Notas iniciais
Hey hey hey, eu voltei! Escrever esse capítulo foi... Intenso. Mas estou feliz com o resultado. O mais difícil provavelmente foi escrever sobre uma tarde de verão durante a semana mais fria que a minha cidade viu nos últimos anos, rs. Se alguém que está lendo isso não sabe inglês, eu aconselho a pesquisar a tradução das letras citadas ao longo do capítulo... Acho que deixa a leitura mais interessante. Me avisem se encontrarem erros de digitação, deu o maior trabalho revisar esse negócio. Track 4: Fat Old Sun [Pink Floyd, Atom Heart Mother, 1970] Outras músicas que aparecem no capítulo: Moby Dick [Led Zeppelin] 21st Century Schizoid Man [King Crimson] Blackbird [The Beatles] Who we are [Scorpions] Um recadinho para os leitores: Crianças, escutem rock dos anos 70. Idosos, escutem abertura de anime cantada por dubladores com vozes excessivamente agudas. É bom ser eclético. E não saiam de casa sem agasalhos. Espero que vocês gostem de capítulos longos. Boa leitura!

“Only after having met you did I rediscover that it’s such a simple thing to be happy.” TGCF, capítulo 134.

Track 4: Fat Old Sun

When that fat old sun in the sky is falling

Summer evenin’ birds are calling

Summer’s thunder time of year

The sound of music in my ears

Distant bells

New-mown grass smells so sweet

By the river holding hands

Roll me up and lay me down

“Nós vamos ou não?”

“E se der algo errado?”

“Tipo o que?”

“Se nós formos pegos?”

“É só sair correndo.”

“Eu não sei se consigo correr tanto.”

“Os policiais são todos obesos.”

“Mas e se você se machucar?”

“Sem chance.”

“E se eu me machucar?”

“Este San Lang promete cuidar de você com zelo, te levar e te buscar da escola, trocar seus curativos e te dar comida na boca.”

“San Lang! Como você é sarcástico.”

“Sem sarcasmo. Gege não vai encontrar ninguém no mundo mais sincero do que eu.”

“E mentiroso!”

“Assim você me magoa.”

“Você não parece magoado.”

“Vamos, não vai acontecer nada. Você disse que queria.”

“Sim, mas... Isso não é crime?”

“Pegar ameixas de uma árvore não é crime.”

“Eu tenho quase certeza de que invasão de propriedade alheia é sim.”

“Tecnicalidades.”

“San Lang já pode ir buscar seu diploma de advogado.”

“Quem é o sarcástico agora?”

“...”

“...”

“Elas estão com uma cara boa.”

“Estão mesmo. Vamos então?”

“San Lang!”

“Ninguém nunca foi preso por apanhar umas ameixas.”

“Mas isso é roubo!”

“Não é como se nós estivéssemos roubando algo da casa.”

“É, só do quintal.”

“Tecnicali... Ouch. Isso era necessário?”

“Estritamente necessário.”

“Gege é cruel.”

“San Lang é dramático.”

“Ninguém mora aí faz dois anos, ninguém se importa. Elas vão todas cair no chão e apodrecer. Nem os passarinhos dão conta de comer tudo isso.”

“Eu nunca pulei um muro na vida.”

“Não é tão difícil.”

“Fala por experiência?”

“Eu sou um exímio saltador de muros. É um diferencial que as empresas hoje em dia procuram.”

“Não esqueça de colocar isso no seu currículo.”

“Gege não pode deixar passar essa oportunidade de aprender com um mestre. É um investimento para seu futuro!”

“Eu sinto que estou tomando um golpe.”

“Jamais. Só fazemos negócios genuínos e autênticos.”

“Pfff.”

“E aí, nós vamos ou não?”

“Não.”

Era domingo. A tarde estava quente e era possível ouvir o canto das cigarras preenchendo o ar abafado. O verão havia chegado.

Xie Lian começou a se afastar do muro, e Hua Cheng o seguiu se arrastando em uma postura lânguida.

“Gegeeee, eu estou entediado.”, ele reclamou enquanto enxugava as gotas de suor que escorriam por sua testa.

“Vamos dar uma volta no rio.”, Xie Lian sugeriu.

“Eu não quero andar, está quente.”, Hua Cheng continuou resmungando como uma criança mimada. “Está tão quente que eu estou prestes a derreter. Não, já estou derretendo. Vá buscar um balde para não deixar eu me espalhar pelo chão.”

Xie Lian riu enquanto continuava a caminhar. Ele já havia se acostumado com as performances dramáticas de Hua Cheng.

“Então vamos em casa jogar vídeo game.”

“Pra você me dar outra surra? Não, obrigado.”

“San Lang está melhorando.”

“É, daqui uns 800 anos eu chego no seu nível.”

“O que San Lan quer fazer então?”

“Eu quero fazer algo errado.”, Hua Cheng anunciou de forma teatral.

Xie Lian riu de novo.

“Por que?”

“Porque é mais divertido.”

“Então eu preciso garantir que você não se meta em problemas.”

“Gege é tão comportado, aposto que nunca saiu da linha na vida. Como você consegue andar comigo?”

Hua Cheng passou seu braço sobre o ombro dele, e Xie Lian sentiu seu corpo endurecer e se encolher desconfortavelmente. A reação não pareceu passar despercebida para Hua Cheng, que afastou seu braço no mesmo instante. Ele observou Xie Lian com uma expressão apreensiva.

Antes que ele tivesse tempo para fazer alguma pergunta, Xie Lian se apressou em continuar a conversa como se nada tivesse acontecido.

“Eu já fiz coisas erradas.”, ele afirmou de forma categórica.

Hua Cheng levantou as sobrancelhas.

“É, tipo o que?”

“Eu...”

Xie Lian não conseguiu terminar a frase. Ele sentia que já havia feito coisas erradas na vida, mas não do tipo de “erradas” a que Hua Cheng se referia. No caso dele... Talvez fossem tópicos pesados e pessoais demais para serem trazidos à tona em uma tarde monótona de verão.

Mas se ele não desse uma resposta satisfatória, Hua Cheng com certeza zombaria dele.

Xie Lian já havia feito algo na vida que contasse como “sair da linha”?

Ele certamente nunca tinha pulado muros, nem matado aulas, nem pregado peças maldosas, muito menos roubado coisas. Ele nunca tinha bebido, nem usado drogas, nem feito tatuagens, nem entrado em lugares proibidos para adolescentes. Ele não ia para festas, não frequentava bares, sempre tirava boas notas, nunca discutiu com um professor, nunca se meteu em brigas, nunca causou problemas.

Ele nunca sequer tinha beijado alguém.

Antes de conhecer Hua Cheng, suas experiências como adolescente estavam bastante restritas à eventos da alta sociedade e a espaços públicos com cobertura da imprensa, nos quais ele precisava se portar adequadamente. Até mesmo em sua antiga escola, as regras de conduta eram bastante rígidas para “educar” os filhos das famílias de prestígio da capital, e ele nunca se envolveu com os alunos considerados problemáticos.

