Notas iniciais
Vamos saber um pouco mais sobre a Mari? Garanto que irá gostar. Boa leitura!

Acordei pouco mais de 7:00 da manhã, me sentindo completamente normal e feliz por, finalmente, ser Sábado. No café da manhã, encontrei na cozinha um bilhete pregado na geladeira, onde estava escrito que minha mãe, meu irmão menor, meu padrasto e a filha dele iriam passar o dia fora. Senti-me estranhamente empolgada. Iria ter a casa só para mim, já que meu irmão mais velho, Hélio, tinha viajado no dia anterior para a casa de sua namorada, Isa. Sabia exatamente o motivo pelo qual minha mãe não havia me convidado para sair com eles. Como sempre, ela estava tentando me deixar feliz. E para provar que não havia se esquecido de mim, deixou um delicioso café da manhã pronto. Meio exagerado, mas é esse o jeito da Lena.

Aproveitei para passar a manhã inteira refletindo sobre o que havia acontecido na noite anterior. Cheguei à conclusão de que eu era sonâmbula, e por algum motivo eu resolvi dar um passeio noturno no Lago Negro. A sorte é que “meu eu zumbi” não resolveu dar um pulinho na água, pois eu não sei nadar. Decidi que, talvez, iria conversar sobre isso com Edgar. Também refleti sobre o meu sonho, mas uma coisa não tinha nada a ver com a outra e deixei para lá. Sempre tive sonhos tão estranhos que poderiam até virar filmes de terror de muito sucesso.

Depois das uma da tarde, tomei um iogurte para aliviar a fome e liguei para o meu namorado. Edgar atendeu no segundo toque. Tão rápido...

“Mari... diga que não esqueceu que tem um namorado, por favor.” Notei o tom de brincadeira e uma leve pitada de alívio em sua voz.

“Desculpa, eu tive um dia cheio ontem e me ocupei a manhã inteira com tarefas de casa.” Quase tudo era verdade...

Ouvi um longo suspiro no telefone, sabia que Edgar estava impaciente e que queria ouvir boas notícias. Depois de alguns segundos de silêncio, continuei:

“To sozinha em casa hoje. Pode vir aqui?”

Mesmo pelo telefone, sabia que Edgar sorria. Fazia bastante tempo que não ficávamos sozinhos.

“Amor, eu to chegando aí. Você quer que eu leve algo? Doritos, refrigerante...?”

“Doritos e refrigerante. Ainda não almocei.” Dei uma risadinha, mas senti que Edgar ficou tenso. Ele odiava o meu hábito de às vezes não comer.

15 minutos após ter desligado o telefone, ouvi suaves batidas na porta da frente. Pulei imediatamente do sofá e corri para a porta, já sabendo quem iria encontrar. Do outro lado, Edgar estava muito lindo, como sempre. Vestia uma calça jeans meio clara e desbotada e uma camiseta regata preta do AC/DC. Exibia seus braços já com um belo volume de músculos, sinal de que estava mesmo se dedicando a academia. Seu rosto estava radiante, o que o fazia parecer ter bem menos de 17 anos. Adorava a cor de sua pele, parda, que ficava meio alaranjada no reflexo do sol. Segurava uma sacola em sua mão esquerda e com a direta, puxou minha cintura para si e deu-me um beijo na testa.

“Boa tarde, minha baixinha.” Odiava que me chamassem de baixinha, mas Edgar era uma exceção.

“Oi, Garzinho.” Ri, sabendo que Edgar também não gostava muito de seu apelido.

Fomos para a cozinha e sentamos a mesa. Edgar e eu comemos o Doritos que ele havia trazido e tomamos refrigerante. Durante a refeição, contei o meu sonho, me certificando de não esquecer nenhum detalhe e contei aonde havia acordado. Edgar ficou meio embasbacado com os meus relatos e me avaliava com toda a atenção do mundo.

“Mari... contou a sua mãe? Acho que ela precisa saber. Pode ser resultado da sua convivência com a filha do seu padrasto.”

