Marcada
6 Capítulo 5
Notas iniciais
:D
Capítulo 5
Jasper
Estava sentado na cadeira da cozinha. Meus dedos batiam na mesa de mármore com cuidado. O ambiente estava claro demais, qualquer vampiro, mesmo sem a luz acesa, conseguiria enxergar divinamente. Eu realmente não entendia essa mania dos Cullen de fingir serem humanos.
- Jasper.
A voz de Carlisle me chamou audivelmente e eu me levantei de um salto da cadeira. Caminhei até a origem do som e cheguei à sala da casa. Esme e Carlisle me esperavam, assim como o restante da família. As emoções dos vampiros presentes no cômodo tomaram meu corpo. As mesmas emoções de antes. Preocupação, medo, convicção.
A convicção vinha do patriarca da família, naturalmente. Sentei-me na poltrona ao lado do sofá que ele estava. Eu sabia o porquê de Carlisle estar assim. Havíamos conversado sobre o assunto horas atrás. A qualquer momento Edward entraria pela porta de vidro e Carlisle tentaria convencer seu filho de algo que eu não queria fazer, mas precisaria.
Passar uma noite inteira com Isabella.
Merda. Eu não precisava ser babá de uma humana. Eu não queria isso. Eu não queria passar o dia inteiro ao lado de Isabella mandando ondas de calma. A menina havia passado por muita coisa, isso não era algo a se discutir. Mas o que eu tinha a ver com isso? Já não bastava eu ter que agüentar as inseguranças de Isabella pairando pelo quarto do hotel por dias, e enfrentar três vampiros nômades. O que mais queriam de mim?
A resposta estava na minha frente. Carlisle me olhava com calma. Eu sabia que ele pensava em como facilitar minha vida e ele mesmo falar do assunto com Edward. Meu irmão adotivo não ficaria muito satisfeito com a sugestão que Carlisle daria para ele e para Isabella.
Senti dois vampiros se moverem levemente no sofá. Rosalie e Emmett estavam quietos. Alice olhava para um ponto fixo do chão. Eu conhecia essa expressão no rosto da minha companheira. Ela estava tendo uma visão. A sala ficou quieta de repente.
Os olhos dourados de Alice voltaram ao foco e ela olhou para mim e logo depois para Carlisle.
- Edward chegará daqui a pouco.
Carlisle assentiu e esperou. Eu respirei fundo, mais por mania do que por necessidade, e coloquei minha cabeça entre as mãos. Não escutava nenhum barulho no cômodo, nem mesmo quando abria meus sentidos. Apenas sons de carros passando perto da estrada.
Os minutos se passaram e eu escutei o som de um motor em particular. O motor do Volvo de Edward. Os vampiros presentes na sala se remexeram inquietos no sofá. Eu estava tranqüilo. Edward fazendo ou não uma cena, eu estava pouco me fodendo. Meu único medo era de ele aceitar a proposta de Carlisle. E eu ter que passar a ser relaxante natural.
Ele estacionou o carro na garagem. Eu sabia que de onde ele estava, daria para escutar os pensamentos de todos os presentes. Merda, eu detestava esse maldito dom. Os passos foram rápidos, subindo as escadas. Um... dois...
A porta se abriu violentamente e um vampiro furioso entrou na sala. Ele olhou para mim confuso e eu arqueei as sobrancelhas para ele, mas não falei nada, e deixei meus pensamentos limpos. Edward se voltou para Carlisle e travou o maxilar.
- De jeito nenhum.
A voz do vampiro saiu estrangulada. Carlisle olhou praticamente com súplica para o filho, pegando a mão de Esme. Edward parecia escutar cada pensamento presente na sala. Ele fitou Esme e ela pousou sua outra mão sobre a mão de Carlisle.
- Filho...
- Não, Esme. – Edward a interrompeu. – Isso é loucura.
Esme fechou a boca e desistiu mesmo sem tentar. Quando Edward colocava algo na cabeça, era difícil fazê-lo mudar de idéia. Mas eu sentia a persistência saindo de Carlisle, ele se levantou do sofá e olhou duramente para o filho.
- Bella precisará de ajuda. Diga-me filho, ela dormiu bem?
A face de Edward se contorceu. Ele parecia pensar seriamente em falar a verdade, ou inventar uma desculpa qualquer para se livrar da idéia ridícula do seu pai adotivo. Infelizmente se ele fizesse isso, eu perceberia, e Edward sabia disso.
