MapleStory Online
2 O Treinamento em Victoria
LEVEL UP!
–ALELUIA!
–AH CARA, RECLAMA NÃO, NINGUÉM MANDOU VOCÊ COMEÇAR A UPAR SOZINHO!
–EU QUERO CHEGAR AO 200 E SAIR LOGO DAQUI, PORRA!
–Crianças, parem de discutir. Tá de sacanagem que vocês vão ficar aqui brigando, né?
Davien virou-se para o rapaz. Nick, sendo o mais jovem do grupo, dizer algo assim era realmente impactante nele.
–Não, eu vou logo pra Ahmerst. Quero pegar nível 10 logo e sair daqui.
O rapaz já estava ficando sem paciência com aquilo. Passara as primeiras horas do jogo matando lesmas e esporos de cogumelo, durante o tempo que a maioria dos jogadores havia ficado para os tutoriais. Mas o que ele não sabia era que os monstros mais fortes ficavam ao sul da Cidade do Início, e não ao norte onde ele tinha ido. Era como se ele estivesse apenas no quintal, com os inimigos mais fracos.
Mesmo assim, oito horas eram um tempo considerável, e levando em conta que a maioria dos usuários ficara para ver o tutorial e explorar as lojas, ele havia largado na frente naquele impulso. Atingira o nível 7 quando a maioria dos alunos começavam a passar de nível pela primeira vez.
Como eram amigos, entretanto, ele teria que esperar até que Nick, Thugles, Sheddeer e Vampiritico o alcançassem. E ele achava um saco ter que esperar até todos repetirem o progresso que ele fizera, mesmo que eles levassem a metade do tempo, enfrentando monstros que davam mais EXP. Mas o principal "problema" era Thugles.
Ele, assim como seus amigos, era experiente em MMOs como aquele. E ele sabia que, em todos eles, haviam buscas, ou Quests, dadas por NPCs, isso é, os personagens não-jogadores que ficavam espalhados pelo jogo. Sendo uma pessoa que gostava muito de jogos com boa história, ele sempre fazia as Quests.
E lia os tutoriais também. Mas como Vampiritico insistira, eles deixaram Nick para aprender, e depois o rapaz os ensinaria.
–A temática do jogo é muito simples — dissera ele — Temos HP, MP e EXP como nos jogos normais, e como vocês devem saber...
–Sim, essa parte eu ouvi — Davien resmungou.
–Calma, apressadinho. Como eu ia dizendo, as duas primeiras barras nós podemos recarregar com poções, comida etc. E a de Experiência, matando monstros ou fazendo Quests. Com pouco MP, não podemos usar magias e habilidades. Não preciso lembrar o que acontece quando ficamos com pouco HP, não é?
Ninguém quis completar a frase. Era a coisa que tornava o jogo todo tão sério, apesar de parecer tão diferente e divertido. Mas ele logo deixou o assunto de lado.
–Enfim, como somos iniciantes, atacamos com essas armas toscas que ganhamos — ele ergueu sua clava de madeira com certa decepção — Mas depois que saírmos da Ilha Maple, podemos ir pra uma das cinco cidades principais e treinar para ganhar novas habilidades.
–Podemos escolher nossas classes? — Vampiritico quis saber, ansioso. Mas o garoto fez que não com a cabeça.
–É quase isso. Aqui, nós podemos upar todas as skills do jogo, mas acho que não teríamos pontos suficientes pra isso. Enfim, nós podemos, por exemplo, colocar pontos em habilidades de arco-e-flecha, mas ao mesmo tempo em habilidades de espada, magia etc.
Davien fez uma careta.
–Isso deixa as classes meio... Diluídas — ele disse com certa decepção. Thugles bateu nele.
–Bem, seria constrangedor se você fosse um Guerreiro lvl 100 e morresse pra alguma Flecha Explosiva de um arqueiro nível 60 no PvP. Se o jogo fosse dividido por classes como Guerreiro, Mago, Cavaleiro etc, os que tem ataques à distância teriam muito mais vantagem.
Nick assentiu.
–Exatamente. Mas o jogo acaba obrigando você a se especializar em uma determinada classe, porque algumas habilidades precisam que você tenha certas habilidades como requerimento. Mas a gente ganha três pontos de habilidade a cada nível a partir de quando ganhamos a primeira habilidade, então acho que dá pra ter bastante. Além de que aqui, a gente não upa elas só colocando ponto. Usá-las frequentemente também pode ajudar a aumentar.
Depois ele falou sobre os mesos, a moeda corrente do jogo, e que quase todos os monstros tinham um item que ia pra aba de Etc, que geralmente era uma parte do corpo que compunha o monstro. Eles também tinham uma pequena chance de dropar(ganhar) algum equipamento, como roupas, armas e capacetes. A explicação deixara todos eles ansiosos para ir para Victoria, a grande ilha onde tinham as cidades principais, e obter as novas habilidades. Mas o final do tutorial deixara todos com uma certa apreensão.
–Tem mais uma coisa — ele começou, muito sério — Aquilo que você falou, Thugles, de PvP... Isso não existe aqui no MapleStory. O mundo todo é o PvP, ou seja...
–Podemos atacar uns aos outros a qualquer momento — Vampiritico terminou por ele, sombrio. Thugles encarou-o de olhos arregalados.
–Espera, você quer dizer que... — ele parecia sem coragem de continuar — Podemos estar andando por aí e alguém aparecer e querer nos matar?
–Exatamente. Mas aí o indicador da pessoa, esse diamante verde do The Sims que fica flutuando quando você foca no jogador, começa a ficar laranja. É o medidor de honra. Se ele estiver vermelho, significa um jogador extremamente desonrado. Que mata outros jogadores.
–Sim, mas as habilidades, as armas, tudo pode ser usado em nós como se fôssemos monstros?
–Sim, Thugles.
Ele pareceu parar de respirar. Recuou alguns passos, parecendo prestes a chorar. Os amigos não poderiam culpá-lo. Isso transformava o jogo todo em um perigo constante, além dos monstros que eram obrigados a enfrentar, eles ainda teriam que se preocuparcom outros jogadores. Então ele pegou a espada e olhou para o amigo magricela.
–MORRA, DESGRAÇADO!
–O QUÊ? SEU MALUCO! SAI DAQUI, QUÊ QUE CÊ TÁ FAZENDO?
–AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH EU VOU TE MATAR E PEGAR OS BANGS QUE DROPAREM VOCÊ VAI VER SEU VIADO, MORRE CACETE
–NÃO DROPA NADA QUANDO SE MATA, ME DEIXA EM PAZ, SEU ANIMAL!
Thugles continuava golpeando Davien com voracidade, a espada atravessando o corpo do amigo que se desviava com os olhos arregalados. Conferia sua barra de HP a todo instante, mas por algum motivo ela não diminuía. Nick caiu na risada, e Vampiritico olhava a cena, impotente.
–CHEGA! — o rapaz finalmente conseguiu erguê-lo pelo colarinho e jogá-lo no chão — Thugles... Ficou maluco, cara? Isso não é brincadeira! — vociferou — Você podia ter me matado!
Mas o rapaz não parecia sentir o menor remorso.
–Podia! Mas você não ficava parado — e então ele sorriu, sua voz recuperando o tom costumeiro de sempre — Zoa, Dave, isso de atacar jogadores não funciona aqui na Ilha Maple. Essa parte eu ouvi lá na Cidade.
–Cê tinha é que ter visto a sua cara — Nick riu, acompanhado por todos exceto por Davien, que detestava ser vítima de brincadeiras como aquela. E isso acontecia o tempo todo.
–Mas e se fosse mentira? — ele disse depois que voltaram a procurar monstros para aumentar o nível.
Thugles pôs a mão no queixo, parecendo pensativo.
–Bem... Aí você seria excluído do jogo, e eu ficaria com remorso pelo resto da vida — deduziu, como se fosse uma questão muito simples — Mas não se preocupe, eu tava vendo sua barra de HP o tempo todo, e só continuei porque o primeiro golpe não fez efeito. Além de que você é nível 7, e eu nível 1. Então não teria problema.
