Marcada
30 Capítulo 29
Capítulo 29
Isabella
Poderia existir dor pior? Pense em mil facas enfiando em seu corpo. Multiplique a sensação por dez. Você vai ter uma ideia do que é ser transformada em uma criatura imortal. Mas não era a dor no corpo que me deixava aflita e com ânsia de vômito. O que me deixava impaciente com a transformação, era o som das batidas do meu coração ficando cada vez menos audível, fraco...
A sensação era de agonia pura, mas de libertação. No mesmo momento que eu sentia meu corpo queimar por inteiro, eu podia senti-lo ficar mais forte à medida que as chamas iam corroendo as células mais fracas, deixando apenas cinzas. Cinzas que seriam transformadas.
A sensação diminuiu aos poucos, dando espaço para meus ouvidos, já poderosos, captarem o mínimo barulho. Apenas o som do meu coração preenchia o ambiente, cada vez mais fraco. E quando eu o escutei dar a última batida, eu sabia que havia me tornado imortal.
Fiquei parada e de olhos fechados por um longo tempo, temendo acordar e descobrir que era apenas um sonho idiota. A imortalidade era desejada por muitos, mesmo que esses soubessem que tal coisa não existia.
Existia para mim.
Senti meu corpo forte o suficiente para me arriscar a abrir os olhos. O cômodo era claro demais, as cores eram mais vivas e os móveis muito mais detalhados. Eu reconheci meu quarto, mas fiquei imóvel, apenas absorvendo a quantidade de informações que meus olhos podiam captar.
Tentei me lembrar de alguns fatos importantes da minha vida humana, mas tudo parecia um borrão, como se eu tivesse sonhado uma vida inteira e acordado depois de anos. Eu sabia que depois de um tempo, as lembranças voltariam à tona, Carlisle me falou sobre isso certo dia.
Lembrar do médico fez com que meu corpo sentisse o primeiro sinal de reconhecimento, e alguns rostos familiares começaram a inundar minha mente rápida, deixando-me um pouco tonta pela quantidade de informação. Eu conseguia ouvir com nitidez o ponteiro do relógio, os carros passando com lentidão pela rua, o vento batendo com força na janela, os pequenos ruídos dos meus vizinhos... Isso estava ficando até mesmo irritante.
Mas eu senti uma coisa que me fez sobressaltar. Eu senti uma presença ao meu lado. Virei minha cabeça em um movimento rápido demais para um ser humano, o que me deixou bastante surpresa e fascinada, e eu o vi. O vampiro estava sentado ao meu lado, na cama.
Pulei da cama em um salto, ficando em um canto do quarto. Meu corpo se arqueou instintivamente, mas o vampiro apenas se levantou calmamente e deu dois passos a frente, ficando perto de mim.
Ele sorriu para mim, mostrando um rosto perfeito. Ele parecia tranquilo, como se eu não fosse nem um pouco uma ameaça a ele, como se um recém criado fosse algo normal. Isso me deixou apenas com raiva, por assim dizer.
Eu senti uma calma interior no mesmo momento, como se meu corpo estivesse relaxando sem meu consentimento, me obrigando a abaixar meu escudo.
– Isabella... fique calma.
Ouvir o tom de voz dele fez meu corpo relaxar completamente. Era Jasper, apenas Jasper. O vampiro que eu amava estava na minha frente, esperando uma reação da minha parte.
Ele era alto, um pouco mais alto do que eu me lembrava. Estava com os dois braços ao lado do corpo em uma posição contida, as mãos estavam fechadas em punhos. Ele parecia um vampiro forte, mesmo para mim, uma recém criada. Não seria o tipo de vampiro que eu confrontaria se tivesse escolha.
Mas o que mais me chamou a atenção, foi quando vi as cicatrizes de Jasper agora com olhos imortais. Elas eram bem mais visíveis sobre a pele branca, quase translúcida. As elevações em formas de meia lua poderiam assustar até mesmo os piores de nossa espécie, mas eu apenas as achava instigantes e atraentes.
– Respire.
Ele praticamente me ordenou, e eu apenas obedeci, esquecendo-me completamente das minhas próprias vontades. No momento que enchi meus pulmões de ar, eu cambaleei. Eu conseguia sentir o cheiro forte do meu quarto, o cheiro do lençol da minha cama, o cheiro da comida da minha vizinha. Porém, o mais importante, eu conseguia sentir o cheiro dele.
