Marcas Da Morte

35 A Toca do Lobo, Parte I - A Ilha de Alcatraz


Notas iniciais
Olá pessoas.

Bem... sim, esse é o mais longo de todos. Espero que aproveitem o combo... porque, provavelmente, demorará duas semanas para eu postar um outro, por dificuldades aqui do meu lado. Sugiro que aproveitem... não precisando ler tudo de uma vez só. Cansa a vista e o Brain!

Fica aqui a dica. E Boa Leitura!

6 da manhã

Dia 8 de Setembro

Havia uma densa névoa naquela manhã.

Uma manhã gelada fazia a baía expelir gases e vapores para os ares, formando uma densa camada de neblina, por quase todas as cidades da baía, e por ela mesma. Era densa... épica na história. Cobria tudo... os olhares mal chegavam muito longe...

Mas, pior do que cobrir a vista, parecia cobrir a alma de navegantes corajosos e ousados.

–Kevin... pegou suas adagas?

–Sim... e estão mais afiadas do que nunca...

–Ótimo... deixe seu espírito assim também... Pegou as bombas, Louis?

–Effacer! Vamos nessa...

Kevin encara Louis... nervoso. O rosto de Louis aparentava certa animação... mas todos, todos estavam apenas com uma pequena máscara por cima. Os que não conseguiam sorrir... ficavam tensos, sérios, olhando para as pacíficas águas abaixo do barco. Ele avançava lentamente sobre a neblina... o que fazia a tensão, o medo e o nervosismo apenas aumentarem mais e mais nos Assassinos Brancos.

Depois de Louis nem notar... Kevin repassa seu olhar, pelo deque. O barco era pequeno, um barco turístico, alugado na mesma noite em que partiram de um cais, em Oakland. Cabiam todos ali... mas a tensão e o nervosismo pareciam vazar para fora. Heloísa estava encostada perto da cabine, ajustando seu arco e suas flechas... iria precisar, com certeza. Felipe, que sempre esteve sorridente na maioria das vezes, estava na frente do barco ajoelhado... tentando fazer o nervosismo passar com o som da maré. Louis, sem nada há fazer, dá uma palavrinha com Luca... que parecia ser o mais equipado de todos.

–Americanos... – murmura Kevin – cheio de frescuras...

Mas Kevin também não estava leve... nenhum estava. O velho uniforme brilharia à luz do sol... com o número de adagas que Kevin pegou. Se lembrara da luta que tivera com Zack antes... e sabia que iriam ser úteis. Na verdade... cada um carregava uma boa quantia de um item específico. Luca; artilharia de fogo. Heloísa; artilharia à distância. Louis; bombas, Felipe; equipamentos adjacentes... e Kevin; adagas. Havia sido uma idéia genial de Aveline... a única adulta a vir com eles... fora Pablo, que estava dirigindo o barco.

Mas... apesar disso... não tinha sido a única idéia de Aveline... mas tinha sido a única “agradável”.

–Aveline...

–Kevin?

–Só... certeza que só nós temos que ir?

Ela fez aquela cara novamente... como se já tivesse explicado aquilo para o garoto à sua frente várias vezes.

–Já falamos sobre isso... TEM que ser assim.

–Não faz sentido! Vamos...

–Não... não fale isso.

Kevin se conteve... mas sabia a verdade. As chances de eles saírem vivos dali era praticamente nula... quem deu a eles essa idéia? Porque só os 5 entrariam? Se a Irmandade tem tanta influência, porque simplesmente não eliminar o alvo de uma vez?

–Kevin... vou repetir – continua ela, calmamente – as batalhas estão exigindo mais, e os Negros não querem nos deixar avançar... estão por todos os lados. Por isso que, aqui e agora...

–...Tem que ser só nós...

Kevin baixa a cabeça... triste e tenso. Sabia disso... mas não aceitava. Podia aceitar... mas não queria. Queria dar meia volta... queria sair dali, sair daquele Continente, sair daquele mundo. Simplesmente sumir.... sumir daquela realidade, daquela vida.

Mas sabia... sabia que não podia. Esse era o momento... ou era agora, ou nunca mais poderia sentir seu coração bater de novo... e nem o das pessoas ao seu redor. Principalmente aquela que ele mais apreciava e adorava...

–Chegamos.

A única fala de Aveline desperta todos. O olhar destes segue para a frente do barco. Uma enorme mancha preta se projetava na neblina densa. Logo... suas formas foram se definindo... tomando formato, massa, cor. Apesar... de que a cor não era nada animadora.

Alcatraz se projetou entre a neblina. Uma ilha alta... um pedregulho enorme na baía. Seu topo era coberto de dois altos prédios... muros com altas grades fechavam o que, antes, era um pavilhão, um pátio. Uma alta torre podia ser vista ao longe... Para Kevin, aquilo parecia uma prisão... aquilo já foi uma Prisão... mas Kevin via nela muito além do bloco gélito de pedra e concreto, explodindo na paisagem da baía... via nela a entrada... a entrada para o Inferno.

O barco deslizou lentamente pela maré... até se aproximar de um pequeno atracadouro, no canto da ilha rochosa. Nada havia lá... estava tudo deserto. O concreto rachado ficava ainda mais sombrio com a neblina, dando à paisagem uma tonalidade assustadora.

Todos ouvem o motor se desligar... com o barco ao lado da plataforma de concreto, oscilando levemente com a maré. Por vários segundos... nada acontece. Ninguém move um dedo... ou um músculo. Não queriam entrar lá... sentiam isso... sabiam que a morte estava a aguarda-los por lá.

Mas... parecia que não eram esses os planos de Aveline.

–Pessoal... não me obriguem a tirá-los daqui ao chute...

–Mas... e vocês? O que farão?

Aveline olha para Heloísa calmamente, e responde:

–É muito provável que a coisa ficará feia... então estaremos aqui, mantendo contato com a base e preparados para uma... “Fuga de Emergência”

–Acha que vamos precisar disso? – pergunta Felipe.

–Se eu não estivesse fazendo isso... estariam me matando. Agora... podem fazer o favor?

Sem mais delongas, todos saíram da barcaça, pousando as botas no concreto. E... de repente... um arrepio passou pela coluna de Kevin. Era como... como se aquele lugar fosse maligno, como se Kevin, de alguma forma, soubesse que ali não ia ser bom para ele.

Não parecia que todos os outros tinham tido sensação melhor do que a de Kevin... o antigo presídio parecia transmitir um mal presságio do destino.