–Não foi você quem levou o susto — insistiu ele.
–E nem foi ele quem fez uma cara de garotinha assustada — riu Vampiritico.
–Ei, eu não faço cara de menininha assustada! E o Thug é uma menininha assustada!
–Tá, tá, vamos lá upar logo.
E assim eles continuaram seguindo ao sul da Cidade do Início. Aquela parte era uma imensa planície, pontilhada de lesmas, esporos e outros jogadores. Eles matavam os monstros com vontade, e as auras azuis que indicavam aumento de nível eram frequentes.
As duas horas seguintes foram dedicadas a alcançar o nível de Davien. As Quests iniciais eram bem simples, como perguntar ao irmão de uma garota o que ele queria para jantar, ou mesmo comer maçãs ara restaturar o HP(depois que um NPC golpeara-os com a espada, de surpresa). Como não teria mais nada pra fazer, Davien também as fez, mas no nível em que estava, não conseguiu mais de 10% de Experiência.
E os NPCs, verdade seja dita, eram uma obra genial. Inicialmente pareciam apenas pessoas normais, mas depois de conversar com eles, era como se eles tivessem realmente inteligência, como se fossem mesmo humanos. Mesmo que eles dissessm praticamente o mesmo a cada jogador quando faziam as quests, era quase possível conversar com alguns deles.
Uma vez feitas as Quests principais, Nick e Vampiritico foram matar monstros mais fortes, como Gosmas e Tocos. Já Thugles continuara com as Quests, concluindo até mesmo as mais simples delas, como juntar determinado número de galhos de toco, matar alguns cogumelos ou ganhar uma corrida contra algum NPC.
Quanto a Sheddeer, o rapaz não era visto desde após a sombria revelação no auditório. Assim que se encontraram depois do teletransporte coletivo, ele dissera que queria continuar seguindo Donnie. Eles se separaram, mas quando tentaram contatá-lo, descobriram que sistema de chat havia sido desabilitado. Mas eles o tinham na lista de amigos, e podiam ver o indicador verde do rapaz. Se ele transformasse em um diamante branco com contorno verde, significava offline. E "estar offline" naquele jogo tinha um significado totalmente diferente. Por isso, eles podiam ter certeza de que ele estava bem — ou, pelo menos, vivo.
Por enquanto, só podiam usar as habilidades de aprendizes, o que não era muita coisa. Só tinham três opções, cada uma com espaço para três pontos de habilidade. A cada nível, ganhavam um ponto, mas isso parava de acontecer no nível 7, como Nick dissera. As habilidades eram muito simples: Três Lesmas, que permitia à pessoa jogar uma concha de lesma verde no nível 1, azul no nível 2 e vermelha, a mais forte, no nível 3. O dano dela no nível máximo era sempre 40, então acharam que não compensaria muito usá-la. Seus pontos foram pra Recuperação, que aumentava o ganho de HP por um tempo, e Pés Leves, que deixava-os mais rápidos durante alguns segundos. Ela tinha um tempo de um minuto para que pudesse ser usada novamente, mas eles se divertiam muito com ela. Era uma experiência curiosa eles conseguirem se mover rapidamente, bem como o fato de que, assim que colocavam um ponto na habilidade, era como se seu corpo aprendesse perfeitamente a utilizá-la.
Quando chegaram todos ao nível 7, foram para Amherst, uma cidade aparentemente inspirada em cogumelos. Compraram para si algumas poções de HP e MP, um pouco de comida e água e um mapa da ilha Maple. Essa foi a parte mais alegre. Encontraram várias outras pessoas ali, inclusive alguns colegas de escola com quem conversavam.
Cerca de dez mil jogadores participavam do MapleStory Online. Eram alunos de escolas como o MinarForest, espalhadas por todo o país. Eles não recebiam a notícia de quantos ainda permaneciam, mas no segundo dia de jogo a voz tornou a falar com eles, revelando que mais de 2000 alunos haviam morrido.
Mesmo com isso, eles continuaram a jogar com determinação. E estava até sendo divertido. Em Amherst, o líder da cidade, Lucas, recomendou que treinassem com Mai, a melhor guerreira da ilha. Eles foram para leste, mas a mulher parecia nada mais do que... Uma mulher. E o treinamento era rígido, tanto que cansava bastante os jogadores. Em um deles, Davien interpretou mal uma fala dela e a golpeou na cabeça, sem pensar.
Tão rápida como um gato, a mulher erguera o braço e agarrara o dele, antes que a espada a atingisse. Ela então o empurrou, e antes que que ele caísse, a lâmina curva da espada da treinadora subiu em arco na direção do peito do rapaz.
O HP de Davien foi de 135 para 20 em menos de três segundos. Ele tomou algumas poções e voltou a treinar com Mai, que "perdoara" o garoto(afinal, é MSO, não DSO). Mas foi um tremendo susto, muito maior e mais real do que o que Thugles pregara nele, e uma lição que ele carregaria pelo resto do jogo.
–Até a mulher tira mais HP que você, Thug — Vampiritico debochara depois de passar o susto, embora Davien ainda estivesse um tanto arrepiado.
Como Thugles ficara para trás fazendo as Quests, eles o encontrariam depois. E ele aprendera algumas coisas que os outros não sabiam.
–Reim me disse que um as habilidades de bruxo são liberadas no nível 8 — dissera, para surpresa geral. Todas as outras eram liberadas apenas no nível 10 — Ah, e não é só isso... Olhem só o que eu ganhei!
Ele mexeu no menu e pegou uma cadeira dobrável, verde, como aquelas de praia. Esparramou-se nela e sorriu, como se estivesse na cadeira mais confortável no mundo.
–Chama "A Relaxante" — ele disse para os olhares ansiosos dos amigos — Recupera HP e MP a cada 10 segundos. Eu até diria onde consegui, mas alguém não curte fazer quests...
Ele ficou relaxando mais algum tempo, vendo os amigos destruírem as caixas à procura de parafusos e tábuas de madeira para Pio. Depois de juntarem, no total, 30 de cada, eles retornaram, cada um com uma nova cadeira.
–Isso é mesmo incrível — Nick dizia, sentado na cadeira — Não só recupera vida e MP, mas também relaxa mesmo!
–É, mas não é hora de relaxar — Thugles devolveu rindo — A próxima parada é... — ele consultou o mapa — Porto Sul.
A última das três únicas cidades da Ilha Maple era pequena, com um chão de pedras brancas e azuis e poucos NPCs. Mas ali estava um grande número de jogadores. Ao que parecia, haviam pulado as Quests de Amherst e chegado até ali apenas porque, como todos sabiam, era pra onde se ia até Victoria. E eles podiam ver o único navio da cidade: Uma imensa embarcação de madeira, que a suspeita dizia que não seria grátis. Mas os amigos haviam recebido uma carta de recomendação de Lucas após completar o treinamento de Mai, que dava a eles uma viagem grátis.
Eles já estavam prontos para partir. Nick e Thugles estavam no nível 8 porque, como esse era o nível onde liberavam as habilidades de bruxo, eles temiam não ganhar pontos de habilidade se passassem desse nível, Vampiritico estava no 9 e Davien no 10.
Ironicamente, aquela pequena cidade seria o que mais os atrasaria. Porque ainda havia Biggs, um NPC que sonhava em ir para a Ilha Victoria, e que ainda tinha uma quest que Thugles insistira em completar. Mas foi rápida, ele só precisava juntar trinta cascos de Lesma Azul, e o rapaz tinha 28, que ganhara matando lesmas em outras quests.
Mas o que interessou a todos foi o prêmio. Uma pequena adaga chamada Faca de Fruta, de cabo marrom e lâmina escura longa. Apesar do nome, a arma tinha um dano consideravelmente maior do que o da Navalha que ganharam de Mai. Isso fez com que todos retornassem a Amherst para juntar suas conchas.
