional... talvez ter “queimado” seu próprio sangue? Usado magia demais? O ambiente? Seja lá o que for... Kevin não sabia.
Mas o Destino não lhe deu tanto tempo para pensar.
A Aprendiz se levanta, lentamente e com esforço. A mão direita ainda apertava o peito... como se doesse cruelmente... mas isso não a impediu de continuar seus esforços. Lenta e dolorosamente, fica em pé, quase se desequilibrando no processo. Parecia fraca... com dor... mas ela estava decidida a continuar. Parecia encarar o inimigo pelo capuz... disposta a tudo, tudo para vê-lo no chão, morto, esquartejado... acabado.
E atacou.
A Aprendiz joga os dois punhos para frente com voracidade e energia, e os posiciona, como se fosse defender alguma coisa, como se fosse fazer um escudo. Mas... nem na expectativa Kevin acertou. Labaredas de chamas negras fluíram de seus dedos, serpenteando pela pele, e ganhando volume cada vez maior. Parecia estar carregando a raiva e a dor da Aprendiz... as chamas eram intensas e perigosas. Mas isso pouco pareceu ajudar a diminuir algo... pois logo uma forte rajada de chamas é dirigida a Kevin.
Kevin estava atento aos movimentos, e logo foi capaz de reagir ao golpe. Moveu as mãos e, em um rápido movimento, as uniu bem a frente da cabeça, com os braços totalmente esticados. Na mesma velocidade, e quando a rajada já estava quase tocando os dedos dele, Kevin abre bruscamente os braços, como se estivesse rasgando algo pela metade, com toda a fúria que isso carrega. Como se fosse água bloqueada pela pedra, a densa rajada de chamas sucumbiu ao movimento de Kevin, dividindo-se em duas rajadas menores, logo indo em uma direção diferente, se desintegrando no ar logo depois.
A Aprendiz nem teve tempo de reagir com mais um golpe, tentando atordoar o Branco. Kevin aproveitou a fresta na defesa da Negra, e lança seu próprio ataque. Tomado por toda a energia da batalha, Kevin soca violentamente a sola do pé no chão de pedras e terra negra. Toda sua energia e raiva vão de deus músculos direto para o solo. A força é tão grande que o solo se parte, e vai criando uma imensa rachadura, que crescia mais e mais, na direção da Aprendiz.
A Aprendiz ficou assustada com o golpe repentino... mas não se deixou tomar pelos sentimentos, não dessa vez. Com velocidade e agilidade, a Aprendiz salta para o seu lado esquerdo, bem quando a rachadura chega aonde, antes, estavam os seus pés. A sola dos pés derrapam um pouco ainda, depois que a Aprendiz pousa no chão. Ela ainda estava tentando recuperar o equilíbrio, enquanto Kevin retirava o pé da rachadura, tentando se preparar para outro ataque. Mas nem toda a adrenalina de Kevin serviu... a Aprendiz parte, correndo, direto para ele, já preparando o próximo golpe.
Kevin só teve tempo de ficar em posição de defesa... aquilo tudo estava sendo mais rápido do que queria que fosse. A Aprendiz logo para na frente dele, impulsionando sua perna direita com força, em direção à cabeça de Kevin. Queria tentar algo forte e exato... assim talvez pudesse abalar aquele Branco repugnante... mas não ocorreu como esperava. Kevin bloqueia o golpe com o antebraço esquerdo, e logo empurra o pé da Aprendiz para o chão.
A partir daí... começa uma sequência mortal de golpes, vindas de todas as maneiras e lados possíveis em uma batalha. Um golpe de esquerda... de direita... chute... defesa... contra ataque... a batalha estava se intensificando, e Kevin se desgastando com ela. Já havia usado sua magia... e já havia feito várias coisas até lá, e seu intenso treinamento no passado começa a traí-lo. O suor escorria... o nervosismo aumentava, e começava a ocupar o topo de sua alma, junto com a raiva, que ainda se mantinha constante. Alias... ela era um dos únicos motivos que o fazia continuar defendendo cada e cada golpe que vinha dela... cada e cada tentativa de derruba-lo... isso, misturado ao fator de seus amigos estarem com suas vidas em jogo.