Hua Cheng acelerou os passos e parou na frente de Xie Lian, com as duas sobrancelhas levantadas e um sorriso no rosto.

“E então?”, ele provocou, impedindo Xie Lian de continuar a andar.

Xie Lian sentiu seu rosto esquentar e desviou os olhos antes de resmungar uma resposta.

“Eu entrava escondido no vizinho para brincar com o cachorro dele.”

Foi a única coisa que Xie Lian conseguiu lembrar. Parecia um tanto boba, mas o que mais ele poderia dizer?

“Terrível. Gege é um criminoso.”

“Como San Lang consegue andar comigo?”

Repetir as frases um do outro tinha se tornado um hábito afetuoso entre eles. No começo era apenas uma brincadeira, mas agora Xie Lian sentia que aquela era uma forma carinhosa dos dois indicarem que prestavam atenção um no outro. Toda vez que a interação se repetia, ele sentia seu peito aquecer e seus lábios involuntariamente se levantando em um pequeno sorriso.

Hua Cheng riu e desbloqueou o caminho. Os dois voltaram a caminhar, agora lado a lado, ainda sem ter decidido um destino.

Fazia em torno de oito meses que Xie Lian se mudara para aquela cidade. Oito meses desde que ele havia conhecido San Lang. O tempo passou em uma velocidade assombrosa, e simultaneamente pareceu se arrastar em câmera lenta. Os dias alaranjados do final do outono foram substituídos pelo frio acinzentado de inverno, depois pelas cores delicadas da primavera, e finalmente os tons vivos e verdes do verão começavam a invadir a pequena cidade. As horas, dias e meses se sucederam, e antes que Xie Lian percebesse, ele já se tornara um aluno do terceiro ano do ensino médio.

Nesse período, a vida cotidiana de Xie Lian tinha sido mais pacífica do que ele consideraria ser possível em seus delírios mais insanos.

Na escola, ele passava seu tempo com Shi Qingxuan. O garoto animado e extrovertido parecia gostar muito da companhia de Xie Lian. A despeito de ser alguém muito popular, sempre requisitado por outro alunos, ele ainda assim flutuava todos os dias, como uma leve brisa, de volta para a carteira à frente de Xie Lian, com um sorriso no rosto e palavras infindáveis saindo dos lábios.

Xie Lian também gostava da companhia de Shi Qingxuan. Os dois almoçavam juntos, estudavam juntos nos intervalos, escreviam trabalhos juntos, e Xie Lian o ouvia rotineiramente reclamar dos professores, das tarefas, e dos outros alunos. Às vezes era um pouco cansativo acompanhar sua personalidade entusiasmada e disposição incansável, mas, apesar disso, Shi Qingxuan era observador, gentil e divertido, sem dúvidas um bom amigo.

Após as aulas, Xie Lian se encontrava com Hua Cheng. Embora os dois se vissem também pela escola, Hua Cheng insistira que eles não conversassem muito enquanto estivessem lá, para evitar atenções desnecessárias direcionadas à Xie Lian. Hua Cheng persistiu em tal acordo mesmo depois de Xie Lian tentar protestar, afirmando categoricamente que os boatos se tornariam piores se os dois fossem vistos com frequência andando juntos pelos corredores. Xie Lian não entendia realmente como aquilo funcionava, porque os dois eram vistos andando juntos pela cidade — afinal de contas, não era uma cidade grande —, mas decidiu aceitar, certo de que a atitude de Hua Cheng partia de uma preocupação genuína com o seu bem-estar.

Hua Cheng o esperava todos os dias após a aula, encostado em um muro, virando uma esquina na rua da escola. Mesmo que Xie Lian saísse imediatamente da sala após o sinal e corresse até o ponto de encontro, Hua Cheng não apenas sempre chegava primeiro, como também parecia já estar relaxando ali há algum tempo. Xie Lian o encontrava apoiado preguiçosamente no muro, com fones surrados nos ouvidos, olhando para o céu distraído. Tal fenômeno era de difícil explicação, e Xie Lian se perguntava se ele matava a última aula todos os dias para chegar mais cedo ali. Quando ele se aproximava, Hua Cheng substituía sua expressão entediada por um sorriso afetuoso. Então, os dois caminhavam juntos até o parque entre suas casas, e passavam seu tempo lá até anoitecer.

Após essa cena se repetir algumas vezes, Xie Lian se sentiu impelido a descobrir que tipo de música Hua Cheng ouvia enquanto o esperava. Um dia, sem conseguir mais conter sua curiosidade, ele apanhou um dos fios do fone, arrancando-o sem cerimônia da orelha de Hua Cheng e colocando-o na sua. Hua Cheng levantou as sobrancelhas, aparentando estar surpreso com o gesto, mas não se moveu nem fez comentários. O cabo era curto, e seus rostos estavam próximos enquanto Xie Lian estampava uma expressão confusa ao ouvir a música que saia dos fones.

Havia o som de uma guitarra, e o som de uma flauta.

“O que San Lang está ouvindo?” Xie Lian perguntou, franzindo a sobrancelha concentrado. Aquilo era algo desconhecido para ele.

“Camel.” Hua Cheng respondeu, e diante do olhar inquisidor de Xie Lian, se apressou em explicar: “É uma banda dos anos 70.”

Xie Lian não conhecia nenhuma banda de rock que usasse flautas. Ele comentou exatamente isso, e Hua Cheng riu.

“Gege nunca ouviu rock progressivo?”

Ele balançou a cabeça negativamente. Na realidade, Xie Lian não conhecia muitos gêneros de música, afora música clássica, que ele estudara nas aulas de piano, assim como música pop que as pessoas de seu colégio antigo costumavam ouvir, e algumas bandas de rock que poderiam ser consideradas famosas o suficiente para serem de “conhecimento comum”. Hua Cheng tirou seu celular velho do bolso, desbloqueou a tela trincada e mostrou a capa do álbum que estava ouvindo. Havia um círculo com um ganso branco desenhado no centro, e, em letras de um estilo datado, as palavras “The Snow Goose”.

Os dois continuaram ouvindo o álbum instrumental por um longo tempo.

Aquilo também se tornou um hábito. Xie Lian gostava de apanhar um dos fones da orelha de Hua Cheng para descobrir o que ele estava ouvindo naquele dia. Às vezes, ele fazia isso quando o encontrava após a aula; às vezes, quando os dois estavam à toa no parque; às vezes, quando ele cruzava com Hua Cheng caminhando de manhã em direção ao colégio. Com muita frequência, ele se deparava com músicas que nunca tinha ouvido, e ficava fascinado. Hua Cheng tinha uma clara preferência por rock progressivo, mas também ouvia outros estilos e parecia conhecer uma quantidade infindável de bandas que Xie Lian nunca ouvira falar.