“Não e não vou contar. E você também não. E se ela contar pro meu padrasto e ele resolver que o melhor lugar pra mim agora é em um manicômio?”

Edgar e eu rimos do que eu disse. Mas eu estava falando sério. Aquele homem era muito imprevisível, nunca se sabia o que ele era capaz de fazer. Era um ótimo marido e ótimo pai, mas às vezes me dava medo.

“Amor, isso deve ficar só entre a gente. E tenho certeza de que não vai se repetir. Eu estava muito estressada, cheia de coisas na cabeça... Talvez, meu inconsciente queria relaxar no lago e quando eu adormeci, ele me levou até lá.”

Terminei de falar exibindo um largo sorriso, o que fez Edgar se derreter e concordar comigo.

“Tudo bem, Mari... Mas se isso se repetir, não vou pensar duas vezes antes de contar a Tia Lena.”

Depois de trocarmos alguns beijos na cozinha, Edgar me convidou para ir ver um show de uma banda local de metalcore no centro da cidade. Como fazia algum tempo que não saía com meu namorado para me divertir, aceitei o convite e liguei para a minha mãe, pedindo sua permissão. Ela quis falar com Edgar, para pedir informações sobre o lugar aonde ele queria me levar.

“Vai começar às cinco da tarde e eu trago a sua filha as nove, tia Lena. Sabe que eu sou responsável...”

Sabia que minha mãe iria deixa, ela tinha muita confiança em Edgar e sabia que eu precisava me distrair. O clima entre mim e a filha do marido dela não era nada bom e isso me afetava muito emocionalmente. Cheguei a ficar semanas trancada em meu quarto, me alimentando apenas de coisas líquidas. Se não fosse Edgar, teria morrido de depressão, tenho certeza. Por isso e por outras coisas o amo muito.

Levei um susto quando Edgar me devolveu meu celular. Fiquei tão submersa em pensamentos que nem percebi quando ele terminou de falar com a minha mãe. E nem sabia se ela havia deixado, mas eu tinha certeza que sim.

“E aí?” Perguntei, sem muita curiosidade.

“Ela deixou. Disse que se você precisar de dinheiro é só pegar no quarto dela no lugar de sempre.” Edgar se sentou ao meu lado e passou o braço por cima dos meus ombros. “Mas você não vai precisar.” Disse, dando um beijo em minha bochecha. Isso me fez sorrir.

“Ela sempre deixa. Minha mãe te adora.” Pousei minha cabeça em seu ombro e deixei escapar um longo suspiro. “Quanto ao dinheiro... eu vou levar, para o caso de emergências.”

Meia hora depois, me despedi com relutância de Edgar e fui escolher uma roupa para ir ao show no centro da cidade. Escolhi um jeans escuro bem justo e uma camiseta do Green Day que Edgar havia me dado no dia dos namorados. Coloquei as peças em cima da cama e fui tomar um banho, não muito demorado.

Depois de já estar pronta, fui ao quarto de minha mãe e peguei 100,00 R$ dentro do closet gigante dela. Quando eu era mais nova, gostava de me esconder lá dentro. Ninguém nunca me achava. Até mesmo hoje, com quase 17 anos, eu ainda fazia isso. Quando eu disse “gigante” não estava exagerando. E, SIM, eu ainda me escondo lá. Mas só quando minha mãe está me procurando para me mandar fazer alguma tarefa chata de casa.

Desci para a sala e me acomodei no sofá. Fiquei imaginando o quanto aquela casa era grande quando estava vazia, e o quanto eu me sentia à vontade. Olhei a hora em meu celular. Eram 16:45. Edgar já devia estar chegando. Quase no mesmo momento, ouvi batidas na porta e me levantei imediatamente. Abri a porta e Edgar quase caiu em cima de mim.

“Nossa, achei que não ia me atender.” Ele sorriu e eu suspirei. “Você tá linda, Mari.” Disse ele, me avaliando da cabeça aos pés.