Precisava ganhar aquilo... não só sua vida, como a de todos ali, e de muito mais gente afora... dependia disso. E ia fazer aquilo acontecer... não importava como.
Foi aí que as coisas começaram a complicar.
A Aprendiz consegue furar o bloqueio de Kevin, e acerta sua bochecha com força, fazendo-o cambalear para trás, desequilibrado e ainda mais exposto para um ataque. Kevin estava atordoado... e lutava para ganhar equilíbrio, mas já estava sabendo que um golpe iria vir. Nem um tolo desperdiçaria essa chance de golpe... era inevitável. Mas... para a surpresa de Kevin... ele não veio.
Ele teve que voltar ao equilíbrio para notar o que estava acontecendo... e sua alma se estremece com o que vê. A Aprendiz parecia estar... unindo as palmas das mãos, enfrente ao peito, e com a cabeça baixa. Parecia estar... não... não podia estar... mas estava... Kevin podia sentir que estava...
Uma aura maligna começa a brotar do tecido da Aprendiz... como se fosse uma espécie de fumaça negra... serpenteando pelas costas, ombros e braços da Aprendiz. E ia subindo aos altos... desaparecendo de leve no ar. Parecia estar tomando conta do corpo dela... como água escorrendo pelo corpo. Parecia estar aumentando mais e mais...
Kevin dá um passo para trás. Estava sentindo na pele tudo aquilo... era como se um calafrio imenso estivesse passando por todas as células da sua pele, e ficando mais forte na coluna. Era uma energia maligna... parecia fazer até estática no ar... e na alma de quem a via. Kevin, mesmo se não soubesse de tudo, saberia que aquela energia era maléfica... dava para sentir isso. A cada milésimo, um nervosismo crescia dentro de si, se apossando de todos os seus sentimentos, pensamentos e atos. Mais algo estava ainda mais forte... e era o medo. O medo, o terror... estavam extraindo toda a raiva de seu ser, toda a felicidade e, até, a própria esperança. O suor aumentava... e a vontade de continuar diminuía. Era como se aquela aura estivesse simplesmente sugando toda a essência da alma de Kevin...
Kevin dá outro passo para trás... mas algo o faz parar. Sente dois estalos finos, quando sua sola da bota encosta na superfície do chão. Rapidamente, dirige o olhar para o chão... mas o que viu não o deixou melhor. A imensa rachadura, resultado do golpe anterior de Kevin, estava começando a gerar inúmeras outras pelo chão, infinitamente menores, mas muito numerosas... e que parece estar aumentando lentamente agora. Algo passa pela cabeça de Kevin naquele momento... e ele se lembra que aquele chão deveria ser um truque mágico... para disfarçar que estavam mesmo acima do nível dos prédios mais altos de São Francisco. Talvez o golpe de Kevin tenha fragilizado essa possível “Estrutura Mágica”. E isso, claro, não deixa Kevin nada animado.
Mas... apesar de tudo, era apenas um problema a mais para se preocupar. E nem era o pior deles.
Ele novamente se volta para a Aprendiz. O coração batendo forte, desesperado. Ela apontava agora seu braço direito para baixo, enquanto o segurava o esquerdo. As labaredas começaram a descer... como se a gravidade as tivesse puxando para baixo. Logo, saltam das pontas dos dedos direitos da Aprendiz, e começam a se concentrar na palma de sua mão... como se fosse uma esfera, uma esfera de puro fogo negro.