Camel. Caravan. King Crimson. Led Zeppelin. Rainbow. Yes. Scorpions. The Mars Volta. Dream Theather. Muse. Pink Floyd.

Cada vez que ele descobria uma banda nova, os dois permaneciam lado a lado, os ombros quase se tocando, enquanto compartilhavam o fone e ouviam algumas músicas. Xie Lian fechava os olhos e tentava absorver as sensações novas que Hua Cheng o proporcionava por meio daqueles breves momentos de silêncio compartilhado. Depois, Hua Cheng lhe dava informações sobre a banda em questão, e Xie Lian o ouvia com admiração e encanto.

Quando ele voltava para casa, procurava outras músicas da banda nova que tinha conhecido e as ouvia deitado na cama, de olhos fechados, até dormir.

Nesse tempo de convivência, Xie Lian aprendeu também outras coisas sobre Hua Cheng. Em primeiro lugar, ele era um ano mais novo que Xie Lian. Ele só se vestia de vermelho e preto, mas gostava de usar acessórios de prata como correntes, brincos e braceletes. E, apesar de sua má fama, não era um aluno ruim. Hua Cheng não parecia muito interessado nas atividades escolares, mas tinha boas notas. Xie Lian sabia que ele era inteligente e que conseguiria resultados ainda melhores se tentasse se dedicar. Talvez, até mesmo conseguiria estar entre os melhores alunos do colégio. No entanto, outra característica que ele aprendeu sobre Hua Cheng era que ele não tinha muito interesse em se esforçar com coisas que não lhe pareciam importantes. Ele não se importava com suas notas, e em algum momento Xie Lian percebeu, com surpresa e fascínio, que ele só estudava quando tinha vontade de irritar os professores que o subestimavam.

Funcionava.

Hua Cheng também não se importava com os boatos sobre ele, o que não deixava de impressionar Xie Lian. Ele não conseguia se imaginar com nem um décimo da confiança que o outro tinha. Hua Cheng caminhava pelas ruas com o queixo alto, o peito aberto, um sorriso sarcástico e um eterno olhar de desprezo e desdém por todas as pessoas que ousavam julgá-lo pelo caminho. Se Shi Qingxuan poderia ser comparado com um espírito livre ou de uma brisa refrescante, Hua Cheng era uma entidade irrefreável, uma tempestade vigorosa. Um estrondo cortando e iluminando o céu noturno e atraindo os olhos de Xie Lian como eletricidade estática.

Com o que Hua Cheng se importava, então? Essa era uma pergunta difícil de responder, suas motivações mais intimas permanecendo um mistério para Xie Lian mesmo depois de todo esse tempo de convivência constante. Porém, Xie Lian acreditava que tinha aprendido a reconhecer grande parte dos traços de sua personalidade. Ele sabia a diferença entre seu sorriso falso e seu sorriso genuíno, entre suas performances dramáticas e seus raros momentos de irritação real, entre suas birras quase infantis e sua sensatez madura demais para a idade. Ainda que Hua Cheng não gostasse de falar muito sobre si mesmo, suas expressões entregavam abundantes informações para os olhos atentos de Xie Lian. Afinal de contas, ele não conseguia mais desviá-los.

As tardes preguiçosas que os dois compartilhavam no parque o ensinaram que Hua Cheng gostava de desenhar, mas não tinha muita confiança em sua destreza e se envergonhava quando outros viam seus esboços. Se dependesse dele, Xie Lian provavelmente não teria sido informado de tal prática. A descoberta veio a partir de sua observação.

Xie Lian estabeleceu uma rotina de se sentar no gramado do parque para fazer sua lição de casa após a aula. Hua Cheng não tinha a menor intenção de imitá-lo, desinteressado das obrigações escolares, mas ele permanecia em um silêncio respeitoso enquanto Xie Lian preenchia as listas de exercícios, atento para não o atrapalhar. Durante esse tempo, ele por vezes se deitava na grama ao lado de Xie Lian, a cabeça apoiada nas duas mãos cruzadas atrás da nuca, uma das pernas dobrada e a outra apoiada sobre o joelho, e olhava para o céu com uma expressão preguiçosa; por vezes, ele se sentava e brincava com seu próprio cabelo, girando os fios entre os dedos enquanto observava Xie Lian estudar; por vezes, ele colocava seus fones de ouvido e fechava os olhos, balançando levemente o corpo acompanhando ritmo da música; e por vezes, ele apanhava um caderno maltratado de dentro de sua mochila e começava a rabiscar, tomando cuidado para manter a folha fora do campo de visão de Xie Lian.

É claro que esse seu gesto não passou despercebido.

Xie Lian também o observava enquanto fazia as tarefas. Toda vez que ele precisava de uma breve pausa, ou de um tempo para considerar alguma questão, sua visão se deslocava involuntariamente para Hua Cheng. A presença dele era acolhedora e calmante, mas também mobilizava enorme curiosidade. Por isso, Xie Lian começou a escrutinar todos os seus pequenos gestos característicos, todas as sutis mudanças em suas expressões faciais, todas as minúsculas variações em seu tom de voz.

Ao perceber que Hua Cheng escondia seus rabiscos, ele não pôde deixar de se esgueirar e, em um momento de distração, apanhar o caderno das mãos dele. Seu gesto foi acompanhado de um som estarrecido escapando dos lábios de Hua Cheng.

No papel havia um esboço de Xie Lian com o rosto concentrado, provavelmente sua expressão enquanto resolvia os exercícios de matemática.

Ah, é claro. Hua Cheng também o observava.

O esboço não era perfeito, mas era vivo. Xie Lian percebeu que o desenho conseguia de alguma forma captar de forma acurada seus atributos faciais, mas, mais do que isso, ele passava por meio de seus traços uma sensação de indiscutível delicadeza, assim como... uma espécie de leveza. Xie Lian prendeu a respiração, surpreso. Ele não conseguia se ver condizente com a beleza daquele retrato.

Ele levantou os olhos do papel para encarar o autor do desenho, e pode vislumbrar um fenômeno raro: Hua Cheng com o rosto coberto por um suave mas indubitável tom rosado.

“Gege, eu posso explicar...”

“San Lang, por que você não me disse que desenhava?”, ele protestou.

“São só rabiscos.”

“Não são! Isso é realmente incrível.” Xie Lian o elogiou, enquanto folheava o caderno e via os outros esboços feitos com grafite. Havia casas, paisagens, animais, flores. “San Lang é talentoso.”

Hua Cheng desviou o olhar dele com uma clara aflição no rosto.

“Gege não está incomodado?”, ele perguntou, e sua voz carregava receio.

“Por que eu estaria?”

Xie Lian franziu as sobrancelhas, tentando entender qual era o problema. Hua Cheng parecia constrangido.