Todos se entreolharam... suor frio começando a escorrer pela face... mas eles sabiam que isso era apenas o início da coisa... apenas podiam pressentir o que pressentiam, de algum modo.

–Pessoal... vamos?

Aquilo pareceu soar estranho para os jovens... mas não demorou para encararem uma estreita escadaria de concreto... que saía daquela plataforma, e levava até o interior da ilha sombria.

–Teremos alguma... formação?

E, novamente, todos olham para Kevin, com a pergunta de Felipe. Realmente aquilo não era agradável... ser líder nunca era agradável para Kevin.

–Sim... vamos organizar por habilidade. Felipe e Heloísa vão atrás... pois possuem melhor defesa a distância, e podem rapidamente darem apoio... Luca, vá no meio. Você tem boa mira, e saberá o que fazer... Louis, vai em segundo. Suas bombas podem ser úteis como saída para uma situação...

–E... você vai na frente, então? – pergunta Louis.

–Sim... eu estou com adagas, ou seja; combate corpo a corpo. E eu sei sacar rápido... podemos fazer isso sem problemas.

Kevin não sabia o que era mais falso... a frase que acabou de falar ou o sorriso forçado de Aveline, do barco. As esperanças de sair vivo dali estavam praticamente zeradas... mas ele tinha que fazer isso... necessitava fazer isso... era seu destino fazer isso.

Com um aceno na cabeça, todos ali fizeram a formação, indicada por Kevin. Formou-se uma fila indiana, com um amplo espaço entre cada membro da equipe. Kevin rapidamente se dirige para frente, para o comando da linha.

–Estão todos prontos?

–Mais do que nunca... – murmura Luca para o grupo.

Kevin engole em seco, ao olhar para a escadaria. Parecia inofensiva... sem bombas, sem armadilhas, sem nada. Inofensivo... pelo menos era o que ele tentava se convencer. A tensão só aumentava a cada segundo... e ele mal havia entrado lá dentro.

–Okay pessoal... vamos lá.

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O interior, como era de se esperar, era triplicamente pior que o exterior

A entrada havia sido fácil... uma porta de ferro foi fácil de ser aberta. Já que a região era visitada por raros turistas... não era de se esperar que tudo aquilo estivesse lacrado. Mas não estava... na verdade... estava pacífico até demais...

–Não acham que está meio... parado?

Kevin olha para Louis... e o garoto francês tinha sua total razão. Já estavam ali fazia alguns minutos... e o silêncio estava enforcando a alma. Se aquela era a base inimiga... não deveriam ter sido vistos já? Não deveriam estar sendo encurralados naquele exato momento? Ou... será que o inimigo já sabia que eles estavam lá? E estavam eles levando-os para uma armadilha?

Tudo passava pela cabeça de Kevin, enquanto caminhavam lentamente pelos corredores, da ala das celas. O silêncio se misturava à pouca luminosidade... criando um clima assombroso. Musgo já pendia nas paredes de concreto... e ferrugem corroíam as placas de celas e de locais do que, um dia, já havia sido a prisão mais segura do mundo. Mas que, agora, estava abandonada, a mercê do tempo... e ocupada por Assassinos Negros.

O caminhar estava lento... e os passos ecoavam pelo prédio inteiro. Os jovens Assassinos olhavam de lado a lado... de canto a canto... de sombra a sombra, como se chamas e bombas fossem surgir de cada micro rachadura no velho concreto. O prédio estava vazio... com um ventinho maligno assombrando os Assassinos.

Os 5 caminhavam pelo Bloco B... ou pelo corredor que o separada do Bloco C. Celas vazias e enferrujadas se erguiam por mais um andar acima... Fazendo ondas de suor frio cada vez maiores se formarem nos jovens. A tensão só aumentava... os batimentos cardíacos explodiam... e até mesmo o mais corajoso dos membros da Irmandade gostaria de sair dali agora.

–Acho que... isso deve ser no subterrâneo... – sussurra Kevin... mas seu sussurro poderia ser ouvido praticamente no prédio todo.

–Será...? – pergunta Heloísa.

–Claro... não há nada aqui... e não é um lugar desconhecido, é bem popular... então deve estar em outro lugar... deve estar embaixo desse concreto.

–Okay... mas onde seria a entrada, então?

A pergunta de Luca apertou ainda mais a cabeça de Kevin. Já não bastava ter que adivinhar onde estava... mas tinha que saber a entrada. Estavam em uma prisão... poderia ser em qualquer lugar. Mas não havia nada... dicas? Pistas? Mensagens? Algo evidente? Nada. Parecia que o Destino estava de mal com os 5 Assassinos... o que não ajudava em nada na situação.

–Tentem... tentem procurar nos arredores... talvez tenha alguma pista... – sussurra Kevin para os demais, com o maior cuidado para não sair mais alto do que deveria.

–Mas... procurar o que exatamente? – Heloísa responde no mesmo tom. E, apesar da distância, todos escutaram bem.

–Não sei... marcas, símbolos... alguma coisa que o inimigo poderia ter deixado de rastro.

–Tudo bem...

Lentamente, todos ali pegam suas mini-lanternas do cinto. Faziam isso em uma velocidade e com uma precaução tão enorme quanto desnecessária... como se um raio lazer fosse cair do céu se fizerem isso rápido demais. Demorou um pouco... mas depois todos estavam com suas pequenas lanternas ligadas.

–Cuidado onde apontam... talvez tenham armadilhas...

Não fazia sentido... mas mesmo assim, todos tomaram cuidado para onde dirigiam o feixe de luz. Continuavam caminhando lentamente, ainda mantendo a formação da fila... enquanto iluminavam cantos das paredes, chão e das celas. Cada passo era lento, bem dado e posicionado. Os olhares de todos iam de um canto para o outro inúmeras vezes, vasculhando cada micro rachadura em cada canto de cada lugar... na mesma velocidade que o suor se acumulava na testa de cada um. Tensão naquele momento era uma coisa presente... só não mais que o próprio medo.

Louis passava a luz lentamente por cima da entrada das celas, enquanto seguia o passo de Kevin pelos corredores... não era nada especial, ele tinha pensado. Talvez poderia haver coisas ali úteis... números de cela poderiam indicar algo... ninguém sabia ao certo onde procurar, e o que deveria procurar.

Foi aí que notou. Bem de leve, e quase passou despercebido, mas notou.

–Gente!

Imediatamente, o comboio todo parou, estático. O único que se moveu ali foi Kevin, que se vira rapidamente para Louis.

–SHIU! Tá afim de ser morto?

–Ah... não... mas...