“Então é isso”, pensa Kevin, “É o fim”. Ela estava preparando um golpe mortal contra ele... um que provavelmente tiraria sua vida, como uma simples gota de água a cair no chão. E, pior: Nada podia fazer. Se sentia esgotado... tanto fisicamente quanto psicologicamente. Todo seu treinamento, tudo o que fizera... havia sido em vão. Não podia reagir... não havia tempo, e não havia qualquer coisa que se pudesse fazer. Se a própria aura daquela Aprendiz o havia derrotado... seus esforços para impedir um ataque forte iriam ser inúteis. Era o fim... iria morrer, e seus amigos provavelmente teriam o mesmo fim. Sua mãe... provavelmente não iria suportar isso. E Giovanna...
Não.
Kevin levantou o olhar. Só que, dessa vez, havia um brilho especial neles. A esfera negra havia ganhado volume e massa... uma esfera de puro fogo negro, que exalava minúsculos raios azuis por suas bordas. Parecia flutuar logo “acima” da pele de sua palma direita... como uma delicada e mortal bolinha. Ela, enfim, aponta o braço e seu conteúdo direto para a cabeça do Branco. Ele não a via... mas sabia que deveria o estar olhando com um sorriso em sua face... sua face suja e cruel.
Mas o que a Aprendiz esperava de seu inimigo não aconteceu. A raiva voltava a tomar conta de seu espírito... e de toda sua força. Não... não ia deixar aquele ataque estragar tudo, tudo o que já fizera até ali... não havia chegado até onde chegou, simplesmente para cair desse modo. Já havia passado por coisa bem pior... e havia muito mais coisas que havia deixado. Seus amigos, sua família, seu amor... não iria deixar uma Negra desgraçada estragar as únicas felicidades que sua vida fria e cruel possuíam.
Foi aí que avançou.
Com um único impulso das pernas, Kevin parte para cima da Aprendiz. Esta se assusta repentinamente com o ato do inimigo... não esperava que ele fosse avançar, não depois de ter visto a prévia de um ataque mortífero e que, com certeza, iria acabar de vez com aquele Branco mentecapto. Mas... se desse o ataque agora, será que poderia pegar o Branco antes deste fazer qualquer coisa? Poderia acabar com ele... poderia acabar com tudo isso. Zack a advertira que demoraria um pouco para que o ataque seja possível... mas esperava que ele pudesse enfim sair como os dele sempre saíam nos treinamentos: Perfeitos, como um Mestre Negro deve ser.
Como ela deveria ser.
Mas, foi tarde demais. A esfera começa a cintilar, bem no exato momento que Kevin faz seu ataque. Com um rápido movimento, ele agarra o braço direito da Aprendiz, e o força para cima. A Aprendiz faz uma força contrária imediatamente... mas o Branco fez isso com tanta força e velocidade que seus esforços foram inúteis. Enquanto empurrava o braço direito da Aprendiz com seu braço esquerdo, Kevin segura o outro braço livre da Aprendiz com força, para evitar que qualquer tentativa de contra-atacar fosse feita.
Por mais que a Aprendiz fizesse força para evitar, a investida do Branco deu certo. O braço direito da Aprendiz foi elevado ao alto... no exato instante que aconteceu.
Uma explosão de plasma ocorre na palma da Aprendiz. As cabeças abaixadas e olhos fechados dos dois os impediram de presenciar um enorme feixe de plasma negro atravessar o ar da masmorra, em direção ao teto, movimentando uma quantia de ar quente tão enorme que uma ventania assola a masmorra.
O feixe atinge o teto de pedra da masmorra com um estrondo dramático, causando uma explosão ainda maior e mais barulhenta. O poder e o calor do plasma simplesmente faz o teto de pedra bruta se transformar em pequenas partículas de poeira... além de lançar pedaços maiores, pó e até fogo por todos os lados da masmorra. O feixe dura dois longos segundos... e simplesmente cessa. As últimas sobras de plasma, fogo e pedra, simplesmente se evaporam no ar, e vão levados pela ventania da masmorra, que também já estava começando a cessar.
