MapleStory Online
1 Prólogo
–...cadeias abertas são acíclicas. Já as fechadas são chamadas de cíclicas, que como o nome já diz...
–Ãhn...
–Acorda, viado!
–Hein?
–AHAHAHAHA EU DISSE "ACORDA VIADO" E ELE ACORDOU! VIADO! VIADO!
Sonolento, Davien ergueu a cabeça e tirou as mãos da mesa. Ao fazer isso, seu braço esquerdo imediatamente tombou inerte ao lado do corpo. Havia dormido na mesa por mais de uma hora, mas seu braço ainda não parecia ter acordado.
–Thugles, deixa de ser bobo — ele disse para o menino que ria dele, com o extremo oposto da energia que ele tinha naquele momento — Eu já estava acordado. Sério, tava ouvindo aquela parte sobre cadeias acíclicas e tal...
–Se você diz — disse o rapaz chamado Thugles, voltando a sentar em sua cadeira.
O dia de aula estava particularmente chato para eles. Química nunca havia sido uma matéria muito interessante — isso porque o professor, Derenício Silvelino, era um homem de quase sessenta anos que parecia ter perdido o pique de ensinar décadas atrás. Como ele era o único professor que não fazia nenhuma objeção quanto ao fato de dormir na sala, a maioria o fazia.
E Thugles adorava aqueles momentos. "A maioria da sala adormecida", para ele significava um campo inteiro de pessoas a quem ele poderia pregar peças. E seu alvo favorito era Davien.
Curiosamente, foi em uma dessas peças que eles acabaram ficando amigos. Ainda naquele ano, eles haviam se conhecido e formado seu "grupo fixo", aqueles grupos que toda escola tem. Aquele era formado por cinco rapazes.
Davien era um rapaz moreno e magricela, mas que tinha uma força nada proporcional ao seu corpo. Apesar de ser um pavio-curto, impaciente e um tanto arrogante, sempre ajuda os colegas da maneira que pode, seja com exercícios — raras vezes, já que ele não é exatamente a mente brilhante do grupo — ou mesmo para conversar.
Thugles era o natural brincalhão de toda a turma. Vive pregando peças, fazendo brincadeiras e contando piadas, mas nunca de mau gosto. Nesse mesmo momento, ele contava um plano a Vampiritico, um garoto pequeno que... Bem, aquele tipo que todas as meninas observam. É fascinado por vampiros, e assim ganhou seu apelido.
Os dois últimos integrantes do grupo estavam engajados em uma corrida contra o tempo — quer dizer, Nick estava. O pequeno garoto era bem mais novo que todos eles e era bastante inteligente, mas havia relaxado demais e deixado as tarefas para fazer depois. E "fazer depois", naquele grupo, significa "copiar do Sheddeer antes de chegar a hora de entregar o trabalho."
Sheddeer era de cara o mais inteligente da turma. Também é bastante calado e comportado, e quase sempre é selecionado para "ficar de olho na turma" quando um professor sai. Mas se ele realmente cumprisse essa tarefa com o rigor que ele cumpre os trabalhos e atividades, Thugles provavelmente estaria suspenso naquele momento. Mas ele sempre dava um jeito de aliviar seus amigos das encrencas.
–Vai ter trabalho em dupla hoje — Thugles disse para seus amigos, repentinamente.
–Bem, então por hoje é só — anunciou o professor alguns minutos depois — Trabalho sobre as Cadeias Carbônicas com os itens no quadro, para semana que vem. Vai ser em dupla... — toda a sala explodiu em "AAAAHHH!!!!" — Que eu vou dividir... — toda a sala explodiu em "aaaah..."
–Tá bom — Davien virou-se na cadeira para olhar o amigo — O que vocês armaram dessa vez?
–Ah, digamos que eu e o Thugles estejamos dando uma de cupido — Vampiritico contou, fazendo suspense. Nick arregalou os olhos.
–Vocês dois finalmente vão anunciar o namoro? Awn, que fofo! Mas vem cá... O que isso tem a ver com trabalho em dupla?
Os dois o ignoraram. Esse tipo de piada era comum entre o grupo.
–Continuando... O que Brian, Carolina e Caroline têm em comum? — Thugles perguntou, soando enigmático. Os outros franziram a testa enquanto pensavam.
–Ué... Sei lá, ué! — Davien foi o primeiro a desistir. Não gostava muito desses enigmas. "Só tem uma solução, mas as tentativas são infinitas" — ele costumava dizer. Mas Thugles e Vampiritico olhavam para Nick. Todos sabiam o quanto ele adorava enigmas.
–Eles... Eles são da nossa sala, é óbvio — começou — Estudam no MinarForest, e... Espera, eles são em ordem alfabética na chamada! — exclamou, triunfante — Mas isso não é bem "algo em comum". Ah cara, não tem uma pista?
–Só uma — Thugles ergueu um dedo — É na aparência. Pense.
Ele, Davien e Sheddeer viraram-se para olhar os colegas. Olharam durante um tempo, e depois...
–Eles não vieram à aula hoje — Nick concluiu, e Thugles bagunçou os cabelos dele como sempre fazia quando ele acertava — Que estranho, a Caroline nunca falta um dia e... Espera... — ele ergueu a cabeça quando compreendeu.
–Cara, o quê que vocês fizeram dessa vez? — Sheddeer quis saber. Thugles e Vampiritico entreolharam-se e sorriram.