A tarefa, porém, não era fácil. Enquanto havia campos onde tinham lesmas Verdes e Vermelhas, as Azuis pareciam aperecer aleatoriamentes entre elas. Não havia um lugar específico onde eles pudessem caçá-las, e quanto mais pessoas pegavam a Quest, mais acirrada a disputa se tornava, isso sem falar no fato de que nem toda lesma dava o casco. Acabou levanto cinco horas de disputa para juntar noventa cascos, e Nick acabou tendo que parar ou chegaria ao nível 9. Mas os amigos terminaram por ele.
–Outra navalha? — Davien exclamou furioso ao entregar a Quest para Biggs, observando a arma idêntica à que tinha antes — Mas o Thug ganhou uma... Que palhaçada é essa?
–Eu também não ganhei — Reclamou Vampiritico, vendo Nick empunhar a Faca de Fruta com tristeza — Isso não é justo!
Mas ele aceitava a situação, ao contrário de Davien.
–Isso é sacanagem! Não passei todas essas horas pra ganhar isso de novo!
–Você não vai querer atacar ele, vai? — Thugles perguntou, rindo — Toma, eu te dou a minha. Não vai ser muito útil pra mim como mago de qualquer jeito.
Ele mexeu no menu e deu a faca a Davien, o que bastou para acalmar o amigo.
–Você também quer ser mago — Vampiritico lembrou, olhando para Nick com um olhar triste — Não quer fazer uma caridade não?
–O caminho até a cidade dos magos vai ser duro — o garoto retrucou, mas deu a faca a ele mesmo assim.
Shanks, o capitão no navio, recebeu-os calorosamente. Estavam certos: ele cobrava 150 mesos por pessoa, mas a carta de recomendação de Lucas fazia-o esquecer o dinheiro. Uma vez resolvido o problema, entraram todos no navio.
O "navio" estava ali apenas para motivos de visualização. O que aconteceu, na verdade, foi que o mundo rapidamente começou a escurecer até não restar mais nada, apenas a escuridão(embora eles pudessem enxergar uns aos outros perfeitamente). Poucos segundos depois, voltou a clarear, mas o lugar onde estavam não era mais Porto Sul.
Ainda estavam em um porto, muito similar ao de antes, só que muito maior e cheio de lojas e NPCs. Não havia muitos jogadores por ali. Assim que saíram do navio, um NPC muito barbudo veio cumprimentá-los alegremente.
–Bem-Vindos ao porto Lith! — disse com animação. O homem era musculoso, com roupas azuis e botas da mesma cor e uma faixa vermelha na cintura. Ele também usava um lenço azulado na cabeça, e carregava um rolo de corda num dos braços — Meu nome é Teo. Vocês devem ser novatos da Ilha Maple, não é?
–Sim — Nick se adiantou, animado — Queremos saber como treinar as novas habilidades, o senhor poderia nos mostrar?
O homem deu uma risada.
–Ah não, eu estou muito ocupado ajudando as pessoas que chegam. Você ficaria impressionado com o número de pessoas que passam por aqui, garoto! — ele deu uma risada — Vocês podem falar com Olaf. Não tem erro, ele geralmente fica olhando o mar, e parece um viking dos tempos antigos.
–Obrigado — Nick agradeceu, e eles meio que correram para procurar o homem.
Como Teo dissera, não havia como errar na procura por Olaf, o viking. O homem era grande e forte como um urso, e usava apenas um shor verde e sandálias de couro que iam até os joelhos, além de um enorme capacete com dois chifres brancos projetando-se dos dois lados. Duas longas tranças castanhas caíam-lhe pelos ombros e iam quase até a cintura, e ele tinha um bigode longo bem aparado demais pra um viking. Além disso, ele era obviamente a pessoa que dava as boas vindas ali na ilha, pois um aglomerado de pessoas se reunia ao redor dele. Ele já estava ocupado ensinando uma garota que, aparentemente, queria ser arqueira.
–Henesys é a cidade mais próxima daqui, se não contarmos a baleia de Nautilus — ele explicava com voz forte — A arqueira chefe, Athena fica no Parque dos Cogumelos, é só perguntar. Vou te dar algumas poções, mas o caminho pra lá não é tão perigoso, tá? Só tem umas lesmas e cogumelos. Os Porcos são mais difíceis, cuidado com eles, hein?
A garota fechou a cara com as insinuações. O que, analisando bem, não era bem mentira. Parecia uma bonequinha no uniforme verde-claro do colégio Khiwi, camisa e calças compridas que cobriam praticamente todo o seu corpo. Não parecia bem o tipo de jogadora que todos cagariam quando ela entrasse no PvP. Murmurou um agradecimento ao homenzarrão e saiu apressada, na direção que ele indicara.
–Ah, sejam bem-vindos, aprendizes! — ele disse depois de atender a todos os outros, quando os quatro cumprimentaram, e fez menção de apertar a mão de cada um deles, o que provocou algumas caretas de dor — Bom, eu não sou muito de papo furado, e sei que vocês estão doidos pra treinar. Essa cidade aqui, Porto Lith, é só o começo de uma ilha bem maior que a de onde vocês saíram! E eu posso lhes ensinar tudo sobre ela — acrescentou, cruzando os braços num sorriso — Sobre qual classe vocês querem saber?
–Guerreiro! Mago onde faz pra ser mago guerreiro lutar gatuno e pra esquiva onde que luta espada armas gatuno chapéu comida preto escuro camuflar aprender a...
–Um de cada vez, um de cada! — trovejou o homem — Certo, você, primeiro, magricela. Você não tem um corpo muito forte, mas gostei de você. Aposto que quer ser um guerreiro, hein?
–Isso mesmo — Davien assentiu com um largo sorriso — Só me diga o que eu tenho que fazer.
O homem envolveu os ombros do rapaz com um braço de ferro, como Thugles costumava fazer.
–Você me parece decidido, garoto! Devia comer mais no almoço, mas vi o guerreiro assim que pus os olhos em você! Muito bem, você deve começar indo pra Perion...
E assim se deu uma longa explicação sobre Perion, a árida cidade no norte da Ilha. Ele explicou que era um lugar extremamente desolado, sem vegetação, apinhada de monstros selvagens como javalis e versões mais perigosas dos tocos. Lá ele deveria ir ao centro tribal da cidade, onde estaria o chefe Balrog, que lhe ensinaria tudo sobre a arte da guerra — Vai parecer chato no começo, mas ouça tudo o que ele lhe disser — o grande homem recomendou — Acredite, ele é o homem mais forte que você jamais verá nessa ilha.
–Agora, quem é o próximo? — ele olhou para os demais, espreguiçando-se — Você, menininho — acrescentou, prevendo o que ia acontecer.
Nick foi logo querendo saber como ser mago. Olaf pensou por alguns instantes antes de explicar. Ele teria que ir para o extremo oposto de Perion, uma floresta com árvores tão altas e grossas que era possível morar dentro delas. A cidade em si ficava vários metros acima do solo, e o instrutor era Grendel, o Muito Velho.
–Não sei muito sobre ele — disse Olaf — Exceto que, se o chefe Balrog é o mais forte, Grendel é o homem mais sábio de toda a Ilha Victoria. Dizem que ele nunca sai da biblioteca, que fica no ponto mais alto de Ellinia. Ele é extremamente poderoso, mas não precisam ter medo dele. Ele também é conhecido por ser muito paciente com novatos.
–Com isso, falta o Vampy — lembrou Thugles, indicando o amigo — Ele sempre é Gatuno nos jogos. Tem alguém que ensine algo parecido por aqui?
A expressão de Olaf assumiu um tom ligeiramente contraído.
–Tem, sim — ele começou desconfiado, como se não gostasse muito daquilo — O Dark Lord em Kerning. É uma cidade bem perigosa, se me permite dizer. Ladrões, gangues e coisas do tipo. E o próprio Dark Lord não me inspira muita confiança, se quer saber. Sempre no escuro, escondido, com aquela máscara na boca, treinando os alunos pra roubar, se esconder, as pessoas dizem que...
–Foda-se, eu quero ser Gatuno!
–...não é um caminho muito agradável — Olaf terminou secamente — Mas se você quer, é só ir ao bar de Jazz em Kerning. Algumas pessoas dizem que o homem é bom, mas ainda assim, não confio nele.
