Notas iniciais
Track 3: Rattle that lock [David Gilmour, 2015] As vozes na minha cabeça andam falando bastante, então esse capítulo saiu rápido. Ou talvez eu só esteja protelando minhas obrigações universitárias.

“Relationships should depend on chance and whether we’re on the same wavelenght, not on identity. If I like you, you can be a beggar and I’ll still like you. If I dislike you, you can be the emperor and I’ll still dislike you. Shouldn’t it be like that? It’s simple logic.” TGCF, capítulo 25.

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Track 3: Rattle That Lock

Whatever it takes to break

Got to do it

From the Burning Lake

Or the Eastern Gate

You’ll get through it

Rattle that lock and lose those chains

Rattle that lock and lose those chains

Rattle that lock and lose those chains

Rattle that lock

Xie Lian se levantou sentindo uma súbita onda de energia se espalhar por seu corpo. A letargia que o acompanhava quando ele chegou em casa havia desaparecido. Ele andou a passos rápidos até o banheiro e agarrou uma escova de cabelo. Seus fios lisos e castanhos estavam um pouco bagunçados, mas não se comparavam aos nós que se formavam quando ele ainda tinha o cabelo comprido. Xie Lian sentia falta do comprimento longo, mas estava começando a apreciar a conveniência de um corte mais curto.

Ele ajeitou rapidamente os fios, escovou os dentes, lavou o rosto e olhou no espelho para avaliar sua aparência. Só então percebeu que ainda estava vestindo a mesma roupa que usara o dia todo na escola. Voltando pra seu quarto, ele separou uma calça jeans azul clara, uma camiseta de manga longa e um moletom branco com tecido felpudo por dentro. Parecia que seria uma noite fria, então ele também apanhou um cachecol azul em seu armário. A gargantilha preta de veludo permaneceu em seu pescoço.

Por muito pouco ele se lembrou de digitar uma mensagem para Mei Nianqing avisando que iria sair. Provavelmente seu tutor estranharia o fato dele encontrar algo para fazer já no primeiro dia de aula, mas talvez ficasse feliz de ver Xie Lian se sentindo disposto para sair de casa — algo que não acontecia há bastante tempo.

Depois, ele se vestiu, enfiou o celular e a carteira no bolso, e aguardou sentado em silêncio, ouvindo a própria respiração mais alta do que se recordava ser normal.

Não levou muito tempo para ele ouvir uma batida suave na porta.

Xie Lian abriu a porta e encontrou Hua Cheng parado o esperando, com uma postura relaxada e um sorriso no rosto. Ele ainda vestia seu casaco de couro preto, agora fechado sobre o peito, mostrando apenas uma linha vermelha da gola da camiseta perto do pescoço. Seus dois olhos brilhavam refletindo a luz amarelada dos postes da rua, e ele segurava em uma das mãos um guarda-chuva vermelho.

Pelo que pareceu ser a milésima vez nos últimos dois dias, Xie Lian sentiu seu rosto esquentar.

“Olá.” Xie Lian disse, enquanto enrolava o cachecol no pescoço e escondia parte do seu queixo nele. Estava um tanto gelado do lado de fora, mas talvez o gesto fosse uma tentativa de ocultar seu constrangimento.

“Olá, Gege.” Hua Cheng respondeu, e sua voz era afetuosa. “O que você quer fazer?”

Xie Lian franziu as sobrancelhas. Ele não tinha chegado a pensar nisso, ocupado demais com a simples ideia de se encontrar com Hua Cheng. Além disso, ele supôs que Hua Cheng teria algum plano do que fazer, já que ele o tinha convidado.

“Eu não sei... Alguma sugestão?”

“Depende. Gege está com fome?”

Ao ouvir a pergunta, Xie Lian se lembrou de que não tinha conseguido almoçar. Seu estômago estava vazio desde o café da manhã, a não ser pelo pirulito que Hua Cheng lhe dera mais cedo. Ele tomou consciência de que sentia bastante fome. Estranho, até então não havia reparado.

“Sim.” Então, ele se lembrou da conversa do dia anterior, e acrescentou com um sorriso: “Me mostre os restaurantes porcaria.”