“Eu... Não devia ter te desenhado sem seu consentimento.”, ele admitiu, seu rosto corando novamente.

Os olhos de Xie Lian se arregalaram antes dele desabar de costas no gramado, sua risada ecoando por entre as árvores do parque.

“San Lang! Hahahaha...”

Hua Cheng o observava consternado.

“Gege, qual é a graça?”

“Não é nada, nada.”

Mas ele continuava a rir.

“Se não fosse nada, você não estaria rindo.”

“É só..." Xie Lian precisou de uma pausa para puxar o ar várias vezes, tentando recuperar a compostura. “San Lang é sempre confiante com tudo, eu não esperava que...”

Ele não conseguiu terminar a frase, porque começou a rir de novo.

“O que?”, Hua Cheng insistiu, sua voz apreensiva.

“Que você se preocupasse com esse tipo de coisa.”, ele concluiu após mais alguns sons de riso contido escaparem de sua boca.

Xie Lian viu os lábios de Hua Cheng afinarem, algo que ele fazia estava contrariado.

“Não se preocupe, agora você tem meu consentimento. Mas me mostre depois, ok?”, ele disse entre risos, devolvendo o caderno.

Hua Cheng apanhou o caderno de sua mão e assentiu sem emitir nenhum som, seu rosto ainda aborrecido mas um pouco mais resignado.

Os dois continuaram a compartilhar suas tardes assim, apreciando a companhia um do outro. Com enorme estranhamento, Xie Lian não podia deixar de pensar que aquilo tudo era muito, muito pacífico.

Xie Lian supunha que sua vida tranquila no colégio se devia pela proximidade com Shi Qingxuan e Hua Cheng. Os dois criavam um círculo de proteção dentro e fora da sala de aula, impedindo que outras pessoas se aproximassem dele o suficiente para lhe causar problemas. Shi Qingxuan parecia bobo, mas na realidade ele era bastante perspicaz na arte de desviar atenções. Não à toa ele conseguia interagir bem com tantos grupos diferentes de alunos, seu talento para navegar em situações sociais não podia ser subestimado por sua aparência despreocupada. Enquanto Xie Lian estivesse junto dele na sala de aula, ninguém conseguiria incomodá-lo.

No entanto, as pessoas não pareciam interessadas em falar com Xie Lian. Talvez o que realmente o protegesse eram os “boatos” circulando sobre sua relação com Hua Cheng. Na realidade, não eram apenas boatos. As pessoas de fato os viam caminhando juntos para casa todos os dias. Isso era suficiente para que ninguém quisesse se envolver.

Xie Lian não via problemas no fato dos outros alunos não quererem se aproximar dele. A bem da verdade, ele estava satisfeito. Sem nenhum esforço, e logo no início de sua transferência, ele tinha conseguido duas pessoas que o mantinham seguro. Considerando sua costumeira má sorte, o quão improvável era essa situação? E assim, para o seu enorme alívio, os meses se passaram sem nenhum transtorno nem sinais de informações sobre seu passado vazarem.

A consciência de sua vida pacata e distante dos holofotes se desdobrou diante dos olhos de Xie Lian enquanto ele caminhava naquela tarde de domingo insuportavelmente quente junto de Hua Cheng. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.

Enquanto procurava um assunto para continuar a conversa, Xie Lian se lembrou de algo.

“Qingxuan vai dar uma festa na próxima semana.”

Hua Cheng caminhava ao seu lado com uma expressão meio entediada, meio exaurida. O calor realmente não lhe fazia bem.

“Gege pretende ir?”

Xie Lian balançou a cabeça negativamente.

“Eu não sei, não estou acostumado com festas. Acho que ficaria deslocado.”, ele suspirou, “Mas Qingxuan vai ficar decepcionado se eu não for.”

“Se vocês são amigos, ele não deveria ser compreensivo e não te pressionar a fazer coisas que te deixam desconfortável?”

“Diz a pessoa que tentou me pressionar a cometer um crime agora a pouco.”

Um sorriso malandro apareceu no rosto de Hua Cheng.

“Culpado.”

Xie Lian riu. Depois, ponderou as próximas palavras.

“Ele... Disse para eu te convidar também .”

A diferença era mínima, mas Xie Lian percebeu que Hua Cheng curvou as sobrancelhas em uma expressão insegura.

“Eu?”

Sua voz soava um pouco incrédula.

“Sim.”

“Por que ele faria isso?”

Xie Lian sabia a resposta, mesmo que Shi Qingxuan não tivesse lhe dito nada.

“Porque ele sabe que eu gosto de você.”

Hua Cheng parou de andar bruscamente e desviou o olhar de Xie Lian, de modo que seu rosto ficou parcialmente oculto por seu cabelo. Xie Lian o observou, tentando entender o que aquele gesto significativa.

“San Lang? Está tudo bem?”

“Sim.”, Hua Cheng respondeu, mas sua voz soava estranha, contida.

Xie Lian não conseguiu entender sua reação. Aquele tom de voz não era normal, ou melhor, não era algo que ele conseguia reconhecer mesmo depois de todos esses meses de convivência.

Será que Hua Cheng estava incomodado por só ter sido convidado para a festa por causa de Xie Lian? Mas ele não se importava com a opinião dos outros, então por que se incomodaria com isso? Em condições normais, ele não acharia essa festa um desperdício de tempo? Não é como se ele quisesse interagir com os outros estudantes. Qual era então o motivo de sua reação?

“Eu disse algo de errado?”, Xie Lian perguntou sentindo um aperto no peito e um princípio de ansiedade.

“Não.” Hua Cheng respirou fundo, e voltou a olhar para Xie Lian. Ele tentou colocar uma expressão normal no rosto, mas ainda havia algo de estranho, como se ela não fosse natural. “Gege nunca diz nada de errado.”

Xie Lian não acreditava nisso.

“Você não precisa ir se não quiser”, ele disse, e, procurando um jeito de quebrar a tensão, acrescentou em um tom mais brincalhão: “As pessoas são desagradáveis, não é?”

Hua Cheng sorriu, mas não era um sorriso completamente despreocupado.

“Se Gege quiser, eu posso acompanha-lo.”

É claro que Xie Lian adoraria a companhia de Hua Cheng, e isso resolveria o problema dele se sentir deslocado dentro da festa. Mas a reação anterior ainda o preocupava.

“Não, San Lang não deveria se forçar a nada.”

“Não estou em forçando.” Hua Cheng respondeu de forma decidida.

“Tem certeza? Não vai ser tedioso para você?”

“Não se você estiver comigo.”, ele prosseguiu esboçando um sorriso mais sincero, e Xie Lian sentiu um impulso de esconder o rosto nas próprias mãos. “Além disso, eu posso aproveitar e assustar um pouco aqueles bundões. Pode ser divertido.”

Ah, tão maldoso.