–Guerreiros de verdade numa confiam em Gatunos — Davien falou, e ganhou uma braçada de Olaf nas costas.
–Esse é o cara! Agora, independente do que vocês escolherem treinar, vão precisar de poções. Posso providenciar algumas pra vocês poderem ocupar seu dinheiro com armas e outras coisas. Por falar nisso, tem uma loja de armas aqui, não é muito boa, mas deve fornecer o básico pra vocês se acharem que vão ter problemas pra chegar às cidades. Ou podem pegar um Táxi — acrescentou, por fim — Ele dá um desconto especial para aprendizes, ou seja, pessoas sem habilidade nenhuma de primeira classe.
Os quatro amigos queriam ficar ali e perguntar mais a Olaf, mas as pessoas continuavam a chegar sem parar, então eles decidiram apressar a viagem de uma vez. Estavam para ir à loja de armas quando um pássaro pousou no ombro de Davien.
–Carta pra você — grasnou a ave. Era um pombo completamente branco, que soltou o envelope na mão do rapaz atônito.
–Oooooh, Dave recebeu uma carta! — Thugles esticou a cabeça tentando ler sobre o ombro dele — De quem é?
–Quem é a garota? — Vampiritico acrescentou, agindo como o amigo. Davien afastou os dois e franziu a testa.
–É do Sheddeer — revelou, abrindo o envelope — Puxa, mas como ele descobriu como que faz pra mandar cartas?
–Ah, o Sheddeer é bom nisso — devolveu Nick — Eu também até hoje não sei como ele descobriu como resolver a 12 daquela prova de História. Abre aí, também quero ler...
Davien abriu o pequeno papel. Era um texto escrito à mão, e realmente era a caligrafia perfeita e delicada do amigo. Ele a colou à frente do corpo de modo que os outros também pudessem ler.
Olá, Davien. Talvez você já esteja em Perion quando ler isso, talvez ainda esteja com o resto do pessoal na Ilha Maple. Seja como for, você tem que reunir todo mundo o mais rápido que puder. Tem alguma coisa acontecendo, e não é só o óbvio sobre estarmos presos aqui.
Estou partindo com o Donnie para Orbis, onde esperamos aumentar mais nossas habilidades. O navio sai daqui a alguns minutos, estou no porto de Ellinia mandando a mensagem. Por favor, não responda. Tem algo acontecendo, e estamos tentando descobrir o que é.
Mas o que quero dizer é que vocês precisam tomar cuidado na hora que forem escolher suas habilidades. Uma vez que colocarem ponto em alguma, é difícil retirar se vocês mudarem de idéia. Vou mandar um guia em anexo de tudo o que posso ajudar, vai ser mais útil ao Thugles e ao Nick que aposto que vão querer aumentar magia. Separei uma parte geral sobre guerreiros pra você e habilidades furtivas ao Vampy.
No mais, desejo a todos boa sorte. Pretendo voltar para encontrá-los, quando puder, mando outra mensagem, apenas continuem vivos.
Sheddeer
Nick foi o primeiro a se recuperar.
–Orbis? Onde diabos é isso? E o que ele tá fazendo ainda seguindo o Donnie?
–Ele parece estar junto com o Donnie — Thugles corrigiu depois que Davien colocou a carta no inventário — E seja lá o que eles estiverem tramando, não podemos ajudar agora. O jeito como ele fala... Não é como se Orbis fosse ali na esquina ou que você possa ir com um táxi.
Davien soltou um breve suspiro.
–Mas cara... Como é que ele sabe de tudo isso? Esses guias aqui, falam sobre quais habilidades devemos aumentar, onde treinar, armas que devemos usar... Parece bem básico, mas mesmo assim... — ele tirou os olhos fixos na folha de papel à sua frente para olhar, incrédulo, para os amigos — Daonde ele tirou tudo isso?
–Como ele disse, estava com o Donnie — Thugles disse com um sorriso fraco.
–Bem, estamos todos reunidos aqui, como ele queria. Mas não que isso ajude em alguma coisa... O que a gente deve fazer agora?
Davien voltou-se para ele, feliz por receber uma pergunta cuja resposta estava na ponta da língua.
–Eu vou pra Perion — disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo — Vou ver qual é a dessas habilidades de guerreiro, treinar, ficar forte, chutar uns traseiros e pegar nível 200.
–Ora, é um plano muito bom — Vampiritico riu — Tipo, "Vou ali treinar, pegar lvl 200 e sair do jogo". Fácil, não?
–Eu acho que a gente devia ficar junto — Thugles sugeriu — Tipo, a gente vai com o Davien em Perion, depois vamos todos pra Ellinia pra eu e o Nick treinarmos nossas habilidades, depois com o Vampy.
Mas Vampy não pareceu ter gostado da idéia.
–Cara, isso vai atrasar muito a gente. Vamos cada um pra sua cidade, treinamos nossas habilidades e pronto, depois nos encontramos no lugar que vamos marcar assim que eu terminar de falar isso que estou dizendo.
Davien pareceu considerar a afirmação. Tanto Thugles quanto Nick sacudiram a cabeça.
–De jeito nenhum, cara, a gente pode ser atacado a qualquer momento. Se a gente ficar sozinho... E outra, vai que acontece alguma coisa que impede a gente de se reunir? Você já pensou que pode ser a última vez que a gente se encontra?
–Nossa, e esse é o cara que vive dizendo pra gente não pensar negativo — Davien soltou olhando para o lado. O rapaz o encarou.
–Não estou sendo negativo, é só a verdade. Unidos, nós somos muito mais fortes.
–Por mais que eu ache essa sua fala extremante fofa — o outro retrucou com ironia — Eu concordo com o Vampy. Vai atrasar muito a gente, e além disso, todo mundo aqui é nível baixo. Quem é que vai poder atacar a gente? E se atacarem, dane-se, a gente revida e ainda cobra pra não matar!
Os outros deram uma risadinha, e Thugles deu-lhe um soco de leve. Não importava qual jogo fosse, Davien sempre achava que, se ele estava em um nível, era impossível que alguém que tivesse começado junto com ele pudesse estar muito á frente.
–Por isso eu gosto do Davien, sempre correto e procurando o melhor pra pessoas. Mas isso é só no começo, assim que o pessoal pegar o jeito do jogo... Tipo, quando acostumarem, isso aqui vai ficar como se fosse a vida real. Vai ter valentões espalhados por aí, gente que cobra pra não atacar, clãs arrogantes achando que são os melhores. Apesar de que eu só estou tentando não ser confiante demais, quer dizer, o que eu acho mesmo é que ninguém seria capaz de bancar o vilão da história.
–Afinal, todos queremos sair daqui e ir pra casa — Vampiritico ajuntou.
–Mas então, vamos ficar juntos, né?
–Ah cara, deixa de gayzisse, é cada um pra sua cidade, você não sabe cuidar de você não?
–É fácil falar isso né, você ganhou uma faca mais forte e... Não, pera, eu e Nick ganhamos.
Uma discussão teve início, Davien e Vampiritico contra Thugles e Nick. Os primeiros queriam se separar do grupo para agilizar o leveling, enquanto os outros dois achavam arriscado e preferiam que o grupo permanecesse unido. Finalmente, Davien gritou pra que todos calassem a boca.
–Estamos perdendo tempo aqui — disse com a voz firme — Olha, eu tenho uma idéia. Nick e Thug Life querem que fiquemos juntos, não é? Pois bem: vocês dois vão pra Ellinia, juntos. Enquanto eu e Vampy, que queremos nos separar, vamos um pra Perion e o outro pra... Praquela cidade de Gatunos que esqueci o nome.
–:notbad: — fez Vampiritico. A idéia não era tão conciliadora assim pra Thugles e pra Nick, e Davien conhecia-os bem demais para supor que ganharia aquela discussão assim.
