Marcada
23 Capítulo 22
Jasper
Os dois malditos vampiros estavam bem na nossa frente. Infelizmente eu poderia me rotular de vampiro sem sorte, não era possível que Alice e Edward tenham resolvido caçar no mesmo lugar em que eu e Isabella estávamos, e no exato momento.
Eu rosnei em advertência para os dois. Alice se aproximava cautelosamente, e eu pude sentir sua surpresa ao me ver com Isabella ao meu lado. Isso indicava que minha ex-mulher não estava enfiando seu maldito dom no meio da minha vida. Uma sensação de conforto passou pelo meu corpo ao constatar isso, a última coisa que eu precisava era de uma vampira irritante olhando meu futuro.
Edward estava mais em choque. Seus olhos dourados estavam fixos em mim, porém, por mais que os movimentos do vampiro fossem rápidos, eu consegui vê-lo olhando para Isabella. A confusão era a principal emoção que emanava do seu corpo. Ele se aproximou alguns passos, ficando exatamente ao lado de Alice, perto.
Eu permaneci onde estava. Minha mão ainda estava na frente de Isabella, temendo que ela fizesse algum movimento tolo. Eu senti a confusão de Edward se transformar ligeiramente em preocupação. De imediato eu não entendi o motivo da mudança, mas depois eu percebi que estava mais próximo de Isabella, e os dois vampiros que agora eu fitava nunca haviam visto isso.
Edward olhou novamente para Isabella, demorando um pouco mais e se aproximando dois passos. Um rosnado de advertência saiu do meu peito.
Não se aproxime dela.
Eu pensei claramente. Edward parou de súbito. Sua testa lisa se vincou e seus olhos dourados perderam momentaneamente o foco, como se estivesse tentando ler um pouco mais meus pensamentos. Mas eu havia treinado bastante para conseguir fechá-los totalmente quando quisesse. Eu tinha certeza de que tudo o que ele via era um abismo escuro. Tudo o que ele precisava ler em minha mente, ele havia lido.
Não se aproxime dela.
Coloquei em pauta, quando um novo rosnado saía do meu peito novamente. Uma sensação familiar de proteção e possessão percorreu meu corpo, a mesma sensação que eu tive quando encontrei Michael no Alasca.
Alice se aproximou também e ficou ao lado de Edward. Eu sabia que pela distância que nós estávamos, eles poderiam ver perfeitamente a cor dos meus olhos, mas no momento eles deveriam estar vermelhos escuros. Eles sempre tendiam a escurecer devido à raiva. Ambos os vampiros estavam preocupados, e isso só me irritou mais.
- O que está fazendo com Bella em Forks, Jasper?
Alice me perguntou em um tom mínimo. Isabella permanecia quieta, apenas vendo os lábios finos de Alice se moverem rapidamente.
- Fale normalmente, Alice.
Minha voz saiu rouca e ela me olhou confusa.
- Fale de modo que Isabella escute.
Ela desanuviou a expressão e seus olhos dourados fitaram Isabella por breves segundos.
- O que está fazendo com Bella em Forks, Jasper?
Alice voltou a me perguntar, dessa vez em um tom que Isabella pudesse ouvir. Eu senti uma leve confusão saindo de todos os corpos presentes. Uma fincada na minha cabeça denunciou que Edward estava tentando me ler, e eu fechei ainda mais minha mente, deixando o vampiro furioso.
Eu não responderia a pergunta. Falar o que eu estava fazendo com Isabella em um bosque em Forks implicava em contar a história inteira para os dois vampiros.
Isso incluía nossa primeira noite, quando eu ainda estava com Alice.
Eu nunca contaria nada para eles. Senti Isabella se remexer levemente ao meu lado, como se estivesse incomodada com algo. Uma sensação de saudade saiu de seu corpo e eu fiquei nervoso quanto a isso. Mas definitivamente o sentimento era direcionado à Alice, já que a garota estava olhando para a vampira. Não me surpreendi. Alice sempre fora importante para Isabella.