Xie Lian nunca se cansava daquilo. Parecia que Hua Cheng tinha voltado ao normal.

“Então vamos.”, ele respondeu, se sentindo um pouco mais aliviado.

“En.”, Hua Cheng assentiu em um tom de voz baixo.

“Só precisamos arrumar algo para acabar com o tédio de agora.”

“Impossível. Eu não consigo existir nesse calor.”

Uma ideia veio à mente de Xie Lian.

“As lojas do centro comercial têm ar-condicionado. San Lang não tem algo que precise comprar? Ou nós podemos ir até lá e ficar enrolando.”

“Não,” Hua Cheng respondeu sem precisar pensar, “e se nós enrolarmos, vão achar que eu estou roubando algo.”

Xie Lian suspirou. Ele não tinha pensado nisso, mas é claro que que as pessoas da cidade adorariam uma oportunidade para acusar Hua Cheng injustamente. Parece que seu plano não funcionaria.

Quando ele estava prestes a desistir, Hua Cheng se manifestou de novo.

“Espera, tem algo.”, ele continuou, baixando um pouco o tom de voz. “Eu precisava de baquetas novas.”

Foi a vez de Xie Lian interromper a caminhada e arregalar os olhos.

“San Lang toca bateria?”

“Hm, sim.”, Hua Cheng respondeu parecendo distraído.

“Por que você não me disse?”

“Não é importante.”

“Como não?”

“Não é tão útil quanto pular muros.”

Xie Lian já conhecia bem suas táticas de desviar de assuntos, e não pretendia deixar essa passar.

“Me mostre.”

“Gege?”

“É isso o que nós vamos fazer!” Xie Lian anunciou em voz alta. “Eu quero te ver tocar!”

Hua Cheng não parecia compartilhar de sua empolgação.

“Agora?”

“Agora.”

Sua voz não era autoritária, mas decidida. Seus olhos brilhantes encaravam os de Hua Cheng.

Hua Cheng permaneceu em silêncio por um tempo, como se considerasse a ideia. Por fim, ele suspirou, se dando por derrotado.

“...Okay.”

Xie Lian não pôde conter um enorme sorriso se espalhando por seu rosto.

Hua Cheng mudou a direção para onde eles andavam e virou uma esquina. Xie Lian o acompanhou, andando com passos leves. Pelo caminho, ele sabia que os dois estavam se dirigindo para a casa de Hua Cheng.

A tarde se arrastava para mais perto de seu fim, mas o sol escaldante continuava pinicando suas peles enquanto eles caminhavam. Era possível ouvir um sino de igreja tocando a distância, marcando dezesseis horas. Algumas crianças passaram correndo por eles sem camisa, rindo e atirando galhos umas nas outras.

Xie Lian observou Hua Cheng, e percebeu que ele estava um pouco mais quieto do que o normal, um pouco mais concentrado, talvez até mesmo receoso. No entanto, seus passos eram firmes.

Os dois chegaram em frente à sua casa. Era uma construção térrea antiga e abatida, com a pintura descascando e as janelas sujas. Xie Lian tinha passado por ali dezenas de vezes, mas nunca havia entrado. Ele deduzira que Hua Cheng não tinha uma relação boa com a família, e que aquele lugar não era um espaço convidativo, mas parte dele ainda sentia curiosidade de conhecer o local onde Hua Cheng vivia. Algo lhe dizia que, com isso, talvez descobrisse uma parte dele que ainda estava escondida.

Hua Cheng hesitou na porta, segurando sua chave. Talvez aquela não tivesse sido uma boa ideia. Xie Lian se perguntou se estava o forçando a algo desconfortável. Mas não houve tempo de se manifestar ou voltar atrás, porque Hua Cheng logo destrancou a porta e abriu espaço para ele passar.

“Não tem ninguém em casa.”, ele falou, enquanto entrava atrás de Xie Lian e fechava a porta. “Final do corredor, à direita.”

O primeiro ambiente da casa era uma sala bastante bagunçada. Havia roupas atiradas em um sofá velho e garrafas de bebida vazias sobre uma mesa de centro. Uma televisão de tubo, uma verdadeira relíquia, estava ligada na tomada e emitia um baixo barulho de estática. Hua Cheng a desligou antes de guiá-lo pelo corretor empoeirado até os fundos da casa.

O quarto de Hua Cheng era pequeno. Xie Lian passou os olhos pelo espaço abafado, enquanto ouvia Hua Cheng fechar a porta. Parecia que aquele cômodo tinha sido construído para ser uma despensa ou um depósito, e não propriamente um quarto. Havia uma janela pequena e comprida no alto da parede, mas pouca luz entrava ali. A mobília era composta apenas por uma cama de madeira antiga e uma cômoda alta com duas fileiras de gavetas. O piso era de carpete e emitia um leve odor de mofo.

Não havia nada ali que demonstrasse a personalidade de seu habitante. Nenhuma decoração, nenhum poster, nenhum objeto pessoal, nem mesmo uma peça de roupa sobre a cama. A única coisa que dava uma pista de individualidade era uma bateria encostada em uma das paredes.

Xie Lian olhou para o quarto, depois para Hua Cheng, e sentiu alguma coisa se apertar em seu peito, uma repentina onda de desolamento percorrendo sua consciência.

Aquilo não se parecia com um lar.

Hua Cheng parecia um pouco constrangido.

“Não é muito confortável, mas fique à vontade.”

Xie Lian assentiu e se sentou na cama enquanto observava Hua Cheng puxar a bateria para o centro do quarto e ajeitar a altura de um pequeno banco. O instrumento era velho, sua pintura riscada e descascando, muitas marcas de uso espalhadas junto com sinais de ferrugem. As baquetas de madeira nas mãos de Hua Cheng estavam igualmente desgastadas. O lençol sob suas próprias mãos era de um tecido um pouco áspero.

Houve um breve momento de tensão no ar, enquanto os dois se olharam, elevando a expectativa.

Hua Cheng foi o primeiro a quebrar o silêncio.

“Gege tem algum pedido?”

Xie Lian balançou a cabeça negativamente.

“Não, San Lang pode escolher o que gosta de tocar.”

“Ok.”

Hua Cheng respirou fundo algumas vezes, se concentrando. Seus olhos se deslocaram pelo instrumento, sua postura se ajeitou na cadeira. Ele tirou um elástico do pulso e prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo alto e meio desleixado. Gotas de suor escorriam por seu rosto absorto.

Quando as baquetas atingiram o instrumento, arrancando sem clemência os primeiros sons, Xie Lian sentiu como se ele próprio estivesse sendo atingido. O som ressoou pelo quarto pequeno, ocupando todo o espaço e todo o ar, atingindo seus ouvidos de todas as direções. Hua Cheng golpeava a bateria de forma ritmada, suas mãos se movendo em uma velocidade assombrosa, repetindo o mesmo padrão múltiplas vezes sem perder o compasso.