–Apenas olhem para a pequena.
Eles tiveram que se erguer um pouco nas cadeiras para enxergar a garota de quem Thugles falava. Sentada na fileira da esquerda, na parede onde ficavam as janelas, Anna estava debruçada mais uma vez sobre um livro que era quase maior que a cabeça dela. Se Sheddeer era o menino mais inteligente, Anna era a menina mais inteligente. Mas ela raramente falava com alguém.
Thugles, entretanto, como bom observador, sabia de algo que ela achava que apenas ela sabia. Apesar de ela não conversar, eles sabiam que havia, naquela sala, uma pessoa...
–O Vampy pegou a programação do professor — ele ia explicando, enquanto o homem enrolava sobre um tópico que um dos alunos pedira para ele rever — Decidimos que, de hoje em diante, sempre saberemos quais serão os trabalhos que teremos, assim poderemos fazê-los antes e ganhar uma semana extra de férias. Enfim, esse trabalho vai ser em dupla, e como o Nick disse, eles são carreirinhas na chamada. Olhem só...
Eles esperaram mais alguns momentos, e logo o professor começou a dividir os grupos.
–Anna Carolina Beja — chamou, e a menina o encarou com os grandes olhos arregalados. Thugles sentiu um arroubo de pena ao ver aquilo. Ver uma pessoa assim lhe trazia lembranças desagradáveis...
Ele sabia exatamente o que ela sentia. Timidez era algo que, realmente, corroí uma pessoa se ela deixá-la dominar. E ele já havia sido assim antes. Não tinha amigos, sentava sempre sozinho... E agora ele estava ali, o mais brincalhão de toda a turma — e o mais "doido" do colégio inteiro. E sempre que via uma pessoa assim, lhe doía o coração. Ele sabia que o sofrimento de ser prisioneiro de si mesmo, sem esperanças de mudar, era algo horrível. Sempre que via alguém assim, fazia de tudo para mudar. Mas aquela garota era quase tão tímida quanto ele fora.
"Ah, isso vai te deixar zonza um pouquinho", ele disse para si mesmo enquanto a encarava "Mas você iria me agradecer se soubesse"...
–Fala logo, o que é que vocês tramaram? — disse Davien, perdendo a paciência.
–Calma, apressadinho. Apenas observe.
A demora era porque o professor ainda tentava se decidir se Anna estava ou não na sala. Finalmente, ela tomou coragem e levantou o braço.
–Ah, aí está você! Bem, Anna, seu parceiro pro trabalho vai ser... Brian Johnson!
–Não veio — Thugles gritou inocentemente de sua mesa. O professor assentiu.
–Hm, então... Carolina Enilorac.
Dessa vez foi Vampy quem respondeu.
–Faltou!
–Esse pessoal de hoje, matando aula... — ele sacudiu a cabeça levemente decepcionado — Então, Caroline Liebemann, essa veio, não é?
–Hã... Não, professor.
–Puxa, mas que azar hein, Anna? — ele sorriu para a menina, que pareceu querer se esconder atrás do livro. Tudo o que queria era que fosse anunciado logo o nome do tal companheiro. Mas ela logo se recuperou e voltou a encarar o professor, inexpressiva.
–Ah é, se esconde.
–Hein? Por que eu?
–Cala a boca, idiota, se esconde! Thugles, me ajuda aqui...
–Ei, pára com isso, o que estão fazendo? Me larguem, seus moleques...
–Ó, dez reais se você entrar debaixo da mesa e fingir que não veio.
Davien ainda queria saber o que era, mas finalmente foi persuadido a se esconder. E quando o professor chamou "Davien", recebeu novamente a notícia de que havia faltado.
–Todo mundo faltou só pra não fazer o trabalho com a Anna! — Jonathan, um garoto lá do fundo, gritou e boa parte da sala riu, o que deixou a garota ainda mais vermelha.
–Não vejo por quê — Thugles virou-se de repente — Ela é mais paciente que você, mais inteligente que você, mais inteligente que você e mais inteligente que você. E ainda por cima é mais bonita que você. Por que alguém iria faltar a aula pra isso?
–Puxa Thug, jamais esperava isso de você — Davien exclamou, fingindo surpresa — Pensei que você estivesse de olho no Jonathan... Ah Vampy, você está aí? Desculpa... Eu tava, ér, vrincando, não precisa ficar magoado!
–Calma, ainda tem trinta alunos pra gente chamar — disse o professor, tentando acalmar o novo coro de risadas. E o próximo é...
Foi como se uma luz se acendesse na cabeça de Nick, Davien e Sheddeer.
–Aaaaah!
–Entendi!
–Cara, não acredito...
–Donnie Nirvana!
Os cinco amigos encaravam a garota agora, mas ela não notou. Foi como se seu coração tivesse parado de bater — embora Thugles soubesse muito bem que estava acontecendo exatamente o contrário. Seus grandes olhos estavam arregalados, a pupila dilatava cada vez mais, seu corpo tremia...
No fundo de seu coração, ela tivera esperanças de aquilo acontecer. Sempre quis alguma desculpa para isso, sempre sonhara com... Mas agora que finalmente acontecera, ela não tinha certeza se conseguiria lidar com aquilo...
–Eu, senhor — disse um garoto escuro duas cadeiras à frente dela. O professor apontou-lhe um dedo.
