–O que acham de a gente formar um clã?

A idéia tinha surgido de Thugles, quando Davien e Guilber voltaram da cidade para comprar melhorias para a casa em El Nath. Ela estava realmente diferente agora: a sala, antes um único aposento com uma mesa e algumas cadeiras, agora era dividido em duas partes. A maior, a sala, tinha as paredes de madeira com algumas prateleiras e baús para guardar coisas abaixo delas. Caudas e penas de animais pendiam do centro do teto feito de tábuas. Prateleiras de livros ocupavam boa parte de uma das paredes, e a sala também contava com dois sofás grandes.

Perto da escada havia um anexo para um pequeno laboratório com mesa de alquimia, que Rockfield ficara particularmente ansioso para testar. Abaixo da escada de madeira, onde antes não havia nada, agora tinha um pequeno quarto com duas camas, separado da sala por uma parede de madeira.

O andar superior contava com um pequeno corredor com uma pequena escrivaninha. Numa das extremidades estava o quarto principal, cujas paredes eram inclinadas, acompanhando o telhado. Nela tinham seis camas dispostas em duas fileiras, bem como dois baús e uma mesinha redonda com seis cadeiras. Na cidade, Davien escolhera as melhorias para seis pessoas, que era o máximo que poderia haver em um grupo. Visitas poderiam dormir no quarto abaixo ou no pequeno aposento que havia na outra extremidade do andar superior.

Mesmo com todas as melhorias, havia muitas pessoas dentro dela. Thugles foi o primeiro a se acomodar: assim que descobriu que eles tinham um pequeno sótão no telhado, subiu a escada reta do segundo andar e se ajeitou num colchonete velho que encontrou por lá. Era um bom lugar, tranquilo, escuro e de onde se podia ver a cidade através das frestas da madeira do telhado.

Na manhã seguinte, eles resolveram organizar os assuntos. A primeira coisa que fizeram foi decidir o que fazer com Karlin. Julia o encontrara por acaso no mercado, e tinham ficado amigos desde então. Havia, porém, uma intenção mais séria que motivara a real vinda do garoto até a casa.

–Ele é um bom Clérigo — ela explicou aos superiores — E nós estamos realmente precisando de um. Achei que ele poderia preencher a vaga, sabe.

–Hmm... — fez Guilber — O que você acha, Davien?

–Acho que precisamos testá-lo antes. Acredito na Julia, mas preciso ver você em ação pessoalmente antes de tomar uma decisão.

–Não vou decepcioná-lo, eu prometo! — o garoto assentiu várias vezes.

–Decididamente, não tem aquele ar de segurança e calma que o Helion tinha — o líder murmurou resignado para Guilber, quando Karlin de afastou. O homem assentiu.

–Ninguém poderia, de fato, substituir o Helion. Mas vamos ver do que esse garoto é capaz.

Ele, Davien, Julia e Bruken foram até o exterior de El Nath para testar as habilidades do garoto. Realmente, ele se saía muito bem nos testes. Curava com rapidez e precisão, sempre mirando os que precisavam de mais HP. Ele também se sobressaía no uso da Flecha Divina, algo que certamente não era o ponto forte de Helion.

–Ele é muito bom — Guilber comentou com Davien, ao ver o garoto usar o Teleporte para escapar da terceira Flecha de Fogo consecutiva de Julia.

–Sim, acho que realmente poderemos usá-lo — tornou Davien, também fitando o menino.

E foi quando eles regressaram, Karlin alegremente anunciando sua aceitação no clã de perseguidores de criminosos, que Thugles sentiu um forte laço entre aqueles membros. Davien, Guilber, Julia... E até mesmo o esquentado Bruken, que mostrava-se uma pessoa legal e sorridente perto de amigos. E agora Karlin, o novo membro. Todo aquele processo de testes e recrutamento fez o garoto se lembrar da época em que jogavam outros jogos online. Havia sempre um sentimento de respeito e camaradagem num clã, pelo menos para Thugles. Com isso, ele sentiu uma repentina excitação ao pensar em como seria estar em um clã com seus amigos.

