Havia um bom tempo desde que eu tinha me lembrando de meus sonhos, o que, no entanto, não era normal. Mas eu estava me adaptando à perda de memória, apesar de ser um pouco frustrante. Mas é como diz o ditado: se a vida te dá um limão, faça uma limonada. No meu caso, acho que esse ditado não se encaixa muito bem, já que o que a vida me deu, seria considerado um começo de uma doença para muitos.

Digo “doença” não só por estar esquecida de meus sonhos, mas por também esquecer de coisas acordada. Sim, e isso está ficando cada vez mais frequente. Vou dar um exemplo: Outro dia eu estava relaxando no sofá da minha casa com meu namorado e estávamos discutindo sobre nomes de novos jogos de vídeo game, nos quais iríamos comprar para passar o tempo aos fins de semana. O fato é que eu disse um nome de um jogo muito legal, e então senti uma picadinha em meu pé. Quando eu me inclinei para baixo para ver o que era, esqueci-me de absolutamente tudo o que havia dito no último minuto. Tudo havia se transformado em um grande borrão em branco na minha cabeça. É claro que meu namorado (que se chama Edgar) fez disso uma piada e riu muito da minha demência. Porém eu não achei muita graça, aquilo havia realmente me assustado. Mas isso se repete tanto que já se tornou quase normal para mim.

Mas, voltando ao foco do assunto, ontem aconteceu algo que seria considerado no mínimo, esquisito. Na hora de ir para a cama, fiz tudo o que normalmente faço. Tomei um bom banho quente, escovei os dentes, limpei o rosto... Enfim, coisas básicas. Deitei-me em minha cama e antes de pegar no sono, minha mãe (Lena) veio perguntar se eu não queria comer alguma coisa, pois eu não havia comido nada desde a hora do almoço. Mas eu estava cansada, havia tido um longo dia escolar e então recusei.

Algum tempo depois de minha mãe sair do meu quarto, o cansaço tomou conta do meu corpo e eu senti minha consciência se elevar e então, finalmente, se apagar.

Minutos depois, creio eu, senti-me flutuando através de um sonho, em que eu via pessoas caminharem de cabeça para baixo. Nenhum rosto conhecido. E ninguém me notava. Estranho, pois eu era a única por ali que não usava branco e era a única que flutuava ao invés de andar. O mais estranho é que as pessoas andavam no chão, só que seus cabelos levantados, suas roupas também levantadas e seus braços esticados para cima, davam a impressão de que estavam andando de cabeça para baixo. Mas eu não estava da mesma forma. Apenas eu, concluí.

De repente e de forma brusca, fui arrancada do meu sonho. Permaneci de olhos fechados, mas tinha certeza de que estava acordada. Um sopro gelado em meu rosto me fez abrir os olhos. Quando notei onde estava, um frio horrível se espalhou pelo meu estômago e lágrimas brotaram dos meus olhos. Não estava muito longe de casa, mas me imaginar andando sozinha até ali, me encheu de um medo terrível.

Eu estava sentada na beira de um lago que ficava bem perto da minha casa, e era conhecido como “Lago Negro”. A água é muito escura e há quem diga que as pessoas que nadavam lá durante a noite foram puxadas para o fundo e mortas afogadas. A alma dessas passou a assombrar as redondezas. Esta lenda ridícula fez com que ninguém mais, ao menos, chegasse perto do Lago Negro. É claro que eu nunca acreditei nessas idiotices e de vez em quando, nos meus momentos de revolta, vagava por ali.

Bom, eu estava lá. Como eu não sei. Olhava assustada para os lados e conseguia ver apenas uma grossa camada de neblina que cobria o Lago Negro. Eu me sentia estranhamente invadida, como se não tivesse mais privacidade dentro de mim mesma. Decidi que eu tinha que voltar para casa, antes que alguém da vizinhança me visse perambulando por aquele local. Limpei as lágrimas que ameaçavam descer pelo meu rosto e me levantei. Notei que minhas pernas estavam sujas de lama e eu usava roupas de passeio. Eu calçava apenas um tênis, o outro pé estava descalço. Isso me deixou mais perturbada do que já estava.

Voltei para casa o mais rápido que pude, fui direto para o banheiro e lá tomei um longo e silencioso banho.

Depois de estar limpa, fui para

o meu quarto, enrolada em uma toalha que encontrei no banheiro. Lá, encontrei meu pijama jogado no chão e minha cama completamente bagunçada, como se alguém tivesse revirado tudo de propósito. Estava óbvio de que tinha sido eu a autora de tudo. Sentei-me em minha cama e tentei afastar o terror que tomava conta de mim e me dei conta de que, pela primeira vez em meses, conseguia me lembrar do meu sonho. Olhei o relógio da mesa de cabeceira que marcavam 4:00 da manhã. Logo iria amanhecer e eu não ia conseguir dormir. Pensei em ligar para Edgar, ele sempre me acalmava, mas minutos depois senti uma sensação tão reconfortante que me fez deitar em minha cama e pegar no sono sem ao menos perceber.