O mesmo cheiro, porém mais intensificado. Melhor, por assim dizer. O aroma de hortelã invadiu meus sentidos, fazendo minha boca salivar. Jasper era o mesmo vampiro que eu me lembrava, contudo, eu agora conseguia enxergá-lo ainda mais bonito, sentir seu cheiro ainda mais convidativo.
– Controle-se.
Ele ordenou novamente, mas dessa vez não consegui entender o porquê do pedido. Depois de milésimos de segundos, eu percebi que estava desejando Jasper mais do que o normal. O desejo aumentava de proporção assim como os sentidos?
Ele sorriu maliciosamente para mim, e eu me lembrei de um relance da minha vida humana. Meu último segundo como humana, por assim dizer. Jasper havia dado o mesmo sorriso para alguém que estava presente.
Alice e Edward.
Lembrar dos dois vampiros fez meu corpo inteiro se enrijecer, um rosnado leve saiu do meu peito. Achei estranho o som, não sabia que conseguia fazê-lo tão naturalmente.
– Controle-se, Isabella.
Ele ordenou novamente, dessa vez mais autoritário. Eu mostrei os dentes.
– Onde eles estão?
Uma nova onda de calma me engolfou, obrigando-me a relaxar. Eu olhei severamente para Jasper, mas o vampiro não se incomodou com meu desconforto. Ele se aproximou um pouco mais, seus olhos vermelhos cravados em mim, analisando minha reação.
– Edward e Alice já foram embora...
Aproximou-se mais um pouco, ficando dessa vez perigosamente perto.
– Claro que não foram embora por livre e espontânea vontade.
Jasper desfez o contato visual, seus olhos vermelhos correram pelo braço, e pela primeira vez eu vi uma cicatriz que parecia recente, estava mais nítida. Ele pousou a mão na marca do corpo e me olhou com olhos temerosos. Mas eu apenas senti pena.
Caminhei em direção a Jasper e retirei sua mão, olhando mais de perto sua cicatriz. Meu corpo inteiro começou a tremer. Ele percebeu isso.
– Quem fez?
Ele relutou em responder minha pergunta, eu apenas o olhei, mostrando novamente os dentes em um gesto mais automático do que proposital.
– Edward.
Minha vontade era a de matar aquele maldito vampiro de olhos dourados. Antes que eu pudesse sair do lugar, Jasper me pegou pelo braço. Eu olhei sua mão me apertando, eu sabia que com um gesto fácil, poderia obrigá-lo a me soltar, eu poderia até mesmo machucá-lo, minha força era muito maior do que a dele agora. Mas eu não queria fazer nada, parte disso era minha consciência me alertando de que não seria um gesto propriamente meu, parte disso era meu medo.
Eu tinha medo de Jasper.
Porque ele não era apenas um vampiro mais fraco me segurando. Era Jasper Withlock me segurando, um vampiro tão acostumado com recém criado como um humano acostumado em respirar.
– O que aconteceu aqui, afinal?
Perguntei, temendo a resposta. Jasper soltou o meu braço quando viu que eu me acalmara. Ele respirou fundo e olhou para a janela. Parecia cansado, mesmo que isso fosse impossível.
– Alice e Edward tentaram te levar... eu impedi... fui mordido por Edward. Alice me chamou de monstro novamente... foi bem estranha... a sensação de que eu havia te atacado, você em meus braços... eu já vivi isso.
Percebi que o vampiro estava se lembrando do meu aniversário de dezoito anos. No dia fatídico que ele tentara me morder, sem obter sucesso. De repente eu senti pena de Jasper, mas rapidamente tratei de ignorar tal sentimento, temendo que ele pudesse sentir. Mas ele não deu indícios de que havia captado nada.
– Jasper... você é melhor do que isso...
Tentei acalmá-lo, mas realmente não tinha palavras. Não acreditava ainda que Jasper sequer pensava que era inferior a Alice ou Edward, se é que pensava. Eu não sabia dizer ao certo. Sem pensar muito, terminei com a distância entre a gente, colando meus lábios aos dele pela primeira vez como vampira. E era divino. A temperatura agora não era gelada, e sim perfeita como a minha, o gosto dele era ainda melhor, eu conseguia sentir a textura da língua dele com exatidão, a maciez dos lábios, a pele de seda roçando na minha enquanto ele me abraçava.
E eu conseguia sentir agora a queimação na minha garganta.