–Me parece uma boa idéia. Eu sempre quis ser membro de um clã — admitiu Gatts, pensativo — Como exatamente eles funcionam?

–Bom, você vai pra Orbis e pede pra criar um — Davien explicou — Precisa de seis membros pra fazê-lo. E então pronto, seu clã está criado.

–Ainda está no começo, por isso não tem muita coisa quando se cria um clã — Guilber acrescentou — Mas tem um NPC pra criação de emblemas, que foi liberado ontem. Acreditamos que logo será possível colocar o emblema nos equipamentos, por exemplo. Mas o emblema aparece junto com o diamante, sabem.

Realmente, o diamante azul de Guilber encimava o nome Death Star, com uma estrela ao lado do "D". O mesmo acontecia com os demais membros — com Karlin, inclusive.

–O limite inicial de membros é seis pessoas, as que entram no clã com você — Davien continuou — Dá pra aumentar, mas acho bobeira. Não precisamos mais do que seis membros.

–Vamos precisar de mais, no nosso — Thugles assentiu, pensativo. Então ele virou o rosto bruscamente — Sei lá. Achei que seria boa idéia.

Seguiu-se um silêncio estranho entre o grupo. Eles sabiam no que o rapaz estava pensando: Sheddeer e Vampiritico, seus dois companheiros. Depois de uma noite, era como se a notícia tivesse atingido-o com a total força do fato. Seus dois amigos estavam mortos. Não apenas Thugles, mas até mesmo Davien tinha um olhar sombrio com o fato. Ele e Sheddeer eram amigos havia muitos anos, e Vampiritico também era uma pessoa querida.

Nick tossiu, quebrando o silêncio.

–Se vamos criar um clã, poderíamos fazer agora mesmo. Criar o clã e expandir o limite. Até escolher um emblema, imaginem só... Deve ser bem legal. Gatts, Kiara, vocês vão querer entrar?

Gatts assentiu e Kiara sorriu.

–Claro! — ela disse, radiante — Deve ser muito legal estar em um clã. Claro que eu quero! Estou doida pra ir pra Orbis e criar... Quais serão as opções de emblema?

Davien e Bruken riram com vontade, e Julia esboçou um sorriso.

–O que foi?

–Não se discute "criar um clã, colocar emblema e aumentar capacidade" de boa assim — Davien disse, rindo — Vocês têm dinheiro, pra começar?

–Temos o bastante pra se virar — Donnie se virou para ele, curioso — Por quê? Quanto custa pra criar um clã?

–Até que nem tanto — Davien disse — Só um milhão de mesos.

Nick e Thugles assentiram.

–Um milhão de mesos — repetiram.

–Um milhão e meio — Guilber corrigiu. Davien fez um gesto com a cabeça.

–Ah,

sim

, um milhão e meio. Mas não achei que fosse importante, já que eles discutem sobre isso com tanta naturalidade.

–Nem é tanto problema assim — retorquiu Anna — Nós podemos juntar um milhão e meio de mesos. Se cada um der duzentos mil, por exemplo...

–Mas aí só teria espaço pra seis pessoas, Anna — Davien sorriu — E vocês ainda teriam que pagar meio milhão pra liberar mais cinco espaços.

–Fica mais caro a cada expansão que você compra — Guilber emendou.

–E ainda há o emblema — completou Bruken — Juntando tudo, dão nada menos do que sete milhões.

–Sete milhões! — Nick repetiu desanimado.

–Ora, sete! É o numero da sorte!

–Não para os nossos bolsos, Thugles — Gatts resmungou aborrecido.

–Calma — Donnie começou — A coisa mais importante é criar o clã. Como a Anna disse, nós podemos conseguir um milhão e meio. O emblema não é tão importante.

–Clã sem emblema fica feião...

–Eu sei, Bruken, mas nós podemos nos arranjar depois — Donnie lhe respondeu — O principal de um clã é o próprio clã, o emblema não é tão importante. Apesar de que eu queria criar o clã e o emblema uma vez...