–Olha, eu sei que é arriscado a gente se separar e tudo. Mas, da mesma forma que devemos ficar juntos, devemos upar rápido também. Eu e o Vampy temos nossas Facas de Fruta, e podemos dar conta do recado. E vocês dois estarão juntos, mesmo com as armas mais fracas. Se formos todo mundo junto, vai atrasar demais o up, mas se cada um for pra sua cidade, vamos upar praticamente ao mesmo tempo. Vamos fazer o seguinte: a gente ganha nossas habilidades, e quando chegarmos no nível 15, nos encontramos de novo aqui.
Os dois garotos hesitaram, mas por fim, mesmo não concordando totalmente, concordaram. No fundo, sabiam que era o melhor para todos eles. A idéia de ficarem juntos para ter maior segurança, apesar de mais sensata, não era o ideal para aquela situação.
–Quando pegarmos nossas habilidades, vamos poder treinar juntos em um grupo — acrescentou, e isso os animou um pouco. Vampiritico sorriu para si mesmo. Não era a primeira vez que via isso acontecer: na escola, várias vezes o amigo ganhava discussões indo direto ao ponto, como agora. Ele pensou como era curioso o fato de que Davien, quase sempre tido como o mais teimoso e impaciente, conseguisse organizar tudo de forma calma como aquela. Geralmente, era Thugles quem fazia isso, mas aquele era um caso onde um erro poderia levar à morte.
Com o problema resolvido, não havia mais motivos para adiar a partida. Eles se abraçaram antes de tomarem as estradas, mas nenhum deles disse adeus. Não havia motivos para isso. Afinal, não tinha por que pensarem que aquela seria a última vez que se veriam.
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Nick e Thugles soltaram um imenso suspiro quando chegaram em Ellinia.
Para chegar à cidade, era preciso passar por um emaranhado de folhas e caminhos feitos de troncos e galhos de árvores. Passaram por várias Gosmas e Tocos, que os amigos decidiram não incomodar. Apesar da selva parecer infindável, a trilha que levava a Ellinia era bem visível. Não era difícil saber por onde seguir, sempre subindo, na direção das copas das árvores.
Finalmente, eles chegaram a uma imensa árvore oca, com uma escada em caracol percorrendo seu interior, e eles a subiram. Era um lugar livre de monstros. Em poucos minutos, atingiram o topo e entraram em Ellinia.
O lugar era magnífico. As folhas das árvores mais baixas começavam ali, e as lojas e casas eram todas construídas em galhos e folhas que se arranjavam de maneira tão compacta que formavam um chão bem resistente. Era cheia de subidas e descidas, e a luz do sol escapava por entre as folhas das árvores mais altas, enchendo o lugar com uma luz extremamente agradável.
–Olha lá — Nick apontou, distraindo o amigo de admirar a beleza daquele lugar.
Construída no ponto onde um imenso galho se bifurcava, no que parecia ser o ponto mais alto da cidade, havia uma imensa construção com um telhado que tinha a evidente intenção de se parecer com um livro. Estava localizado de tal maneira no centro da cidade e a tal altura que parecia ser a coroa, como se fosse o centro da magia que mantinha todo aquele lugar em harmonia. E foi direto pra lá que os amigos foram.
–Entrem — disse uma voz grave e ressoante, quando eles bateram na porta de madeira.
A biblioteca era imensa. Circular, centenas de estantes que iam do chão ao teto abrigavam milhares de livros, de diferentes capas e diferentes idades. Havia uma escada de madeira que levava às prateleiras mais altas. No centro do lugar. uma árvore que lembrava um pé de feijão gigante crescia, com um imenso cristal que parecia um cilindro com pontas nas duas extremidades. Parado em frente a ele, flutuando, estava Grendel.
A primeira coisa que notaram foi o quanto ele era poderoso. Depois, o quanto ele era velho. Uma barba branca caía-lhe até a cintura, e ele usava roupas brancas e um chapéu pontudo que lhe cobria os olhos, com uma estrela dourada na ponta. Segurava um cajado curvo de madeira em uma das mãos e a outra ele mantinha aberta, com a palma voltada para cima onde uma esfera de luz azul flutuava.
Ele tinha uma estranha aura azul, causada por seis esferas de cor azul-clara que flutuavam ao redor dele. Elas tinham estranhos símbolos que conferiam um toque extra de magia e poder ao pequeno velho. Parecia que era aquilo que o mantinha flutuando, mas de certa forma, era como se...
–Sejam bem-vindos à biblioteca de Ellinia — ele saudou os dois garotos que ainda mantinham a boca aberta e os olhos arregalados — Eu sou Grendel, o Muito Velho. Podem rir — acrescentou com um sorriso, ao ver a confusão no olhar dos meninos.
–Bem, senhor, nós viemos aqui ser magos — Nick começou, direto — Achamos que o senhor poderia nos ensinar.
–Eu posso. Sou um mago extremamente capaz e poderoso, sabe — ele deu uma pequena risada — E muito sábio também, mas isso é o que dizem e não o que realmente acredito. Sou um ignorante, se comparado à beleza que reina fora desta biblioteca, fora desta ilha, fora deste mundo. Meu trabalho aqui é ensinar o que posso, que não é muito, pelo menos não tanto quanto eu queria que fosse.
–Seja como for, posso enxergar o propósito de sua visita. Vocês pretendem ser magos desde que pisaram aqui, não é mesmo? — acrescentou, e antes que pudessem responder, continuou: — Têm uma atração natural pela magia, o que não me surpreende, visto que vocês são duas pessoas que procuram cumprir suas obrigações antes de mais nada. Ajudar as pessoas, às vezes sacrificando seus próprios bens apenas para ver o sorriso no rosto de outrem. São pessoas como vocês que procuro.
Ele falou mais um pouco, e algumas coisas os amigos tiveram dificuldade de acompanhar. Ninguém podia culpá-los. Haviam visto alguns NPCs durante o jogo, mas nenhum se comparava com aquele. Desde quando eles haviam falado sobre si mesmos para o homem? Nick mal dissera duas frases, mas as coisas que o homem dizia... Ele estava certo. Eles eram exatamente da maneira que ele descrevia. Quando ele falava, era difícil acreditar que eram falas programadas. Não, certamente não era isso que acontecia. Quando ele falava, era como se enxergasse além de suas aparências, como se fosse mais do que um simples personagem de jogo. Tudo bem que era um dos primeiros com quem conversavam desde que saíam da Ilha Maple, mas mesmo assim, era como se os criadores do jogo tivessem feito um trabalho especial com aquele.
–O caminho da magia é muito difícil — concluiu — É necessária uma dedicação extrema do aluno, e muito estudo das artes arcanas para aprimorar a mente para um melhor domínio da magia. Mas vocês dois parecem bons aprendizes — disse ainda, o que fez Nick e Thugles encherem-se de orgulho.
"Agora me digam... Que tipo de habilidades vocês gostariam de aprender"?
–Hã... — Nick e Thugles olharam um para o outro, depois novamente para o mago — Quer dizer, a gente só chega assim e... Bem...
–Meu requerimento é que vocês tenham nível 8 e uma dedicação muito grande à magia — o mago falou, solene — O nível vocês já tem. Quanto à dedicação, tenho certeza que não teriam chegado até aqui se não quisessem ser bons magos. E além disso — ele acrescentou num meio sorriso — Vocês não esperavam alguma cerimônia de iniciação cheia de luzes, mágica e palavras complicadas, não é?
–Sim — Thugles respondeu, ignorando o olhar tenso de Nick — Mas se não tiver, melhor ainda! É que a gente não sabe bem quais habilidades nós temos, então...
Sua voz foi sumindo lentamente, quando Grendel acenou com a mão e um painel surgiu na frente de ambos, com uma lista de ícones e descrições.
–Essas são as habilidades de bruxo — ele disse — Mas para que vocês possam usá-las, precisam ser declarados bruxos. Depois que eu fizer isso, não haverá mais volta. Vocês querem mesmo se tornar bruxos?
Nick e Thugles se entreolharam novamente. Que conversa era aquela? Pelo que diziam os tutoriais, não havia um sistema de classes. Era possível treinar todas as habilidades, segundo o tutorial... Mas Grendel estava lhes dizendo uma coisa completamente diferente. Mesmo que tivessem certeza de que queriam ser magos, a idéia de tomar uma decisão os fez hesitar um pouco.
