Marcada pela Morte
2 Capítulo I. De frente ao ser opaco
Notas iniciais

Aos poucos abri minhas pálpebras, ainda pesadas e sonolentas, estava envolvida por um casaco grande protegendo-me do frio artificial do avião nas alturas. Olhei para o lado e vi Emily, a garota que conheci no avião, dormindo com a cabeça torta, caindo de lado. Em seguida olhei em volta e o avião estava calmo e silencioso, todos aparentavam estar dormindo.
Levantei-me devagar, com cuidado para não acorda-la, e direcionei-me até o pequeno corredor que era coberto por uma cortina azul, o corredor que separava as classes no avião.
Apertei meus olhos com as mãos fechadas, tentando esquecer-me de todas aquelas imagens que me assombram e acompanham-me há anos e anos. Respirei fundo e endireitei as mãos, quando minha visão focou, vi um cara médio de cabelo lambido, jaqueta de couro marrom e uma camisa polo. Em seguida, uma mulher, um pouco mais baixa do que ele, vestida de aeromoça, envolvida pelos braços do mesmo que a prendia contra a parede.
Para meu azar, estava indo ao toalete, que ficava na porta onde exatamente os dois estavam escorados. Revirei os olhos e passei por eles sem pensar duas vezes. Arranhei a garganta chamando-lhes atenção, logo em seguida, o rapaz virou-se para mim encarando-me de cima a baixo.
— Se os dois me derem licença – Falei em tom rude. –, preciso ir ao toalete.
A aeromoça corou, enquanto ficava cabisbaixa, saindo de fininho para a classe seguinte do avião, ela deve ter murmurado qualquer coisa como um “desculpe-me.” ou “licença”, mas não dei importância.
Abri a porta e o rapaz ainda me olhava, ignorei-o e fechei a porta, trancando-me na pequena cabine.
Olhei-me no espelho, estudando cada detalhe de minha expressão exausta, meus olhos estavam inchados, olheiras os seguiam logo a baixo, eu estava péssima. Lavei meu rosto, peguei alguns papéis toalhas e sequei-o.
Saí da cabine e o rapaz ainda estava lá, encostado na parede em frente, com os braços e pés cruzados. Ele novamente fitou-me de cima a baixo.
— Me chamo Emmet. – Ele dizia num tom grave. – E você?
— Acho que não deve ser de seu interesse. – Retruquei.
— Calminha – Ele dizia enquanto ajeitava-se em minha frente. –, estou apenas perguntando seu nome, não sua ficha de antecedentes.
Revirei os olhos e dei de ombros enquanto voltava para meu assento.
— Senhores passageiros, por favor, apertem os cintos, iremos pousar em alguns minutos. – O piloto dava o aviso, acionando um painel com cintos de segurança ilustrados.
Sentei-me rapidamente, enquanto Emily acordava lentamente.
— E ai... – Ela bocejava. – Como se sente a minutos de chegar a seu novo lar?
— Estou normal. – Disse encaixando o fecho do cinto. – Eu acho...
— Está bem. – Uma voz masculina da fileira de poltronas ao lado falou. – Você passou a viagem toda e não vai me apresentar sua nova amiga?
Emily gargalhou, enquanto um sorriso maroto estampava-se nos lábios do mesmo garoto que havia visto com a comissária de bordo, minutos antes.
— Você... – Murmurei baixo, para que só eu ouvisse.
— Emmet – Emily dizia –, esta é a Clarie. Clarie, este é meu irmão Emmet.
— Oi. – Disse sem olhar para o rosto dele.
...
— Acho que posso ajuda-la com isso. – Uma voz pouco conhecida sussurrava em meu ouvido, enquanto eu pegava minhas malas.
Virei-me para trás e dei de cara com Emmet.
— Acho que sou totalmente capacitada para levar minhas coisas sozinhas...
— Ótimo. – Ele pegava duas de minhas malas e colocava no carrinho de bagagens do avião.
— Você é muito idiota sabia? – Falei brava.