E, de repente, uma intensa luz solar toma o local. O enorme buraco aberto no teto mostrava a todos ali um céu azul, com poucas nuvens. Mas o mais destacado foi o enorme feixe de luz solar, que penetra na escura e fria masmorra, lançando luminosidade e calor, em especial, à dois elementos da masmorra.
Os dois ainda estavam exatamente na mesma posição, de cabeças baixas. Porém, a força da ventania havia sido tão forte em torno deles que o capuz de ambos simplesmente voa para trás, deixando exposto a face de cada um. E, lentamente, temendo o próprio ato, eles levantam lentamente a cabeça, em uma sincronia perfeita.
O que aconteceu foi tão chocante que o Universo todo pareceu simplesmente desaparecer em torno deles... e a alma fica tão estática que poucas expressões foram possíveis.
Kevin encara lentamente cada detalhe. Dos cabelos encaracolados cor de mel, agora caindo até as costas... até os olhos. Aqueles olhos verdes pareciam transmitir o mesmo sentimento do que Kevin: O de ter todos, e nenhum, exatamente ao mesmo tempo.
Kevin encarava Giovanna como nunca encarou antes na vida.
A posição continua estática... nenhum músculo sequer se mexia, nem mesmo os do rosto. O olhar estava estático, pasmo, as lágrimas só existiam em quantia para não deixar os olhos secarem. Kevin ainda segurava os braços dela com força... pareciam duas estátuas, feitas com tal perfeição que nem emoção pareciam transmitir. Nenhuma exata ou única, pelo menos.
A cena parecia um retrato, mas durou cerca de 10 segundos. Nenhuma fala irrompeu, nenhum ato que não seja o mesmo de antes. Atrás da parede de chamas, os três encaravam aquilo com um olhar arregalado, com dúvidas, surpresas, dentre muitos outros. Mas, diferente dos dois, pareciam ser os únicos que estavam apresentando algum sentimento na face.
Tudo pareceu uma sala de estátuas... até que algo interrompe.
Uma risada energética e louca toma conta de todo local. Mesmo com tudo... todos os olhares se voltam para a figura. Até os olhares de Kevin e Giovanna seguiram, forçados, para o figura conhecida.
E não foi uma visão agradável.
Zack ria loucamente, com um sorriso macabro no rosto... que ficava ainda pior com aqueles olhos. Mas, apesar disso, não era o pior... o braço esquerdo estava apertando o pescoço de Luca, enquanto a mão direita ameaçava-o com uma afiada adaga. O garoto suava, totalmente imobilizado e tenso. Sua expressão parecia indicar nervosismo... mas, estranhamente, n]ao vinha acompanhado de desespero. Mas Zack pouco parecia se importar com aquilo.
-Ah... sabem como é delicioso ver uma cena assim?
Ele ria de um modo... como se estivesse esperando por isso há eras... como se já soubesse disso... como se já soubesse o que ia acontecer.
O trio olha para Zack, tanto assustados com Luca, quanto nervosos com todo o resto. Pareciam não estar absorvendo tudo de uma vez. Era como jogar uma esponja em uma banheira cheia de água, esperando que ela sugue toda a água contida de uma vez. Mas, na situação deles... parecia que estavam sendo jogados em um lago enorme.
Os que menos pareciam reagir eram os dois... o olhar dos dois se encontraram, lentamente... como se, para isso acontecer, fosse necessário um esforço enorme por parte dos dois. Mas... foi nesse exato instante que uma mísera e brilhante gota de lágrima começa a escorrer de um dos olhos de Giovanna... a lágrima escorria lentamente pelo seu rosto, ainda sem expressão física... mais uma delas parecia estar ficando cada vez mais frequente, nos dois lados da moeda... e parecia ser a única que sabiam que era verdadeiro.
O choque.