–Ah, finalmente! Que coisa, hein? — bradou o professor, animado — Pois bem, Donnie, pode se sentar com a Anna e começarem a fazer o trabalho. Agora, a próxima dupla...
–Operação Cupido concluída! — Davien foi logo debochando — Mas cara, dessa vez, acho que você exagerou...
–Exagerei não, Dave, tenha certeza disso. Quando eu era tímido que nem ela, a melhor coisa que já me aconteceu na escola foi quando a Mari... Esquece.
Nick e os outros arregalaram os olhos, surpresos.
–A Marina? Como assim, explica isso aí direito...
–Olá, alunos.
Nick esqueceu o assunto no mesmo instante. Fez-se silêncio em toda a sala. O fundo, os grupos mais populares, as garotas que nunca fechavam a boca pra nada, todos se calaram ao ouvir a voz do imponente homem de roupas brancas parado logo atrás da mesa do professor.
–Bem, diretor, o senhor realmente sabe como exigir silêncio melhor do que eu — suspirou o outro, e o diretor deu uma leve risada — Pois bem, faça seu comunicado.
–Antes de mais nada, bom dia — ele disse e fez uma pausa esperando a resposta dos alunos — Gostaria de fazer um pequeno anúncio. Todos vocês estarão dispensados das aulas de hoje, iremos ao auditório ter uma breve palestra.
Ninguém disse nada, mas todos estavam pensando a mesma coisa. "Breve palestra", para o diretor, era um termo que os alunos traduziam como "quatro horas que parecem oito de palestras motivacionais, educativas ou socioeconômicas e sobre como devemos ajudar o governo". Ninguém gostava daquelas palestras, mas o diretor era o diretor. Nenhum aluno ousava questioná-lo.
Isso, entretanto, não se devia apenas ao fato de ele ocupar o cargo de autoridade máxima na escola. Nuck era um excelente diretor, e desde que ele assumira o posto, o MinarForest se tornara uma escola muito mais influente e procurada do que durante o último mandato. Ele se preocupava genuinamente com seus alunos e docentes, mas era bastante rígido quanto à disciplina. Como em outras escolas, ninguém gostava de ser mandado para a sala do diretor, mas ali a questão era totalmente diferente. Enquanto o temor que os alunos sentiam geralmente era causado por medo de diretor expulsar ou suspender aluno, Nuck era verdadeiramente respeitado por toda a escola, e ser repreendido por ele pesava muito mais na consciência do que o próprio castigo — que ele raramente dava. Nunca suspendia um aluno da escola, mas se alguém passasse dos limites, era expulso.
De todos os alunos, o que se sentia mais à vontade com ele era Thugles. Havia sido mandado para a sua sala inúmeras vezes, e a cada nova visita, Nuck apenas fingia revirar os olhos como se dissesse "você de novo?" antes de liberá-lo. A verdade era que o rapaz nunca fazia nada que merecesse uma punição. Mas alguns professores eram simplesmente rígidos demais, e Nuck, como bom professor, sabia que o rapaz não fazia nada de errado. Eles acabavam até conversando durante as visitas na sala, porque uma vez um professor reclamara que ele não havia ido até a sala do diretor(porque saíra muito rápido), e saiu com a cara no chão quando Nuck explicou calmamente que havia liberado-o.
Mas mesmo Thugles não o interrompia ou fazia brincadeiras quando ele falava.
–Por que essas caras toscas de tacho? — ele disse de repente, e todos o encararam surpresos(exceto Anna, que sabia apenas vagamente que o homem estava ali) — Eu acho que vocês vão gostar dessa palestra... Bem, um bom dia a todos!
Quando ele saiu, a sala gradativamente voltou ao burburinho costumeiro de sempre, seguido pelo arrastar de cadeiras quando eles começavam a arrumar as coisas.
–Será que essa palestra vai ser mesmo boa? O Nuck não é do tipo que inventa assim...
–Se ele diz, deve ser boa — Davien deu de ombros para Nick — Mas espero que valha a aula de esgrima. A única coisa boa no dia que tem Química... Substituída por palestra!
–Bom, se o Nuck diz que vamos gostar, provavelmente vamos gostar — Sheddeer disse com simplicidade. Thugles suspirou.
–Eu sei de alguém que não vai — ele disse ao ver Donnie se aproximar da porta, deixando sua parceira sozinha para guardar os livros — Eu só espero que...
Ele vacilou ao ver que o alto rapaz havia parado.
Thugles nunca o encarara de perto. Donnie não era tímido, mas também era um tanto isolado. A única pessoa com quem eles viam em companhia quase o tempo todo era com Rockfield, que estudava em outra turma. Por isso, a maneira como ele olhou para o rapaz... Era estranha. Na verdade, Thugles se viu fascinado pela cor dos olhos dele. Eram de um tom violeta escura, inacreditavelmente bonitos... Mas o brilho naquele olhar o assustava. Quando ele se virou para sair, o rapaz ainda ficaria um bom tempo se perguntando o que havia sido aquilo. Somente mais tarde ele descobriria o que era: ele sabia.
De alguma forma... Aquele rapaz sabia que, de algum jeito, o fato de sua parceira ser quem era havia sido obra dele.
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–Como é que é?
*suspiros*
–Não... Não pode ser, o que é que ele...
