Marcada
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo 4
Isabella
Caminhava pela floresta escura, os únicos sons presentes eram os dos galhos quebrando quando meus pés pisavam neles. Meus pés doíam e sangravam. Algo me dizia que eu não podia andar assim. "Limpe seus pés", uma voz me pedia, urgente. Eu vinquei a testa e olhei para meu corpo. Apenas algumas roupas esfarrapadas e sujas o cobriam. Continuei a andar entre as árvores. Escutei uma voz melodiosa me chamar. O tom me atraiu e eu procurei a origem do som. Pulando troncos caídos no chão, cheguei perto de uma árvore familiar, reconheci a árvore da clareira em que eu estava dias antes. A voz melodiosa havia sumido, sendo substituída por uma risada maldosa. Sentei-me encolhida perto do tronco de árvore e puxei minhas pernas para um abraço. Procurando em vão por alguém conhecido, assustei-me quando um ser caiu na minha frente, como se estivesse em cima da árvore que eu repousava, me esperando. "Olá, Bella". A ruiva sorriu doentiamente para mim, eu reconheci o monstro na minha frente. "Victoria" minha voz saiu de minha garganta quase em um sussurro. Seu sorriso se alargou. "Enfim nos reencontramos". Ela não estava morta? Antes que eu pudesse raciocinar, senti sua mão fria pegar meu pescoço fortemente e me levantar. Peguei sua mão forte com as minhas frágeis, tentando me desvencilhar do aperto, em vão. Victoria era forte. "Me solta", gritava e esperneava. Minha visão começava a se desfocar por causa da falta de oxigênio. Suas risadas ecoavam pela floresta.
- Bella?
- ME SOLTA!
- BELLA?
Minhas mãos ainda apertavam algo frio, mas o toque era diferente demais do toque eu havia sentido há pouco tempo. Meu coração estava disparado e meus olhos pesados, minha cabeça tinha voltado a doer. Eu tremia.
-Bella?
O chamado agora mais suave me despertou completamente. Eu abri mais meus olhos e Edward me fitava, sua mão fria pousada no meu braço. Os olhos dourados passavam preocupação e pesar.
- Pesadelo.
Ele me explicou, sem precisar. No momento em que me vi no meu quarto, já sabia que o pesadelo havia me assaltado de noite. E que não ia parar. A risada de Victoria ainda retumbava na minha mente, me dizendo que eu havia me livrado dela, mas que ela ainda iria me visitar nos meus sonhos.
Eu olhei para Edward e respirei fundo. Minhas mãos ainda tremiam e eu me levantei da cama rapidamente. Tudo girou. Fechei meus olhos me concentrando no chão aos meus pés.
- Bella?
A voz de Edward deixava clara sua preocupação. Eu olhei para o vampiro e esperei pelo pior.
- Você está bem?
Respirei fundo, agradecendo mentalmente que Edward não havia me perguntado sobre o pesadelo.
- Estou, só estou com um pouco de fome.
Mentira. As paredes pareciam ter vida própria, se mexendo e me deixando tonta. A fincada na minha cabeça havia voltado e eu não conseguia apagar da minha mente o maldito pesadelo. Mas Edward havia acreditado, ou fingia ter acreditado. Ele se levantou da minha cama e abriu a porta para mim.
- Coma algo, eu não posso descer. Charlie estava dormindo no sofá, mas acordou devido aos seus gritos.
Eu me alertei. Charlie já não estava conversando direito comigo por causa do meu sumiço repentino. Se meu pai percebesse meus pesadelos freqüentes, ele ira culpar o ser que agora me olhava esperando uma resposta.
- Ele vai subir se você não descer.
Passei as mãos nos cabelos e senti os nós formados durante o sono. Edward me fitava sério.
- Você me espera aqui?
Ele travou o maxilar, e enrijeceu. Eu percebi a mudança no seu corpo, mas não perguntei o motivo, apenas esperei sua resposta.
- Sim.
Assenti para Edward e saí do quarto, descendo calmamente as escadas. Eu teria que comer algo para minha mentira ser coerente. Fome era a última coisa que eu estava sentindo no momento. Medo e preocupação impregnavam meu corpo. Edward não percebia isso, pelo menos. Eu fazia um grande esforço para não mostrar o medo que eu estava sentindo no momento. Se Jasper estivesse no meu quarto, ele sentiria.
Jasper.