— É o que me dizem – Ele encolheu os ombros. – Seria muito atrevimento, se eu pedisse seu telefone? – Ele perguntou enquanto passava a mão na nuca.
— Sim! – Falei séria enquanto sua expressão parecia divertida.
Revirei os olhos peguei o carrinho e fui embora.
Posicionei-me com a maquina fotográfica ao lado de um táxi em uma das rampas de veículos do aeroporto, tirei uma foto do contrastes de luzes que haviam no horizonte naquele começo de tarde, o que me fez lembrar de Luke, meu ex namorado. Terminamos por causa da minha ida para Manhattan, e seria completamente egoísmo se eu o pedisse para largar tudo e vir comigo, e também seria tolice rejeitar uma bolsa de estudos para a Bilt Academy, uma das academias mais requisitadas de todo os Estados Unidos da América, só as pessoas mais qualificadas encontram vagas.
— Clar! – Uma figura jovem e animada vinha até mim.
Como esquecer? Essa com certeza era Gena, minha tia de que todos falavam e só conviveu comigo durante minha infância. Apesar de adulta, tia Gena sempre manteve o jeito moleca de ser, e sem falar de sua aparência sempre mais nova em comparação a outras mulheres de sua idade.
— Gena! – Nunca a chamei por Tia, ela sempre gostou de Gen, ou Gena.
— Como você cresceu! – Ela me rodopiava enquanto me olhava de cima a baixo.
Ri sem grassa.
— Você chegou a muito tempo? Me desculpe o atraso, estava fechando negocio com um comprador na galeria, do outro lado da cidade... – Ela falava tão rápido que quase atropelava as falas.
— Sem problemas... – Dei um sorriso torto.
Fomos até o carro dela e conversamos o caminho todo. O transito de Manhattan estava um caos. Gena falou que era por causa que os Novaiorquinos sempre deixam as voltas das férias para ultima hora...
— Então... – Ela abriu a porta de seu apartamento em Midtown, localizado entre o bairro nobre de Manhattan e o Brooklyn.
O apartamento era grande, logo que entravamos víamos um tapete longo espalhado-se pela sala, enquanto uma enorme parede de vidro iluminava o ambiente; a direita tínhamos uma bancada de mármore e logo atrás uma pequena cozinha improvisada, com fogão, geladeira, microondas, etc; a esquerda tínhamos, o que parecia ser uma sala de estar, com um sofá grande, uma mesinha de centro, duas poltronas e uma TV de LED na parede de tom pastel.
— Nossa... – Falei enquanto girava para poder olhar cada mínimo detalhe.
— Seu quarto é ali. – Gena apontou para um pequeno corredor, um pouco antes da cozinha, perto da porta de entrada.
— O.k... – Andei até lá enquanto puxava duas malas com rodinhas.
Gena abriu a porta para mim. O quarto era extenso, logo que abríamos a porta víamos uma cama de casal grande, com o colchão nu; do lado esquerdo uma janela e uma pequena estante com alguns livros, havia também uma parede que dividia o banheiro do quarto, e duas portas marrons, que era o armário embutido na parede; ao lado direito uma escrivaninha vazia e uma prateleira em cima.
— Aqui temos... – Gena tirou alguns lençóis e travesseiros do armário. – Alguns edredons e travesseiros...
Sentei na cama e fitei-me no espelho na parede em frente a ponta da cama, ao lado da porta.
— Suas coisas chegaram a dois dias, as caixas estão todas no deposito... – Gena colocava os lençóis e travesseiros em cima da cama. – Se você quiser arrumar suas coisas, seus livros da escola já estão ali... – Ela apontou para a pequena estante a baixo da janela. – Estarei no meu ateliê de pintura, logo aqui ao lado...
— Está bem. – Respirei fundo enquanto Gena retirava-se do quarto e fechava a porta.
Ajeitei os edredons, lençóis e travesseiros em cima da cama e então fui até o armário, coloquei as roupas que estavam dentro das malas lá e ajeitei outras coisas nas prateleiras e estantes espalhadas pelo quarto.