Hua Cheng riu, jogando levemente o rosto para trás, e Xie Lian não pôde deixar de pensar que aquele som o agradava. Fazia tanto tempo que ele não se sentia confortável com outra pessoa para fazer piadas, e quase havia esquecido como era ter uma conversa espontânea, sem ansiedade para decidir o próximo passo.

“O que você gosta de comer?” Hua Cheng perguntou, e Xie Lian notou que ele estava tomando o cuidado consulta-lo antes de decidir o roteiro para a noite. Como as pessoas podiam dizer que ele não se importava com os outros? Ele acrescentou: “Mas não espere muito, nós não temos muita opção por aqui”

“Quais são as opções?”

Hua Cheng não precisou pensar para responder:

“Pizza, hamburguer, macarrão. É basicamente isso.”

Xie Lian considerou as opções por alguns instantes, segurando seu queixo com uma das mãos, enquanto apoiava seu cotovelo com a outra.

“Hamburguer, então?”, disse ele por fim.

“Okay. Vamos lá.”

Hua Cheng deu as costas para a casa e abriu o guarda-chuva. Estava garoando, gotas muito finas e constantes que quase não faziam som ao tocar no chão. Ele olhou para trás com a sobrancelha levemente franzida, como quem se toca de algo, e perguntou:

“Gege tem um guarda-chuva?”

Xie Lian refletiu sobre a questão por algum momento. Eles deveriam ter algum guarda-chuva na casa, mas decerto ele estava guardado em alguma das caixas de mudança que ainda não tinham sido organizadas. Levaria uma vida para encontrar. Ele não queria perder tempo procurando, e não estava chovendo tanto assim.

Ele balançou a cabeça negativamente.

“Não.”

“Então podemos dividir o meu.”

Hua Cheng inclinou o guarda-chuva em sua direção, em um gesto convidativo. Xie Lian se aproximou, e Hua Cheng deu um passo ainda mais próximo a ele, cobrindo-o com o guarda-chuva. Os dois começaram a caminhar pela rua escura, se mantendo no mesmo ritmo, lado a lado, os passos ressoando na fina camada de água que começava a se acumular na calçada.

Enquanto Xie Lian procurava algum tópico para iniciar uma conversa, a voz de Hua Cheng chegou de novo acima de seus ouvidos, em um tom zeloso:

“Cuidado para não se molhar, está frio. Gege pode pegar um resfriado”

Ao terminar a frase, como se buscasse garantir que Xie Lian não iria se molhar, Hua Cheng inclinou ainda mais o guarda-chuva para o lado do outro.

O delinquente número um da cidade, agindo como uma mãe preocupada? Xie Lian segurou o riso enquanto assentia. Depois, se pegou pensando por que Hua Cheng o tratava com tanta atenção, apesar de eles terem acabado de se conhecer. O que levava seu comportamento com Xie Lian destoar tanto dos boatos que circulavam na escola? Ou será que esse era o seu comportamento normal, e as outras pessoas o julgavam mal por conta dos boatos? Não seria algo inédito, Xie Lian sabia muito bem como a reputação de alguém podia ser destruída injustamente por esse tipo de coisa.

“Como foi seu dia?”, Hua Cheng puxou assunto, aliviando a preocupação de Xie Lian de como começar uma conversa.

“Ah, San Lang!”, ele exclamou, enquanto soltava um suspiro cansado. “Não posso dizer que foi bom.”, admitiu de forma espontânea.

Xie Lian teve a impressão de que Hua Cheng se aproximou um pouco mais dele. Seus braços quase se tocavam, os tecidos de seus casacos roçando as vezes um no outro, tornando-o mais consciente da proximidade física. Ele ouviu uma resposta em um tom de voz um pouco mais baixo:

“O que houve?”

“Nada, eu só... É bobagem.”

Hua Cheng franziu as sobrancelhas.

“Alguém o incomodou?”

Havia inquietação em sua voz?

“Não, não. Nada disso.” Xie Lian se perguntou se deveria expor suas preocupações para um quase desconhecido, mas havia algo na presença de Hua Cheng que lhe dava uma sensação de segurança. “Eu só não me sinto muito bem em lugares com muitas pessoas.”