Vendo a dúvida no olhar dos dois amigos, o velho aproximou-se deles.
–Não é como se houvessem classes fixas — ele disse, com a voz um pouco mais séria que o normal — A classe que você escolhe na verdade é apenas uma preferência, que define o estilo que você prefere. "Ser bruxo" dá um bônus de 20% de dano com magias, e todas custam 30% a menos de MP. E dá a vocês o ganho de um ponto extra para colocar em habilidades de bruxo, mas vocês podem continuar aumentando habilidades com arco, espada e pistola, por exemplo. Basicamente, vocês podem aumentar tudo de todas as classes, mas podendo escolher uma pra ganhar bônus extras durante o jogo.
Isso paralisou os dois amigos por algum tempo. Pelo que Grendel estava dizendo, a classe era apenas um bônus que garante bônus extras para determinado tipo de habilidades(É como as pedras do Mago, do Guerreiro e do ladrão em Skyrim, só que uma vez escolhida, não pode mais mudar). Mas o que os impressionou foi o fato de que ele era o primeiro NPC a se referir ao mundo como um jogo. Todos os outros falavam como o mundo fosse mesmo real e todos eles fizessem parte daqui, mas Grendel... Era como se soubesse do que se tratava. Como se ele fosse humano.
Ele deu uma piscadela e voltou a flutuar, olhando-os de cima com olhar inquisidor. Isso bastou para os amigos. Ambos ergueram o queixo e encararam a figura flutuante à frente deles.
–Eu aceito.
–Eu também — ajuntou Nick, os olhos brilhando. Não havia mais dúvida nos olhares dos amigos.
–Vocês prometem que irão dedicar suas vidas, ou pelo menos sua estada por aqui, ao caminho da magia?
–Sim!
–Tenho a sua palavra de que nunca, em tempo algum, usarão suas habilidades para o mal ou para a desgraça de pessoas de bem?
–Aye!
Com um sorriso que ocultou de propósito dos dois garotos, ele ergueu uma mão sobre a cabeça de cada um e fechou os olhos.
Nick e Thugles olharam um para o outro, abismados com a aura laranja que elevava-se sobre o amigo. Parecia que uma mulher havia acabado de sair de dentro deles, erguendo os braços para cima, jogando a aura brilhante sobre o corpo dos mais novos bruxos de MapleStory.
–Sejam bem-vindos ao início de um longo caminho — Grendel saudou — Agora vocês dois são Bruxos. Focarão suas habilidades no uso e aperfeiçoamento da magia, no estudo e na dedicação das artes arcanas, com os poderes mais destrutivos que se pode obter por esse mundo. Mas lembrem-se, vocês devem usar tudo isso pelo bem — instruiu com a voz firme — Agora, vamos às suas habilidades.
–Oba! — Thugles deu uns pulinhos bem gays, o que fez Nick dar um tapa na própria cara.
O velho acenou com uma mão, e um painel surgiu na frente de dois amigos. Eles puderam ver as habilidades que já tinham: Recuperação, Três Lesmas e Pés Leves. Agora havia uma quarta habilidade chamada Bênção de Grendel.
Bênção de Grendel: Todas as habilidades aprendidas ou aumentadas com instrutores de magia infligem 20% de dano extra e custam 30% a menos de MP. A cada nível, um ponto extra de é concedido para ser usado em uma dessas habilidades.[/i]
Aquela seção, entretanto, era uma pequena área onde se dizia "Habilidades de Aprendiz". Ao lado dela, havia uma nova, com seis habilidades novas para escolherem.
Thugles puxou abriu o papel de Donnie, mas hesitou ao olhar para Grendel. Sentiu um repentino medo de desapontar o velho, ou que ele repreendesse o uso de guias de alguma maneira. Mas ele o viu e balançou a cabeça.
–A melhor forma de entrar em um caminho desconhecido é aceitando a ajuda de quem já passou por ele — o homem falou com sensatez — Reconhecer que não sabe nada sobre o que está por vir, ser humilde para reconhecer algo que está além de sua capacidade, e buscar auxílio com pessoas mais experientes.
Thugles assentiu, mais tranquilo. O que ele dizia não era exagero. Se ele colocasse um ponto errado em alguma habilidade, não sabia como consertar. Não conseguiu deixar de lembrar da primeira vez que entrara em um jogo online: criara um mago, mas aumentara atributos de Guerreiro e Gatuno, aumentando habilidades inúteis e deixando de treinar as necessárias. Sombriamente, lembrou-se de como se perguntara por que seu personagem sempre morria e infligia pouco dano, enquanto os aliados sobreviviam e derrotavam o chefe em questão de minutos. Agora ele entendia o motivo. E sabia que o mesmo aconteceria se errasse os pontos.
"Pelo menos eu só morreria uma vez", pensou, franzindo a testa.
E ele logo provou estar certo. Das seis habilidades disponíveis, apenas duas pareciam ser ofensivas: Garra Arcana e Raio de Energia. A primeira parecia ser mais forte, pois atacava duas vezes, mas requeria um ponto da segunda, então de imediato ele pensara em colocar um em Raio de Energia e os outros dois em Garra Arcana.
Mas o guia de Donnie não concordava com ele. Ele e Nick ficaram um tanto desapontados quando viram que o rapaz parecia deixar os ataques por último, preferindo as passivas que aumentavam MP.
–A gente já tem MP demais — Thugles reclamou, analisando sua barra azul cujo valor máximo crescera consideralvemente — E nossas habilidades custam 30% menos que o necessário. Por que precisamos aumentar isso? Tipo, eu vou seguir o guia, lógico, mas por quê?
Nick olhava atentamente o guia e o painel de habilidades, raciocinando.
–Não, acho que faz sentido — disse finalmente, sem tirar os olhos do guia — Nós vamos atacar com essas habilidades o tempo todo. Isso significa que vamos precisar de MP, o que nós temos muito, mas olha essas skills aqui — ele apontou uma que dizia "Aumento de MP Máximo Melhorado" — Quando a gente passa de nível, essa habilidade faz com que o MP máximo aumente. Ou seja, se a gente tiver ela maximizada logo no começo, nosso MP máximo vai aumentar mais rápido. Se deixarmos pro final, vamos perder vários níveis que o MP vai subir sem bônus. Ela precisa de Recuperação de MP nível 5, então é por isso que vamos colocar nossos três pontos nela.
Thugles assentiu várias vezes, compreendendo o raciocínio do amigo.
–É verdade... E outra coisa, ela deve servir pra essa Proteção Arcana aqui. Substitui parte do dano que iria pro HP por dano ao MP... Ou seja, é como se ela fundisse as duas barrinhas. É, você tem razão. Essa Armadura Arcana também parece boa...
–É, mas o Donnie discorda. Ela vai ficar no zero, pelo jeito.
–Sim, eu vi. E a Garra Arcana, ela fica no máximo, mas mesmo atacando duas vezes, a soma dos dois danos não chega a dar a do Raio. Será que compensa mesmo?
–Eu não sei, mas se o Donnie diz...
Eles passaram mais alguns minutos não para aumentar a habilidade, mas para discutir, fascinados, sobre como elas seriam e o quanto elas seriam melhores nos níveis máximos. Estranhamente, nenhum deles perguntou como Donnie podia saber de tudo aquilo, e nem por que estavam confiando cegamente num guia que não tinham como saber se era verdadeiro. Mas isso era algo que já tinha sido causado pela escola.
No MinarForest, apesar de não conversar muito, o colega era bastante procurado para respostas de questões discursivas onde havia a necessidade de elaborar um texto para responder, como redações e perguntas sobre literatura, por exemplo. Donnie tinha uma capacidade de analisar, pensar e elaborar fantástica. Ele sabia o que estava fazendo. Podia não ser muito sociável, mas nunca recusava um pedido de ajuda. E se isso não fosse suficiente, havia ainda o fato de que fora Sheddeer quem passara o guia a eles. Só isso já bastava tanto para eles quanto para Davien e Vampiritico.