O nome do vampiro surgiu na minha mente e eu me lembrei de que não o havia visto desde que ele tinha salvado minha vida. Meu cunhado esteve caçando o dia inteiro e não tinha aparecido na casa dos Cullen até o momento que eu tinha ido embora. Por quê?
Várias perguntas relacionadas ao vampiro estavam na minha cabeça. Uma delas eu já havia feito duas vezes, mas Edward não tinha me respondido. Eu queria saber mais da experiência de Jasper, a experiência que Edward tanto falava. A curiosidade era uma fraqueza humana, e isso eu não podia negar. Infelizmente a minha começava a tomar proporções grandes.
Ao chegar ao final da escada, Charlie já estava parado e me fitando. Eu assustei-me momentaneamente, colocando a mão no peito. Sua expressão não havia se alterado. Esme contando ou não uma história, meu pai nunca iria perdoar Edward, e nunca iria me perdoar. Charlie nunca iria entender realmente o que havia se passado, mas ele não era tão burro a ponto de acreditar que apenas uma briga de casal havia feito sua única filha sumir por dias.
- Pai.
Ele olhou para o chão e eu passei por ele, caminhando até a cozinha. Charlie não subiu, mas me seguiu até o cômodo. Eu abri a geladeira para procurar algo que eu pudesse comer rápido, mas não havia nada, apenas alguns peixes no freezer, resultado do fim de semana de pescaria do meu pai. Suspirei e fechei a geladeira, passando rapidamente meus olhos pelo aposento. Caminhei em direção ao armário e o abri. Peguei alguns pães de formas. Charlie me olhava com atenção.
Isso já estava me irritando.
- Vou fazer sanduíches, quer?
Perguntei para quebrar o silêncio que estava na cozinha. Meu pai puxou uma cadeira da mesa e se sentou, tamborilando os dedos na madeira. Eu olhei para ele com o saco de pães na mão e arqueei as sobrancelhas, questionando-o.
- Não. Mas quero conversar com você.
Revirei os olhos e abri a boca para mencionar que ele já havia conversado comigo sobre o assunto três vezes em menos de um dia. Mas ele fez um gesto com a mão, para eu desistir da tentativa de retrucar. Eu obedeci.
- Estou preocupado com você, Bells.
Abri o saco de pães e tirei duas fatias. Caminhei até a geladeira e peguei um pote de manteiga. Olhei novamente para meu pai e me sentei, esperando pelo sermão. Ele me olhava atentamente.
- Não estou preocupado com seu namoro, filha. Mas com você.
Eu parei de passar manteiga no pão e quase deixei a faquinha cair. Essa era nova, Charlie finalmente desistiria de tentar me afastar de Edward? Eu quase não acreditei no que estava ouvindo. Ele continuou.
- Seus pesadelos não me deixam dormir. Você só dorme desde quando chegou, mas parece sempre cansada.
Seus olhos agora passavam preocupação. Eu finalmente entendi o lado de Charlie. Devia ser duro para um pai ver a filha em tal estado. Eu só não poderia explicar a real situação para ele. Creio que se eu falasse que o motivo do meu cansaço era porque eu tinha acabado de sair de uma perseguição de vampiros, ele não acreditaria em mim, e eu pararia em um hospício.
- Pai, a viagem foi cansativa.
Sua expressão gritava para mim que ele não havia acreditado em nenhuma palavra. Claro que qualquer ser humano, sendo Charlie ou não, saberia que uma viagem não deixaria uma pessoa tão cansada a ponto de dormir quase quinze horas corridas. Eu mordi um pedaço de pão e comecei a mastigar, deixando minha boca ocupada para falar algo.
- Seus gritos estão cada vez piores. Cada vez que você grita, parece que está sofrendo muito.
Eu observava atentamente meu pai, mastigando o pedaço de pão lentamente. Engoli quando formei uma desculpa coerente.
- Terminar um namoro não é fácil, pai.
Ele olhou para a janela e bufou. Claro que terminar um namoro não era fácil, mas ter pesadelos com isso já era algo extremamente preocupante. Jogar a culpa no término repentino não era uma estratégia inteligente, mas eu preferia que Charlie acreditasse nisso ao invés de me questionar mais sobre o assunto.
- Só quero que você melhore, Bells.
Assenti para Charlie e engoli mais um pedaço. Ele respirou fundo e se levantou da cadeira, passando as mãos pelo cabelo e os arrepiando.
- Vou dormir. Fique bem, Bells.