Quando o auditório lotou, os alunos já estavam um pouco animados em relação ao que esperar da palesta: o centro do imenso lugar estava coberto por alguma coisa enorme coberta por várias cortinas cinzas. Se era algum experimento, equipamento novo ou mesmo uma seção cheia de fotos de insetos, ninguém sabia dizer, mas era algo grande, e eles tendiam a esperar muito de coisas grandes.
Quando o anunciante disse o que era, entretanto, o lugar pareceu vibrar com a emoção.
–Isso mesmo, caros alunos, isso mesmo! — o homem disse com um largo sorriso — Não é nenhum convite a planetário, ou seminário sobre o modo de vida das baratas, mas sim... Um jogo! Sim, bons alunos, é com muita felicidade que apresento a vocês o MapleStory Online!
"Antes de mais nada, saibam que a escola de vocês está recebendo esse projeto por causa do destaque que vocês vem obtendo. Estamos escolhendo as melhores do país, e vocês se encaixam entre elas — e não estão entre os últimos, posso garantir. Portanto, meus parabéns, e agora, nosso engenheiro vai falar a vocês um pouco mais sobre o jogo!"
–Bom dia — cumprimentou o outro homem, e recebeu o cumprimento mais vivo e animado de todos como resposta — Bem, antes de liberar os testes dessa nova maravilha, gostaria de fazer alguns lembretes...
Ele falou por mais de meia hora. Grande parte do discurso foi sobre o Sistema Operacional Direcionado a Laser Getstart, como era chamada a máquina. Depois explicou que as pessoas entrariam em câmaras, onde seriam digitalizadas e, literalmente, entrariam dentro do jogo(foi quando começou a gritaria). Todos estavam ansiosos para testar, mas o engenheiro fez questão de lembrar-lhes que aquilo custava muito caro, e que jogar demais atrapalharia o rendimento deles na escola. Por isso, apenas os alunos com as melhores notas e melhor desempenho escolar teriam acesso ao jogo.
–Mas hoje, por ocasião especial, todos vocês poderão jogar! — anunciou, e novamente a multidão vibrou de emoção.
–Ah cara, não acredito! — Davien não parava de dizer, ainda sem acreditar.
–E você queria faltar a aula hoje porque tinha Química! — Thugles lembrou, dando um tapa na nuca dele — Ah, como eu ia te zoar se isso acontecesse...
Ele não ia. Ninguém ali sabia, mas se Davien não tivesse ido à aula, Thugles talvez jamais o veria novamente...
–Mas tem esgrima — lembrou o rapaz, na defensiva — Então o máximo que eu teria feito é matar a aula de Química... Mas foda-se, eu quero jogar, ah cara! Ah, e quero meus dez reais — lembrou, estendendo a mão — Pode pagar.
–Achei que você fosse se lembrar disso — Thugles devolveu calmamente — Mas também achei que você fosse se lembrar dos salgados que você me deve. Mas como eu sou generoso, vou esquecer que você me deve catorze reais e quarenta e cinco centavos e fingir que são só dez reais.
Era verdade, mas Davien não gostou nada daquilo, principalmente com as risadinhas de Nick e Vampiritico. Mas não havia tempo para discutir dívidas. Estavam todos querendo saber o que havia debaixo daquelas cortinas.
Foi uma confusão até que eles finalmente conseguiram acalmar os alunos. O grande equipamento que ocupava todo o centro do auditório foi finalmente descoberto, o que silenciou de vez as crianças.
O objeto parecia uma nave espacial cheia de lugares. Branco e arredondado, cheio de pequenas câmaras com portas de vidro em forma de pote, onde, o engenheiro explicou, as pessoas entrariam e poderiam jogar.
–Ordem alfabética! — ele avisou, e ouviu-se um misto de gargalhadas e gemidos.
–Vou ser o último — Thugles resmungou — Não sei de ninguém na escola que se chame Zacarias, Vanildo ou coisa assim.
–"V" de "Vampy" vem depois — riu o rapaz — Mas ei, talvez a gente entre um depois do outro. Não deve ter muita gente com nome entre "Tássio" e "Thugles".
Formaram-se várias filas, e ainda levaria mais uma hora até que o primeiro deles entrasse. A cada vez que um entrava, era orientado por um examinador, que lhe dava os comandos básicos e informações sobre o jogo. Eles teriam até três horas para ficar ali naquele dia.
A decisão de exibir um jogo como aquele, em uma escola, havia sido muito criticada antes de ser aprovada. Não era segredo que muitos alunos eram viciados em jogos, e que tiravam notas ruins e não aprendiam muita coisa nas aulas, embora fossem inteligentes. O jogo "suga a vida social das pessoas", diziam. Mas o MapleStory era muito diferente. A pessoa seria literalmente convertida em dados computacionais, graças a uma nova tecnologia. Ela entraria no jogo, e é como se ela deixasse de ser matéria orgânica para virar digital. Uma coisa impossível aos olhos de muitos, mas que já vinha sido desenvolvido havia muitos anos.
O engenheiro observava satisfeito os alunos entrarem nas máquinas. Acompanhava o desenvolvimento daquele jogo desde que oprojeto foi iniciado, há mais de uma década. Mas, como em todo protótipo, falhas ocorreriam. E era com os erros que eles aprendiam onde estava errado e como poderiam consertar. Entretanto, os custos para fazer aquele jogo não foram apenas em dinheiro. Várias pessoas haviam morrido ou sofrido danos permanentes no cérebro durante tentativas de digitalização.