— Gena! – Gritei para que ela pudesse ouvir de dentro do ateliê de pintura. – Estou indo pegar minhas caixas!
— O.K.! – Ela gritou de dentro do quarto que havia ao lado da sala de estar.
Saí sem trancar a porta, porque lógico que eu iria voltar com uma caixa pesada e ficava mais fácil sem destrancar.
Fui de elevador até a portaria e avistei um pequeno cartaz escrito "Estou ausente em um momento, volte mais tarde.", ótimo, teria de achar o deposito sozinha! Saí andando pelo condomínio atrás de qualquer coisa que parecesse com um deposito ou um galpão. Passei pelo pátio, pelo estacionamento, e pela área de lazer para crianças, e nada de galpão.
Eu estava passando por perto de uma piscina grande com a água tão limpa que chegaria a ser transparente. Lembrei-me de quando ia para o ginásio poliesportivo do bairro onde morava, era tão bom a sensação de nadar e mexer os braços cortando a correnteza, poder estar livre, como um peixe... Meus pensamentos foram todos, literalmente por água a baixo, esbarrei em alguém e dei de encontro com o chão.
— Me desculpe, eu estava aqui passando pela piscina e derre... – Falei depois de me levantar.
— Calma... – Um garoto não tão alto de voz grave, falou.
Algumas mexas de seu cabelo ruivo molhado, caiam de leve sobre seus olhos, seus olhos num tom azulado e ligeiramente esverdeado se destacavam a luz do sol no final da tarde, as gotas de água escorriam por seu abdômen, seu tanquinho levemente modulado o deixava ainda mais irresistível.
— Você está bem? – Ele perguntou dando um breve sorriso torto.
Retribui o sorriso e coloquei uma mexa de cabelo que estava fora do lugar para trás, enquanto ele segurava as duas pontas da toalha verde em volta de seu pescoço.
— Sim estou, obrigada. – Esclareci. – Ah, me desculpe... Sou Clarie. — Estendi o braço.
— Josh. – Ele apertou minha mão.
— Vem cá – Ele mexeu a cabeça fazendo com que as mexas de cabelo molhado fossem para seu devido lugar. –, você é nova aqui, não é?
— Sim, sou... – Franzi o cenho e ri.
— Não... – Ele parecia desajeitado. – É que eu nunca te vi por aqui, e já faz um tempo que moro aqui...
— Sem problemas... – Ele ria sem grassa. – A proposito, você sabe onde fica o deposito?
— Claro, eu te levo lá. – Ele deu um sorriso maroto e seu olhar era radiante.
Passamos pelo pátio e por alguns corredores com escadas que separavam os blocos do prédio. Enfim, chegamos até uma porta branca, que guardava um corredor escuro.
— Então... – Ele acendeu as luzes. – Aqui está.
Um corredor cheio de espaços que pareciam lotes com caixas dentro. Procurei pelo número do apartamento da Gen, e várias caixas grande, estavam lá.
Puxei uma das caixas que estava mais a frente e arrastei, até metade do corredor, eu não me lembrava de ter coisas tão pesadas assim...
— Precisa de ajuda? – Josh perguntou.
— Não. Não mesmo. Sem chances. Não vou pedir para você me ajudar com isso... – Falei pausadamente.
— Que é isso... Claro que eu vou te ajudar com isso, sem problemas. – Ele ia até mim.
Josh pegou a caixa que eu estava arrastando com a maior facilidade e levou até o elevador que havia em frente a sala. Então voltei para o lote e peguei uma caixa que parecia ser fácil de se carregar, levei-a até o elevador enquanto Josh já trazia outra.
Ajeitamos todas as caixas de forma em que sobrasse espaço para subirmos até meu apartamento.
— E ai, onde que deixo? – Questionou ele.
— Pode deixar em frente a porta de entrada, por favor. – Apontei para a porta do apartamento. – Obrigada.