Louis encara os colegas. Olhares repreensivos e tensos estavam sobre ele... o que o fez encolher um pouco. Ele sabia que tinha falado alto demais... coisa que poderia ter custado a vida de todos ali. Mas, lentamente, Kevin fecha os olhos, respirando profundamente.

–Desculpa... mas estamos muito nervosos aqui. A coisa é séria... mas eu me entoei demais, desculpa.

–Tudo bem... eu também falei alto demais... me empolguei.

Foi aí que caiu a ficha para Kevin.

–Se empolgou com o que?

Louis apenas aponta o feixe de luz para um ponto específico na parede.

–Com aquilo ali.

Não demorou nem um segundo para todos os olhares se dirigirem ao ponto que Louis indicava. A reação foi como a de Louis: no início, parecia apenas alguns riscos aleatórios no concreto... mas bastou um olhar mais apurado para notar. Eram símbolos tribais... bem ocultos e fracos no concreto, coberto por pequenos musgos verde-escuro. Não eram tão grandes... ocupavam um pequeno espaço, acima da entrada da cela. E... depois de uma análise visual... se via que eles formavam algo único.

–É uma... seta?

Kevin lentamente balança a cabeça afirmativamente, diante da pergunta de Luca. Realmente... as tribais unidas formavam uma seta, que apontava , se visto de frente, para a direita. Não se aproximaram da seta, na realidade, mal saíram dos lugares... mas não parecia algo feito a toa, ou pura coincidência. E, do jeito que parecia desenhado no concreto... não era algo feito para uma prisão. Foi feito depois... para um motivo mais especial. E talvez seja o motivo que eles tanto procuravam.

E, naturalmente, os olhares seguiram lentamente para onde a seta apontava. E eles foram longe... indo até o final do corredor, praticamente. Analisavam com todas as forças... mas nada parecia tão visível. Poderiam andar mais, investigar mais... porém as pernas não obedeciam a mente, nem o mais forte pensamento. Não era seguro andar... não era bom andar. Andar podia matar... podia destruir tudo. Nem mesmo quando não havia nada à frente... não pareciam seguros para andar.

–Nós... vamos seguir a seta?

A pergunta de Felipe, novamente, pega Kevin de surpresa. Era tentador... era necessário. Mas bem podia ser uma armadilha... uma armadilha mortal que os irá conduzir até a morte certa, lenta e dolorosa. Ou rápida, se tiverem piedade dos jovens...

Mas, apesar de toda a dor e sentimento, Kevin não podia dizer “não”.

–Sim... mas tomem cuidado... talvez seja uma armadilha...

Hesitantes, todos concordaram com a cabeça. Kevin foi o primeiro a dar um passo para a direção apontada pela seta... e foi logo seguido pelos seus colegas. Era uma marcha lenta... tensa e mortal, em que o próximo passo poderia simplesmente ser o último passo de sua vida.

E, mesmo com essa tensão, a marcha continuou... continue e tensa...

–Ei... – Luca sussurra – outra seta...

Novamente uma única fala consegue paralisar o comboio. Os olhares se rebaixaram lentamente sob o de Luca. Mas logo seguiram o olhar dele... para outro ponto na parede.

Eram símbolos... um pouco diferentes, formando uma outra seta, acima de outra cela. Era do mesmo tamanho e estilo... e não só isso, como também apontava exatamente para a mesma direção que a outra seta anterior.

Os Assassinos se entreolharam. Dois seguidos e desse modo... ou era uma pista clara, ou era uma armadilha clara. Já haviam levado em consideração que, pelo musgo verde, aquilo ali deveria ser antigo... mas nunca se sabe. Já viram armadilhas de mais de 3.000 anos de idade... e funcionavam tão bem quanto uma moderna.

–Mais motivos para seguir... ou mais motivos para não seguir?

Heloísa fazia a pergunta para ninguém em especial... mas os fazia refletir. Tinham medo de seguir a seta... mas tinham que seguir a seta. Se não... iam continuar andando em círculos. A probabilidade de aquilo ser uma armadilha era a mesma de não ser uma armadilha. Então... para que desperdiçar, se não tem mais nada evidente pela prisão? As vezes, era necessário correr o risco da própria vida pela dos outros... apesar de Kevin achar meio idiota isso, em várias vezes. Porque dar sua vida à pessoas que não fariam o mesmo por ti, no final das contas?

Mas não era esse o importante.

–Vamos seguir... e vamos rápido, pelo amor do Divino... estou odiando ficar aqui...

Os olhares não foram muito animadores, mas totalmente compreensivos. Aquele lugar deixava a espinha de todos formigando... e o medo transbordava.

Com uma velocidade maior, ambos continuaram seguindo pelo corredor, na direção que as duas setas apontavam. Os passos eram rápidos... mas ainda não eram 100 % seguros. Os olhares saltavam ainda mais de lá para cá... era tudo tão rápido e repetitivo que descrever seria perda de tempo.

Enquanto seguiam... notaram que as setas estavam presentes em muitas celas... uma do lado da outra, feita do mesmo modo, e apontando para a mesma direção. Coincidência... ou estava realmente indicando algo? Para todos ali, só havia um modo de descobrir...

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–Okay... por essa eu não esperava.

Nem Felipe esperava por essa, nem Kevin, nem ninguém. Ambos esperavam que as setas poderiam conduzi-los a algum tipo de entrada para masmorras... escada secreta... ou até mesmo um portal dimensional (Idéia de Felipe)... mas nada como aquilo.

As setas os haviam conduzido para fora de dos edifícios de Alcatraz. Mais especificamente, para o um dos pátios exteriores da prisão. Isso era ruim? Não... fora o fato de não ter absolutamente nada útil por ali.

O pátio estava quieto, vazio e deserto. A porta, que saía da prisão, levava os cinco para um piso plano de concreto, cercado por muros altos e com um céu nublado, e com névoa acima. Deveriam ter ficado mais de uma hora dentro de Alcatraz... mas o tempo pouco mudara. O que não ajudava em nada a situação emocional deles.

–Mas aqui não tem... nada...

Luca estava certo... era claro que estava certo. As únicas coisas ou criaturas interessantes no pátio eram eles mesmos... nada mais. Um enorme pátio, coberto por neblina e cimento velho e rachado não parecia ser uma entrada para o Covil Negro. Era, praticamente, como dizer que o segredo de todo o Universo e seu destino estava em Felipe... o sentido havia ido embora à muito tempo atrás.

Felipe foi o primeiro a se sentar no chão.

–Isso não está nos levando a lugar nenhum... – disse ele... enquanto levava as mãos à cabeça.