E ele não viu necessidade de contar esse fato aos jogadores.
Apesar disso, agora as coisas eram diferentes. Fazia pouco menos de um ano desde que eles conseguiram a primeira digitalização completa, sem nenhum erro. Depois disso o trabalho passou à correção de bugs do próprio jogo e aprimoramentos na máquina. Ele mesmo já havia entrado nela e ficado por lá durante uma semana inteira, pois queria garantir a segurança total antes de embarcar qualquer criança.
E, verdade seja dita, o próprio engenheiro havia adorado o jogo.
Levou algum tempo para colocarem todos nas máquinas. Era um processo um tantinho demorado: os alunos precisavam vestir um colete branco ligado a vários fios, usar um capacete e ouvir recomendações básicas sobre como proceder durante o jogo. Quando, finalmente, todos os alunos — pouco mais de cem — estavam na máquina, o homem que anunciara o projeto voltou a falar.
–Antes de entrarmos no maravilhoso mundo de MapleStory, quero reforçar mais algumas instruções prioritárias.
"Primeiro, vocês poderão ficar por até três horas no jogo, mas se quiserem sair antes, basta localizar a opção "sair" no menu. É fácil de abrí-lo, vocês só precisam arrastar a mão no ar e querer que ele abra. É difícil explicar como, mas quando entrarem no jogo, vão saber."
"Vocês sentem fome, sede e cansaço no jogo, exatamente como na vida real. Mas como em qualquer outro MMORPG, vocês poderão encontrar comida, água, poções e equipamentos nas lojas. Cada um de vocês receberá um kit especial de novatos, e eles funcionam..."
Então começou uma longa(embora não necessariamente chata) explicação sobre os efeitos de poções, armas, cidades etc. Ele também contou que os movimentos aprendidos nas aulas Marciais(como é chamada a matéria que envolve movimentos de diversas artes marciais), como cambalhotas, esquivas e saltos mortais seriam aprimoradas.
Esse era mais um dos motivos pelo qual o MinarForest fora escolhido: no ano em que estavam, algumas escolas haviam adotado a matéria de Marciais, onde os alunos aprendiam a se esquivar, correr, saltar e até a usar shurikens, embora essa não seja uma seção muito aprofundada. Como grande parte dos alunos se queixava das poucas aulas de esgrima, criaram uma matéria nova só pra essa arte. E foi só uma questão de tempo até surgirem matérias opcionais como arco e flecha, parkour, estratégia etc. Sheddeer cursava praticamente todas elas, exceto a de esgrima(que apesar de ser obrigatória, permitiram que ele a pulasse por causa das várias matérias adicionais que ele fazia).
–Vamos logo, vamos logo! — Davien gritava, mesmo sabendo que não poderia ser ouvido.
–Muito bem, alunos, desejo a vocês um bom jogo, e boa exploração do MapleStory Online! — gritou o engenheiro. Em seguida, o auditório inteiro se calou.
Davien encarava a parede vazia do auditório, impaciente. Subitamente, sua visão foi bloqueada por uma luz azul que aparecera na tela: alguma espécie de "Loading", seguido por informações em inglês.
Directing Getstart Laser...
Filling soul gem processor...
Anti-analising blue sonic particles...
–Ah, beleza, só falta essa droga ser em...
–Prepare-se para entrar no mundo de MapleStory Online! — disse uma suave voz feminina, e imediatamente seu ânimo aumentou. A luz aumentou de intensidade. Agora estava bem mais forte, ela ocupava todo o vidro da câmera...
Em seguida ela se apagou, com aquele inconfundível som de desligamento forçado. A porta se abriu...
–Desligamento de emergência. Por favor, deixe sua cápsula e aguarde novas inststststsyusuiuysutyyjuakhskas...
–Hein?
Davien saiu, confuso. À sua volta, os alunos faziam o mesmo, voltando a lotar o auditório, confusas. Antes que os cochichos e indagações pudessem começar, ouviu-se novamente a voz do engenheiro.
–Pedimos desculpas — ele começou — Mas houve um erro em nosso sistema, não sendo possível acessar o jogo. Serão necessários alguns consertos, mas asseguramos que dentro de trinta ou sessenta dias... — ele continuava a falar, mas os gemidos de decepção e frustração dos alunos encobriam suas palavras — Lamentamos muito, mas teremos que pedir que vocês voltem às suas salas para...
Se fosse em uma outra escola, os alunos talvez tivessem iniciado uma rebelião ali mesmo. Tiveram as aulas interrompidas e estavam prestes a experimentar o que prometia ser o jogo mais emocionante da vida de todos ali, somente para ter a euforia derrubada por um erro do sistema. Não era a primeira vez que algo assim acontecia. Em uma palestra, por exemplo, se um microfone quebrasse, algum equipamento de som não funcionasse ou o palestrante não poder comparecer, as aulas simplesmente retornavam como se nunca tivessem sido interrompidas. Mais ainda, acabavam mais tarde para compensar o tempo perdido. Isso era motivo para ferver o sangue de algumas crianças.
Mas ali, no MinarForest, disciplina era um valor muito exigido e valorizado. Nuck encarregava-se de garantir isso a cada início de ano. Ele nunca permitia que houvesse gritaria ou xingamentos assim, pelo menos não acima dos limites. Por esse motivo, mesmo que frustrados e com alguma vontade de usar as habilidades de esgrima em alguém, os alunos foram em direção às saídas do auditório.