Depois que a euforia pelas habilidades novas passou, veio a ansiedade de sair e treinar para descobrir como eram as ativas, como Raio de Energia e Proteção Arcana. Eles agradeceram a Grendel, que ainda tinha uma última surpresa para eles. Um aviso piscou para eles, e quando abriram o menu, descobriram um novo set de equipamentos novos para bruxo. Era uma calça de tecido marrom-beje, uma camisa e um chapéu pontudo como o de bruxos das histórias, todos da mesma cor. Nick vibrou ao descobrir que Grendel lhe enviara uma versão idêntica, mas azul. Eles também receberam uma varinha que ajudaria a canalizar as magias.
–Mas eu acharia melhor vocês continuarem a usar as armas, enquanto ainda não têm habilidades de magia — recomendou — Até lá, pode ser um pouco cansativo, mas eu tenho um treinamento especial que vai ajudá-los a aumentar de nível mais rápido. O que vocês acham?
–Mas é claro! A gente adora fazer quest — Nick concordou com animação, e Thugles assentiu com vivacidade. Grendel sorriu para si mesmo.
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–É só isso? — Vampiritico perguntou sem acreditar, olhando para as próprias roupas recém-trocadas.
Ele estava usando roupas novas, mas elas pareciam muito mais legais no inventário. Agora que as equipava, ele podia ver como eram sem graça. Uma bermuda preta simples, camisa de manga cinza, um par de sapatos que não eram muito melhores que as que já usava e um gorro de lá preto eram as roupas de sua nova classe. Mas ele se sentia mais como um morador de rua do que como um temido e poderoso Gatuno.
–Ora, você esperava um macacão preto com uma máscara e uma espada serrilhada? — O Dark Lord riu com prazer, os olhos fechando-se acima da boca oculta por uma máscara.
–Eu achava que seria algo melhor que roupas velhas de adolescente! — retrucou o rapaz, agora analisando sua nova adaga. Era idêntica à Faca de Fruta que ganhara de Nick na mesma manhã. O dano poderia ser um pouco melhor, mas a arma em si era a mesma.
Ele também havia ganho uma garra e algumas Shurikens, mas não ligara muito para elas. O guia de Donnie alertara-o para se escolher uma das especialidades: ou shuriken ou adaga. E a segunda opção parecia mais atraente para o rapaz.
–Você vai ficar reclamando ou vai aceitar meu treinamento? — disse o homem, ríspido. O garoto riu com sarcasmo.
–E eu tenho opção?
–Tem, ué! Se não quiser, pode sair daqui e se virar como quiser lá fora. Dá no mesmo, você não ganha nenhum item especial se completar meu treinamento, é só pra parecer que estou te ensinando, mas não é obrigado. Você quem sabe.
Vampiritico fechou os punhos de raiva. Sabia que aquilo era apenas um programa, mas não conseguiu deixar de sentir raiva daquele homenzinho zombeteiro e que não se importava com ele. Estava tentado a recusar, a dizer que não precisava de ajuda de alguém como ele, mas se conteve. Se fosse o jogo que o apresentador disse que seria, inocente e com opção de sair quando quisessem, ele teria feito isso. Mas ali, onde os monstros eram mortais e ele teria que concorrer com outras pessoas — esse problema podia ser maior sendo que tratava-se da classe conhecida por ser furtiva e especializada em roubos e assassinatos frios — não seria inteligente dispensar um treinamento experiente. Porque não importava a personalidade do instrutor, a missão era sincera e não teria o risco de o Dark Lord sacanear e mandá-lo pra um lugar onde ele morreria, por exemplo. Afinal, ainda era um jogo. Mas foi engolindo o orgulho que ele assentiu e aceitou a missão.
–Muito bem — o Dark Lord suspirou e revirou os olhos discretamente, o que fez o rapaz aprovar ainda mais a decisão. Pelo jeito, o homem queria que ele tivesse recusado — A oeste daqui, tem o Local de Construção de Kerning. La, encontre dez tocos e mate-os pra mim. Acha que consegue fazer isso? — acrescentou, como se analisasse a aparência desleixada do garoto.
–Consigo — o rapaz respondeu, rangendo os dentes e virando-se para a saída.
Não tinha sido muito difícil encontrar a sede dos Gatunos. Assim que chegara em Kerning — o lugar que ele achou que lembrava muito uma cidade coreana que ele não conseguia se lembrar do nome — foi comprar algumas poções, e paciente dono da farmácia indicou-lhe onde ficava o bar de Jazz. Ao entrar lá, viu o que parecia apenas um bar comum onde se podia comprar comida, bebida e ouvir jazz. Não havia nenhum esconderijo de gatunos por ali.
Ele pensou que a chave para entrar seria alguma coisa como pedir determinada bebida ao garçom, dizer alguma senha para ele ou coisa assim. Mas se esse fosse o caso, como os aprendizes poderiam se tornar gatunos? Analisando as opções, foi para o que parecia ser a única opção: o banheiro. Era um pouco isolado e a porta suja e maltratada não era um indicador de que as pessoas que estivessem longe de casa não diziam "pera, vou ali no bar de jazz dar uma cagada". Pensando que seria um bom lugar para um esconderijo, ele entrou.
E estava certo. Confirmando seu pensamento sobre cagadas, não havia um vaso sanitário, mas sim um buraco com uma escada que levava para um subterrâneo bem maior do que esperava.
O lugar parecia um centro de treinamento de ninjas. Era espaçoso, com chão de tatame laranja e iluminação escassa. Havia seções cheias de varas ortogonais ao chão, obviamente para treinar a habilidade de se equilibrar na ponta delas, bem como bonecos de treino de pano e de madeira, rasgados ou com shurikens incrustadas neles. Havia arsenais de espadas, embora o rapaz soubesse que estavam ali apenas para decoração, e que não podiam ser usados como equipamentos.
A parte que mais chamava a atenção era um pequeno ringue de luta vermelho com uma estranha luminária colocada no teto, posicionada de modo a ficar bem no meio do quadrado de tatame vermelho. Sem saber por onde começar, fora primeiro ao ringue, por ser o lugar mais destacado.
Quando se aproximou, viu um par de olhos abrir-se da "luminária", mas não gritou ou sequer arregalou os olhos de medo. Um par de mãos surgiu para apoiar-se eu alguma viga no teto para que ele pudesse descer, revelando que a luminária era na verdade um homem enroscado de cabeça pra baixo numa lâmpada.
–Que coisa de viado — Vampiritico dissera para ele, num gesto intempensivo. O homem, que usaba um conjunto de roupas pretas e uma máscara cinza, apenas mirara-o com certa satisfação. Só o fato de saber manter os nervos no lugar(quando era pra ter levado um susto) já era uma indicação de aptidão para ser Gatuno.
Apesar desse bom começo, o rapaz logo descobriu que o Dark Lord não parecia muito interessado em ajudar seus aprendizes. Ele o admitira assim que soube que ele queria e tinha nível suficiente, e o tempo todo fazia comentários mordazes sobre como o mundo é perigoso e difícil. Mas o rapaz não desistiu e continuou querendo ser Gatuno. Vendo que não conseguiria convencê-lo a desistir, o homem aplicou-lhe a Bênção do Gatuno.
Agora o rapaz corria pelas ruelas de Kerning, com pressa de chegar no local da missão e terminar logo aquelas quests. Talvez ele tivesse mentido sobre não ganhar nenhum item especial como parte do treinamento, mas algo lhe dizia que aquele não era o caso. O homem parecia sinceramente entediado e desinteressado, até mesmo pra um Personagem Não-Jogador. Mas ele sabia que ganharia, no mínimo, uma quantidade extra de EXP. Além de que o guia de Donnie lhe dizia para ficar por ali até o nível 15.
Mal vislumbrara o primeiro Toco e já saltara em cima dele, golpeando-o com um golpe certeiro de sua adaga. A lâmina não "ficou presa" na madeira como aconteceria na realidade, mas o atravessou de maneira bem mais sólida do que um holograma, e fez-se o barulho inconfundível de um gume cortando madeira. O Toco virou-se para ele, dando um giro com suas quatro patinhas minúsculas, mas os dois golpes seguintes o derrotaram.