Xie Lian se sentiu tomado por uma súbita energia, incompatível com a moleza prévia que o calor tinha subjugado a seu corpo. Os pêlos de seus braços arrepiaram enquanto sua frequência cardíaca aumentava e seus músculos se contraiam em um claro sinal de ímpeto, como se todo se corpo se preparasse para disparar o mais rápido que conseguisse. As batidas que entravam por seus ouvidos vertiam adrenalina e vitalidade por debaixo de sua pele.

Então, a música mudou. O som se tornou menos repetitivo e mais caótico, ainda que lento. A tensão desabou de seu ápice, apenas para começar a ser erguida de novo, elevando-se aos poucos, arrastando-o para dentro da música como uma corrente de retorno que lentamente tenta afogar sua vítima. Seus olhos escaparam do instrumento e se fixaram em Hua Cheng, consumindo cada movimento de seu corpo: os músculos de seus antebraços expostos e tensionados, a velocidade de suas mãos, seu tronco acompanhando as batidas, seu cabelo inacreditavelmente preto balançando de um lado para o outro, seus lábios tensionados destacando seu maxilar forte, suas sobrancelhas curvadas pelo esforço e concentração.

Quando a música retornou para seu ponto inicial, foi como se toda a tensão construída finalmente explodisse em uma súbita carga elétrica vigorosa, espalhando um arrepio de prazer por todo seu corpo, apenas para então se concluir e dissipar, o quarto novamente os envolvendo com silêncio.

Só então Xie Lian se lembrou que precisava respirar.

Hua Cheng parecia ter perdido um pouco o fôlego. É claro que fazer tamanho exercício em um quarto abafado deveria ser extenuante. Longas gotas de suor escorriam de seu rosto e seus braços. Ele levantou os olhos para Xie Lian, procurando por alguma reação, parecendo um pouco temeroso.

Xie Lian não sabia se conseguiria falar. Seu corpo ainda se recuperava de ter sido atirado sem aviso do ápice de seu gaudio de volta para um mundo quieto.

“Gege?”

Ele puxou forçosamente algumas lufadas de ar, fechando os punhos no lençol à procura de algo para enraíza-lo de volta ao chão. Seus olhos ainda encaravam Hua Cheng arregalados.

“Eu...”, parecia que ele tinha esquecido como articular as palavras, “San Lang, isso foi...”

Ele percebeu que não conseguia lembrar de nenhuma palavra para descrever o que havia sentido.

Hua Cheng o olhava com expectativa. Alguma resposta precisava ser dada, mesmo que fosse insuficiente, ínfima e defectiva perto do que seu corpo presenciara.

“...extraordinário.”, ele terminou de dizer, com a voz baixa.

Um sorriso tímido apareceu nos lábios de Hua Cheng.

“Gege me bajula demais, assim eu vou ficar mal-acostumado.”

Mas Xie Lian sentia que não estava o bajulando o suficiente. Porém, apesar de o querer, ele realmente não sabia como fazê-lo.

“San Lang, qual o nome dessa música?”

“Moby Dick”, Hua Cheng respondeu, puxando a gola de sua camisa para enxugar sua testa e expondo parte de seu abdômen. Xie Lian desviou o rosto como se tivesse sido atingido por um flash de luz diretamente em seus olhos. Hua Cheng não percebeu sua reação, sua vista coberta pelo tecido, e continuou falando: “Led Zeppelin.”

“Hm.” Xie Lian assentiu, tentando afastar a sensação de queimação em seu rosto. “Incrível.”

“Nah, eu ainda estou longe de tocar como o compositor.”

“San Lang não precisa ser modesto.” Xie Lian sentiu sua energia retornando. Ele percebeu que queria mais daquilo, como uma criança que provou apenas uma pequena colherada de um apetitoso bolo de chocolate e precisa com desespero enfiar uma quantidade ainda maior na boca. Ele se levantou bruscamente da cama e se sentou no chão em frente à bateria, com o rosto curvado para cima, as bochechas coradas e os olhos brilhantes encarando Hua Cheng. “Você pode tocar outra?”

Hua Cheng sorriu.

“Mas é claro.”

A próxima música tinha um estilo completamente diferente, mas Xie Lian sentiu novamente aquela corrente de energia percorrer seu corpo. Ele se manteve vidrado nos movimentos de Hua Cheng, todos os outros sentidos e seus entornos desaparecendo enquanto ele deixava o som da bateria tomar conta de sua percepção e preenche-lo.

Dessa vez, quando a música terminou, Xie Lian precisou de bem menos tempo para sair de seu estado de euforia e voltar para a realidade. O peito de Hua Cheng subia e descia com sua respiração acelerada, mas ele parecia bem mais relaxado do que antes, seu sorriso descontraído aparecendo com naturalidade.

“E então?”

“Magnífico.” Xie Lian respondeu, encontrando mais uma palavra inepta para descrever seu fascínio. “Qual a música?”

“21st Century Schizoid Man. King Crimson.”

“Ah! Mais uma?”

Hua Cheng riu.

“Gege, eu preciso respirar.”

“Eu posso esperar.”

Hua Cheng abriu a boca para responde-lo de novo, mas suas palavras se perderam quando um ruído ressoou na entrada da casa. Sua fisionomia se fechou imediatamente, e Xie Lian se assustou porque nunca tinha visto nada parecido com aquilo. Seu rosto era uma mistura alerta e desordenada de perturbação, temor, repulsa e raiva.

“Merda.” Hua Cheng praguejou em voz baixa, e fez um gesto para Xie Lian não emitir nenhum som. Ele se levantou e passou a chave na porta, enquanto apurava os ouvidos para acompanhar os movimentos dentro da casa.

Xie Lian escutou passos pela sala, rangendo o piso de madeira. Alguém ligou a televisão e aumentou o volume, preenchendo a casa inteira com o som arranhado do equipamento antigo. Hua Cheng estreitou os olhos e se afastou da porta, caminhando com muito cuidado em torno da bateria. Havia uma atmosfera de perigo nos seus movimentos. Ele subiu na cama na ponta dos pés, e com mais cuidado ainda soltou a tranca de sua janela. Depois, se virou para Xie Lian e curvou-se para perto dele. Seu hálito tocou o rosto de Xie Lian quando ele murmurou perto de seu ouvido.

“Gege, vamos vazar daqui. Tente não fazer barulho.”

Ele estendeu uma de suas mãos, convidando Xie Lian para subir na cama. Xie Lian assentiu com um movimento mínimo de sua cabeça antes de estender a própria mão, não ousando emitir nem mesmo uma expiração mais pesada. Algo estava muito errado. Hua Cheng estava assustado mas tentava esconder isso e manter a compostura, e Xie Lian instintivamente entendeu que precisava colaborar o mais rápido possível para os dois saírem dali.