–Vai tomar no cu — foi a primeira coisa que Davien falou assim que encontrou seus amigos — Cara, esses engenheiros sempre fazem isso, chamam a gente, anseiam todo mundo, depois fecham pra manutenção. Que nem aquele Leader Mass Striker que fechou, cara, eu fiquei tão puto...
–Davien puto — Thugles assentiu — Realmente, existem poucas coisas que deixam o Davien puto. e o Leader M.S. não fechou, ele ainda tão aberto pra jogar, mas...
–"Mas" o caralho, porra, ele tá tão cheio de erro que nem dá pra jogar direito!
Vampiritico riu.
–Que isso cara, relaxa! Mês que vem... Não, três meses que vem a gente joga. E pelo menos você vai ter sua aula de esgrima que você tanto...
Ele se calou e arregalou os olhos, parando onde estava. Davien chocou-se contra um outro homem que também parou...
Ele estavam prestes a reclamar, mas quando se voltou para fazer isso, também estacou que nem um idiota.
Apesar de estarem no auditório, o que viam depois da saída nem de longe se parecia com a quadra coberta do MinarForest, ou com o corredor ao lado do refeitório que levava ao pátio e às salas de aula. Eles se viram em um lugar aberto, imenso, com piso de mármore formando um círculo onde caberia uma dúzia de helicópteros. Casas, lojas e barracas com balcões de madeira delimitavam o círculo. Estavam em uma grande praça de vendas.
Ou melhor, em Maple.
–Davien desemputeceu! — Thugles exclamou feliz, mas ninguém dava atenção a ele. Estavam todos ocupados demais em observar a imensa cidade. Uma vez que todos estavam fora, o anunciante que falou primeiro sobre o jogo no mundo real logo tratou de esclarecer tudo.
–Bem-vindos, alunos, bem-vindos! Espero que a experiência nas câmaras tenha sido agradável para todos vocês! E como sei que vocês devem estar ansiosos pra testar o jogo, vou adiantar-lhes um pequeno tutorial, mas antes, algumas explicações chaves para vocês!
–Ah cara, que legal...
–Meu Deus, isso aqui é muito real...
–Tem certeza que a gente ainda não tá no MinarForest?
–Olha só isso, esse mundo, as coisas, é tudo tão...
–Vocês podem ativar o menu de vocês com qualquer uma das mãos, e não preciso dizer como, vocês saberão como fazer — o homem continuou com animação — E durante todo o jogo, vocês poderão ver suas barras de HP, MP e EXP. Para quem não tem experiência com jogos antes, HP é a barra vermelha, ela mostra quanta vida você tem. Se ela chegar a zero, você morre... Mas de brincadeira! — ele apressou-se a acrescentar — Quando isso acontecer, a pessoa será teletransportada de volta para a cidade mais próxima.
"Segundo, vem a barrinha azul de MP. Não se preocupem com ela por enquanto, ela representa a quantidade de Mana que vocês tem para usar magia e outras habilidades. Habilidades custam Mana, e se você não tiver suficiente, simplesmente não vai poder usar as habilidades. Mas você pode recuperar seu HP e MP em cidades, saunas e centros de recuperação, ou ainda comendo e usando poções. Por falar nisso, o gosto da comida aqui é bem parecido com o da vida real, sabiam?
–Ah, isso é verdade — disse uma outra voz, provavelmente alguém ao lado do anunciante — Se querem um conselho, nunca comam porcarias na cidade de Kerning. A dor de barriga também chega a ser bem real.
–Bem, por último, a barra de EXP — ele continuou depois que as risadas cessaram — Tenho certeza que essa vocês vão querer manter sempre cheia, mais ainda que a de HP! Apesar de que, na verdade, ela nunca "fica cheia", exatamente. Quando isso acontece, você sobe de nível. E aí você libera pontos de atributos, que fazem efeito no seu dano, sua defesa... Mas isso é com o tutorial! Aguardem só mais alguns minutos, ele deve chegar aqui a qualquer momento...
–Vamos atrás do Donnie — Sheddeer disse de repente, e todos o encararam.
–Tá doido? Por que eu ia querer seguir aquele cara? Vamos logo treinar pra eu poder virar guerreiro! — disse, e dessa vez, ele não estava apenas sendo teimoso como sempre. Nick, Thugles e Vampiritico também não pareciam muito alegres com a sugestão.
–Devíamos seguir o tutorial — avisou Nick. Sheddeer o olhou.
–Eu também acho, mas sempre poderemos recapitular o tutorial depois. Eu quero ver porque é que ele é o único que eu vejo estar tão seguro assim. Olhem pra ele — disse, indicando o rapaz que procurava avidamente por alguma coisa na multidão. Era verdade. A grande maioria dos alunos ainda estava confusa, perguntando-se uns aos outros sobre coisas que nenhum deles sabia responder, mas não Donnie. Ele andava de um lado para o outro, parecendo saber o que procurar. Mas Nick sacudiu a cabeça.
–Nah, ele deve estar procurando o Rockfield. Ou a Anna — acrescentou e os outros riram, exceto Sheddeer, que continuava pensativo.
–Não sei... Acho que vou dar uma boa olhada nele antes da gente ir. Ou vocês podem ir andando, se preferirem.