Kevin não podia culpa-lo... pois também estava certo. As setas foram uma surpresa... bem como uma decepção. Ele logo encarou o amigo com um olhar triste... tudo aquilo por nada.

–Será que esse é o lugar? Talvez tenhamos nos enganado...

–Não, Heloísa – responde Kevin – eu sinto que é aqui... esse lugar tem um ar de sombrio... como os Negros tem...

Felipe suspira ao ouvir isso.

–E olha o que esse “ar sombrio” nos deu... um pátio com caracóis desenhados de giz no chão...

E, de repente, todo mundo ali ficou estático.

–Caracóis? – pergunta Heloísa.

–É... não estão vendo esses caracóis desenhados no chão?

Era como se um raio tivesse caído do céu quando os olhares de todos desceram para o chão... Tudo bem que tinham relaxado quando viram que não tinha nada por lá... mas será que foi o suficiente para não notarem algo assim? O chão do pátio estava repleto de vários formatos circulares... caracóis, desenhados com uma espécie de giz, muito claro. E foi apenas olhar mais além... e ver que várias partes do pátio estavam com vários grupos dessas tribais desenhadas... Como não tinham percebido isso antes?

–Felipe... você é um gênio!

Felipe olhou estranho para Kevin.

–Eu sou?

–Claro...! Mal notamos isso no chão...

Felipe se levanta, e volta a encarar Kevin.

–Mas... não significam tanto. São a mesma coisa que as setas...

–Talvez... mas acho que estamos em um enigma aqui...

–Um enigma?

Felipe foi deixado ao ar, quando Kevin rapidamente seguiu para um dos grupos de desenhos no chão. Ainda com os colegas tentando captar as coisas e raciocinar, Kevin se agacha no chão... para analisar mais de perto as marcas.

–Kevin...? O que são? – parecia que Heloísa já tinha entrado no espírito da coisa.

–Parece giz... mas, se fosse, não teria saído quando passei a mão. Acho que é um tipo de tinta... alguma específica que eles usam.... – diz ele, enquanto se levantava.

–Acha que são pistas para a entrada?

Kevin parou para pensar... só ele estava investigando isso a fio... os colegas ainda não pareciam ter a coragem necessária para andar livremente por aí... mas só depois Kevin refletiu no que fez. Poderiam ter muito bem armadilhas por lá... mas, já que não as encontrou, decidiu fazer isso de uma vez por todas.

–Provavelmente... só pode ser. Nenhum presídio em sã consciência ia desenhar setas nas celas e símbolos esquisitos no chão do pátio.

Louis foi o primeiro a sair do grupo de Assassinos, para analisar um dos grupos de tribais no chão. Isso era bom... pensava Kevin. Fazer todos se sentirem seguros era o primeiro passo para conseguirem algo.

–Talvez tenham mais pistas... – comentem Kevin – procurem por mais pistas... por todo o pátio. Vamos tentar desvendar esse possível enigma.

Os Assassinos hesitaram um pouco... mas foram lentamente saindo do grupo que se formou... e se espalharem pelo pátio, procurando qualquer pista ou conclusão possível. Kevin olhou a situação com um pequeno sorriso no rosto. Satisfeito em ver que os amigos estavam cooperando, pode enfim voltar para suas próprias deduções.

Encarou a paisagem do pátio... além do muro que o cercava, havia as paredes exteriores do prédio da prisão, logo ao lado do pátio. Parecia haver algo lá... não que Kevin pudesse ver, mas ele sentia que havia algo lá. Não sabia como... mas sabia.

Mas o estranho foi quando, ao encarar um ponto qualquer no muro, ele sente dor. Sua marca da nascença começava a pinicar e, logo depois, a arder levemente... como se estivesse esquentando. Rapidamente, Kevin segura seu antebraço esquerdo com a mão direita... o que faz a dor diminuir um pouco. Isso era estranho... mas só podia significar uma única coisa.

Sem pensar ou hesitar mais, Kevin caminhou lentamente, em direção à essa parte do muro. O passo estava calmo e leve... mas estava confiante. Tensão e medo passavam pela cabeça de Kevin sem parar... mas ele nunca esteve com uma confiança assim, não recentemente. Mesmo sabendo que poderia estar à beira de uma morte lenta e dolorosa... continuou seguindo.

Parou, bem enfrente ao muro. Apesar de seu instinto... ou algo fora isso... não conseguia ver nada naquele pedaço específico do muro. Só um concreto velho, rachado e seco. Porém... apesar de todas as vistas e sentidos normais enganarem... os anormais gritavam. A marca de Kevin estava ardendo mais... como se ela soubesse que havia algo ali. Kevin não costumava acreditar fielmente nessas coisas... mas algo assim não poderia ser por puro acaso... TINHA que ser algo.

Foi quando apareceu.

Depois de vários segundos encarando o muro, pensativo... ele começa a fumegar de leve. Antes mesmo de Kevin reagir, leves faíscas brilhantes e azuladas começam a sair do muro, fazendo Kevin se afastar, assustado. As faíscas estavam vinham do nada... e estavam formando símbolos tribais no muro. O processo foi curto... o suficiente para deixar Kevin mais assustado do que já estava. Logo, a faísca sumiu, junto com a fumaça... deixando no lugar uma série de tribais negros, circulando em volta de um círculo sem nada, no centro de tudo.

Por vários segundos Kevin ficou lá... estático, olhando para o que tinha acabado de ver. Era inacreditável... como? Porque? Com certeza era magia... ou algo assim. Sua marca de nascença só fazia tais coisas raramente... e não era muito recomendável ignora-la.

Ele olhou em volta. Os amigos continuavam procurando qualquer coisa pelo pátio, sem resultado. Aparentemente não haviam notado o que tinha acabado de rolar ali naquele canto, como se nunca tivesse acontecido. Mas havia acontecido... e estava lá, na sua frente. Mais evidente que sua palma da mão... mais evidente do que estar vivo.

Por poucos minutos, não soube o que fazer. Ficou encarando... tentando solucionar o mistério, o que teria que fazer depois. Aquela era a chave... ou uma das chaves... para abrir a porta, a entrada. Sabia disso... não sabia como sabia, mas sabia. Tinha que haver algo... e ele sabia que era o único que podia fazer isso.

De repente... como se do nada... uma de suas adagas deu uma leve esquentada. Sua mão esquerda foi imediatamente até ela... estranhando o acontecimento. Coincidências? Ou outro sinal do misterioso? Não sabia... mas, apesar disso, instintivamente sacou a adaga, com a mão esquerda. Será que o Destino... ou o que quer que fosse aquilo... tinha dado um sinal? A adaga era a próxima pista? Mais do que pensar... o que corrompia Kevin era a insegurança. Executava cada passo com tanta tensão que não sabia, simplesmente não sabia como estava a aguentando e seguindo em frente.