–Sim, seria melhor — Thugles disse num suspiro — Mas duvido que a gente tenha dinheiro pra isso. Alguém aqui tem mais do que um milhão de mesos?

–Eu posso criar três clãs, se quiser — Donnie riu modestamente — Mas a questão é que, seria inútil a gente gastar tudo o que temos com um clã, que nem deve trazer muitos benefícios.

–Vai trazer com o tempo — Julia garantiu — Ouvi dizer que vai ter algum tipo de desafio para as guildas.

–Awn, ela fala "guildas" — Thugles observou, rindo quando ela repentinamente sentiu vontade de se esconder atrás de um sofá.

–Eu também ouvi isso — Bruken disse rapidamente — Por isso seria bom vocês criarem logo. Vai que a criação de clãs fecha quando começar o tal evento?

Eles assentiram, concordando. Nick então sugeriu que cada um mandasse um pouco de dinheiro para Thugles, a fim de juntarem os um milhão e meio de mesos. Todos eles, Nick, Gatts, Kiara, Anna e Donnie somaram um pouco ao dinheiro do Sacerdote. Dessa forma, teriam dinheiro e ninguém sairia prejudicado.

Thugles ergueu a sobrancelha intrigado ao receber uma quantia de 500.000 mesos de uma vez, e o remetente era alguém que ele conhecia por usar uma venda vermelha nos olhos.

–Causamos alguns problemas, portanto a primeira expansão fica por nossa conta — Guilber explicou — Aceitem isso como nosso pedido de desculpas.

–Também vou mandar um pouco. Só não gastem com nenhum emblema idiota, tá? — Bruken mexeu no menu, sorrindo para eles.

–É, tá aqui, Thug, uma pequena contribuição do Dave aqui — disse o guerreiro com a foice. Thugles olhou para ele com frieza.

–Não faz mais que a obrigação, você devia ter entrado no nosso. E considere isso como aquele dinheiro que você me devia antes da gente entrar no jogo.

–Tá, tá, que seja — murmurou, rabugento.

–Puxa, já tem quase metade pro emblema! — Thugles tinha os olhos no menu e um largo sorriso no rosto — E ainda tem o Apha quando ele sair daqui a uns dias. E quem sabe, se a gente vender uns equips...

–Ou poções — tornou Rockfield, vindo do laboratório — Cara, essa mesa de alquimia é muito legal, a gente tem que comprar uma dessas quando formos comprar uma casa. Opa... Acho que toquei num ponto não muito animador, não?

Realmente, ele o tinha feito. Casas não eram baratas, e eles não procurariam residências individuais se quisessem acomodar tanta gente. Mas Gatts se levantou e bufou com impaciência.

–Não sei por que a gente iria querer uma casa. Se vamos viajar por aí upando e lutando, não será necessário.

–Nunca subestime o poder de uma boa casa — Guilber o censurou — Ter um lugar seguro e confortável pra passar a noite é uma bênção. Acredite em mim, nada te dá mais prazer do que voltar pra casa depois de um dia cansativo.

–Podemos dormir em tavernas — o guerreiro argumentou — Ou mesmo em barracas. Seria um saco upar lá em Mu Lung e ter que voltar todo dia pra Victoria pra dormir, por exemplo.

–Não se "upa" lá em Mu Lung — Davien debochou.

–Eu sei, Davien, só estava dando um exemplo.

Rockfield tossiu.

–Bom, enfim, como eu dizia, fiz umas boas poções lá naquela mesa. Aumento de ataque com magia, aumenta defesa, reduz chance de envenenamento, e até uma que te faz pular mais alto. Tudo temporário, claro, mas tem idiota que compra.

–Poções de ataque são boas — Davien o olhou com raiva — Mesmo que durem pouco, elas ajudam bastante em chefes mais difíceis.

–Prefiro contar com coisas mais permanentes — Gatts retrucou dando de ombros — Ter que ficar bebendo poção pra ter um ataque bom... Não faz muito meu estilo.

–Não, você prefere se transformar num monstro descontrolado e matar seus amigos — Davien disse rudemente.