Hua Cheng abriu a janela lentamente para evitar rangidos, e gesticulou para Xie Lian passar primeiro. Havia espaço suficiente para uma pessoa passar, mas por pouco. Xie Lian segurou um grunhido enquanto Hua Cheng o ajudava a escalar para o parapeito da janela, e deslizou para o lado de fora sem muita dificuldade. Quando seus pés tocaram o chão, Hua Cheng já estava arrastando seu próprio corpo para fora.

Os dois estavam parados em um corredor na lateral da casa.

Hua Cheng segurou seu pulso com delicadeza, e o guiou pelo corredor apertado com passos cuidadosos, até uma porta de madeira que dava para a rua. Os dois prenderam a respiração e trocaram olhares tensos antes de Hua Cheng inclinar sua mão na direção da maçaneta. No entanto, apesar de seu cuidado, a porta soltou um rangido alto e ofendido quando Hua Cheng a empurrou.

A pressão no pulso de Xie Lian aumentou subitamente, enquanto Hua Cheng terminava de abrir a porta e sussurrava para ele com nervosismo na voz.

“Corra.”

Antes de ter tempo de pensar, os dois estavam disparando pela garagem e então pela rua, Xie Lian sendo levado pelo aperto firme de Hua Cheng em seu pulso. Eles correram por duas quadras antes de Hua Cheng finalmente diminuir a velocidade e interromper a fuga, pausando para os dois recuperarem o fôlego. Só então os músculos de seu rosto pareceram relaxar um pouco. Ele soltou a pressão no pulso de Xie Lian, percebendo que o segurava com força, e houve um breve momento de constrangimento passando por seus olhos.

“Gege, eu sinto muito. Eu te machuquei?”

“Não! Está tudo bem.” Xie Lian involuntariamente massageou seu pulso, tentando estimular a circulação. Hua Cheng olhou para o gesto com preocupação. “Não foi nada, sério. Não está doendo.”

Hua Cheng não parecia convencido. Ele mordeu o próprio lábio enquanto observava Xie Lian, talvez procurando um novo jeito de se desculpar. Sua fisionomia era mais vulnerável do que Xie Lian se lembrava de ter visto antes. Xie Lian queria perguntar sobre o que acabara de acontecer, mas percebeu que isso colocaria Hua Cheng em uma posição difícil. Era fácil perceber que ele não queria falar sobre o assunto. Xie Lian o pressionara para uma situação de risco, expondo-o a algum perigo desconhecido por conta de sua curiosidade inocente.

Havia algo perigoso naquela casa, e Hua Cheng não estava pronto para lhe contar.

Ou talvez fosse porque Hua Cheng não confiava nele o suficiente para se sentir confortável e desabafar? A ideia lhe veio à mente, e Xie Lian tentou afastá-la enquanto um calafrio arrepiava sua nuca.

“Gege...”, Hua Cheng começou a falar com a voz contraída.

“San Lang!”, Xie Lian o interrompeu, agarrando seu pulso. Hua Cheng pareceu ser pego de surpresa, arregalando os olhos como se tivesse sido arrancado de algum devaneio. “Venha comigo.”

Dessa vez era Xie Lian quem o arrastava pela rua, caminhando na direção do parque que separava suas casas. Hua Cheng não protestou nem se manifestou, apenas acompanhando-o em silêncio, com um olhar vagamente perdido.

O pôr-do-sol iluminava as árvores do parque e o perfume da grama jovem preenchia o ambiente. Pássaros cantavam e chilreavam pelos galhos. As pulseiras prateadas no braço de Hua Cheng tintilavam colidindo umas nas outras.

And if you see

Don’t make a sound

Pick your feet up off the ground

And if you hear as the warm night falls

The silver sound from a time so strange

Sing to me

Sing to me

Xie Lian não deixaria aquele incidente estragar o dia dos dois. Se Hua Cheng não se sentia à vontade para falar com ele, então ele não o forçaria. Mas Xie Lian ainda podia tentar fazer algo para acalmá-lo, para aliviar um pouco seu semblante angustiado e qualquer que fosse o peso que ele carregava sozinho. Pelo menos isso ele podia tentar.

Eles atravessaram o parque sem trocar palavras. Quando chegaram à casa de Xie Lian, os últimos raios de sol começavam a se esconder por trás do horizonte. A casa estava vazia, Mei Nianqing havia saído para jogar poker com os amigos.

Xie Lian destrancou a porta e o levou diretamente para seu quarto, indicando sua cama para Hua Cheng se sentar enquanto ligava o ventilador de teto. Depois, ele se retirou dali, apenas para retornar em pouco tempo com um copo de chá repleto de cubos de gelo e entrega-lo nas mãos de Hua Cheng.

“San Lang,” ele tentou colocar uma entonação acolhedora em sua voz, “por que você não traz sua bateria para cá?”

Hua Cheng, que ainda não havia tocado na bebida em suas mãos, o encarou confuso.

“Assim você pode tocar quando quiser. E meu quarto é mais fresco. E...”, Xie Lian sentiu seu rosto corar, envergonhado com o que estava prestes a dizer, “Nós podemos tocar juntos.”

Então, ele apanhou seu violão que estava apoiado na parede do quarto desde o dia da mudança, intocado e empoeirado, e o retirou da capa sob a observação atenta de Hua Cheng. Xie Lian sorriu um pouco constrangido, sentando-se no chão e passando os dedos com delicadeza sobre o instrumento, como se cumprimentasse um velho amigo.

“San Lang foi gentil e atendeu meu pedido egoísta hoje.” Ele ajeitou o violão em seu colo, e moveu os dedos para testar sua afinação. “Nada mais correto do que retribuir o favor. Mas faz tempo que eu não toco, então não espere muito.”

Xie Lian testou algumas notas, ajustando a afinação. Fazia muito tempo que o violão não era usado, por isso ele demorou para encontrar a posição correta para cada uma das cordas. Enquanto seus dedos se moviam testando o som, ele procurava em sua memória qual música tocar. Ele não saberia tocar as músicas que Hua Cheng costumava a ouvir, mas não queria escolher aleatoriamente alguma de seu parco repertório.

A imagem do quarto apertado de Hua Cheng retornou à sua memória, e ele se lembrou da sensação de olhar para o seu próprio quarto após a mudança. Ele conhecia a sensação de não se sentir em casa dentro de sua própria residência. Hua Cheng não precisava lhe dizer nada, porque Xie Lian compreendia o que o estado daquele espaço significava. Aquilo o entristecia imensamente. Hua Cheng tinha sido uma figura tão presente em sua vida nos últimos meses, carregando-o para longe de sua letargia, impedindo-o de se afundar ainda mais em seu isolamento, aplacando a sua tristeza que até então parecia irrefreável. Agora, ainda que ele se considerasse inábil e desajeitado, era sua vez de tentar ajuda-lo.