Rapidamente, uma coisa passou pela mente dele... será que...?

E, lentamente, começa a mover a adaga, em direção ao espaço vazio, no centro dos tribais. Não sabia porque... mas achava que tinha que fazer isso. Era como se um instinto antigo o dissesse... como se sua alma já tivesse feito isso antes. Ele não tinha certeza... nem disso, e nem do que estava prestes a fazer. Mas, mesmo assim, batalhou a tensão, se seguiu...

A ponta da adaga encosta no espaço... nada acontece. Kevin esperou poucos segundos, antes de impulsionar a adaga para trás, e enfia-la com tudo no concreto.

E aconteceu.

De inicial, a adaga apenas penetra no concreto com uma profundidade estranha... rachando-o em longas rachaduras pelas tribais. Mas foram pouquíssimos os segundos que se passaram, antes de pequenas labaredas azuis começarem a sair das rachaduras, e a dançarem pela adaga de Kevin. E, antes deste poder reagir com qualquer coisa, sua própria marca faz por ele. Os símbolos tribais negros na pele de Kevin começam a ficar azulados, e a liberar uma leve fumaça e pequenas labaredas azuladas. E, claro, acompanhado de uma dor imensa. Kevin quase se contorceu... Mal podia aguentar. Havia um bracelete de metal acima de sua marca... mas era como se isso não importasse para o acontecimento... o brilho de sua marca aparecia no metal, como se ele fosse um vidro transparente.

Mas, por incrível que pareça, não foi o mais fantástico dos acontecimentos.

Louis quase pula para trás, ao ver que as leves marcas do chão estavam começando a brilhar em um tom azulado, e a emitir labaredas da mesma cor. Os outros logo olharam assustados, tanto para Louis quanto para o chão, que estava começando a brilhar azul. Todas as marcas tribais no piso do pátio estavam agora brilhando e soltando labaredas azuis... O que estava deixando os Assassinos mais confusos e assustados do que antes.

E, por pura necessidade de encontrar a origem disso, o olhar de todos recaem por um minuto sobre Kevin.

–KEVIN! O que está fazendo aí?! – grita Heloísa.

–EU NÃO SEI!

–KEVIN!

–O QUE FOI?!

–OLHA!

O braço de Kevin estava imobilizado... dessa vez com marcas brilhantes e azuis preenchendo e imobilizando todo o braço dele. Mas, forçando, muito, ele foi capaz de virar o rosto.

E, por mais que tudo ali já estivesse sendo chocante, aquilo foi ainda mais.

As linhas brilhantes haviam formado dois círculos no pátio... um maior, e um menor, dentro do maior. As labaredas estavam começando a ficar altas... e uma fumaça branca saía dos símbolos no chão. Mas não foi o mais surpreendente... era como se o chão começasse a trincar de um modo tão simétrico que parecia que alguma força divida estava recortando o pátio. Logo depois... as rachaduras separam os dois pedaços redondos do resto do pátio... que logo ficam a flutuar de leve sob o chão, mas logo tomando uma altura significativa. O círculo do meio tomou um rumo diferente... começando a se curvar lentamente para cima, formando algo parecido como um estilo caracol. Lascas finas de concreto começam a se desprender do piso do pátio em torno... levitando e indo até esse caracol. Os pisos se fixavam nas bordas de maneira espiral... no início, os Assassinos, refugiados nos cantos do pátio, não faziam idéia do que era aquilo. Mas logo viram... era uma escada. Uma escada em caracol, que subia cada vez mais.

O processo todo durou dois minutos... com degraus subindo além das nuvens cheias de neblina que podiam ver. Finalmente, as labaredas cessam... e tudo o que estava flutuando despenca no chão. E o que sobra? Uma simples e lustrosa escada em caracol, feita do concreto do pátio, e que subia até onde a vista não alcançava.

Por vários segundos... a movimentação fora nula. Heloísa, Felipe, Luca e Louis não sabiam o que olhar... não sabiam o que fazer... e nem sabiam direito contar o número de perguntas que estavam se formando na cabeça deles. Eram tantas que ficaram boquiabertos o tempo todo... mal acreditando no que tinha acabado de acontecer.

Até que uma voz conhecida os tira do transe.

–Gente!

Os olhares seguiram direto para a figura de branco, encostada de cara no muro próximo.

–Kevin?! Você está bem? – Louis gritou

–Mais ou menos...

Ao ouvir a resposta, Louis rapidamente foi até Kevin, seguido pelos colegas logo atrás. O passo era rápido e seguro... diferente de como estava a apenas alguns minutos atrás. Desse modo, chegou até Kevin, que estava agora encostado de costas para uma série de símbolos tribais negros no muro... e uma adaga com a ponta entortada no chão. Mas o fato de Kevin estar segurando o antebraço esquerdo com força preocupou os colegas.

–Kevin... – Heloísa fez uma rápida e clara insinuação para o que havia atrás deles – o que é isso?!

Kevin suspira, e encara pela segunda vez aquilo. Estava apenas um pouco menos pasmo do que os colegas... só não estava mais por causa da dor... e com um cansaço repentino. Depois de dois segundos paralisado, o movimento havia voltado ao braço esquerdo, e as marcas brilhantes sumiram de vez, deixando para trás uma dor, que ia aos poucos diminuindo. As perguntas eram muitas... tanto para Kevin quanto para todos ali. Mas tudo aquilo só significava uma coisa... e os levava a fazer apenas uma coisa.

–Aquilo...? Acho que é a entrada para a base...

Heloísa fica perplexa na hora... mais ainda do que já estava.

–Para cima?! Como é que vai existir isso no céu?

–Heloísa... eles dominam a “magia”... e não estou vendo uma escada indo para baixo também.

Ela revira os olhos... até nesses momentos Kevin era sarcástico.

Mas não durou tanto... logo todos os olhares se fixam na escada. Ela continuava lá... tranquila e estática entre um chão de terra, como se sempre esteve lá. O destino dela ainda era invisível. Calma... estática... mas exalava um medo e uma indecisão tão enormes que não sabiam o próximo passo, depois do que tinham acabado de ver.

Kevin se levanta lentamente.

–Bem... nós vamos ou não?