“Obrigada. Você também está. Na verdade o correto seria perfeito.” Nós dois rimos. Ele estava mesmo lindo. Vestia uma camiseta meio justa ao corpo na cor preta (como sempre) do System Of A Down, calça escura, tênis All Star e seu cabelo estava todo arrepiado. Muito charmoso.

Saímos da minha casa e pegamos um táxi. Alguns minutos depois já estávamos no local do show de metalcore. O nome da banda era Geena. Nome meio estranho. Tinha vaga certeza de que sabia o que significava, mas, assim que os integrantes entraram no palco lembrei-me por completo.

Uma vez, meu irmão Hélio e eu estávamos conversando sobre mistérios da vida após a morte (se é que ela existe) e ele me falou de um lugar chamado Geena. Hélio me disse que segundo a Bíblia, este lugar seria uma espécie de inferno, para onde as almas das pessoas sem salvação irão daqui a mil anos.

Fiquei me perguntando o motivo dessa banda ter escolhido esse nome, mas interrompi meus pensamentos assim que Edgar me puxou para seus braços e me deu um breve beijo em meus lábios.

“Tantos gaviões olhando pra minha pequena...” Ele falou quase sussurrando em meu ouvido. Os pelos dos meus braços se eriçaram e eu ri baixo. Edgar costumava ser muito ciumento. E eu às vezes gostava disso.

“A sua pequena já tem dono. Eu nem sei por que você se importa tanto se eu deixo bem claro que ninguém mais me importa.” Eu nem ao menos tinha notado que alguém além do meu namorado olhava para mim.

Edgar segurou meu rosto em suas mãos e disse:

“Eu me importo porque eu te amo, Mari.”

Eu fiquei imóvel, apenas observando o par de olhos que me encaravam com tanta paixão.

Passamos 1 hora do show apenas abraçados, observando, não muito longe do palco, o desempenho de Geena. Era uma banda muito boa. Ganhei até um CD atual deles de Edgar. Havia uma tenda onde algumas pessoas vendiam camisetas, bonés, tênis... Enfim. As camisetas eram legais. Tinham a imagem de um deserto e no meio da paisagem uma rachadura. Embaixo da imagem estava escrito o nome da banda. Mas eu fiquei só com o CD da Geena mesmo.

Às 19:20 Edgar disse que queria me levar num lugar especial e então pegamos um táxi de volta para o meu bairro. Descemos numa rua próxima a minha e pegamos um atalho de pedras, ladeado por uma pequena floresta. Eu já imaginava o destino final. Estava muito escuro, mas o caminho que havíamos pegado era iluminado por postes. No fim da trilha, encontramos um grande espaço aberto gramado e logo à frente as águas do Lago Negro brilhavam mais que qualquer coisa ao redor. Até mais que as luzes dos postes. A floresta em volta e a neblina que já aparecia por cima do lago sorrateiramente, dava ao lugar um ar mais sinistro, o que me levava a me perguntar se a lenda do Lago Negro era mesmo real.

Edgar parou perto de um banquinho de frente para o Lago Negro, onde se tinha uma vista perfeita da lua no céu, que também se refletia na água. Lembrei-me do dia em que nos conhecemos. Eu estava sentada na grama, com os pés dentro da água, perto do pôr do sol, quando senti a presença de alguém atrás de mim. Quando virei-me para ver quem era, vi Edgar, sorrindo como uma criança de sete anos de idade.

“Posso sentar?” Eu apenas balancei a cabeça, afirmando.

Antes de se sentar, ele tirou algo do bolso e me entregou. Era o meu colar de prata, com um pingente de uma coruja. No mesmo momento, passei uma mão em meu pescoço e senti que não tinha nada.

“Onde encontrou?” Eu o olhava de forma acusatória. Nunca havia deixado cair aquele colar antes, ainda mais porque tinha sido um presente de minha avó.