Seus olhos achocolatados encontraram os olhos dourados de Edward. Ele ficou tenso, esperando a reação da garota. Eu senti uma raiva crescente por parte dela. Seu corpo frágil se enrijeceu.
- Como você pôde fazer aquilo comigo?
Isabella deu um passo em direção ao vampiro e eu a peguei pela cintura, impedindo-a de se aproximar mais. Percebi dois pares de olhos fitando meu braço quando eu a enlacei, a surpresa fluiu por todo o bosque. Tive que me conter para não sorrir.
- Como pôde? Deixando-me em uma floresta? Você sabia que eu precisei ser procurada por lobisomens? Eu fiquei perdida, Edward! Eu fui salva por Sam Uley! Eu corri atrás de você a noite inteira por essa maldita floresta! Mas você foi covarde demais para me dar uma explicação mais elaborada do que a que deu, não é?
Eu estava surpreso com as novas informações. A raiva já estava começando a me afetar, eu tentei projetar alguma calma na garota, mas o ódio dela estava neutralizando meu dom, como se ela estivesse virando um maldito escudo igual antes. Sempre quando minha Isabella estava furiosa, ela ficava imune a mim.
Minha Isabella?
- Você continuou sua vida gloriosa calmamente, não é? Eu tive que juntar meus pedaços e viver normalmente, sabendo que fui rejeitada por alguém que antes dizia que me amava, mas que falou tranquilamente que eu não era boa o suficiente, não é? Você disse que não me queria, Edward, e eu tive que conviver com o sentimento de rejeição por anos, até me recuperar e decidir que não valia a pena ser uma morta-viva por sua causa.
As palavras de Isabella batiam na minha consciência e faziam com que minha raiva se juntasse à dela. Seus olhos estavam cravados nos de Edward; o vampiro nem piscava. Alice não estava surpresa, algo me dizia que a história completa que Isabella estava contando não era algo inédito para ela. Isso só fez minha raiva aumentar. Eu sabia que Edward havia dito à Isabella que ela não era a mulher certa para ele. Ele precisou dizer isso, ele precisou dar algum motivo à humana para que ela desistisse da ideia de ter um vampiro como companheiro.
Mas saber que Edward havia a abandonado daquele modo em uma floresta era novo para mim. Sam Uley, o lobisomem? Ele havia salvado-a? Só de pensar que Isabella esteve em braços de algum cachorro eu tive vontade de arrancar cada pedaço de Edward com as próprias mãos. Se dependesse de mim, nenhum homem – vampiro, humano, ou lobisomem – encostaria nela novamente.
Ela havia sofrido uma rejeição igual a mim. Eu sabia perfeitamente pelo que ela tinha passado, ou quase. Eu abandonei a família Cullen, ela havia sido abandonada. Essa sensação eu não sabia como era, mas ao ver o rosto dela contorcido em raiva e agonia, julguei que não era uma sensação agradável. Minha raiva já estava afetando a todos, eu sabia que de uma forma ou outra eu teria que aliviá-la. Para não matar os vampiros que estavam à minha frente, decidi que seria a hora certa para dizer o que eu sabia.
- Edward viveu sua vida gloriosa calmamente, Isabella, porque ele não precisou se preocupar com você. Ele tinha a Alice.
O coração da menina parou por milésimos de segundos, antes de começar a bombear o sangue rapidamente, demonstrando sua surpresa. Os olhos castanhos corriam pelos dois vampiros; a boca se abriu ligeiramente. Alice travou o maxilar e me olhou com fúria. Edward acompanhou o gesto da vampira.
- Os dois estão juntos, Isabella.
Antes que eu pudesse olhar para Alice e Edward, eu vi o corpo de Isabella cair. Segurei-a em meus braços e a puxei para meu colo. Ela havia desmaiado, eu podia sentir a neutralidade de suas emoções, ela estava inconsciente. Edward tentou se aproximar e eu rosnei. Meu rosnado saiu mais severo.