O silêncio continuava... não tinham motivos para dizerem não... mas o “sim” não estava agradando a alma de cada um ali. Uma escada que surge daquele jeito apontando para o céu... geralmente não levaria para um paraíso feliz, não naquela situação. Os pensamentos eram muitos... mas as decisões eram poucas.

E, para a surpresa de todos, Luca contata o rádio no ouvido.

–Aveline?

–Sim?

–Você não notou algo... estranho?

–Hum... – ela demorou um pouco a responder... como se estivesse pensando, ou olhando a paisagem – não, Luca, absolutamente nada. Porque? Era para eu ter notado algo?

–Não... está tudo bem. Só foi uma dúvida repentina.

–Tudo bem... e como vão indo?

–Estamos indo bem... estamos perto de achar a entrada.

–Okay! Me ligue quando tiverem mais novidades.

Ao desligar, Luca recebe o olhar dos colegas.

–Porque você não falou que encontramos? – pergunta Felipe.

–Ela ia ficar falando muitas coisas... e mais... acho que precisamos fazer isso rápido. Não é, Kevin?

Os olhares saiam de um para o outro o tempo todo... e logo se fixaram em Kevin. A tensão estava aflorando mais e mais... e o medo também, tinha todos os motivos do mundo para não querer ir lá... mas sabia que tinha que ir. Mas, apesar disso, não demorou muito a responder... ele já sabia o que fazer.

–Sim... preparem-se. Nós vamos subir aos céus...

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–É impressão minha... ou está esfriando?

A reclamação de Felipe tinha sua razão... realmente estava ficando cada vez mais gelado, conforme a altura aumentava. E não havia sido pouco...

Já fazia um tempo que subiam as escadas. Apesar do piso de concreto parecer forte e resistente... a subida ainda era lenta. Afinal: Não é todo dia que se pode confiar plenamente em uma escada feita de chão de pátio por mágica.

–Sim... mas continuem subindo.

Kevin ia na frente... como sempre. Não queria... mas teve que ir, quando ninguém mais quis. Ia murmurando coisas pelo caminho... mas continuava atento, do mesmo modo que os colegas estavam, logo atrás deles. Subiam um de cada vez, como uma fila indiana... cada um olhando para vários lugares diferentes. Se bem que a neblina os impedia de ver a paisagem... e havia algum tipo de magia, impedindo que a paisagem os visse. E, para a alegria deles, nem o destino estava visível.

–Estamos chegando? – perguntava Louis... logo atrás de Kevin.

–Acho que não...

–Ah! Prend trop de temps!

–...O que?

–Eu disse que está demorando demais... é français!

–Oh sim... continuando...

Kevin não tinha dado uma ignorada em Louis por opinião pessoal... o culpado era a tensão. A tensão estava presente cada vez mais, conforme o número de degraus subidos aumentava. Se estavam tensos antes... estavam piores ainda agora. O que os esperava? Porque os esperava? Como os esperava? Quem os esperava? Ou... tinha algo a se esperar lá encima?

Kevin nem estava prestando atenção... subia mais como um passo automático. Mal olhava, mal via, só pensava. De alguma forma, sua alma sabia que havia algo o aguardando dali a alguns degraus... algo frio... sombrio... e que não ia ser bom. E essa era a única coisa que ele tinha máxima certeza.

As nuvens agora chegaram a um nível estranhamente denso... nem permitindo que os colegas se vejam direito. Nem sabiam direito em que altura estavam... mas, pelo tempo, não deveria ser um número baixo, nem mediano. Mas ambos sabiam que, o que quer que os esperasse lá encima, estava próximo, muito próximo.

Foi quando que, ao pisar no próximo “Degrau”, Kevin sentiu um tipo de piso diferente... como se fossem pedras. Estranhando o piso diferente, Kevin enfim arriscou olhar para o que estava a sua frente.

O resultado disso quase o fez cair escada a baixo.

Havia um tipo de castelo ao fundo... enorme e de pedras negras, com quatro altas torres nas bordas... lembraria o Palácio de Westminster ... de tão grande e belo. Até aí tudo bem... além do simples fato de ele ter como “chão” nuvens! O castelo estava acima de uma enorme nuvem branca... que flutuava sobre a já visível Baía de São Francisco. A imagem já era incrível daí... mas bastou apenas uma mudança de olhar para ficar melhor ainda.

Antes do castelo, havia um jardim. Mas um como Kevin nunca antes tinha visto... com uma extensão enorme, coberto de diversos tipos de flores, plantas rasteiras, e até pinheiros bem cortados. Campos, aparentemente de treino, ocupavam as laterais... e um caminho de pedras negras saia do ponto onde Kevin estava... direto para o castelo.

Kevin ainda estava pasmo, quando seus colegas o acompanharam. Parecia um paraíso... um paraíso, misturado com velhas histórias de João e o Pé de Feijão, que a mãe de Kevin costumava contar para ele nas horas vagas... mas aquilo era diferente. Era um paraíso, mais belo ainda que nos livros... Esconderijo muito controverso para Assassinos Negros.

A magia fazia coisas incríveis, realmente.

–Meu Deus...

–Então não era embaixo de Alcatraz... era encima!

–Mais bonito que o Palácio de Versailles...

Depois disso... apenas múrmuros foram ouvidos, dizendo qualquer coisa de espanto e encanto, na língua materna de cada um. Mal podiam acreditar... era muito mais do que eles esperavam. Como havia uma base assim, logo embaixo (ou encima) do nariz não só dos Brancos... mas de toda a Califórnia? E... pior... como tudo isso havia sido erguido? Muitas perguntas, mas as respostas pareciam cada vez mais distante, conforme o número de perguntas aumentava.

Ficou assim por dois longos minutos... cada um tentando absorver o máximo de detalhes possível daquele paraíso atmosférico invisível... Mas, depois desse período, nem mesmo todos os sentimentos que estavam sentindo no momento pudera apagar a missão, para qual eles estavam ali.

–Pessoal... a gente vai... ou não…?

–A gente veio até aqui... – responde Heloísa para Kevin – então não vejo porque dar meia volta e correr de volta para a base... vamos enfrentar isso de uma vez.

As palavras de Heloísa conseguiram tirar os garotos do transe... pelo menos um pouco. Era uma leva tão grande de sentimentos e informações que ainda era um mistério eles continuarem se aprofundando mais e mais ainda em tudo aquilo. Talvez o instinto Assassino? Treino? Intuição Jovem? Algum tipo de mágica? Nunca se saberá...

Eles sabiam que aquela era uma parte perigosa... estavam na base do inimigo. E, geralmente, a base do inimigo é onde vários inimigos costumam circular... se esconder, montar armadilhas e, claro, detectar fácil invasores. Os passos tinham que ser cautelosos... mais ainda do que já estavam sendo.