Ele tinha dado a alfinetada na esperança de enfurecer Gatts, mas o guerreiro apenas ergueu as sobrancelhas de leve e ficou encarando o rapaz com tranquilidade. Davien, por fim, estalou os lábios e desviou o olhar, aborrecido. Então voltou-se novamente, prestes a fazer um comentário mordaz quando ouviu uma batida na porta.

–Aqui é mesmo a casa do Gibbs — Thugles comentou quando Davien abriu a porta, revelando um homem magro de roupas de pele simples e touca cujas dobras iam até os ombros.

–Olá — ele cumprimentou rapidamente — Estava procurando você, uma entrega que deveria fazer. Para você — repetiu.

Ele estendia uma carta, mas não olhava para Davien. Thugles aproximou-se dele e recebeu o pequeno papel dobrado, aturdido.

–Bom, é isso. Preciso ir.

E se virou para correr de volta para a cidade. Davien o chamou e o homem se virou.

–Não — ele disse de repente. Então franziu a testa — Desculpe... Nada.

–Uma carta... Pro Thugles — disse Davien tornando a fechar a porta, olhando para Guilber com preocupação. Não era possível ver os olhos do mago, mas estava claro que a situação o desconfortava.

–Mais alguém sabe que vocês vieram pra cá? — ele perguntou. Thugles sacudiu a cabeça.

–Não, mas... A pessoa não pode, tipo, ter pedido pra me enviar a mensagem e aí o jogo manda automático?

Davien fez que não com a cabeça.

–Não é assim que funciona — ele disse estendendo o papel ao amigo — Mandar mensagens é tão bugado e complicado que às vezes nem compensa. Mesmo se você achar um lugar confiável, vai precisar escrever o nome do jogador e o lugar onde ele se encontra. Quer dizer, além de ser difícil, você precisa torcer para que a pessoa ainda esteja no lugar que você escreveu na carta, quando ela chegar. Então não sei como que...

–É do Vampy! — Thugles gritou de repente. Instantaneamente, quatro cabeças se colaram a ele, tentando ler por cima do ombro. Eles quase se chocaram quando Thugles se teleportou pra trás.

–Viado! — Nick resmungou, o que era um tanto irônico.

–Espera eu ler primeiro, tô tão ansioso quanto vocês! — ele se justificou. Passou os olhos pelo papel e, em menos de dez segundos, jogou-o para os companheiros — Ah, cara! ELE TÁ VIVO! OLHA SÓ! FOFINHA!

Vampiritico não estava ali e Julia estava bem próxima de Thugles, então foi pega de surpresa. Segurando avidamente a carta nas mãos, Nick a leu rapidamente.

–Que caralho de letra — Rockfield comentou, a testa franzida. Nick virou o rosto radiante para ele.

–Quem se importa com a letra? O Vampy tá vivo... Vivo! FOFINHA!

Anna deu uma risadinha ao ver os dois se atropelando contra a garota, embora se sentisse um pouco desconfortável.

–Ele está indo pra Orbis — Kiara lembrou, sorrindo também — Podemos encontrar com ele lá e criar o clã.

–Tem mais uma coisa que quero ver também — Donnie disse. A menina olhou para ele intrigada, e ele acrescentou: — Ah, nada que envolva eu ou você. Ou Gatts ou Rockfield. Se o Vampy ainda estiver no nível 70...

Kiara assentiu, ainda curiosa, mas não fez mais perguntas. Gatts levantou-se, tossindo.

–Então acho melhor irmos logo. Tenho certeza que tem bandidos perigosos pra vocês capturarem... Acho que seria muita falta de sorte se sua feiticeira morresse sufocada antes de começarem a caçada.

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No fim, o grupo se encontrava em Orbis dois dias depois.

Davien ficou tentado a acompanhá-los, mas agora que Vilgrem tinha sido tirado do jogo, eles tinham outras ameaças para resolver. Além disso, estavam ansiosos para testar as habilidades de Karlin em um combate real. Por isso, não sem muitos apertos de pessoas consideradas fofinhas, eles se despediram e seguiram seu caminho.