Porém... outra coisa começa a acontecer. Pareceu uma leve... fraca... sarcástica risada. E, para a surpresa de todos, não vinha de Zack...
Vinha de Luca.
A expressão de Zack não é mais tomada pelo prazer... e sim pela dúvida. Ele encarava o Branco como se fosse um idiota... sem entender as ações. Ele estava preso, imobilizado, e iria morrer muito em breve. Porque raios estaria rindo?
Foi aí que viu.
Havia algo nas mãos de Luca. Uma pequena esfera esverdeada, com um pequeno mecanismo logo acima... o qual também deveria conter um pino. Luca segurava uma granada com a mão direita... e o pino da mesma com a esquerda. Um sorriso estranho tomava conta dele... enquanto o olhar de todos ali muda para um tom desesperado, e ainda mais assustado.
Zack, ao perceber, arregala os olhos, e faz uma expressão que nunca fizera em tanto tempo fazendo o que sempre fez...
Sentia terror.
-Foi um prazer trabalhar com vocês – dizia Luca, com um sorriso forçado no rosto... como se dissesse “Tudo vai acabar bem”.
E ela explode.
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A explosão foi forte.
Uma onda de choque enorme, misturada com fogo e gases, lança Kevin e Giovanna para longe. Porém... não houve lugar para capotar. A explosão destrói toda a resistência que ainda existia no solo... e todos os pedaços deste começaram simplesmente a cair... cair em uma leva de vapor da água, que formava as nuvens... que ainda despencariam mais abaixo, para um abismo imenso.
As rachaduras chegam até a parede de fogo... que simplesmente pareceu virar um gás azulado, enquanto o chão caía, abaixo dos pés do trio.
Tudo foi muito rápido... ao mesmo tempo que pareceu levar eras para acontecer. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta... como se o próprio tempo estivesse parando. Sem um chão para sustentá-los... a gravidade faz o que foi criada para fazer. E, em menos de dois segundos, nenhum deles se sentia preso em alguma superfície sólida.
Estavam caindo.
Já haviam estado perto da queda várias vezes... perto de um abismo sem fim, para uma queda, que parecia ser sem fim também. Mas eles sabiam... sabiam que tinha um fim, sabiam como lidar com o fim. Mas... não desta vez.
O trio se debatia na queda, assustado, desesperados, encarando a baía abaixo. Estavam caindo em direção a um ponto... ao lado da ilha de Alcatraz. Era água... iriam cair na baía. Mas... será que haviam pedras? E se sim... eram profundas o suficiente?
Para eles... agora... só havia um jeito de descobrir.
Porém... para um deles, essa era a coisa que menos importava. Kevin simplesmente se vira de costas para o mar... e encara o céu. A granada não parecia ter sido tão potente... mas aparentava ter desestabilizado não só aquela parte da fortaleza. Esta estava simplesmente se despedaçando... as torres caíam, os grandes pedaços e seções simplesmente rachavam... e cediam para a gravidade. Kevin olhava, com um olhar neutro e sem importância, as pedras negras se dirigirem, junto com eles, direto para o oceano.
Mas, apesar de tudo... não era isso que seus olhos procuravam. Não havia sinal... nem de um, nem de outro, e nem do outro... Giovanna, Zack e Luca haviam sumido... e, na confusão da queda, não havia notado nada. Estavam na Fortaleza? Haviam escapado? Haviam morrido? Estavam caindo? Ou..… já haviam caído?
Para Kevin e todos ali... estava tudo lento. Sabiam que estavam rápidos, mas tudo parecia estar lento... a queda parecia durar minutos em vez de segundos. Pedras pontiagudas vindo em sua direção... uma fortaleza nos céus desmoronando... uma Aveline encarando tudo com um olhar esbugalhado, sem ar nos pulmões... e uma morte certa se aproximando mais... mais... mais... e, para completar, uma mente mais perturbada que nunca, mais confusa que nunca. Mais perdida que nunca.
E caem na água.
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