Apesar de tudo... nada acontecia. O passo lento deles não havia alertado inimigos, armadilhas... ou até as habilidades do inimigo... estavam mais preocupados com a paisagem e com seus próprios pensamentos do que por onde o inimigo poderia sair. Ela era incrível... inimaginável. Eles pisavam no chão como se fosse chão mesmo... e não nuvens modificadas por magia. Uma base inteira feita com uma coisa tão nova para eles... faziam-nos pensar no porque os Brancos teriam abandonado essa arte.

Mas a tensão deles estava mais absurda. Se já estava tensa ao subirem as escadas... agora estava praticamente incontrolável. Todos os sentimentos, visões, sensações e temores estavam se juntando de tal forma que quase explode uma enorme panela de pressão... E, por mais incrível que possa parecer, eles continuavam a jornada pelo jardim.

Além da constante tensão... uma pequena surpresa se juntou as demais.

–Está quieto... – comenta Luca – quieto demais...

E estava mesmo. O jardim era belo... as flores e folhas farfalhavam... e haviam até pássaros cantando... mas nenhum sinal do inimigo. Nada. Era como se o inimigo nem estivesse ali... tivesse simplesmente evaporado em uma fumaça negra... ou será que eles poderiam estar lá, assistindo-os cair em uma armadilha, com um sorriso sádico no rosto?

Eram tantas possibilidades que eles mal se arriscavam a pensar mais afundo.

–Hey... as bordas desse jardim são nuvens?

–Deve ser, Felipe... – responde Heloísa – mas não é a hora de ver isso.

–Ah... – disse ele, com um rápido ar de decepcionado.

Não podiam culpar tanto Felipe... eles mesmos queriam sair pelo lugar, explora-lo, finalmente poder esclarecer várias dúvidas, que estavam martelando com ponta de aço a cabeça deles... mas sabiam que não podiam. Estavam ali em uma missão... e uma importante missão, ainda por cima. Quanto mais tempo passassem ali, mais pessoas iriam morrer... aquilo tinha que ser rápido.

A paisagem continuava fenomenal. Altos pinheiros, retos de tão bem aparados, pontilhavam o comprido jardim em uma linha reta e espaçosa. Pássaros cortavam os céus, vivendo suas felizes vidas... como se nem soubessem onde estavam. A base aparentava ficar acima do nível da neblina e até de algumas nuvens... o que possibilitou a eles um céu azul e belo, com várias outras nuvens, cumprindo sua trajetória. Um vento tranquilo fazia as flores se moverem... espantando abelhas, que procuravam seu pólen.

Aquilo nem parecia ser o que realmente era... parecia um jardim dos sonhos Europeu, e não uma Base Negra nos céus. Apesar dessas dúvidas e pensamentos mortais... continuaram pelo caminho reto.

E, assim, chegaram ao portão.

Enormes grades de ferro negro cercavam o castelo. O castelo, pelo que podiam ver, deveria ser feito de mármore negro... belas pedras dessa cor reluziam ao sol, fazendo aquela construção algo belo... apesar de continuar sendo assustadora. Uma enorme porta dupla de madeira maciça escura formava a entrada do castelo... mas antes dela, os Assassinos teriam que passar por um enorme e lustroso portão de uma cor prata... decorado imensamente com símbolos tribais e flores de metal, que separava o jardim do castelo.

Rapidamente, os Assassinos se aproximam do portão, em suas posições de defesa e ataque. O portão era incrivelmente belo... ainda mais de perto. Haviam, além de flores de metal minúsculas, pequenos anjos no topo, que apontavam as mãos minúsculas para a grande porta dupla de madeira... e esta era ainda melhor de perto. Uma madeira escura e forte, adornada de desenhos celestiais em prata... que mostravam, principalmente, anjos apontando para “algo” acima, que parecia apenas um circulo, envolto por uma estrela pontuda. Em cada um dos lados, haviam enormes estátuas de um tipo de pedra vermelho-sangue... que fazia Kevin lembrar daqueles prêmios do Oscar, que via na TV no começo do ano. E era tanta beleza que o ato foi até atrasado.

–Okay... como vamos abrir?

Todos olharam para o cadeado. Ele era ainda mais belo... era enorme e de prata, com vários símbolos tribais o cobrindo. Pareciam ter asas de anjo em torno do buraco da fechadura... e havia uma estrela acima. Tudo muito bem polido, brilhante, e encantador.

Mas Luca estava certo... a fechadura ia ser um problema. As grades eram altas, e haviam afiadas pontas encima. Pular não era uma opção... e tentar abrir uma fenda usando magia também não era lá muito produtivo...

Logo, Heloísa saca um pequeno aparelho dos bolsos. Era muito semelhante a um grampo de cabelo, mas parecia mais longo, fino e com mais engrenagens.

–Acho que posso resolver isso... licencinha...

Rapidamente, todos abriram espaço para que Heloísa pudesse se agachar, para ficar à altura da fechadura... e começar a tentar destranca-la.

–Uh... parece uma fechadura das boas... pode demorar – disse ela, enquanto ainda trabalhava.

–Tente fazer isso... e rápido – diz Kevin – eles podem estar nos observando...

Na verdade... Kevin não achava isso; tinha quase certeza. Era muito, muito difícil eles terem percorrido tudo aquilo sem o inimigo sequer tê-los notado. Não era uma possibilidade alta não ter ninguém lá... não parecia a cara dos Negros deixar a casa vazia e tão vulnerável assim.

–Tem alguma coisa errada...

–O que, Kevin? – pergunta Louis.

–Não acham estranho a gente ter vindo até aqui... sem que nada tivesse acontecido? É como se eles tivessem dando a base para nós de bandeja...

–Sabe... você falando isso agora... – Luca estava começando a captar a coisa.

–Eu tenho a impressão que estamos indo para uma...

Kevin mal tinha terminado... mas seus medos se comprovaram até antes de ele dizer a frase.

Rolou em menos de 10 segundos... e, mesmo que ficara evidente durante todo o processo, nenhum deles o notou. Como se fosse por magia, um fluxo forte de fumaça negra surge do chão de pedra e areia, mais ou menos há dois metros atrás de Kevin. Parecia um gêiser de gás... e chegou a expelir um fluxo de fumaça negra até dois metros de altura. O fluxo forte e constante de fumaça dura apenas 5 segundos... e daí outra coisa começa.