Uma ideia lhe veio à mente. Uma música que o lembrava de Hua Cheng.

Ele não sabia se seus sentimentos iriam alcançá-lo, mas não conseguia pensar em outra forma melhor de transmiti-los. Por isso, ele só podia tentar. Ajeitando mais uma vez o violão em uma posição confortável, Xie Lian inspirou enchendo seus pulmões e começou a cantar:

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to arise

Seus dedos de moviam um pouco rígidos sobre as cordas, desacostumados com o exercício. Xie Lian sabia que as notas tiradas do violão não eram perfeitas, mas ele continuou colocando todo seu empenho para que a música soasse o melhor possível. Era o mínimo que ele poderia fazer.

Blackbird singing in the dead of night

Take these sunken eyes and learn to see

All your life

You were only waiting for this moment to be free

Sua voz era suave e melódica. Seu tom não era agudo, mas também não carregava a profundidade de uma voz grave. Xie Lian queria encontrar uma forma de dizer a Hua Cheng o que ele sentia, e tentava colocar essas emoções em sua voz. Ela soava aveludada e calorosa, como um cobertor aquecido evolvendo alguém em uma noite fria.

Blackbird fly, blackbird fly

Into the light of the dark black night

Blackbird fly, blackbird fly

Into the light of the dark black night

Conforme a música se aproximava de seu fim, seus dedos começaram a se soltar e relembrar dos movimentos que ele aprendera tanto tempo atrás. Com toda sua concentração focada unicamente naquela tarefa, Xie Lian não conseguia levantar os olhos e não podia ver a expressão no rosto de Hua Cheng. Ele controlou seu impulso de tirar os olhos do instrumento, certo de que erraria as notas se assim o fizesse.

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to be free

You were only waiting for this moment to be free

You were only waiting for this moment to be free

You were only waiting for this moment to be free

Apenas quando a música terminou, Xie Lian pôde procurar o rosto de Hua Cheng. Os olhos dos dois se encontraram, a íris vermelha exercendo sua sempre presente força magnética, mas o brilho no olhar de Hua Cheng era diferente de sua habitual perspicácia e malícia. Havia algo mais intenso e desamparado, como se seus olhos implorassem por algo, enquanto os músculos de seu rosto se enrijeciam para controlar um desejo reprimido que estava prestes a arrebentar seus grilhões.

“Gege.”, sua voz soou rouca, e Xie Lian sentiu um arrepio percorrer seu corpo. “Me deixe tocar algo também.”

Ele estendeu a mão, à procura do violão. Xie Lian sentiu seus batimentos acelerarem e seus dedos esfriarem, a força que mantinha o instrumento em suas mãos escapando.

“San Lang sabe tocar?”, ele perguntou em voz baixa.

“Hm, um pouco. Não tão bem quanto você.”, Hua Cheng o respondeu, em um tom mais baixo ainda, quase um sussurro. “Posso?”

Xie Lian estendeu o violão para ele com as mãos um pouco trêmulas.

O instrumento se encaixou entre suas pernas, e Hua Cheng curvou o corpo sobre ele, os olhos baixos contornados por seus longos cílios, enquanto ele testava as cordas.

Xie Lian vislumbrou sua expressão de solidão, aquela mesma que ele vira no dia em que os dois se conheceram. Dessa vez, ela durou apenas um mero segundo antes da boca de Hua Cheng se abrir e ele começar a cantar:

Set me free, make love to me

Don’t you play with my heart

I love you once, you love me twice

Before we part

A voz de Hua Cheng era grave e um pouco rouca, imensa e intensa demais para alguém de apenas dezesseis anos. Foi como se ela tivesse possuído todos os sentidos de Xie Lian, e por deus, ainda bem que ele estava sentado, porque todo seu equilíbrio foi arrancado de seu corpo. Não apenas suas mãos, mas também seus braços e pernas agora tremiam, arrepiados e enfraquecidos.

Turn down the lights, let’s kiss the night

You’ve showed me once what is love

I’m lost in you, you’re lost in me

That’s who we are?

That’s who we are?

Hua Cheng não conseguia tocar todas as notas corretamente, mas Xie Lian não era capaz de perceber. Sua cabeça girava, sua percepção obscurecida e hipnotizada pela voz de Hua Cheng.

Who we are?

We are sun and moon

Who we are?

The sky black and blue

Who we are?

Os olhos de Xie Lian se deslocaram para os movimento dos dedos de Hua Cheng, suas unhas pintadas de preto se movendo sobre as cordas, e ele se perdeu por um instante na elegância daquelas mãos.

I’m still on the run, still on the roll

To find somebody, someone like you

You take my body, mind and soul

Into a world I never knew

Era como se ele flutuasse e afundasse ao mesmo tempo, sua respiração quebrada, lutando para encontrar uma mínima porção de ar. Xie Lian tentou fechar os punhos sobre suas pernas, mas não encontrou força suficiente nas mãos para pressionar o tecido de sua calça. Seus batimentos pareciam engasgados no topo de sua garganta, procurando por uma saída.

So set me free, make love to me

Take me out of the dark

I am you and you are me

That’s who we are?

That’s who we are?

A voz de Hua Cheng se tornou mais baixa conforme a música se aproximava do fim.

Who we are?

We are sun and moon

Who we are?

The sky black and blue

Thats’s who me are

Hua Cheng terminou de cantar, e precisou de um longo tempo para desviar seus olhos do violão. Xie Lian agradeceu mentalmente por aquela demora, porque ele próprio não sabia o que pensar sobre que tinha acabado de ouvir.

Enfim, após minutos que pareceram uma eternidade, o dois se encararam sem saber como retomar uma conversa, sem se lembrar de como formular frases. O quarto escurecia, abraçando a penumbra do início da noite e ocultando suas expressões. Vozes de crianças rindo podiam ser ouvidas pela janela. Seus fios de cabelo balançavam levemente com a brisa do ventilador.

Xie Lian sentia como se todos os seus membros estivessem ao mesmo tempo congelados e em chamas, e seu peito inflado e esmagado com o peso de suas emoções.

When that fat old sun in the sky is falling

Summer evenin’ birds are calling

Children’s laugther in my ears

The last sunlight disappears

And if you see

Don’t make a sound

Pick your feet up off the ground

And if yoy hear as the warm night falls

The silver sound from a time so strange

Sing to me

Sing to me

Então, foi como se várias peças de um quebra cabeças espalhadas em sua consciência finalmente se unissem e formassem uma imagem nítida, e Xie Lian entendeu.

Notas finais
Resumo do capítulo, para quem não teve saco de ler: Parte 1 Xie Lian: "Eu gosto de você" HuaHua: Windows shutting down noises Parte 2 Hua Cheng: *cantando e tocando* Xie Lian: Meu deus eu sou gay É isso, obrigada a todos que leram até aqui!