Gatts e Kiara também resolveram partir sozinhos. Eram necessárias seis pessoas para criar um clã, e ali tinha Thugles, Nick, Donnie, Anna e Rockfield, fechando seis quando encontrassem Vampiritico na torre.

Além disso, Gatts ainda queria ir mais a fundo em El Nath para rever Adinnef, o homem que lhe introduzira a armadura do Guerreiro da Alvorada. Pelo que sabia, sua transformação chamava-se Berserk, e segundo Guilber sugerira, provavelmente tinha sido ativada pela capa. Afinal, ela tinha sido conquistada com o Firstkeeper, uma criatura alta e magra que realmente parecia algum tipo de demônio, segundo Davien.

–O que você queria ver aqui? — Thugles disse por fim, mirando Donnie com curiosidade. O rapaz subia a torre olhando bem à frente, pensativo.

–Ouvi dizer que tem uma Quest de Grupo aqui — ele respondeu finalmente, quando estavam no último andar — Eu, Apha e Rock tentamos fazer, mas parece que é só até o nível 70.

–Dá certinho pra gente — Nick assentiu — Mas vamos ter que achar mais gente. Se o Vampy ainda tiver no 70, seremos três.

–Quatro — Anna corrigiu calmamente — Eu ainda sou 63.

Nick a mirou com um sorriso triste.

–Desculpa, acho que estou acostumando a ver o grupo do Donnie como mais forte. Ele, Apha, Rock... — a voz dele vacilou — e Sheddeer. Todos acima do 70.

–É realmente muita sorte nós não termos passado do 70 ainda, sabe — Thugles comentou quando chegaram a Orbis — Adoro Quests de Grupo.

–Sorte foi o Dark Corpse não ter te reconhecido, Anna — Rockfield respondeu olhando a menina. Ela deu de ombros. Assim que sentiu a chegada do pistoleiro na casa de Guilber, Rockfield sumira de vista, porém Anna não tinha sido tão rápida. Felizmente, o pistoleiro estava mais interessado na Death Star do que nos outros, e além disso, Dark Corpse a conhecia somente pela armadura negra, e era como se ela se transformasse numa pessoa totalmente diferente — e também tinha o fato de que Anna usava um par de óculos com lentes enormes, algo que armadura preta parecia dispensa. Se tivesse olhado com mais atenção, no entanto...

Repentinamente, Donnie sentiu alguma coisa se atirando contra o pescoço dele num forte abraço. Mas não era Thugles.

–Sorte? Quem é que tá com sorte agora? Seguinte mermão, passa tudo o que tem aí e ninguém...

Donnie girou duas vezes — na primeira, afastou o pequeno corpo que o abraçava e, no segundo, seu cajado se iluminou na luz roxa e atingiu o pequeno gatuno bem no peito, empurrando-o direto contra uma das paredes da torre.

Rockfield já tinha uma shuriken preparada, Nick e Thugles erguiam a varinha e o cajado. Mas...

–Tá bom, tá bom, chega, sou eu, Vampy! Parem, sou eu, sou eu, não me matem!

–Vampy — Donnie resmungou surpreso, recuando o cajado e observando Thugles se lançar em direção ao amigo — Nunca mais faça isso de novo.

–Não com você — o rapaz respondeu com um meio sorriso — Bom ver vocês de novo.

–Por onde você se meteu? — Nick quis saber, muito curioso. Vampiritico riu, ao perceber que todos olhavam detalhadamente para ele.

O rapaz usava um conjunto de vestes de um couro que não era preto, mas cinza muito escuro. Uma capa da mesma cor o envolvia e seus olhos azuis criavam um brilho agradável com as roupas. Carregava uma adaga na bainha, sendo capaz de pegá-la em um piscar de olhos com a mão enluvada. Ele sorriu, revelando dentes brancos que contrastavam com as vestes escuras.

–É muita coisa pra contar... Ah, tenho até um sistema de portais particular! Não particular exatamente, mas só membros da Dark Brotherbind podem entrar.

