Marcada
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Jasper
Três cervos, duas raposas e um leão da montanha. Eu já estava totalmente satisfeito, mas o desejo por sangue ainda me consumia de tal maneira que me deixava louco.
Eu nunca havia concordado com Edward e seu namoro com uma humana. E tinha minhas razões para isso. Realmente, eu não era o mais controlado da família, mas eu tinha certeza de que quando acontecesse algum acidente, todos os Cullen sofreriam as conseqüências.
Assim como sofreram essa manhã.
Claro que no momento em que vi o clã de James se aproximar, eu tive certeza que Edward não conseguiria disfarçar o cheiro de Isabella. Tentativa patética a dele, soltando seus longos cabelos em volta do seu pescoço. O aroma diminuiu, mas qualquer vampiro sentiria a metros de distância.
Assim como James sentiu.
A minha irritação não se devia ao fato de nós da família termos que proteger a humana. Mas Edward insistir em namorar uma já estava passando dos limites. O pior de tudo era me induzir a gostar de Isabella também. Eu não tinha nada contra a menina, mas se meu irmão quisesse continuar com essa loucura, eu ia sugerir que ele a transformasse de uma vez. Sua escolha de mantê-la humana era ridícula. Não percebia que um dia Isabella ficaria mais velha? Isso era amor?
Alice também adorava a menina, afinal, ela tinha cativado a todos, menos a Rosalie. Tinha cativado até a mim, um pouco, por assim dizer. Humanidade já não era algo distante quando Isabella estava por perto. Sentíamos-nos bem mais vivos. Era uma sensação boa.
Mesmo eu não concordando com o perigo que Edward expôs a essa menina, não falava nada. Alice me mataria se eu colocasse minhas opiniões em voz alta para toda a família. Edward já sabia, claro. Maldito leitor de mentes. Mas ele não comentava nada. Sabia que estava errado e insistia em ficar ao lado de Isabella. Egoísmo também existia em vampiros.
Joguei a carcaça do animal que eu estava drenando para o lado e olhei para o corpo. Ele não tinha culpa do meu desejo por sangue estar no ápice. Andei para um córrego próximo e lavei minhas mãos. Respirei fundo e passei as mãos molhadas pelo cabelo. O sol já estava baixo, eu havia ficado o dia inteiro caçando. E sabia que mesmo se eu caçasse todos os animais da floresta, não ia adiantar.
Pulei para uma árvore e deitei-me em um tronco grosso, olhando para o céu. O dia fora cheio. Eu tinha certeza de que seria fácil liquidar os vampiros nômades. Já estava acostumado com isso. Mas voltar a fazer algo que eu prometera que nunca mais faria, foi difícil. Principalmente por Edward e Isabella. Se fosse pelo menos para proteger Alice...
Fechei os olhos um momento e abri meus sentidos para todos os sons da floresta. Não havia nada, apenas o barulho do córrego e das folhas das árvores se tocando. Nenhum vampiro por perto, para meu alívio. Eu precisava de um tempo sozinho para pensar.
No momento em que entrei na família Cullen, eu tive certeza de que estaria seguro. Eu nunca mais seria um fantoche de Maria, e não precisaria tirar vidas inocentes. Tudo bem que James não era um vampiro inocente. Mas voltar a matar alguém da nossa espécie fez com que todo o meu passado voltasse à tona.
A batalha fora fácil. Mesmo que o vampiro faminto estivesse se divertindo, ele não era um recém criado, e não era forte como tal. Estávamos com vantagem em números. Eu teria dado conta dos três facilmente. Edward lutava com habilidade, mas estava tão cego de ódio que não percebeu que vampira ruiva havia sumido. Seguindo o rastro do cheiro humano que Isabella havia deixado, eu pude perceber facilmente que Victoria estaria perto das árvores a leste.
Eu corri.
