Mar De Névoas
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Algo me puxava pela mão, me tirando daquele horrível mar branco. Sabia que estava saindo de lá por que lentamente eu tomava consciência das coisas ao meu redor. Não sabia se ainda estava no Lago Negro ou se havia sido morta por aquele monte de ossos. Não sabia o que tinha acontecido com Edgar. Não sabia de nada. Só sabia que eu estava quase de volta a algum lugar, onde eu conseguia pensar.
Senti que não estava mais sendo puxada e me arrisquei tentar mexer minhas pernas. Uma delas se moveu. Tentei mover a outra e ela também se mexeu. Tinha algo estranho... Elas pareciam estar suspensas no ar. Abri um olho, mas estava com a visão meio embaçada. Enxerguei apenas um borrão verde. Um vento frio soprava em minhas costas nuas. Abri o outro olho para ver se algo melhorava, mas minha visão ainda estava muito turva. Eu não sentia o chão embaixo dos meus pés e então tive certeza que estava sentada em algum lugar alto e minhas pernas estavam suspensas.
Experimentei esfregar meus olhos. Ajudou um pouco. O borrão verde eram folhas. Olhei em volta e vi galhos. Galhos e mais galhos. “Estou numa árvore, é óbvio.” Imaginei. Minha cabeça lateja um pouco e por reflexo, passei uma mão em minha testa. Não parecia estar machucada. Estava confusa. Olhei para baixo e eu senti um enorme alívio com o que vi.
Edgar estava sentado no chão, arrancando pedacinhos de grama com uma mão. Tentei chamar por seu nome, mas minha garganta estava muito seca e tudo o que saiu foi apenas um sussurro. Tentei balançar a árvore e me dei conta de que meus braços ardiam um pouco. Estavam meio arranhados.
“Decidiu descer daí de cima?” Edgar perguntou, com um pouco de sarcasmo na voz. Tirei minha atenção de meus braços e olhei para ele. Ainda estava sentado, mas olhava para cima, diretamente para mim. Seu rosto estava cheio de algo que me pareceu angústia ou medo.
“Não consigo falar.” Tentei dizer, mas saiu muito baixo. Acho que Edgar nem me ouviu. Ele baixou a cabeça e continuou o que estava fazendo, como se não se importasse mais.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu não suportei e me permiti chorar. Soluçava tanto que chamei novamente a atenção de Edgar. Ele se levantou e tentou escalar a árvore. Estava muito lisa, pelo o que pude perceber e ele não conseguia subir. Notei que sua camisa estava rasgada da barriga até o ombro esquerdo.
“Não sabe como descer?” Sua voz soava meio fria. Balancei a cabeça de modo negativo. “Eu vou ver se consigo uma escada.” Edgar virou e saiu andando de volta para a trilha por onde tínhamos vindo. Notei que ele mancava um pouco. Isso me deixou um pouco preocupada. O que havia acontecido enquanto eu estava desacordada?
Ainda estávamos no Lago Negro e ainda era noite. Mas eu não fazia ideia de que horas eram ou quanto tempo eu havia estado inconsciente. Nem como havia subido naquela árvore. Eu continuava chorando, odiando o fato de Edgar não estar mais em meu campo de visão. Por um momento imaginei que ele não fosse mais voltar. Mas depois achei que eu estava sendo uma boba. Edgar me amava muito e nunca iria me deixar sozinha dessa forma. Ainda mais toda arranhada em cima de uma árvore. Tentei ficar de pé, mas minhas pernas estavam meio moles, como borracha. Decidi que ficar quieta e esperar por Edgar era o melhor.
Algum tempo depois, quando eu já estava achando que a ajuda nunca viria, avistei Edgar surgindo no fim da trilha, carregando uma escada de jardim. Meus olhos que já estavam secos voltaram a se encher de lágrimas. Por alívio em ver meu namorado voltado para me ajudar. Ele ainda mancava e tinha alguma dificuldade para carregar a escada.
Edgar a posicionou no tronco da árvore e subiu até a metade, escalando o resto segurando nos galhos. Parecia que sentia um pouco de dor ao usar a força dos braços . Pouco tempo depois ele já estava sentado ao meu lado, me observando em silêncio.