- Não se aproxime de Isabella, eu já disse.
Seria a última ação que ele faria em vida. O braço fino de Alice puxou o de Edward e ela aproximou o ouvido do companheiro.
- Não vale a pena, Edward. Você sabe que Jasper é um monstro quando quer.
Ele me olhou e eu rosnei.
- Se você se aproximar de Isabella novamente, vai conhecer o verdadeiro monstro que eu posso ser.
Eu vi os dois vampiros correrem para as árvores. Seus aromas ficando leves, a tensão do ambiente melhorando à medida que eles se afastavam. Eu respirei fundo. Isabella ainda estava no meu colo, o calor do seu corpo aquecendo a pele fria dos meus braços. Eu olhei para ela e aproximei-a de meu rosto, depositando um beijo em sua testa.
Esperei mais alguns minutos, até eu mesmo entrar entre as árvores e correr para a casa dos Swan.
[...]
Isabella
Eu acordei lentamente, meu cérebro ainda pesado por algo que eu ainda não sabia. Pisquei algumas vezes, surpreendendo-me quando fitei meu familiar quarto em Forks. Demorei alguns segundos para compreender que eu estava na cidade, e o motivo disso.
Jasper estava na minha frente, sentado na cama. Os olhos vermelhos escuros estavam cravados em mim, e passavam preocupação. Ele estava imóvel, e se eu não soubesse da existência de vampiros, poderia jurar que ele era uma estátua de mármore sentada na cama.
- Jasper?
Ele se mexeu um pouco, relaxando. Eu me sentei na cama e Jasper passou os dedos frios pelo meu rosto, fazendo seu cheiro de hortelã ficar mais forte.
- Odeio quando você faz isso.
Eu olhei confusa para Jasper e ele sorriu. Sua covinha apareceu e eu demorei um pouco para voltar à realidade.
- Você fica neutra quando se aborrece.
Eu tentei me desculpar, mas como eu poderia me desculpar de algo que eu não tinha controle? Eu nem sabia quando fazia isso, meu subconsciente que mandava no meu corpo. Abaixei a cabeça, minha mente começou a lembrar do motivo de eu ter acordado no quarto. Eu havia desmaiado. A história de Alice e Edward me surpreendeu mais do que eu esperava.
Jasper havia me dito que Alice tinha achado um vampiro melhor para ela, e que Edward também tinha alguém. Naquele momento, eu nunca poderia imaginar que os dois estavam juntos. Era algo... nojento. Alice tratava Edward como um irmão, e vice-versa. Como eles poderiam estar juntos? E em que momento Edward passou a ser um vampiro melhor que Jasper?
- É verdade, Jasper?
Ele demorou alguns segundos para interpretar minha pergunta, mas ele sabia perfeitamente do que eu falava. Ele assentiu com a cabeça. Eu me surpreendi quando não senti a mesma tristeza de sempre, mas uma raiva nasceu no núcleo do meu corpo e começava a tomar cada célula. Eu fechei os olhos, a respiração ficando mais pesada, o coração batendo mais forte, e as malditas lágrimas descendo.
- Não fique assim, Isabella. Você merece coisa melhor que Edward, não fique triste por ele.
- Eu não estou triste.
Respondi, o maxilar travado de ódio. Eu estava chorando de ódio. Jasper parecia confuso, realmente quando eu estava com raiva, eu sempre era neutra para ele. Eu me acalmei um pouco, olhando para o vampiro.
- Quero saber a história completa desta vez, Jasper.
O vampiro se remexeu inquieto na cama, olhando para o chão. Ele coçou os cabelos dourados e me olhou novamente.
- Bom... quando eu deixei os Cullen e Alice, eu não tinha ideia de para onde ir... eu passei alguns anos na casa de Peter...