“Hm.” Hua Cheng assentiu, parecendo pensativo. Xie Lian tomava cuidado de andar olhando para o chão, atento para não escorregar, mas arriscou desviar o olhar para cima, tentando descobrir que tipo de expressão o outro estava fazendo. Seu rosto estava sério, nenhum sinal de seu sorriso brincalhão, e ele parecia até mesmo um pouco preocupado.

Xie Lian se apressou em se explicar: “Não se preocupe, eu vou me acostumar. É só no começo, nada grave! Eu não gosto de ser o centro das atenções, e sendo um aluno transferido, fiquei com medo de atrair a curiosidade dos outros, e aí passei o dia todo ansioso...”

Hua Cheng parou de caminhar e se virou para ele, sua expressão agora claramente preocupada. Ele abriu a boca, e Xie Lian pensou ter visto seu queixo tremer um pouco antes dele começar a falar, agora em um tom grave:

“Gege, me desculpe. Eu não pretendia te causar problemas.”

Parece que Xie Lian tinha, de novo, escolhido mal as palavras. Ele arregalou os olhos, enquanto via Hua Cheng morder o lábio e desviar o olhar, parecendo culpado.

“San Lang, por que você está se desculpando?”

“Bem...”, havia receio em sua voz, as palavras saindo lentamente, “Gege não queria atrair atenção, e eu fiz aquilo no pátio.”, ele engoliu em seco antes de continuar, “Não é o mesmo que colocar um letreiro de neon na sua cabeça?”

Xie Lian deixou escapar um riso nervoso, tomando consciência de qual era o problema.

“San Lang parece realmente ser uma figura famosa.”

“Gege está sendo gentil.” Ele brincou, mas ainda parecia tenso, evitando olhar Xie Lian diretamente, o que, sem dúvidas, era muito destoante de todas as suas outras interações. “A palavra certa é ‘infame’.” Ele prosseguiu, e depois acrescentou com a voz mais baixa: “Eu realmente sinto muito.”

Por algum motivo, Xie Lian não se sentia ressentido com Hua Cheng pela cena na escola. Se fosse para estimar o que ele sentia, talvez a palavra que mais se aproximasse da sensação daquele momento fosse... gratidão? Ele se sentia grato por Hua Cheng estar sendo tão gentil e cuidadoso, se preocupando com seu bem-estar mesmo ele sendo um quase completo desconhecido, e também se sentia grato pelas conversas que os dois tiveram, que por algum motivo o deixavam relaxado e confortável. Xie Lian não achava que merecia nada disso.

Um calafrio percorreu suas costas, e não era por conta do frio. Ele precisava transmitir de alguma forma que não estava incomodado, para aliviar aquela expressão culpada no rosto de Hua Cheng. Xie Lian sentiu uma onda de ansiedade percorrer novamente seu corpo enquanto procurava quais palavras usar, já assumindo que falharia em sua escolha. Até então a interação dos dois tinha sido muito prazerosa, e a perspectiva de arruinar isso tão cedo o preencheu de medo.

“San Lang... Não precisa se desculpar.” Ele começou, tentando fazer sua voz soar despreocupada e amistosa. Não foi muito convincente. “Isso provavelmente aconteceria mesmo se você não viesse falar comigo. Alunos novos são incomuns em cidades pequenas, não é? E de qualquer jeito, eu já estava chamando atenção andando com Qingxuan...”

Ele fez uma pausa, tentando avaliar a reação de Hua Cheng. Parecia que ele não estava sendo persuadido pelos argumentos de Xie Lian, sua expressão ainda carregando sinais de culpa. Instintivamente, Xie Lian percebeu que tentar argumentar de forma racional não resolveria aquele problema. Talvez fosse melhor tentar se sincero.

“E...”, ele pensou em escolher cautelosamente as palavras de novo, mas o impulso de falar o que lhe veio primeiro à mente foi mais forte, “Sendo sincero, eu fiquei bastante feliz em descobrir que nós estamos na mesma escola. Foi o único momento bom do meu dia. Por isso, por favor, não se desculpe.”

Xie Lian se sentiu envergonhado depois de proferir aquelas palavras, mas elas pareceram surtir algum efeito. Hua Cheng voltou a encará-lo, agora com seu usual brilho nos olhos. Havia intensidade naquele olhar, como se muitos sentimentos diferentes estivessem se conflitando por dentro daquela pessoa, disputando freneticamente para ver qual deles prevaleceria.