“Mari?” Ele esticou sua mão, como se para limpar as lágrimas dos meu olhos ou afagar meu rosto, mas desistiu no meio do caminho. Eu o olhava, um pouco confusa. Tudo o que eu precisava agora era de seus toques, de seus carinhos. E no momento em que ele ia fazer isso, desistia. Eu não compreendia. E ele parecia estar ainda mais confuso do que eu.
Acho que ele compreendeu o que eu queria, pois me puxou para seus braços, num abraço apertado e beijou o topo da minha cabeça.
“Mariana, meu amor” Imaginei que talvez ele estivesse chorando, por que sua voz estava meio estranha.
Eu ainda não conseguia falar direito e só retribua seu abraço.
Depois de descermos da árvore, Edgar devolveu minha camiseta e me levou de volta para casa. Minha mãe estava muito preocupada. Já se passavam de meia noite e o combinado era que eu voltasse às nove. Assim que ela me viu, começou a chorar, perguntando o que havia acontecido comigo. Não vi o meu padrasto e nem a filha dele e concluí que eles já deviam estar dormindo. A minha garganta ainda estava muito seca e não pude explicar muita coisa. Edgar contou uma pequena mentira para acalmá-la, mas mesmo assim, minha mãe não parecia estar completamente convencida dos fatos. Se ao menos eu soubesse tudo o que tinha acontecido... Como eu fui parar naquela árvore? Por que meus braços estavam arranhados? Por que a camisa de Edgar estava rasgada e por que ele mancava e parecia sentir dor nos braços sempre que usava seus músculos para alguma coisa? Eu precisava ficar sozinha com meu namorado novamente. E logo.
Depois de tomar um banho e limpar os arranhões em meus braços, minha mãe me levou para o meu quarto e me ajudou a vestir meu pijama. Ela havia me dado um remédio para dor e muita água. Eu já conseguia falar normalmente. Edgar foi embora pouco tempo depois de me deixar em casa, me prometendo voltar assim que acordasse de manhã cedo. Ele havia sido muito frio comigo. Agradeci internamente minha mãe por não me encher de perguntas e apenas me colocar na cama em silêncio.
“Boa noite, minha querida.” Ela me deu um beijo na testa e saiu do quarto, apagando a luz. Imaginei que talvez ela não conseguisse dormir o resto da noite.
Achei que eu também não fosse dormir, mas o resto do meu dia foi muito agitado. Eu estava esgotada e mesmo querendo ficar acordada para tentar entender o que havia acontecido, eu não conseguia. Meus olhos ardiam com o esforço que eu fazia para tentar mantê-los abertos. Eu tinha a impressão de que quanto mais eu lutava contra o sono, mais ele aumentava.
Finalmente, o cansaço tomou conta de mim e eu adormeci.
No começo da manhã, assim que abri os olhos, tive alguns flashes de um sonho que eu tive durante a noite, mas não conseguia me lembrar muito bem. Acho que foi um sonho bom, pois me lembrava de sorrisos de pessoas conhecidas e chocolate. A porta do meu quarto estava aberta e eu tomei um susto ao olhar para o meu lado e me deparar com Edgar, sentado em uma cadeira de balanço, me observando. Eu ainda estava meio sonolenta, mas não pude deixar de notar olheiras muito escuras sob seus olhos. Sinal de que, ou não dormiu bem, ou não dormiu de jeito nenhum.
“Me assustou...” Eu disse, com a voz meio rouca de sono. Ele levantou um pouco os lábios, acho que tentando sorrir, mas aquilo parecia mais uma careta. Um frio percorreu minha espinha e parou no meu estômago, que se agitou um pouco. “Notei que você parece...”
“Estranho?” Ele completou.
“Sim.” Falei com certa dificuldade.
“Não era pra menos... Descobri que minha namorada tem duas personalidades.” Ele riu com sarcasmo.
“Eu não tenho duas personalidades.” Franzi minha testa, completamente confusa. Não sabia do que ele estava falando.
“Claro que não. Olha Mari, se você ainda não estava preparada pra perder a virgindade comigo, era só ter falado. Não precisava ter feito...” Ele interrompeu a frase e passou as mãos no rosto, suspirando. Eu abri levemente a boca, me sentindo totalmente perdida no assunto. Claro que eu estava preparada! Mas nós havíamos sido interrompidos.