Eu arqueei a sobrancelha, dizendo para o vampiro por meio desse gesto que aquela parte da história eu já sabia. Jasper se apressou.
- Enfim... eu voltei em Forks para te procurar alguns anos depois. Fiquei surpreso ao saber que você não morava mais na cidade. Claro que você não ficaria ali a vida inteira, mas se eu te conhecesse bem como eu achava que te conhecia, você alongaria sua estadia em Forks o máximo que conseguisse. Achei que você ficaria esperando por Edward...
Ele não me disse o porquê de ter me procurado depois de tantos anos, e para falar a verdade, eu temia esse tipo de resposta por parte dele. Não ajudaria em nada eu saber que Jasper estava interessado apenas em terminar o que tentara no dia do meu aniversário. Continuei olhando para ele.
- Infelizmente fiquei com sede, mas eu não queria matar em Forks. A cidade é pequena... eu corri pela floresta, tomando o cuidado de não entrar em La Push. Foi quando eu os vi...
Meu coração se acelerou minimamente... mas eu estava convicta da minha decisão. Já estava cansada de ouvir histórias incompletas.
- Os Cullen estavam caçando nos arredores de Forks. Uma última caçada. Eles iriam embora da cidade pelos próximos cinqüenta anos como de costume, mas eles tinham voltado para vender a casa. Eu me lembro de tudo, Isabella, infelizmente a mente de um vampiro não possui um filtro.
Ele parou de me olhar. Seus olhos vermelhos escuros pousaram na poltrona do meu quarto, a mesma poltrona que ele havia ficado nos dias em que ele me ajudou a dormir, anos atrás.
- Eu lembro do rosto de Esme. Ela estava chateada por vender a casa e por não poder me cumprimentar devidamente. Emmett e Rosalie apenas acenaram para mim e Carlisle sorriu. Um sorriso sincero, era o único que parecia satisfeito em me ver. Eu pude sentir o desconforto de todos. Foi quando eu vi Alice e Edward saindo das árvores, estavam de mãos dadas e eu não consegui barrar a sensação de companheirismo dos dois...
Jasper se apoiou nos cotovelos, tampando com as mãos o rosto pálido de mármore. Eu senti pena do vampiro, mas rapidamente me fechei. Se ele soubesse que eu estava com pena dele, poderia se aborrecer ainda mais.
- Fico grata de ter me contado.
A raiva agora era o sentimento que predominava no meu corpo, junto com a sensação de ser traída. A mesma sensação que eu sabia que ele estava sentindo no exato momento.
- Detesto quando me contam histórias incompletas.
Jasper se virou para mim tão rapidamente que eu me assustei.
- Eu também. Portanto não gostei muito de saber como foi sua real situação depois que Edward te deixou...
Ele travou o maxilar.
- Jasper...
O vampiro fez um gesto com a mão pálida e eu me calei.
- Eu não preciso saber de mais nada, Isabella.
Eu fiquei chateada, mas não poderia acrescentar nada; ele havia escutado tudo. Infelizmente a raiva nos trazia consequências estúpidas. Eu odiava ser humana. Se tivesse me controlado mais, poderia ter dito a história inteira a ele em um momento mais apropriado. Ele ouvir do modo que ouviu não me deixou satisfeita.
Surpreendi-me quando lágrimas desceram pelo meu rosto, chegando ao meu pescoço, molhando a gola da minha blusa. Ele olhou para mim e quando eu fitei seu rosto, não consegui me conter.
Ele se aproximou, me pegando no colo e deitando-se comigo aninhada em seu peito. Seus dedos fizeram carinho nos fios dos meus cabelos, igual ele havia feito dias antes. Eu fechei os olhos, pensando na maldita volta para Forks. Eu tinha vindo preparada para Charlie, não para essa avalanche de preocupação e reencontros. Jasper depositou um beijo na minha cabeça, no mesmo momento que a inconsciência me encontrava.
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