Empurrei todas as caixas para dentro em seguida entrei. Gena estava deitada no sofá assistindo televisão, enquanto o congestionamento lá em baixo só aumentava e as buzinas de carros e motos se tornavam cada vez mais nítido aos ouvidos de quem passava.
— Estava conversando com quem lá fora? – Gena se virou com um sorriso moleque no rosto.
— Um amigo. – Me fiz de desinteressada.
— E esse amigo é gato? – Ela deu um sorriso maléfico.
— Gen! – Virei-me surpresa para ela.
— Numa escala de um à dez, ele merece um doze ou um número abaixo de zero? – Insistiu.
— Acho que um dez e meio. – Hesitei.
— Uau! – Ela levou a mão a testa. — E vocês combinaram de sair?
— Gen! Eu acabei de conhece-lo! – Isso foi bastante estranho, até para a Gena.
— Ta o.k., senhorita certinha. – Ela revirou os olhos e caminhou até a cozinha. – Vou pedir pizza, o que acha?
— Claro, eu adoraria comer pizza. – Afirmei.
Arrastei as caixas até meu quarto, eu realmente estava passando por um momento de nostalgia naquele momento, cada foto, cada 'brinquedinho' que eu tirava daquelas caixas, milhares de lembranças se passavam em minha cabeça como se fossem um filme preparado com roteiro.
Até que tive uma maravilhosa ideia, peguei um lençol colorido, coloquei na parede em cima de minha cama, e o enchi de fotos que tirei com meus amigos e familiares, realmente estava com bastante saudades de todos eles.
...
Algumas horas depois de eu ter terminado tudo, Gen bateu na porta do meu quarto, avisando que havia uma visita para mim.
Caminhei pelo pequeno corredor que ligava meu quarto a sala e avistei Josh parado de costas para mim, olhando para sala.
— Josh. – Dei um leve sorriso de canto de boca.
— Oi. – Disse virando-se para mim, com as mãos enfurnadas no bolso de seu casaco.
— Pois é... – Disse enquanto esperava uma explicação do porque ele estava aqui.
— Então, eu queria saber... – Coçou a nuca. – Se você não queria, ir a uma cafeteria, aqui perto, comigo...
— Bem... – Comecei.
— Claro, ela adoraria ir! – Gen passou sua fala em cima da minha.
— O.k. – Tentei dar um sorriso mais simpatizante possível. – Então, eu vou pegar meu casaco.
Fomos até uma cafeteria simples, um lugar aconchegante e social, parecia um pub em miniatura. Pedimos um cappuccino com chocolates e falamos sobre musicas e bandas da antiguidades, algo sobre Beatles ou os Rolling Stones. Ele era realmente incrível, tinha bom gosto pra musica, leitura, um sonho...
Estávamos andando por uma rua com alguns postes de luz, a maioria estavam queimados, ao lado havia um prédio antigo, parecia estar abandonado.
— Então, o que me diz de J.K. Rowling e George R. R. Martin? – Perguntei enquanto terminava meu cappuccino.
— Assassinos! – Ele foi rápido e claro.
— Assassinos? – Ri em deboche.
— Claro! – Ele parecia ofendido. – Que tipo de pessoa mata personagens como o Sirius Black?!
— É preciso concordar... – Caminhei até uma lixeira grande de lixo, ali perto.
Abri a lixeira, olhei dentro do do recipiente de lixo grande, escuro e fedido. De repente, minha visão focou-se ainda mais e percebi lábios arroxeados estampando a pele extremamente pálida de uma garota, pingos de um liquido de consistência cremosa e cor rubra espalhavam-se por e contrastavam no branco de sua pele, seus olhos sem brilho e sem vida penetravam e encaravam um único ponto físico. Dei o grito mais horrendo de toda a minha vida. Havia uma menina desacordada toda ensaguentada entre os sacos de lixos. Josh correu até mim e tomou um susto com a cena.
— Josh... – A esse ponto eu já estava chorando histericamente. – Essa garota está morta?!
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