A fumaça começa a ficar mais densa... materializando algo dentro da fumaça. Parecia um vulto... sim... um vulto humano. Logo, detalhes começam a se formar através da fumaça... as partículas se uniam, e formavam um manto negro sobre o corpo do vulto. Depois de apenas 3 segundos, o fluxo da fumaça para, revelando um ser que vestia um manto negro, e um capuz no rosto, o que o deixava escuro, com a luz do sol. Apesar de não parecer... o vulto encarava o alvo a frente, com seu único objetivo em mente.

Apesar de tudo o que rolou, absolutamente nenhum dos Assassinos Brancos haviam notado. Todos estavam extremamente concentrados no cadeado e nos detalhes do castelo... E o escasso som que o acontecimento produz facilmente se mesclaram ao som que os jardins produziam.

Apenas quando o vulto se aproximou um pouco, que Felipe se distraio com um pássaro... o que o levou a voltar os olhos para o jardim. A surpresa foi tão enorme que seus olhos arregalam, e ele quase engasga.

–CUIDADO!

Mas havia sido tarde demais.

Assim que gritou isso, o vulto segue direto para um lugar inconveniente: para baixo. O ser de manto negro se agacha, logo atrás de Kevin. Mas, em um ato quase imediato, o vulto desloca violentamente a perna no chão, arrastando o pé da bota horizontalmente pela areia... dando uma rasteira mortal em Kevin. O ato não só fez Kevin despencar no chão, assustado e confuso... como também levantou uma densa nuvem de poeira no ar.

Foi tudo tão rápido... tanto que só conectaram tudo depois que aconteceu. O espanto foi tão enorme e repentino que quase faz os Assassinos caírem para trás. Kevin caí no chão violentamente, levantando ainda mais poeira ao ar... enquanto os colegas se desequilibravam sobre os próprios pés, mais confusos e assustados do que nunca. Em menos de três segundos, um Kevin em pé e aflito estava no chão, com um vulto negro encima. O vulto parecia confiante no que fazia... segurava a adaga no punho direito com vontade e determinação... e fazia o mesmo ao encostar a ponta no pescoço de Kevin.

–Sua... – Louis estava começando a se aproximar do vulto, os punhos cerrando.

–Nem mais um passo... senão seu amigo aqui vai dar um “Olá” para os anjos.

Os quatro bufaram, aflitos, nervosos e irados. Estavam sendo atacados pelo inimigo... estavam em vantagem numérica, e nada podiam fazer. Se sentiam tão diminuídos que só fazia aumentar a raiva... Ficaram estáticos no lugar, mas em posição de ataque, como se isso pudesse ajudar em algo. Os olhares estavam furiosos, e encarando o atacante, apesar da nuvem de poeira, que o deixava um pouco turvo.

A coisa era um pouco pior, do ponto de vista de Kevin.

O garoto estava estático no chão, arfando rapidamente. O simples fato de ter uma adaga brilhante em seu pescoço fazia seu coração acelerar mais do que já estava... e a temer mais do que já temia. Já tinha passado pela morte diversas vezes... mas é a primeira que ficava nervoso desse jeito. Fora pego de surpresa, sem chance de reagir.

O inimigo não estava com a cara colada na de Kevin... parecia apenas olhando mais de cima, com a adaga no pescoço dele. Havia poeira... e isso se misturava com o fato de o inimigo estar bloqueando o sol... impossibilitando que Kevin visse quem era. Ele arfava constantemente... quase tossindo por causa da poeira. Ele não sabia o que fazer... não sabia nem o que pensar. Estava em um beco sem saída... em que o único jeito de escapar era esperar e ver o que vinha a seguir.

E... digamos que não foi melhor do que o que já tinha rolado.

Os Assassinos, que estavam em posição de ataque, esperando qualquer movimento para poder reagir... ouvem ao longe alguma coisa. No começo não parecia nada demais... mas logo foi se aproximando... e eles puderam identificar claramente o som.

Eram palmas.

Os Assassinos, então, se viram rapidamente e violentamente para a direção do som. Tensão, medo aflição... tudo o que eles não queriam para aquele momento. Haviam sido encurralados pelo inimigo... e estavam sem muitas chances. E nem a visão que tiveram ajudou... na verdade, só piorou.

O que viram foi um outro vulto... vestia as mesmas roupas que o anterior... botas negras batiam ao se chocarem com as pedras e a areia do chão. Usava também um colar... mostrando um triangulo invertido. E o capuz não estava sob a cabeça.

Zack batia palmas, com um sorriso malicioso no rosto. Mas... não parecia ele, como tinham visto antes... Agora Zack surgia com uma pele meio pálida... cabelos longos e espetados... de um tom branco sinistro. E, mais sinistro que isso ainda, eram seus olhos... olhos de uma cor vermelha brilhavam com satisfação, ao ver a cena que tinha acabado de se desenrolar.

–Muito bem... muito bem...

Sabiam que era Zack... era a voz dele... era o jeito dele... e SABIAM que era ele. Ele estava mais alterado ainda... mais demoníaco... mais assustador do que era antes. Heloísa era a mais assustada... ela que tinha visto um inocente e bobo garoto à apenas dois meses atrás... via agora um ser de aparência demoníaca e maléfica, que ficara ainda pior com seu sorriso. Para todos... era algo chocante demais para se reagir.

Ele lentamente se aproximou do grupo... mas para a uns 3 metros de distância.

–Meus parabéns, Aprendiz... pelo jeito eu a ensinei bem...

Os Assassinos se entreolharam. O vulto que estava encima de Kevin agora era... uma mulher? Ou... até... uma garota?

–Nem parece que estamos lidando com os Brancos que lidávamos a um século atrás... – continuou ele, com uma voz de zombaria – não é mesmo... Aprendiz?

Era estranho a poeira ainda estar no ar... mas todos puderam ver que a tal aprendiz não respondeu nada... apenas se concentrava em manter Kevin imobilizado. Os dois nem se encaravam... nem pareciam ver um ao outro... mas, mesmo assim, Kevin e todos ali já tinham uma alta suspeita de quem poderia ser o dono do manto.

Zack para de bater palmas... e apenas as mantém juntas.

–Lacaia... levem-nos para dentro... e mate o primeiro esquentadinho que se opor a nós.

Eles engoliram em seco. Queriam reagir... precisavam reagir... mas não podiam. Estavam em um beco... totalmente sem saída, e ainda mais encurralados pela pressão e medo. A única saída agora... era obedecer Zack. Não estavam dispostos a perder vidas no processo...

–Ah... – murmura Zack – eu vou gostar muito disso...

Notas finais
Depois de um pouco de descanso...

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