Quando cheguei à origem do aroma, Victoria estava com uma Isabella com dor, e isso passou pelo meu corpo. Eu senti tudo o que Isabella e Victoria sentiam. Emoções me penetravam de tal modo que eu poderia ficar louco. Dor e medo fluindo da humana. Desejo fluindo da vampira. Desejo esse que eu poderia saber o motivo facilmente. Isabella estava sangrando. Suas roupas estavam vermelhas assim como a grama que ela devia ter caído. No momento em que a ruiva exibiu o pescoço de Isabella e eu escutei seu coração bombeando o sangue rapidamente. Eu corri em direção as duas e peguei Victoria em um piscar de olhos, arrancando fortemente sua cabeça.
Um barulho de rasgo chegou aos meus ouvidos, e eu salivei. O problema é que eu não sabia exatamente o motivo de tanto veneno ter se acumulado na minha boca. Eu tinha algumas opções. Eu podia ter salivado de satisfação por ter matado a vampira a tempo. Eu podia ter salivado de desejo pelo sangue de Isabella. Ou eu podia ter salivado quando meus olhos percorreram a blusa que estava grudada nos seios da humana.
Esse era o motivo mais preocupante. Esse era o motivo de eu ainda estar na floresta.
Quando senti o cheiro do sangue, o animal dentro de mim, que eu insisti em enterrar por anos, ressurgiu. Eu era — mesmo que por segundos — novamente, o vampiro que tinha desejo por sangue humano, o vampiro que tinha desejo pelo corpo de uma mulher. Ela deu um passo à frente e estendeu a mão. O cheiro de sangue ficou mais forte e sua blusa subiu, exibindo a barriga. Acho que Isabella queria agradecer o fato de eu ter salvado sua vida, mas ela não sabia o quanto eu estava sofrendo no momento.
Eu ergui a mão e apontei para sua cabeça, que estava impregnada pelo líquido cheiroso e me convidava a saboreá-lo. Ela entendeu de imediato, e eu não demorei muito tempo ao lado dela.
Corri para os vampiros, fazendo um enorme esforço para manter minha mente sã, e chamei Carlisle. Falei rapidamente para ele o que havia acontecido e pedi permissão para caçar. Ele assentiu para mim e eu dei um rápido olhar para Alice, minha mulher apenas acenou e sorriu. O aval.
Não pensei duas vezes em correr o mais rápido que minhas pernas haviam agüentado até hoje. Dois minutos depois eu já estava longe de qualquer ser que pudesse ler minha mente, ou me escutar gemer.
Voltando dos meus pensamentos, eu me refreei por voltar a pensar em tudo o que havia acontecido. No sangue de Isabella, no seu corpo, no prazer em matar um vampiro inconveniente. Merda Jasper. Controle-se. Você não é esse monstro. Esse monstro que um dia tomou conta de seu corpo não existe mais, foi enterrado. Levantei-me rapidamente do galho e pulei, meus pés tocaram levemente o chão sem fazer qualquer tipo de barulho.
Seria seguro voltar para casa agora? Isabella ainda estaria lá?
As perguntas pairavam na minha cabeça e minha insegurança aumentou. Claro que Carlisle já devia ter dado um jeito no sangue. Mas eu não queria ver Isabella. Não arriscaria pensar o que eu estava pensando agora, no momento em que eu fitasse seus olhos castanhos. Edward me mataria. Isso era um fato.
Soquei com força a árvore que estava ao lado e ela se rachou. O barulho ecoou pela floresta e eu me repreendi. Eu tinha que me acalmar. De repente um ódio surgiu dentro de mim. Ódio de Edward, por fazer uma família de vampiros engolir sua nova namorada humana. Ódio de Isabella, por achar normal conviver com os mesmos. Ódio de mim, por ser fraco em relação ao sangue humano, e não conseguir deixar morrer por completo o monstro que eu era.
Eu realmente sempre quis mudar por Alice. Não era justo uma anja como ela ser companheira de um vampiro como eu. Era muito pura. Pura até demais. Sorri. Alice não dava conta da minha luxúria. E eu nunca reclamei. A amava do jeito que era.