“Logo ali atrás.” Ele disse se sentando do meu lado, tão próximo de mim que eu tive que me afastar um pouco. Ele suspirou. “Sorte sua que eu o encontrei.”

Depois disso, ele me chamou para ir tomar sorvete e desde então não nos separamos mais. Não é bem uma história romântica de contos de fadas, mas foi assim que eu conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida.

“Sabe por que eu te trouxe aqui?” Disse Edgar, me arrancando dos meus pensamentos. Ele sorria para mim da mesma forma de quando nos conhecemos.

“Não faço a menor ideia.”

Um vento gelado soprou e eu estremeci um pouco de frio.

Edgar tirou do bolso uma caixinha preta e a colocou na palma de sua mão.

“Hoje comemoramos 1 ano de namoro e então eu queria te dar algo especial num lugar especial.”

Ele abriu a caixinha e lá dentro, vi a coisa mais linda de toda a minha vida. Estava lá um anel com a forma de sipós trançados um no outro, com pequenas pedrinhas cravejadas cor de esmeralda. Era prata.

Senti que meus olhos se enchiam de água enquanto Edgar colocava o anel em meu dedo anular.

“Isso é apenas pra oficializar o nosso namoro.” Ele deu um beijo em minha mão assim que terminou de colocar o anel.

Eu não sabia o que dizer. O presente era tão lindo que congelou as palavras na minha garganta, mas mesmo assim fiz um esforço.

“Obrigada. É... muito lindo.” Limpei meus olhos antes que as lágrimas descessem por meu rosto. “Noossa... eu nem imaginava que fosse me dar algo assim. Me pegou de surpresa...”

Edgar ria de mim e me puxou para seus braços, acariciando meu cabelo, que estava solto e voava com o vento que soprava quase violentamente.

“Feliz um ano de namoro, Mari” Ele segurou meu queixo e beijou meus lábios delicadamente.

Não demorou muito para o beijo ficar um pouco mais urgente e Edgar me puxar cada vez mais para si. Suas mãos acariciavam minhas costas e depois invadiram minha camiseta, apertando delicadamente a pele nua da minha cintura. Eu apenas retribua seu beijo, gostando de cada toque e desejando que ele fizesse muito mais. Senti seus lábios deixarem os meus e irem para o meu pescoço. Isso me deixou completamente arrepiada. Meu coração martelava em meu peito, não de nervosismo por finalmente estar a caminho da minha primeira vez, mas por ansiedade. Naquele momento, ansiava por Edgar mais que qualquer coisa. Ele tirou a minha camiseta e deu mais alguns beijos em meu pescoço. Suas mãos desceram até os botões da minha calça e então, ele olhou em meus olhos, como se estivesse pedindo permissão para desabotoa-los. Nesse momento, algo muito estranho aconteceu.

Por cima do ombro de Edgar, vi algo se mover dentro do Lago Negro. No começo, parecia um monte de galhos subindo para a superfície, mas depois a coisa tomou forma e aquilo parecia mais um esqueleto humano, cheio de folhas.

Edgar falou comigo, mas eu não o ouvia muito bem. Não conseguia desgrudar os olhos do esqueleto. Observei até aquilo estar “de pé” no lago. Mesmo um pouco distante, percebi que os olhos do esqueleto se acenderam. De um vermelho tão vivo que senti meus olhos arderem. O vermelho ficava mais claro a cada segundo, a luz já banhava todo o meu rosto. Eu não sentia mais a presença de Edgar. Sentia-me sozinha, olhando para o lago, paralisada e sem camiseta. Lentamente, fui deixando de sentir minhas pernas, e da mesma forma fui perdendo a consciência. Alguns segundos depois, eu já não enxergava mais nada e eu mergulhei num mar branco dentro da minha cabeça.

Notas finais
E aí, está gostando? As coisas estão ficando estranhas, não é mesmo? Não esqueça de comentar o capítulo. Preciso da sua opinião para continuar escrevendo, e só para ressaltar, o plágio dessa história está proibido. Até breve!