Marcada pela Morte
3 Capítulo II. Azul: A cor do pecado
Notas iniciais

A menina encontrada ontem na lixeira, em frente a um prédio antigo e abandonado em Manhattan, na verdade se chamava Samanta Parker, uma garota de dezessete anos estudante da Bilt Academy e uma das nadadoras do time de natação da academia.
Após Josh reconhecer o corpo de Samanta, viaturas de policiais e ambulâncias foram acionadas. Samanta Parker foi dada morta na noite de domingo, um final de verão do ano de 2013 em Manhattan — Nova Iorque.
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O céu nublado contrastava com o clima e brisa gélida da manhã de inicio de outono em Manhattan.
Diferente do que eu, e muitos esperavam, aquela teria de ser uma manhã alegre e criativa de inicio de ano letivo para os alunos da Bilt Academy, mas ao contrário de o que todos esperavam aquela estava sendo uma manhã gélida e obscura com o cenário de lotes de cemitério e pessoas vestidas de preto andando atrás de um caixão marrom carregado por homens.
...
— Gen, pode ir – Falei enquanto saia do carro. – Eu cuido disso, pode deixar.
— O.k. – Ela piscou para mim. – Agora eu já vou indo porque estou atrasada.
Fechei a porta do veículo e esperei até que ele se distanciar-se e virasse a esquina logo mais na frente para entrar na delegacia. A sessão de depoimentos iria começar em alguns minutos, eu não queria me atrasar, mas algo me prendeu a imagem do carro partindo.
Entrei na delegacia, o movimento não estava muito corrido, haviam alguns drogados sentados em bancos, pessoas preenchendo papelada, policiais conversando sobre os trabalhos da noite anterior, etc. Fui até a recepção e um cara moreno com camisa social azul com distintivo me atendeu.
— Pois não? – Ele perguntou enquanto terminava de ajeitar alguns papeis por detrás do balcão.
— Oi. – Dei um sorriso amigável. – Me chamo Clarie Santiago, e vir para depor sobre o caso de Samanta Parker...
— Senhorita Santiago... – Ele falou como se já me conhece-se. – Desculpe-me, mas precisei memorizar o nome de todos que falarão sobre a falecida senhorita Parker hoje.
— Sem problemas... – Falei meio desajeitada.
— Por favor – Ele saiu detrás do balcão. –, acompanhe-me.
Ele me conduziu entre corredores com salas e algumas celas, policiais chegavam e saiam de plantão, e o movimento ia aumentando cada vez mais ao decorrer dos segundos.
Então fizemos uma pequena pausa em frente a uma porta, na porta tinha escrito "Departamento de Investigações", o policial tirou um cartão do bolso e passou numa maquina ao lado da o porta, após passar o cartão uma luz verde apareceu e o aparelho apitou, em fração de segundos a porta abriu, o cara da recepção fez sinal para que eu entrasse e depois foi embora.
Havia um longo corredor mais a frente, algumas cadeiras ficavam em fileira em frente de algumas portas, como se fosse uma sala de espera. Avistei Josh sentado em uma dessas cadeiras na frente de uma sala que tinha uma placa com o nome "Detetive Mason".
— Oi... – Falei enquanto me sentava ao lado dele. – Está aqui a muito tempo?
— Não – Ele sorriu para mim. – Cheguei a alguns minutos.
— Já tem gente ai na sala? – Questionei vendo que a porta estava trancada.
— Sim. – Ele afirmou. – Os pais da Samanta. Parece que o detetive quer investigar o caso por sequencia.
— Você a conhecia? – Hesitei.
— Samanta? – Ele perguntou e eu assenti. – A Samanta era uma das nadadoras da escola, era ela bastante popular, todos a conheciam...
— E eram amigos? Digo, vocês dois? – Perguntei.
— Não... – Ele suspirou. – Infelizmente não...
— Você gostava dela? – Me atrevi.
— Ah, a Samanta era maravilhosa, era uma das garotas mais charmosas da Bilt... Todos gostavam dela... – O garoto coçou a nuca.
Alguns minutos se passaram, e a porta em frente se abriu. Uma mulher de aparência jovem e acabada saia de lá, seguida por um homem de vestes sérias, ele parecia tentar manter-se firme.
Logo depois chamaram a mim e Josh para depoimentos individuais ambos em salas diferentes. Fizeram perguntas como, "Você já a conhecia?" ou "O que a levou ir até a lata de lixo naquela noite", e por fim a que de todas chamou mais minha atenção, "Por que motivos compareceu ao enterro da vítima?".