- Não.
Todos os vampiros da sala ficaram quietos. Eu nem ousei me mexer. Não queria entrar na confusão, apesar de ser parte dela.
- Bella gritou a noite inteira, eu tentei acordá-la, mas foi inútil.
Edward, por fim, disse a verdade. Ele suspirou e colocou os dedos nas têmporas. Parecia que o fluxo de pensamentos no cômodo era alto demais.
- Edward...
- Deixe-me pensar.
Carlisle ficou quieto e voltou a se sentar ao lado de Esme. Eu cruzei as pernas e pousei uma mão na panturrilha, enquanto a outra tamborilava no encosto da poltrona, olhava o teto demonstrando descaso. Edward não poderia achar que eu estava me importando com os pesadelos da sua namorada, não é? Se ele me conhecesse, ele me pouparia de passar a noite sendo babá de sua amada.
Edward foi em direção à janela e olhou para as árvores lá fora, parecia pensar com cuidado. Eu abri meus sentidos e uma onda de confusão e desconfiança fluía de seu corpo. Fiquei com raiva, Edward não tinha direito de desconfiar de nada, nem de ninguém. Tudo bem que eu não era um santo igual a ele. Mas eu não tinha o menor interesse em Isabella, nem em seu sangue, desde que ele ficasse dentro do seu corpo e me tentasse menos. Eu acho.
O vampiro bufou e jogou as mãos para o alto. Edward se virou para a família e eu fechei meus pensamentos em um segundo.
- Acho que Bella não vai concordar com isso.
Eu ri. Eu não agüentei. Eu tentei fechar a boca a tempo para a risada sarcástica não sair, mas foi tarde demais quando me lembrei disso. Carlisle olhou para mim, acompanhado do resto da família. Abaixei a cabeça.
- O que foi?
Alice falou pela primeira vez desde que estávamos na sala. Eu filtrei as palavras para responder o que pretendia sem insultar Edward.
- Isabella normalmente não concorda com nada que diz respeito ao bem estar dela.
Frase de duplo sentido. Eu joguei o pensamento no ar e os vampiros ficaram rígidos em segundos. Eu poderia ter falado isso no sentido que Isabella era tola demais em continuar a namorar um vampiro achando que era normal. Ou eu poderia ter falado isso no sentido de que a humana não se importava com sua segurança. Nos dois sentidos, era quase escancarado que Isabella não se importava com nada.
Edward me fitava calmamente.
- Jasper tem razão.
A afirmação do meu irmão pegou todos os presentes de surpresa. Mas ele não se refreou.
- Bella acha que eu me preocupo demais com ela, não aceitará mais ajuda nenhuma. Nada.
Pronto. Estava decidido. Se um dia Edward fosse concordar com essa idéia louca e patética, eu teria a decisão de Isabella para me salvar. Pelo menos alguém tinha bom senso. Eu me levantei de um salto e passei as mãos nos cabelos. Arregacei as mangas da minha blusa social preta e minhas cicatrizes apareceram. Antes que eu decidisse dar um passo em direção à janela, Alice me olhou interrogativamente.
- Aonde vai?
Eu vinquei a testa para a vampira e olhei em volta. Todos me olhavam. Carlisle parecia querer me dar um tiro.
- Já não resolvemos tudo?
Eu pude perceber uma suspirada de alívio de Edward do meu lado esquerdo, e uma risada baixa de Emmett.
- Não, Jasper. Não resolvemos nada.
A voz de Carlisle soou urgente. Alerta vermelho. Era difícil o patriarca falar nesse tom. Eu arqueei as sobrancelhas.
- Sente-se.
Obedeci sem contestar, mas com falta de paciência. Edward voltou a ficar imóvel, mas não colocou seus pensamentos em voz alta. Emmett e Rosalie pareciam entediados. Mas Alice e Esme estavam preocupadas demais com Isabella. Eu joguei meus braços atrás do encosto da poltrona e abri as pernas.
- Bella não concordará de imediato, mas acho que se os pesadelos continuarem, e Jasper mostrar a ela que pode ajudar, ela não se objetará.
Mais que porra! Agora ia precisar de demonstração? Eu abri a boca em indignação, mas nenhum som saiu, e eu agradeci mentalmente por isso. Mandaria metade de família se foder se eu colocasse meus pensamentos em voz alta. Edward sabia disso.