Isso me assustou, e Jasper percebeu. De repente meu corpo inteiro travou, ficando imóvel, apenas esperando a ardência parar. Mas ela não parou. Comecei a ficar preocupada. Se o que eu estava sentindo era sede, isso se tornaria complicado de controlar mais tarde.
– Você sente sede.
Jasper afirmou, confirmando o que eu temia. Coloquei automaticamente a mão na garganta, tentando por meio desse gesto diminuir a ardência. Mas eu sabia que ela não ia parar. Pelo contrário, minha sede estava apenas começando.
– O que você quer caçar?
A pergunta de Jasper me fez sair dos meus pensamentos. Ele me olhava seriamente, e parecia esperar minha resposta com certa expectativa. Depois de alguns segundos, lembrei-me de que não havia pensado na minha possível fonte de alimentação. Eu não tinha tido tempo para isso. Engoli em seco, começando a ficar nervosa.
– Eu quero ser uma vampira... de todas as formas.
Ele sorriu para mim. Conseguia ficar mais bonito sorrindo. Caminhou para meu armário, abrindo a porta com cuidado e pegando uma roupa. Jogou uma calça e uma blusa de manga para mim.
– Não estou com frio.
Jasper revirou os olhos, e eu comecei a colocar as roupas.
– Você nunca sentirá frio. Mas os humanos precisam achar que você sente, Isabella.
Em menos de um segundo já estava devidamente vestida. Ter uma velocidade fora do normal era bem útil em certos momentos. Saí do quarto, não conseguindo ignorar a porta que estava destruída, segui Jasper até a porta do meu apartamento, saímos pelo corredor do prédio sem fazer um barulho sequer. Eu sabia que poderíamos ter pulado a janela, mas acho que eu não estava preparada para isso... mentalmente.
Pela primeira vez eu consegui ver cada floco de neve caindo na minha frente, para depois pousar delicadamente sobre os carros parados na rua, sobre os muros das casas, sobre o passeio. E eu não sentia o frio, apenas uma leve brisa no meu corpo. Respirei fundo, fazendo o cheiro de gelo misturado ao cheiro de diversos humanos entrarem pelo meu nariz. Divinos. Parecia que eu tinha entrado em uma padaria, sendo engolfada simultaneamente por vários aromas, cada um mais delicioso que o outro.
Jasper olhou para mim, esperando com que eu me acostumasse com a enxurrada de tentações. Eu pousei novamente a mão na garganta, o desespero começando a ficar intenso. Senti a mão do vampiro no meu braço, agora em uma temperatura normal. Eu teria que me acostumar com isso.
– Há um bar aqui perto onde você poderá caçar. Podemos ficar perto de umas árvores, os humanos não conseguirão nos ver.
Ele falava com facilidade, como se fosse normal matar alguém para comer. Isso me lembrou canibalismo, e eu apenas consegui ficar mais nervosa, mas assenti. Ele começou a correr, e dessa vez eu consegui enxergá-lo com exatidão, eu conseguia acompanhá-lo tranquilamente.
Jasper estacou e eu fiz o mesmo. O bar que ele mencionara estava na minha frente. Eu nunca havia frequentado tal lugar, ou eu não conseguia me lembrar dele... poderia ser uma opção, já que minhas lembranças humanas ainda não estavam funcionando direito.
Os aromas doces chegaram ao meu nariz e eu inspirei profundamente, fazendo minha garganta queimar por inteiro. A sensação de sede já estava ficando sufocante. Eu olhei para Jasper e ele apenas sorriu.
– Você pode ir até lá e atrair algum humano, ou pode simplesmente esperar algum sair e...
Não terminou a frase. O sorriso de Jasper se esvaiu no mesmo segundo. O vampiro fechou os olhos e respirou fundo. Parecia buscar calma no momento. Eu não entendi de imediato, mas depois eu senti. Dois aromas, mas não dois aromas humanos. Dois aromas que eu me lembrava fracamente, mas que agora estavam mais fortes, fazendo meu nariz poderoso se irritar. Por incrível que pareça, os cheiros que eu sentia não eram tão bons quanto eu achava.
Meu corpo inteiro se arqueou, a lembrança da marca no braço de Jasper fluiu por toda minha mente, um rosnado severo saiu do meu peito. Jasper fez o mesmo som, porém mais masculino. Eu fechei os olhos quando o cheiro se intensificou, e pela primeira vez, meu ouvido captou com clareza o tom de sua voz. O nojento tom de sua voz.
– Bella... não faça isso.
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