–Preferimos — Davien suspirou — Mas antes, vamos ver se... Não tem alguma coisa pra adicionar amigos, um mini-mapa ou coisa assim? Como que...
–Caralho, isso é muito legal! — Thugles exclaou, fascinado. Acabar de abrir o menu principal na mão esquerda — Olha só, é só abrir a mão e tipo... É, não sei explicar, tentem só!
Novamente, todos se surpreenderam. Era estranho, era como se abrir o menu fosse uma coisa tão natural que eles simplesmente sabiam como fazer, mas não explicar. Era como tentar ensinar uma pessoa a assobiar. Algo simples, extremamente fácil, mas difícil de se fazer quando não se sabe.
–Ah meu Deus — Thugles exclamou de repente — Será que eles colocaram isso no meu cérebro? O que mais eles devem ter colocado lá? Será que vão me transformar em zumbi e me obrigar a realizar planos para o governo? É esse o verdadeiro objetivo do jogo? E se eu tiver um trauma ou coisa assim? Ah meu Deus, puxa vida, ah meu Deus...
–Seu cérebro está normal, isso eu garanto — Davien resmungou e Thugles riu, envolvendo-lhe os ombros com um braço — Pelo menos, está como sempre foi. Desde que você tinha três anos... Solta, caralho!
–Ei, ganhei um presente! — Thugles disse, soltando o amigo e conferindo o menu que apitava com uma luz laranja — É... Ah não, é só um tal de Sheddeer querendo me adicionar como amigo aehOOOOOOOOOOOOO um amigo!
–Só vir aqui em Amigos, bem aqui embaixo do menu — explicou o rapaz. Depois de feitas todas as adições, Sheddeer ainda descobriu o sistema de chat particular de amigos, por onde eles poderiam trocar mensagens.
Vampiritico foi o primeiro a terminar, muito ansioso.
–Vamos lá, eu quero dar uma olhada nessas lojas!
–Cê quer fazer o quê? Não tem nada nelas ainda, tá vendo não? Acho que vão colocar os NPCs ainda, por falar nisso, como será que eles devem ser?
–Não importa — retrucou o rapaz, teimoso — Eu vou explodir se não fazer alguma coisa aqui. Thugles, vamos passear.
–Hmmmmm, passear! — Davien caçoou, e Vampiritico levou um soco do outro rapaz por isso. Mas como sempre, era rotina entre eles.
–Ah cara, mas eu queria mesmo ver o tutorial...
–Que tutorial o quê, o Nick fica aqui ensina a gente!
Thugles olhou para o amigo, que o assentiu.
–Pode dar seu passeio com o Vampy — ele sorriu — Eu não saio daqui sem o tutorial.
–Bom, eu sim — Davien disse, flexionando os punhos — Então tá, a gente se vê depois que acabar o ensinamento e eles deixarem a gente em paz. Tchau.
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Assim que saíram da praça, todos eles tiveram a opção de escolher uma arma: espada, taco de madeira ou machado. Nenhuma delas parecia muito impressionante, como esperavam que fossem as armas de jogos. Mas também, iniciantes sempre ficavam com as mais simples. Vendo que não teria muitas opções, Davien escolheu a que parecia mais destrutiva: o machado.
Após escolher, imediatamente viu surgir um machado em sua mão. Ele olhou satisfeito para o equipamento. Era um pouco maior do que imaginava que seria, e a sensação era impressionante. Podia sentí-lo, era quase como se o machado estivesse realmente ali em sua mão, ele conseguia sentir seu peso e equilíbrio. Se ele não soubesse que estava em um jogo, talvez nunca desconfiasse que aquele mundo era digital.
As roupas também tinham seus atributos, divididos em camisa, calça, meia e bota. Convenientemente, todos usavam esse "set", já que usavam uniformes escolares. Mas não era bem com as roupas que ele estava preocupado. Mal podia esperar para achar algum monstro.
Ele foi seguindo a estrada que levava à cidade, mas na direção oposta. A estrada em si estava lá apenas para marcar o caminho: ao seu redor, a grama era baixa, de modo que a rua estava situada no meio de uma planície verdejante pontilhada com pedras coloridas, terminando em uma imensa parede de pedra que dava a sensação que ele se encontrava dentro de uma tigela feita de rochas(deviam servir para limitar o mapa de jogo, pensou ele).
Foi enquanto ele encarava tudo aquilo que ele sentiu algo bater contra sua perna. Repentinamente, sem saber como, viu sua barra de HP descer de 50 para 45. Assustado, ele se virou, tropeçou e caiu de costas no chão.
E à sua frente, estava o implacável monstro que o havia atacado: um grande caracol, com a concha azul com o tamanho de uma perna humana. A lesma baixou o corpo como um gato prestes a dar o bote...
Em seguida, dissolveu-se em uma nuvem de pó azul, quando Davien desceu o machado com toda a força sobre ela.
–Que bonitinho — resmungou, levantando-se — Tá de sacanagem comigo, né?
Foi quando ele percebeu que as "pedras" que havia visto eram nada mais do que lesmas. Verdes, vermelhas e azuis, as mais próximas rastejando na direção dele como formigas na direção de açúcar derramado.
–Só tem lesma nessa... Ah, puta que pariu! — exclamou ao ver um pequeno cogumelo que lembrava um champignom com chapéu laranja. Ele nem ergueu seu machado. Simplesmente o esmagou com o pé.