–Você entrou pra Dark Brotherbind? — Rockfield perguntou interessado — Eu queria ter entrado também. Mas a menina que me deu essa roupa disse que eles não gostam muito de Nightingales — suspirou, resignado.

–Vamos ter tempo pra isso depois — Donnie interrompeu com calma — Agora, Vampiritico...

–Vampy...

–Vampy, você sabe sobre a Quest de grupo de Orbis?

–Mas claro! — o olhar do menino se iluminou e ele sorriu — Foi por isso que eu vim aqui, disseram lá na Mist que essa seria uma boa Quest pra eu fazer. Também falaram que ia me ajudar a desempacar do nível 70.

–Talvez isso seja um problema — Donnie assentiu pensativo — O limite pra entrar na Quest é nível 70, mas se vocês pegarem 71 dentro dela...

–Tem dois jeitos de descobrir — Thugles falou — E como não conhecemos ninguém que tenha feito a Quest, só nos resta fazê-la. Tenho certeza de que a gente não explode se passar do nível limite.

–Como você pode saber disso? — Vampiritico riu enquanto caminhavam para a Torre. Thugles deu de ombros.

–É aqui — Donnie disse, parando finalmente ao chegarem à entrada. Era um portal na extremidade do topo da torre, acima do último andar — Não deve ter muita gente, a maioria não conhece sobre as Quests de grupo.

–Vamos ter que procurar mais três pessoas na cidade — Vampiritico lembrou. Anna fez cara feia pra ele.

–Quatro — corrigiu, já sem a mesma paciência de antes.

Quando entraram no poral, porém, perceberam como Donnie estava enganado. Ainda estavam na Torre de Orbis, em um lugar onde as nuvens eram tão compactas que havia uma mulher gorda em cima de uma delas segurando uma grande folha — bem como dezenas de jogadores agitados e irritados.

A falação era total. Homens, mulheres, a maioria jovens, sentados ou andando pra lá e pra cá com impaciência. Apesar da aparente confusão, eles pareciam estar todos divididos em grupos de seis, e logo ficou claro o que acontecia. Estavam esperando a liberação da Quest.

–Ah não, mais gente não!

Um dos grupos aproximou-se dos recém-chegados, liderados por um homem alto de expressão irritada. Nas mãos, levava um longo arco amarelo curvado e cheio de enfeites.

–Sinto muito, mas já tem gente demais aqui — ele disse com insolência — Deixamos um último grupo entrar, mas agora, já tem gente demais.

–Ou... — começou uma mulher — Vocês podem pagar uma pequena taxa e ficar na fila de espera.

–Do que estão falando? — Thugles perguntou descrente — Vocês estão esperando aqui faz três dias?

O grupo riu.

–Além de idiota é noob — disse um pirata — Quests de Grupo não ficam mais liberadas só de três em três dias. Agora é de seis em seis horas. Já fazem cinco desde que o último grupo entrou.

–E vocês pretendem ser os próximos? — Anna adivinhou com desprezo. O arqueiro sorriu.

–Não, queridinha. Nós não temos mais nível pra isso. Porém... — ele sacudiu os braços e olhou para o pirata, que sorriu e continuou.

–Muita gente quer fazer essa Quest, sabe...

–Só tem uma Quest, pra vários grupos quererem fazer de uma vez...

–Então nós decidimos ajudar — o arqueiro completou — Entre no mapa, pague uma taxa e espere a sua vez. Assim todos ficam felizes e não tem briga. Um bom negócio, vocês não acham?

–Isso é um roubo! — Nick disparou furioso. O arqueiro apenas deu de ombros com inocência.

Estava claro nas expressões deles que a intenção ia além de "querer ajudar". Eles sabiam vagamente que a Quest de Grupo de Orbis dava prêmios e boa EXP. Aquele grupo estava se aproveitando de uma Quest para ganhar dinheiro às custas dos outros. Donnie contou quatro grupos além daquele que os interpelava. Com uma olhada rápida para Rockfield, ele se virou para o arqueiro.

–O que vai ser, meu amigo? Vão pagar e ter a sua vez, ou...

Mas Donnie já sacudia a cabeça.