Xie Lian se viu novamente atraído pelo contraste entre a íris vermelha e a preta, como se houvesse algum tipo de magnetismo nos olhos de Hua Cheng.

“Sério?”, havia algo de esperançoso em sua voz, misturado com a preocupação anterior, “Gege não está dizendo isso apenas para me consolar?”

“É claro que não!”, Xie Lian se apressou em dizer, enquanto segurava o riso mais uma vez. A expressão de Hua Cheng lhe lembrou de uma criança apreensiva. “Eu não mentiria. Também estou feliz por San Lang ter me convidado para jantar.”

O sorriso malandro retornou aos lábios de Hua Cheng, e Xie Lian sentiu como se todos os seus músculos tivessem relaxado ao mesmo tempo, a tensão prévia se esvaindo como se nunca tivesse existido. Talvez até demais. Era bom que ele tomasse cuidado para não perder a força nas pernas.

“Gege vai se arrepender disso quando ver a comida.”

Os dois riram, e voltaram a caminhar. Xie Lian se sentia aliviado.

Hua Cheng os fez virar uma esquina, e a garoa começou a ser substituída por gotas mais grossas, espirrando no asfalto e molhando os pés deles. Os dois apertaram o passo, atravessando o bairro residencial enquanto trocavam palavras com leveza e naturalidade.

Let’s go do it

Have it all our way

Go back to where we blew it

And lose our heads along the way

So long sin, au revoir caos

If there’s a hevaven it can wait

So longo sin, au revoir caos

If there’s a heaven

Rattle that lock and lose those chains

Rattle that lock and lose those chains

Quando os dois entraram no restaurante, seus pés, meias e a barra de suas calças já estavam encharcados. A chuva havia apertado na metade do caminho, e havia um limite do quanto um guarda-chuva conseguia protege-los. No entanto, Xie Lian estava se sentindo alegre e aquecido, talvez por eles terem corrido pelas últimas três quadras, ou talvez porque ele apreciava a companhia de Hua Cheng. Ou talvez as duas coisas.

O restaurante parecia antigo, em um estilo que poderia ser chamado de retrô, não fosse o fato de que talvez ele realmente fosse tão velho quanto sua estética. Eles se sentaram um de frente para o outro em uma mesa levemente bamba e suja com marcas de gordura, e Xie Lian desenrolou o cachecol do pescoço enquanto enxugava algumas gotículas de água que haviam caído em seu rosto.

Os olhos de Hua Cheng pousaram na gargantilha em seu pescoço, e Xie Lian sentiu como se estivesse sendo examinado por um observador excessivamente perspicaz.

Ele tossiu duas vezes para desviar aquela atenção. Hua Cheng levantou o olhar para seu rosto.

“Gege está resfriado?”

“Não!”, dessa vez Xie Lian não conseguiu segurar o riso, “San Lang se preocupa como uma mãe.”

Hua Cheng desviou os olhos dele, e, para a surpresa de Xie Lian, ele viu as orelhas do delinquente ficarem um pouco vermelhas. A visão foi tão surpreendente que Xie Lian esqueceu de se preocupar com qual expressão ele mesmo estava fazendo.

“Agora é Gege quem está zombando desse pobre San Lang.” Ele disse, fazendo um leve bico, como uma criança aborrecida.

“Foi mal, foi mal.” Xie Lian respondeu, mas ainda ria. Ele não se sentia nem um pouco culpado, e inclusive estava curioso para saber o que mais causaria aquela reação em Hua Cheng. “San Lang, você é bem diferente dos boatos.”

Hua Cheng estampou de novo seu rosto com um sorriso malandro, substituindo seu semblante constrangido como se ele nunca tivesse existido. Ele parecia querer dizer algo, mas uma garçonete se aproximou da mesa e perguntou de forma seca o que eles queriam comer. Ela parecia olhar aborrecida para Hua Cheng.

“Gege?”, Hua Cheng o consultou, aparentemente ignorando qualquer sinal de hostilidade vindo da garçonete.

“San Lang pode escolher por mim.”

Ele assentiu e pediu dois lanches iguais, assim como uma porção de batata frita. A garçonete, que devia ter mais ou menos a idade dos dois, anotou o pedido com velocidade e lançou um olhar desconfiadíssimo para Xie Lian antes de se retirar para o balcão.