- Creio que nem assim Bella vai concordar.
O vampiro falou e eu apontei para ele olhando para Carlisle. Para mim, não precisava de mais nada. Edward conhecia Isabella melhor do que qualquer um na sala. E eu concordava com ele pela primeira vez. A idéia era insana e sem juízo. Isabella não era de vidro para se preocupar tanto.
Carlisle se levantou e eu senti que ele não mudaria de idéia. Mas um fluxo novo de sentimentos me envolveu, o de certeza.
- Quando Bella tiver sua vigésima noite de pesadelo e começar a definhar, avise-me. O médico aqui sou eu, afinal.
Merda, Carlisle, aquilo era golpe baixo. Ele sabia que Edward se preocupava demais com Isabella para deixar isso passar batido. Edward olhou para o vampiro e suspirou.
- Tudo bem.
O quê? Fácil assim? Merda, Edward, por que você tinha que ser tão fraco em relação às sensibilidades de Isabella?
O vampiro me olhou, me dizendo com os olhos que tinha escutado o que eu havia pensado. Eu dei de ombros. Senti o alívio vindo de Carlisle e do restante da família, ele sorriu para Edward e olhou para mim.
- Quando?
Dei de ombros de novo. Isso não era eu que tinha que decidir, já não bastasse perder minha noite acalmando uma humana quando eu poderia estar caçando ou correndo, ou fazendo sexo. Eu amava correr, era um pouco irritante ter que estar a quilômetros de distância de sua residência para poder pensar livremente. Eu já estava louco para pular pela janela. Literalmente.
- Amanhã. Preciso conversar com Bella primeiro.
Edward respondeu a pergunta que foi dirigida a mim. Eu passei as mãos nos cabelos nervosamente, mas o gesto passou despercebido aos olhos de Carlisle, ele focava sua atenção em outra coisa.
- Edward, há quanto tempo está sem caçar?
Edward trancou o maxilar. Depois de perceber direito, eu entendi o porquê de Carlisle se referir às atividades de caça do filho. Os olhos de Edward já estavam em um tom escuro. Eu não me lembrava de ter visto meu irmão caçar por esses dias, ele havia se dedicado inteiramente a Bella.
- Eu posso me controlar.
Errado. Nenhum vampiro, por mais amor que tenha, poderia se controlar se a sede fosse muita e estivesse com uma humana bombeando sangue pelo corpo inteiro. Edward sabia disso, e eu não precisava do meu dom para saber que ele estava mentindo, nem Carlisle.
- Sabe que é perigoso filho.
O tom da voz de Carlisle era calmo, mas eu podia sentir sua apreensão saindo do seu corpo e planando na sala. As atitudes do filho eram perigosas e irresponsáveis. E depois eu que era o errado da família. Edward assentiu para o patriarca e fez menção de sair da sala.
- Vou tomar um banho e voltar para a casa de Bella.
- Não vai caçar?
Edward parou de andar e olhou rapidamente para trás.
- Depois... logo.
Não tivemos tempo de falar mais nada e ele já havia subido para o andar de cima. Escutei o barulho do chuveiro e me levantei também, eu queria sair daquele ambiente tenso e correr um pouco, pensar sozinho, sem ter pares de olhos dourados decorando cada movimento meu.
- Vá se preparar, Jasper.
Carlisle me pediu, e eu não precisava perguntar mais nada a ele para saber do que se tratava. Se eu quisesse passar a noite inteira em um quarto com Isabella, fechado, mesmo com a supervisão de Edward, eu teria que caçar.
Eu não podia estar com sede no momento. O cheiro de Isabella era bom, mas agora eu tinha algo a meu favor, ela não estaria sangrando na minha frente. E eu poderia parar de respirar a hora que quisesse, não?
Essas perguntas só seriam respondidas no momento certo. Eu me contentaria em drenar o maior número de animais possíveis e rezar para que eu conseguisse me controlar quando estivesse de frente para a humana.
Seria um problema se eu começasse a pensar em Isabella do mesmo modo que pensei depois do incidente na clareira. Edward me mataria, ou tentaria, mesmo que fosse impossível ele sair vivo de uma briga comigo. Era injusta essa imposição que fizeram a mim.
Com esses pensamentos, peguei um impulso e pulei a janela, correndo para a mata e ficando livre para pensar em tudo pela primeira vez no dia.
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