“Eu não sei do que você tá falando...”.
“Ah, não? Você não sabe o que fez?” Mais sarcasmo. Ele estava ficando estressado e elevava um pouco a voz. “No começo eu achei que estivesse afim. Não me deu sinais pra parar.”
“Eu estava afim, Edgar.” Falei meio alto. “Sério, eu achei que seria ali, naquele momento. O que aconteceu não foi culpa minha.”
“AH, com certeza não. Do nada, você me agarra pelos ombros e me derruba no chão com uma força que eu nem sabia que você tinha e a culpa não foi sua.”
“Eu fiz o quê? Você pirou, Edgar?” Minha voz havia se elevado tanto que eu estava praticamente gritando. Imaginei por que minha mãe ainda não tinha nos interrompido para perguntar o que estava acontecendo. “Eu não consigo nem te empurrar pro lado, imagina te derrubar.”
“Eu também pensava assim. E por que está tão surpresa? Por acaso a sua amnésia atacou de novo?” Sarcasmo outra vez. Edgar nunca havia me tratado dessa forma.
“Eu não to te entendendo, Edgar. Esperava que você me desse respostas, não que me acusasse dessa maneira.” Ele ficou em silêncio, então eu continuei: “Me lembro de que quando você... tirou minha camiseta, vi algo dentro do Lago Negro. Parecia um monte de galhos, só que depois eu vi que se tratava de um esqueleto humano. Depois eu só lembro de uma luz vermelha muito forte e um branco. Quase infinito. Algo me puxou de dentro do branco, e aí, eu abri os olhos e estava em cima daquela árvore, cheia de arranhões. Só disso que eu lembro. Eu não derrubei você no chão, eu fiquei inconsciente.”
Edgar estava com os olhos grudados em mim. Parecia que não acreditava no que eu estava dizendo. Estava embasbacado, como sempre ficava quando eu lhe contava algum sonho ou algo estranho que havia acontecido comigo.
“Você não se lembra de nada mesmo?”
“Nada, eu juro. Preciso que me conte o que aconteceu depois disso.”
Edgar deu um longo suspiro.
“Depois que eu tirei sua camiseta... Você simplesmente congelou. Eu movi seus ombros, puxei você pra mais perto, mas você não desgrudava os olhos do Lago Negro. Alguns minutos depois, você olhou pra mim de forma assustadora e começou a gritar comigo.” Ele suspirou outra vez, antes de continuar. “Eu tentei te acalmar, mas você se esquivava de todos os meus toques. Disse que você não era você, que fazer o que estávamos prestes a fazer era um grande erro. Eu tentei te abraçar e você me jogou no chão, gritando que sentia repulsa dos meus toques. Que eu te dava vontade de vomitar e ainda riu. Isso me cortou por dentro” Edgar também riu ao contar essa parte, mas era uma risada forçada. “Eu me levantei, sentindo meus braços latejando de dor. Fiquei assustado. Você parecia um monstro. Aí, quando eu menos esperei, você apareceu por trás de mim com um pedaço de madeira e acertou a minha perna. Falou que aquilo era por tentar fazer algo que ia acabar com todos os seu planos. Eu caí novamente e você veio pra cima de mim. Eu tentei me defender, mas eu sentia muita dor na perna. Ainda consegui fazer você derrubar o pedaço de madeira no chão. Mas você continuou tentando me ferir. Eu segurava seus braços. Você se soltou e rasgou a minha camisa, na tentativa de arranhar o meu peito. Eu te joguei pro lado e você correu. Nunca vi alguém correr tanto... Não sabia nem o que pensar. Eu fui mancando atrás de você mas aí, ainda muito longe te alcançar, eu te vi escalando aquela árvore. Tão rápido que eu tive certeza que você tinha se machucado. Era impossível não ter. Mesmo com o coração em pedaços e com alguns machucados, eu não desisti de você. Fiquei embaixo da árvore, te esperando, pedindo pra você descer pra gente poder conversar, mas você fingia que não me ouvia e ficou lá, sentada, em silêncio, balançando as pernas. Algum tempo depois, você parecia uma estátua, de tão imóvel que estava. Eu me cansei e sentei, disposto a te esperar pelo tempo que fosse. Depois, você saiu do que me pareceu um transe e me deixou completamente confuso.”