Suspirei e tentei me acalmar pela vigésima vez só naquele dia. Eu tinha que parar de pensar essas coisas. Daqui a pouco Alice me procuraria com receio de que eu estivesse saciando minha sede erroneamente. Eu precisava voltar para casa, Isabella estando lá ou não. Respirei fundo, mais por costume do que por necessidade, e dei meia volta, indo em direção a casa.
A casa branca surgiu entre as árvores quando eu dei mais alguns passos à frente. A porta estava aberta, as janelas também. Mas apenas uma coisa me interessava. Segui diretamente para a garagem e vi que o Volvo de Edward não estava estacionado. Suspirei de alívio. A humana não estava mais na nossa casa.
Voltei-me para a porta de entrada e subi os degraus da escada lentamente. No momento em que entrei em casa, emoções de todos os tipos me atingiram. Insegurança, tristeza, pesar, e saudade...
Saudade? Minha pergunta interna foi respondida no momento que eu olhei para frente e uma vampira minúscula veio em minha direção, me abraçando fortemente e me dando um beijo rápido nos lábios.
- Ainda bem que chegou...
Eu fiz um esforço para não revirar os olhos. Alice nunca confiava inteiramente em mim. Ela pegou minha mão forte e entrelaçou seus dedos finos nos meus, puxando-me para a sala onde o resto da família estava presente. O sentimento de insegurança ficou mais forte e eu vinquei a testa. O que estava errado?
- Filho.
Carlisle falou e eu sorri calmamente para ele. Depois de anos, eu ficava cada dia mais grato pela sua paciência comigo, e a confiança que ele havia depositado em mim. Para falar a verdade, Carlisle parecia realmente o único vampiro presente no cômodo que entendia perfeitamente o que eu passava. Era alguém com sabedoria o suficiente para não me rotular.
- Carlisle.
Fiz um gesto com a cabeça. Os outros vampiros olharam para mim e eu senti a tensão na sala. Rosalie parecia indiferente. Emmett estava sentado no braço do sofá com as pernas cruzadas e Esme olhava para ele, se segurando para não repreendê-lo por estar sujando o móvel.
- O que houve?
Alice suspirou e foi em direção à poltrona mais próxima, se sentando graciosamente. Mas foi Carlisle que começou a falar.
- Edward está daquele jeito.
Eu arqueei as sobrancelhas. Não me surpreendia Edward estar do seu jeito mais insuportável, do jeito que só Edward conseguia ser. Dei de ombros, indiferente ao que se passava e caminhei em direção a Alice. Minha mulher se levantou e eu me sentei na poltrona, abrindo os braços para que Alice sentasse na minha perna direita. Meus braços fortes a envolveram. A sala continuava em silêncio, e eu precisava perguntar algo que estava me incomodado.
- E por que a insegurança e tristeza?
Esme se remexeu inquieta no sofá e eu direcionei minha atenção a ela. Arqueei as sobrancelhas questionadoramente.
- Edward está preocupado com Bella, Jasper.
Abri a boca para retrucar, mas a fechei. Isso não era novo, ainda mais no estado insuportável de Edward. Suspirei e passei uma mão nos cabelos. Tinha algo a mais ali.
- E vocês pretendem fazer algo a respeito?
A pergunta foi feita espontaneamente, mas causou um impacto em todos que eu não esperava. Emmett se levantou do sofá rapidamente e foi em direção à cozinha, Rosalie o seguiu. Apenas Alice, Carlisle e Esme ficaram no cômodo. Eu vinquei a testa.
- Bella teve muitos pesadelos durante as horas que dormiu aqui. Seus gritos eram altos e dolorosos. Algo muito ruim de escutar.
Esme falou com pesar. Seu instinto maternal sempre fazia a vampira ficar mais vulnerável às emoções intensas de Isabella. Eu comecei a entender o que a família Cullen queria me dizer.
- Edward, claro, quase adoeceu com isso. Acho que Bella esta um pouco traumatizada com tudo. Ela gritava para a largarem, gritava que estava sentindo dor. Eu tive que sedá-la.
Meus olhos se arregalaram. Eu não sabia que os últimos acontecimentos tinham causado tanto impacto em Isabella. E que a situação havia chegado a esse ponto.