*4 Mesos earned*
*5 EXP received*
*Mushroom Spore obtained*
*LEVEL UP!
–Hein? Já? — exclamava ele enquanto uma aura azul brilhava momentaneamente por seu corpo — Mas que saco...
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Duas horas se passaram. Nick aumentava de nível pela primeira vez.
Mais alguns minutos... Thugles e Vampiritico cansaram-se de pregar peças nos outros jogadores.
Depois de um tempo, Davien chegara ao nível cinco, desintegrando mais uma lesma.
Muito, mais muito tempo se passou...
"Tem algo errado aqui", Sheddeer dizia pelo chat. Mas ninguém queria saber. Estavam todos se divertindo com o jogo...
Quando deram por si, estavam de volta ao auditório do jogo.
Ainda com o choque do teletransporte repentino, ouviu-se o barulho das portas duplas de madeira se fechando. A máquina de Laser Getstart havia sumido...
–Não tenham medo! — disse uma voz masculina(que não era nem do apresentador nem do engenheiro) alta e clara, antes que o pânico surgisse — Tenho apenas um aviso para dar a vocês. Antes disso, uma pergunta: estão se divertindo?
–NÃÃÃÃO! — Davien berrou em meio ao grande "SIIIIIIIIIIIIIM!" que se fez ouvir.
–Infelizmente, as três horas de vocês acabaram — continuou — Na verdade...
A luz fraquejou por um momento. O chão pareceu tremer um nada. Os jogadores quase caíram no chão com o susto, e o medo ainda não havia se instalado no coração da maioria quando a voz tornou a falar
Dessa vez, ela estava sombria, metálica, parecendo escarnecer dos alunos.
–...vocês estão jogando fazem quase oito horas. Tive algumas pequenas dificuldades técnicas... Mas finalmente consegui estabelecer tudo.
O silêncio era absoluto, quase palpável naquele auditório virtual. Ninguém ousava falar, fosse por medo do dono daquela voz, fosse pelo choque de descobrir o tempo que já estavam ali jogando.
–Como devem ter sido introduzidos, vocês passam de nível ao ganhar experiência suficiente. Se verificarem em seus menus, verão que a opção "Sair" não está disponível. Mas não temam. Ela vai aparecer de volta para vocês, assim que atingirem o nível 200. Até lá, ninguém poderá sair.
A maioria ficaria quieta, mas nem todos ali eram do colégio MinarForest. E quando uma pequena seção da multidão começou a gritar, levou apenas alguns segundos até que todos estivessem gritando, indignados, contra a voz.
–Quê isso, cara, eu tenho que sair hoje à noite!
–Tenho prova amanhã, não vai dar tempo, tira a gente daqui!
–Cê tá doido, upar até o 200 em lesminhas? Onde você...
–Mais uma coisa — a voz tornou a soar, implacável — Se vocês morrerem no jogo, não há mais retorno. Serão simplesmente excluídos do sistema, e jamais retornarão ao mundo real. Eu sinceramente espero que vocês se esforcem bastante, porduajkdh uadhiadjd bbzhabaatsatfsvauisoan
A voz embaralhou-se e misturou até virar apenas um ruído de estática. E, por fim, tão rapidamente quanto começou, ela parou. Depois disso, não houve mais nada.
Apenas o pânico.
Altos, agudos, desesperados. Os gritos de milhares de estudantes do ensino médio e fundamental quando finalmente processaram completamente o que estava acontecendo: estavam presos naquele mundo, sem mais ajuda, sem alguém que pudesse guiá-los. Talvez nunca mais voltassem para casa. Alguns corriam, outros tentavam desesperadamente abrir as portas de madeira. Depois daquelas palavras, quem quer que estivesse falando os tinha abandonado. Eles estavam sozinhos, jogados naquele mundo à própria sorte.
Cinco minutos depois, o auditório desapareceu, e eles se viram de volta à pequena vila circular cheia de lojas. E o caos continuou. Os alunos gritavam por socorro, saíam da cidade, corriam em busca de ajuda... Alguns permaneciam onde estavam, chorando... Thugles e Sheddeer eram um dos poucos que tinham o bom senso de tentar parar a correria, alegando que seria perigoso sair dali... mas ninguém estava interessado em sentar e raciocinar. Só queriam sair dali. Queriam suas famílias, suas casas.
Thugles, Nick, Davien e Vampiritico ainda conseguiram se encontrar. Quanto a Sheddeer, não o viam em lugar algum, mas não era surpresa. Ainda haviam centenas de pessoas perambulando pela cidade, amigos tentando se encontrar, meninas chorando, desconsoladas, sem saber o que fazer...
E perto dali, invisível, acima de tudo, um homem observava a tudo, muito satisfeito. Ele sorria. Estava como que a flutuar sobre a cidade, ouvindo os gritos, deliciando-se com a confusão que havia começado. E então ele não se conteve.
Uma risada soou por todo aquele mundo. Longa, forte e carregava de sarcasmo. Era uma risada maligna. Uma risada maligna debochando de milhares de crianças que fariam o papel dos heróis.
Mas, naquele momento, não havia um salvador para pôr fim à tirania do vilão e suas risadas, como sempre havia. Era somente um homem, com poder sobre tudo naquele mundo, contra milhares de crianças indefesas, confusas e desorientadas.
Eram milhares de jogadores, presos no mundo de MapleStory Online
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