Eu não sabia nem o que dizer. Para mim, tudo o que Edgar havia acabado de me contar não fazia sentido. Eu não me lembrava de absolutamente nada daquilo. Só lembrava de branco e mais branco. E quanto mais eu tentava entender os relatos do meu namorado, mais branco eu via dentro da minha cabeça.
“Você não se lembra mesmo?” Eu só consegui balançar a cabeça, de forma negativa.
Tudo agora dentro da minha mente era uma pilha de confusão.
Edgar passou a mão em seus cabelos, impaciente.
“Não sei, Mari... não sei se devo acreditar. Aquilo pra mim foi bastante real. Não parecia ser você, mas mesmo assim... me machucou.”
Edgar deu um longo suspiro, como se estivesse tentando tomar uma decisão difícil. Seus olhos fitavam o chão.
Eu temia que ele estivesse pensando em pôr um fim no nosso namoro, e isso me apavorou. Se ele terminasse comigo, quem iria me ajudar nos momentos mais difíceis? Quem iria me impedir de desistir de viver? Não era justo, eu não tinha feito nada. Eu nunca faria nada para machucar Edgar. Só a ideia de vê-lo triste por minha causa me tirava o ar dos pulmões.
“Se não era você, era quem então? Tem resposta pra isso? E não me venha com essas histórias de possessão, você sabe que eu não creio nessas besteiras.” E não acreditava mesmo. Sempre que eu lhe contava algo muito estranho, ele sempre procurava encontrar respostas racionais e ignorava todas as possibilidades do sobrenatural existir. Eu não entendia isso. Por outro lado, eu sempre tentava convencê-lo do contrário, apesar de também não acreditar em certas coisas, como por exemplo a lenda do Lago Negro.
Edgar finalmente ergueu seu olhar para mim. Parecia muito cansado. Levantou-se e se sentou ao meu lado, em minha cama.
“Se está imaginando que eu estou pensando em terminar...” nossa, era incrível como às vezes ele parecia saber o que eu estava pensando. Tínhamos uma ligação muito forte. “está enganada. Eu nunca vou abandonar você, mesmo que você me mande ir embora. Por que eu sei o quanto você precisa de mim. E eu também preciso muito de você.” Ele deu um beijo em minha bochecha e acariciou meu queixo.
“Mas você falou que não acreditava em mim...”
“Não acredito nessas histórias... mas em você, eu acredito. Se você diz que não se lembra de nada... Talvez tenha tido uma crise de bipolaridade. É normal.” Edgar suspirou outra fez. Ele afagava meu cabelo.
“E quanto a você estar machucado...”
“Estou, Mari... eu preciso descansar um pouco. Talvez isso resolva. Mas... Estou extremamente preocupado com você e acho que chegou o momento de falarmos com sua mãe.”
Senti meu coração acelerar e comecei a falar muito rápido.
“Edgar, não. Pelo amor de Deus, não conta nada pra ela. Eu tenho certeza que isso não vai mais acontecer! Me leva pra falar com um psicólogo, mas sem ela saber, por favor!” Eu apertava as mãos dele com tanta força que ele teve de se libertar, gentilmente, para não me ferir. “Se você contar, juro que irei parar de me alimentar definitivamente.”
Edgar se levantou, irritado e foi até a porta.
“Eu preciso te ajudar...” Ele disse tão baixo que tive de me esforçar para entender. “mas você não colabora. Eu devia estar bravo contigo, mas eu simplesmente não consigo, Mari. Por mais que eu me esforce. Nem me afastar de você eu consigo. Mas vou me esforçar mais. Talvez você precise de um tempo sozinha para refletir. Talvez assim você recupere a memória e lembre do que aconteceu ontem. E só assim, talvez, você me entenda.”
Ele saiu do quarto, tão rapidamente que nem tive tempo de argumentar. Meus olhos esquentaram e lágrimas desceram pelo meu rosto. Tinha absoluta certeza de que nunca iria me lembrar direito da noite passada. Se eu tinha feito mesmo todas àquelas coisas que Edgar havia me contado, então eu era uma criatura de gelo, sem coração, sem piedade, que não dava a mínima para os sentimentos alheios. Mas eu não conhecia esse meu outro lado. Nem ao menos lembrava-me de possuí-lo.
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