Charlie saiu da cozinha. Escutei seus passos subindo as escadas e o barulho da porta do quarto se fechando. Dois segundos depois Edward estava ao meu lado. Eu continuei mastigando o pão, permanecendo no teatro de que havia descido para comer. Ele me olhava de forma séria. Eu cansei de tudo isso. Larguei o pão no prato e encarei o vampiro.
- O que foi?
Edward não me respondeu. Levantei-me da mesa e joguei o resto do pão no lixo em cima da pia, não me incomodando de lavar o prato. Edward continuava sentado. Seus braços estavam rígidos em cima da mesa e o maxilar travado. Eu detestava quando Edward ficava nessa posição.
- Edward. O-que-foi?
Falei pausadamente sem sentido, deixando minha irritação transparecer no tom da minha voz. Ele respirou fundo inutilmente e olhou para mim.
- Charlie tem razão. Seus pesadelos...
Tudo bem. Já era a segunda pessoa que falava dos meus pesadelos. Eu sabia que meus gritos não eram sons agradáveis de se escutar durante uma madrugada, mas meus sonhos falados eram algo freqüente durante minhas noites de sono. A única diferença era que em vez de falar, eu gritava. Tudo bem, talvez fosse algo digno de reclamar.
- O que têm eles?
Eu sabia que veria Victoria sempre quando fechasse meus olhos e caísse na inconsciência.
- Bella, você viu muita coisa...
Arqueei as sobrancelhas para Edward e me desviei da mesa, subindo as escadas para voltar ao meu quarto, ele me seguiu, mas não fez nenhum barulho adicional. Fechei as portas e Edward sentou-se na poltrona. Eu sentei-me na cama e cruzei as pernas, esperando.
- Tudo por minha causa.
Abri a boca em indignação. Edward tinha a grande mania de sempre se culpar por tudo o que acontecia comigo. Mesmo que esse acontecimento fosse minha pessoa tropeçar em uma pedra.
- Pode parar por aí.
Falei para o vampiro e ele se sobressaltou. Tentei controlar minha raiva.
- Edward, pare de se culpar um minuto, por favor.
Saiu da poltrona e caminhou na minha direção, sentando-se ao meu lado. Ele pegou minha mão com a sua fria e me olhou nos olhos.
- Eu coloquei você em perigo, Bella. Se algo tivesse acontecido a você, não me perdoaria.
Eu apertei levemente sua mão, mas pelo que eu conhecia de vampiros, ele não havia sentido.
- Mas nada aconteceu. Então fim da história.
Ele não relaxou, mas eu consegui um leve sorriso. Edward se deitou ao meu lado e meus olhos pesaram novamente. Eu olhei para o relógio que ficava em cima do criado mudo. Eram onze da noite. Eu havia dormido o dia inteiro e ainda sentia sono.
Preocupante.
Será que Charlie estava certo? Será que Edward estava certo? Eu nunca falaria para o vampiro que havia sonhado com Victoria, apesar de que depois do assunto conversado com ele na minha cozinha, eu confirmei para mim mesma que Edward já sabia do motivo dos meus gritos.
Mas, graças ao problema do meu sistema, Edward nunca saberia do meu medo em relação a isso. Claro que sonhar com a vampira ruiva não era uma opção que eu desejava. O medo de fechar os olhos estava grande.
Eu teria que tentar esquecer o que havia ocorrido. Mas mesmo que eu esvaziasse minha mente, ao fechar os olhos e entrar no mundo dos sonhos, meu subconsciente fazia questão de me lembrar tudo o que havia se passado, de Victoria, da sua risada, da sensação do toque frio de sua mão pegando meu pescoço, e do barulho de algo rasgando. Às vezes o sonho mudava, mas alguns itens sempre estavam presentes.
Ela me sufocando era algo novo. Nos sonhos, Jasper sempre desmembrava a mulher. Mas infelizmente eu não podia controlar isso também. Eu não escolheria ser sufocada e presenciar a morte de alguém, mesmo que esse alguém fosse Victoria. Eu escolheria continuar andando pela floresta escura, calmamente, até acordar.
Pensando melhor, se eu pudesse escolher, eu não sonharia com nada. Eu teria uma noite de sono tranqüila e em paz, para que pudesse acordar sem medo. Charlie me agradeceria por isso. Bocejei novamente.
- Vá dormir, Bella.
Ele beijou suavemente o topo da minha cabeça. Eu fechei os olhos e rezei para que os pesadelos não me visitassem. Acomodei-me na cama e o sono me embargou.
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