Xie Lian franziu as sobrancelhas, sem entender do que aquilo se tratava. Percebendo sua confusão, Hua Cheng se pronunciou:

“Eu disse que as pessoas são desagradáveis.” Seu sorriso pareceu se alargar com a risada de Xie Lian. Ele apoiou um cotovelo na mesa e encaixou o queixo em sua mão, mantendo uma postura relaxada enquanto observava Xie Lian. “Quais boatos?”

Hua Cheng parecia querer dar continuidade àquele tópico. Xie Lian se lembrou da conversa com Shi Qingxuan, e se perguntou se seria indelicado trazer todos os boatos à tona. Mas Hua Cheng provavelmente já os conhecia, não? No entanto, isso não mudava o fato de que ouvir tais coisas sendo faladas sobre si mesmo deveria ser desagradável.

Xie Lian optou por começar pelos rumores mais leves.

“Ahn... Dizem por aí que você não gosta muito de interagir com outras pessoas e... que costuma brigar com frequência.” Ele testou, esperando para avaliar a reação.

“Bem.”, Hua Cheng levantou as sobrancelhas. “Isso é verdade.”

Xie Lian não sabia dizer se ele estava brincando ou falando sério. Havia um pouco dos dois em sua voz.

“O que mais?”, Hua Cheng perguntou, se curvando mais para frente sobre a mesa.

Xie Lian pensou, antes de escolher as palavras de novo.

“Que os professores têm medo de você.”

“Eles se sentem intimidados quando encontram um aluno mais inteligente que eles.”, ele comentou, como se falasse algo trivial. “Algo mais?”

Xie Lian balançou o rosto de um lado para o outro enquanto ria. Quanto atrevimento! Depois, considerou se deveria prosseguir. Os outros boatos pareciam mais ofensivos, mas Hua Cheng o encarava relaxado com um sorriso no rosto, como quem não se impressionaria com nada.

Ele baixou o tom de voz, se inclinando mais perto do outro.

“Que... San Lang vende drogas e anda armado com uma faca...?”

Hua Cheng jogou as costas no encosto da cadeira e gargalhou alto, chamando a atenção das outras pessoas que estavam sentadas no restaurante. Vários o olharam perturbados, outros fizeram carrancas e resmungaram. A garçonete encarou Xie Lian de novo, dessa vez com uma expressão irritada.

Hua Cheng não parecia preocupado com nada.

“As pessoas daquela escola sabem muito bem onde comprar drogas, e não é comigo. Mas...”

Ele enfiou a mão no bolso de sua jaqueta, e apanhou algo lá dentro. Levantando-a sobre a mesa, ele mostrou a Xie Lian um pequeno canivete suíço em sua palma. Xie Lian arregalou os olhos enquanto Hua Cheng colocava a lâmina para fora e começava a brincar de girar o objeto entre os dedos.

“Não sei se isso conta como uma faca.” Ele disse, atirando o canivete no ar e o apanhando com a mesma mão.

As pessoas no restaurante tornaram a encará-los.

“San Lang!”, Xie Lian parecia alarmado, “Não faça coisas perigosas!”

“Não se preocupe, Gege.” Disse descontraído, mas parou de girar a lâmina. “Veja, como essas coisas são engraçadas.”, ele de fato parecia achar aquilo tudo muito divertido. “A escola só tem talheres de plástico. Eu tenho um paladar muito exigente, então ando com isso no bolso para poder descascar as maçãs no refeitório. Mas as pessoas inventam todo tipo de histórias fantásticas.”

Havia algo de sarcástico em sua voz, e Xie Lian teve a impressão de que aquela justificativa era um pretexto, mas preferiu não perguntar.

“Guarde isso, senão eu vou chamar a polícia.”, disse a garçonete enquanto colocava dois copos de refrigerante na mesa. Sua carranca indicava que ela estava falando sério.

Hua Cheng devolveu um olhar insubordinado para ela, mas fechou a lâmina.

“Sim senhora.”, ele disse, claramente desdenhoso, e guardou o objeto no bolso.

A garçonete fungou e se afastou de novo da mesa.

Xie Lian precisou segurar o riso mais uma vez.