- Ela não sabe que foi sedada, claro.
Carlisle terminou sua explicação e agora eu olhava com espanto para os três, entendendo perfeitamente o motivo da tristeza estar planando o cômodo inteiro. Todos da família consideravam muito Isabella para não sentir nada em relação a isso. Assenti para os vampiros. Alice se levantou e trocou um olhar para Esme.
- Vou tomar um banho.
Sorri para minha mulher e escutei passos na escada. O barulho do chuveiro chegou aos meus ouvidos. Carlisle e Esme olhavam para mim intensamente, eu já estava ficando inquieto com toda essa atenção.
- Carlisle, o que te aflige?
Carlisle suspirou de alívio, desde o momento em que entrei na sala, ele passava a imagem de que queria que eu fizesse exatamente essa pergunta.
- Edward está com Bella agora.
Eu assenti para o patriarca. Isso não era novidade, Edward sempre estava com Bella durante a noite.
- Não creio que Bella conseguirá dormir direito por um bom tempo.
- Provavelmente não conseguirá. – Esme disse calmamente.
Eu olhava para os vampiros com atenção. Não estava entendendo onde Carlisle queria chegar com esse assunto.
- Hoje você nos deixou orgulhosos, Jasper. Seu controle agora é mais forte.
Ergui as sobrancelhas. Definitivamente não era um assunto que eu queria tratar agora. Mas por respeito aos dois, eu assenti e continuei calado, esperando Carlisle continuar seu raciocínio.
- Não queremos ver Bella sofrer mais. Edward sofrerá junto com ela se Bella não conseguir superar o trauma de ter visto alguém rasgando um vampiro na sua frente.
Tranquei meu maxilar ao ouvir as palavras do patriarca. Eu havia salvado a humana e agora eu era o culpado por traumatizá-la?
- Não que você tenha culpa, mas acho que Edward se sentirá na obrigação de fazer a vida de Bella mais saudável de agora em diante.
Revirei os olhos. Edward estava obcecado com a vida saudável de Isabella. A menina não podia dar um passo na rua que ele já estava preocupado se ela ia cair ou continuar andando.
- E eu acho que você poderá ajudar nisso.
Engasguei com o ar e comecei a tossir. Eu? Jasper Hale ajudar Isabella Swan? Como? Carlisle só podia estar maluco. Edward nunca deixaria o elo mais fraco da família chegar perto da sua doce e saudável namorada. Doce, saudável e apetitosa namorada.
- Eu ajudar Isabella?
Perguntei para os dois e Esme me deu um sorriso maternal.
- Conversaremos com Edward sobre isso, você é o único na família que tem algo que poderá realmente fazer efeito em Bella. O dom de induzir a pessoa à calma.
Eu vinquei a testa, entendendo perfeitamente onde Carlisle queria chegar com a conversa.
- Quando você fala que eu tenho um dom...
- Digo que você poderá usar esse dom em Bella, quando ela for dormir novamente.
Ele me olhou apreensivo. Eu estava apreensivo. Eu teria que ajudar a humana a dormir? Isso só podia ser uma brincadeira de mau gosto. Quando eu acho que consigo ficar livre das tentações, elas aparecem na minha frente e gritam para que eu sucumba a todas. Mas era Carlisle pedindo. Para ele eu nunca poderia negar algo. Minha consideração por Carlisle ultrapassava meu carinho por Isabella, e muito. Assenti com a cabeça e ele respirou aliviado, levantando-se.
- Vá tomar um banho, Jasper. Você está terrível.
Acenei com a cabeça para o patriarca e subi as escadas. Sobre isso ele tinha razão. Minha roupa estava imunda, de sangue seco de animais e de terra. Fedia à Victoria também, e fedia a todos os lugares que eu havia visitado na floresta. Suspirei quando cheguei ao quarto, rezando para que Isabella conseguisse se acalmar e dormir tranquilamente antes que precisasse do meu dom para isso. Eu ficaria livre sem esforço.
Realmente tinha coisas que só aconteciam comigo.
Merda.
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