Fiquei calada por um estante, minha garganta estava seca e minhas mãos geladas, pensei bem no que iria falar ou responder, mas nada adequado vinha a minha mente, para mim a única coisa que deveria falar naquele momento era completamente a verdade.
— Para algumas pessoas, encontrar uma garota ensanguentada dentro de uma lata de lixo no meio da noite, deve ser uma experiência totalmente normal. Se permite-me dizer, aposto que qualquer outra pessoa com decência moral, que se encontra-se na mesma situação que a minha sentiria-se na obrigação de comparecer ao enterro de Samanta. – Disse em um tom de voz claro e objetivo.
O detetive fitou-me mais uma vez, seus olhos por trás das pequenas lentes de vidro de seus óculos de grau parafusado, pareciam estar semicerrados.
No fundo, eu temia que alguma consequência pesasse para mim, depois de minha resposta, mas por sorte, o detetive Mason apenas endireitou seus óculos em seu rosto e agradeceu pelo meu depoimento.
Saí da sala e fui direto para a recepção, Josh já havia ido embora e Gena não poderia me buscar. Perguntei para o homem moreno da recepção aonde ficaria a estação de metrô mais próxima, ele me deu as coordenadas e cheguei até lá sem nenhuma dificuldade.
Paguei meu bilhete do metrô e peguei o que me levaria até o Central Park, eu precisava descansar um pouco de tudo aquilo, minha cabeça estava cheia, era muita coisa para pouco tempo na cidade, será que o resto dos meus dias naquele lugar também seriam assim?
Assim que entrei, o metrô começou a andar novamente, procurei um acento que me agradasse e encontrei um, mas bem na hora o maquinista freou, e eu fui para num acento ao lado de um cara escutando musica.
Olhei para ele com um olhar aflito e ele me olhou de volta, nesse mesmo momento eu pude olhar dentro dos olhos dele, duas esferas azuis penetrantes.
— Desculpa, eu não tive intenção... – Tentei me explicar.
Mas como eu sou desastrada.
— Tudo bem. – Sua voz mansa e ligeiramente rouca soou feito musica para meus ouvidos.
Levantei-me ainda desajeitada e fui rapidamente para o local que eu iria da primeira vez.
Não pude deixar de observa-lo durante o trajeto, seus cabelos negros e desgrenhados contrastavam com sua pele nem muito clara nem muito escura, ele usava uma jaqueta preta com a gola desajeitada e seus olhos... Aqueles olhos definitivamente não saiam da minha cabeça.
Finalmente cheguei em meu destino. Assim que pus os pés no Central Park, como por impulso saquei a câmera da bolsa e saí tirando fotos de tudo. Eu adorava tirar fotos, principalmente das pessoas em seus cotidianos, gostava de como saia espontânea as fotos que tirava de pessoas interagindo com as outras na rua, brincando com seus mascotes, ou até mesmo andando enquanto mexia em seu celular.
Enquanto eu ajustava o foco da câmera para tirar fotos do lago, avistei ele do outro lado, virado em minha direção, aqueles olhos novamente direcionados para mim, aquele cabelo voando no mesmo ritmo das folhas que caiam das árvores em meio a brisa de outono, sua boca... ah, sua boca parecia ter sido desenhada em mínimos detalhes, pequena, lábios finos, mas não tão delicada, só de imaginar seu sorriso, acho que deveria ser proibido pelo poder que deveria exercer de persuadir as pessoas. Num único movimento, meu dedo relaxou-se sobre o botão da máquina e quando dei por mim já havia registrado toda aquela beleza natural vista pela lente de minha câmera.
Fiquei alguns estantes admirando a foto capturada no momento e olhei novamente para onde ele estava, mas havia um problema, ele não estava mais lá, automaticamente arregalei meus olhos, passei a vista disfarçadamente por todo o perímetro em que ele estava, mas de repetente senti algo tocando antebraço, um formigamento instantâneo apareceu-me desde o local tocado e foi percorrendo por minha espinha até chegar ao meu ultimo fio de cabelo.
Abaixei a cabeça e vi uma mão ali no meu antebraço, segui o olhar indo desde a mão, percorrendo o braço e enfim chegando a cabeça e me deparando com aqueles olhos novamente, aqueles olhos azuis, penetrantes, uma única olhada pode ser o fim, aqueles olhos deveriam ser os mais banais e proibidos.
— Com licença. – Aquela melodia penetrava em meus ouvidos.
— Pois não? – Disse ainda hipnotizada.
— Você está me seguindo?
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