“Ela é da nossa escola, isso vai vazar.” Hua Cheng gesticulou apontando para a menina, e ele pareceu um pouco preocupado de novo. “Tem certeza que não se importa de andar comigo, Gege?”

“Tenho, eu estou me divertindo.”, Xie Lian afirmou com confiança.

And all the other travellers

Become phamtoms to our eyes

The furies and revellers

The fallen angels in disguise

No discord, chance or rumour

Is going to interrupt this bliss

No discord, chance or rumour

To interrupt this

Xie Lian bebeu alguns goles de seu refrigerante antes de voltar a falar, pensativo: “San Lang não precisa se justificar. Eu não acreditei nos boatos.”

“Gege parece ser uma pessoa sábia que não se deixa influenciar pelos outros.”

Xie Lian riu. Isso estava acontecendo com bastante frequência naquela noite.

“Nada do tipo, mas bem... Eu sei como essas coisas são. Qingxuan também não parece acreditar em todos os boatos.”

“Mas acredita em alguns, não é?”

“Talvez se ele conversasse com San Lang, mudaria de ideia.”

“Não estou interessado.” Hua Cheng respondeu, com uma cara entediada. “Gege é muito mais encantador, prefiro conversar com ele.”

Ele encostou preguiçosamente as costas na cadeira, apoiou as duas mãos atrás da cabeça, e deu um sorriso oferecido para Xie Lian.

A porção de batata frita deles chegou, interrompendo o que quer que Hua Cheng estivesse insinuando, e foi depositada sem cuidado nenhum na mesa com um baque alto. A garçonete se afastou antes que Xie Lian tivesse tempo de agradecer.

Os dois encararam o prato ao mesmo tempo. A porção poderia ser descrita como “triste”, mas isso não fazia jus ao quão lastimável era seu aspecto. As batatas estavam moles e gordurosas, escorrendo óleo, definitivamente horrendas.

Deveria ser um crime estragar batatas dessa forma.

“Eu avisei.” Disse Hua Cheng, sem tocar no prato.

Xie Lian suspirou e estendeu a mão para apanhar uma batata. Ele a examinou por um breve momento, antes de dar uma mordida e mastigar lentamente. Hua Cheng o observou com as sobrancelhas levantadas, esperando alguma reação.

Por fim, ele engoliu, abriu um sorriso e anunciou dramaticamente: “Essa é a melhor batata frita que eu comi em toda a minha vida. Digna de ser servida para a realeza.”

Os dois riram, atraindo mais olhares ranzinzas de seus entornos. Hua Cheng atirou uma batata para dentro da boca com um sorriso no rosto, e agarrou o pote de Ketchup. Xie Lian também se serviu de outra batata, enquanto seu olhar pousava na garçonete que continuava a encará-lo com irritação.

“Por que ela está me olhando desse jeito? Eu fiz algo de errado?”

“Fez.” Hua Cheng respondeu, fazendo uma pausa para aumentar de modo performático a tensão. “Você me trouxe para o restaurante. Péssimo para os negócios.”

“Não foi o contrário?” Xie Lian perguntou, confuso

“Claro que não. Eu não viria aqui sozinho.”

“Nunca?”

“Não. Eu geralmente pego comida para viagem. Evita esse tipo de tratamento.”

Xie Lian assentiu, entendendo que aquilo deveria ser cansativo.

“Então ela deveria se sentir agradecida por eu agraciá-la com o privilégio da presença de San Lang.”

Hua Cheng soltou um riso abafado e continuou a conversa de forma casual, enquanto atirava um punhado de sal sobre as batatas. Não que fosse fazer muita diferença para torná-las mais apetitosas.

“Shi Qingxuan está na sua sala?”

“Sim. O que San Lang pode me dizer sobre ele?”

“Ah, ele é gente boa, eu acho. Melhor do que grande parte das pessoas daquele zoológico que chamam de escola. Um pouco espalhafatoso, popular demais para o meu gosto, mas ele não deve te causar problemas.”

Xie Lian não cansava de se surpreender com a insolência de Hua Cheng. Ele quase começou a rir de novo, mas franziu as sobrancelhas, se tocando de algo.

“Se você acha que ele não vai me causar problemas, por que o ameaçou hoje?”

Os lábios de Hua Cheng se torceram em uma expressão travessa.