–Eu tenho uma idéia melhor — ele disse, e Rockfield sorriu — Você, o pirata e a menina que se acha pra mim. O resto é seu, Rock.

Sem aviso, ele saltou para a frente, afastando o arco do rapaz com um golpe do cajado roxo, recuando a madeira para um golpe na cabeça e girando o corpo para atingí-lo com força total no peito. A mulher estava mais próxima, e precisou apenas de três cajadadas para cair no chão, gemendo. Estava prestes a dar cabo do pirata quando viu que ele já tinha caído ao chão.

–Você é lento demais — Rockfield reclamou, guardando uma enorme shuriken que tinha na mão. Então olhou significativamente para os outros grupos.

Como se fossem um só, os vinte e quatro jogadores precipitaram-se para a saída, atropelando-se enquanto tentavam atravessar o portal ao mesmo tempo. O mapa ficou vazio em questão de segundos, exceto por um par de jogadores em pé no chão, de espada erguida.

Ambos eram garotos, não muito mais velhos do que Donnie ou Thugles. Um deles usava uma espada grossa e um escudo quadrado de madeira nível 5, e embora fosse claramente um guerreiro, ele preferia usar roupas leves ao invés de armadura. Não usava nem sequer sapatos — seus pés descalços tocavam o chão frio das pedras da torre.

–Caralho, imaginava que eu seria o único não assustado pelos fodões badasses que chegam matando tudo! — ele disse para o rapaz de armadura ao seu lado. Ele, de expressão mais séria e fechada, apenas assentiu com sorriso fraco. O descalço se voltou para Donnie: — Bom, eu estou aqui há um tempão esperando por um grupo, e vocês não podem chegar assim expulsando todo mundo só pra querer passar na frente.

–Nunca foi minha intenção expulsar o pessoal — Donnie se defendeu — Só queria dar uma lição naqueles arrogantes.

–Conseguiu mais do que isso, pelo que tô vendo — o guerreiro descalço riu,e deu um passo à frente — Eu sou James Ferdinand, vocês podem me chamar de South. E esse carinha aqui do meu lado, não conheço ele, você é o...?

–Zeru — respondeu o guerreiro de armadura.

–Pois é. Então, cara — South analisou o pequeno grupo à sua frente — Nunca vi essa magia que você usou, deve ser nível beeeem avançado. E essa shuriken gigante é de terceiro job, aposto. Vocês dois não podem entrar na Quest, então sobra vocês quatro, ou seja...

–Se vocês aceitarem nos acompanhar, dá seis certinho — Thugles assentiu sorrindo pra ele — É realmente muita coincidência terem sobrado só vocês dois.

–Nhá, é o destino e coisa e talz, sabe, essas viadagens. Então como é que é, tem aí um convite de grupo, a gente que cria, como é?

–Ah

sim

– Nick lembrou — Deixa que eu crio o...

–Não, sai, você não sabe de nada. Já criei o grupo — Thugles estufou o peito fingindo ar de importância — Até que a gente forma um grupo bom, olha, um Sacerdote pra dar suporte e um Mago, um Gatuno e três guerreiros. E uma delas é totalmente apertável! Você se importa se eu também te chamar de fofinha?

–Sim. Não sou a Julia — Anna lhe disse, mas Thugles a apertou mesmo assim.

–Muito bem, senhor líder, você sabe como fazer alguma coisa aqui na Quest? — South quis saber. Thugles deu de ombros e olhou para Donnie e Rockfield, que sacudiram a cabeça.

–A gente descobre — Nick garantiu — Cara, é até engraçado que tá acontecendo igualzinho lá da Quest de Ludi. Rock tá trazendo a gente aqui, somos quatro e faltam mais dois, que a gente encontrou na...

Ele hesitou. Thugles ergueu as sobrancelhas, pensativo. South e Zeru se entreolharam sem entender.

–Agora nós temos três nível 70 — Thugles lembrou — Vai dar tudo certo, metade do grupo no nível máximo pra fazer a Quest. Vai dar tudo certo — ele repetiu, muito sério.