“Porque é divertido. Você viu a cara que ele fez?”

“San Lang, que maldade!”

Suas palavras pareciam uma forma de censura, mas Xie Lian na realidade estava achando aquilo bastante engraçado. A personalidade de Hua Cheng era astuta e parecia indicar alguém experiente, mas suas brincadeiras tinham um ar de juventude, espontâneas, despreocupadas e espirituosas. O contraste entre a pessoa na sua frente e os boatos que circulavam sobre ele só servia para alimentar sua curiosidade. Xie Lian o conhecia a pouco tempo, mas não podia deixar de acha-lo fascinante. E o fato de Hua Cheng também estar interessado nele o deixava em partes lisonjeado, em partes arrebatado.

Os dois comeram as batatas enquanto conversavam e riam, e também os hamburgueres horrendos que chegaram logo depois, até não sobrar nada sobre a mesa. Quando terminaram de comer ainda chovia forte, então eles enrolaram um pouco na mesa esperando o temporal abrandar. O clima entre os dois era agradável, para o aparente desgosto de todos os outros clientes e dos funcionários.

Por fim eles se levantaram e pagaram a conta no caixa. Hua Cheng sorriu com escárnio para a garçonete que os havia atendido, o que pareceu irritá-la imensamente. Satisfeito, ele abriu a porta do restaurante e deixou Xie Lian sair antes de segui-lo para fora.

Xie Lian olhou no relógio e percebeu que eram quase dez horas da noite. Ele deveria voltar para casa, mas, assim como na noite anterior, ainda não queria se despedir de Hua Cheng. Ele sentia algo de fantástico naquela interação, como se estivesse mergulhado no mundo de um livro particularmente interessante, e no fundo, sabia que no momento que ela acabasse, ele seria jogado com ainda mais violência de volta para sua realidade.

No entanto, enquanto Hua Cheng estava do seu lado, aquela realidade não parecia mais do que um rumor distante.

Hua Cheng sorriu enquanto observava o céu noturno, e Xie Lian o observou com crescente afeição. Ele passou uma das mãos em seu cabelo longo e escuro, jogando a franja que caia sobre os olhos para o lado, e se dirigiu a Xie Lian em um tom afetuoso.

“Gege, está frio, mas... Quer caminhar mais um pouco antes de voltar?”

Poucas vezes na vida Xie Lian assentiu a alguém com tanto entusiasmo.

Parece que Hua Cheng estava pensando o mesmo que ele.

So, let’s get to it

It’s calling like a flame

Through the darkness and the night

A world suspended on a golden chain

No discord, chance or rumour

Is going to interrupt this bliss

No discord, chance or rumour

To interrupt this

Rattle that lock

Rattle that lock and lose those chains

Rattle that lock

Rattle that lock

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Na manhã seguinte, Xie Lian chegou cedo na escola, caminhou diretamente para sua sala e se sentou em sua carteira sem interagir com ninguém. Como no dia anterior, ele colocou fones de ouvido e abriu um livro, preparado para aguardar em silêncio o início das aulas.

Porém, sua leitura foi interrompida quando Shi Qingxuan se atirou sem nenhum cuidado na cadeira a sua frente, com o rosto eufórico e um celular na mão. Xie Lian levantou os olhos assustado, e tirou um dos fones do ouvido, tentando entender qual seria o motivo para tamanho alvoroço as sete da manhã. Mas ele não queria ser grosseiro, então tentou primeiro cumprimentar a pessoa na sua frente.

“Olá?”, seu tom saiu um pouco desconcertado, mais do que ele pretendia.

“Xie Lian, você é doido.”, foi a resposta que ele recebeu.

Suas duas sobrancelhas se franziram. Isso é jeito de cumprimentar alguém? Mas ele não teve tempo de responder, porque Shi Qingxuan desbloqueou a tela de seu celular e o empurrou na cara de Xie Lian.

“Olha.”

Na tela havia uma foto. Uma foto dele com Hua Cheng na lanchonete do dia anterior.

Xie Lian arregalou os olhos, incapaz de conter a surpresa e o choque de ver aquela imagem dele no celular de Shi Qingxuan, um quase desconhecido com quem ele só tinha conversado por um dia.

“Como...?”

“Bem-vindo ao interior.”