O indicador de quest mudou para "1/10", e ele partiu para o próximo, cortando-os com seus ataques rápidos e precisos. Ele percebeu que sua habilidade passiva, a Bênção do Gatuno, realmente dava a ele mais rapidez de movimento. Era como se seus músculos tivessem simplesmente se soltado um pouco mais e ele agora conseguisse manejá-la com mais velocidade.
Menos de dez minutos depois e já estava de volta ao Dark Lord, no nível com nível 11. Sua recompensa fora um pouco de EXP que enchera 20% da barra amarela, agora quase vazia. O homem olhou para ele, ainda de cabeça pra baixo.
–Ótimo. Agora, o segundo treinamento: Derrote 25 tocos.
–O quê? — Vampiritico explodiu, torcendo a cara — Eu acabei de sair de lá! Por que você não me disse que eu tinha que fazer isso tudo de uma vez?
–Porque aquilo era do primeiro treinamento. Agora, é o segundo: matar vinte e cinco tocos. Algum problema?
Furioso, ele percebeu que um novo medidor de quest se abrira: "Segundo Treinamento Para Gatunos", que dizia "0/25". Como esperava, os tocos da quest anterior não contavam(monstros de quest só contam como mortos depois que se inicia a quest). Mas estava determinado a parecer calmo e mostrar que não se importava com aquilo, que não era problema.
–De jeito nenhum — retrucou em um tom de voz muito mais calmo do que sua mente estava naquele momento. Não iria dar aquele prazer ao instrutor.
Correndo, ele voltou ao mapa dos Tocos e recomeçou a matança. Era uma luta injusta. Os monstros, simples tocos de madeira com quatro pernas que pareciam galhos grossos curvos, e um olho no meio do corpo protegido por uma ranhura na madeira, mal conseguiam revidar os ataques de Vampiritico. Eram resistentes e tinham bastante HP, mas eram lentos demais. Era estranho o fato de tantos deles viverem num lugar perto de onde se treinavam Gatunos.
Levou cerca de quinze minutos e duas poções de HP para que ele completasse a missão e voltasse ao Dark Lord. Ganhou uma quantidade de EXP maior e umas poções de HP e MP, bem como o próximo treinamento. E como esperava, a missão seguinte ainda envolvia matar Tocos — dessa vez, cinquenta deles.
O garoto espumava de raiva ao matar o vigésimo segundo Toco. Não por causa do treinamento, mas por causa do instrutor que fazia aquilo com ele. Fazer aquela missão era algo monótono e cansativo, e ele já estava perdendo a paciência. Acabou usando a nova habilidade: Ataque Duplo, e o uso dela pelo menos serviu para distraí-lo um pouco.
A habilidade fazia com que, quando ele desse uma estocada, instintivamente ele conseguisse dar uma outra a uma velocidade surpreendente. Ele próprio ficaria surpreso, mas ao ver seu braço mover-se tão rápido que era difícil acompanhar, não se impressionou tanto. Quando se coloca um ponto de habilidade em MapleStory Online, automaticamente se aprende a usá-la. E depois que ele testa pela primeira vez, é como se soubesse fazer aqui há anos.
A habilidade, entretanto, custava MP, e ele percebeu que, ao ficar sem os 5 MP necessários para executar a habilidade, ele não conseguia mais atacar com rapidez. Ele tentou, deu uma estocada, mas a segunda, apesar de rápida, não era nem de longe comparada ao flash que era com a habilidade. Ele então bebeu uma poção de MP, mas não tornou a usá-la. O segundo ataque, apesar de veloz, tinha um dano muito menor que o primeiro. Era uma habilidade que melhorava conforme o nível dela aumentava.
Ele terminou e já esperava receber o treinamento de matar cem Tocos, mas o Dark Lord apenas suspirou e lhe disse que, dessa vez, teria que matar dez Polvos. E ficou um tanto surpreso ao constatar que o nome da Quest era "O Último Treinamento para Gatunos".
Animado, o rapaz agora nível 13 correu para o local indicado: o topo do prédio onde ficava o Local de Construção. E lá, vagando pelas vigas enferrujadas e abandonadas, ele os viu.
Roxos, desbotados e cobertos de manchas, os Polvos de Kerning tinham o tamanho de uma pessoa adulta. Oito tentáculos saíam do seu corpo gelatinoso, que funcionava ao mesmo tempo como peito e cabeça, como uma versão roxa asquerosa do Mike de Monstros S.A. E ao invés de dois, ele tinha três olhos — grandes esferas roxas com bolas pretas no centro, nadando no meio do corpo que mais parecia uma gelatina.
Ele estava segurando uma corda, em um lugar relativamente seguro. Pelo menos, os Cogumelos Laranja que pulavam não conseguiam alcançá-lo. E o HP daqueles monstros era grande. E se o matassem com um golpe? Ele deveria esperar atingir um nível maior antes de enfrentá-los?
Esses pensamentos certamente não passaram pela cabeça do jovem rapaz. Rapidamente, contou catorze polvos amontoados e mais três Cogumelos Laranja que estavam no caminho. Era mais do que suficiente para terminar a Quest, e ele já estava ansioso. Mas não era completamente desprovido de cautela. Abrindo o menu e desequipando a adaga, ele colocou a garra no braço direito e materializou uma das shurikens — haviam quase quinze Polvos aglomerados, portanto ele teria que acertar algum.
E foi bem no olho. O grito de dor do Polvo não passava de um guinho esganiçado, apesar de que o dano fora apenas de 15. O que era uma quantidade não muito grande de HP, mas que provava que, se uma shuriken, habilidade que ele não tinha experiência, podia causar dano, a adaga causaria muito mais.
Mas ele acabou calculando mal essa vantagem. Os Cogumelos Laranja não foram problema, eliminados com uma estocada dupla do Ataque Duplo. Só que o Polvo precisava de quatro ou cinco desses golpes para morrer. E o MP de Vampiritico caíra pra menos de 40%.
Recarregando-se com uma poção de HP, ele recuou quando os Polvos restantes correram na direção dele, e foi quando ele se arrependeu da imprudência. Os monstros eram bem mais rápidos do que estimara, mas pelo menos, ele tinha uma vantagem extra quanto a correr. Seus sapatos brancos, chamados de Gomushin, davam a ele 2% a mais de velocidade. Não parecia muito, mas já era uma ligeira vantagem em relação às outras classes.
Ele ainda se virou para atacar outro Polvo, mas haviam muitos, e ele não podia se concentrar em um. Aproveitando a investida, um deles atacou-o com o tentáculo, em seguida outro, e a quantidade de HP perdido quase fora demais para Vampiritico. Em uma análise improvisada, ele percebeu que aguentava no máximo quatro golpes com a barra de vida cheia. Pelo menos, não lhe faltavam poções, e pela primeira vez ele agredeceu ao Dark Lord pelas recompensas.
Ainda correndo, o rapaz deu um salto e se agarrou na corda rapidamente, balançando-se sobre ela como um macaco balançando num cipó. Pensando rápido, ele esperou até voltar, de modo que ele agora segurava a corda balançando na direção dos Polvos que o perseguiam. O plano era usar o impulso para saltar o bando de monstros e cair, ficando atrás deles. Em um movimento habilidoso, ele largou a ponta e pulou, jogando o corpo para longe e caiu, descendo a adaga sobre um dos Polvos mais distantes da aglomeração.
E ele se surpreendeu mais uma vez ao descobrir que o ataque reduzira mais da metade do HP do inimigo. "Então ataques no ar são mais fortes", ele pensou, satisfeito. Arriscou uma estocada dupla no Polvo, que o matou antes que os outros pudessem se virar.
Depois da manobra, ele correu para onde vira os Polvos(que já se viraram e recomeçaram a perseguição) pela primeira vez. Ali havia uma grande placa com listras diagonais pretas e amarelas, e ele a usou para alcançar um fio solto que obviamente estava ali para servir de corda. Ele a puxou por alguns instantes e ficou feliz ao constatar que era mais um "objeto imortal", ou seja, por mais que puxasse, não conseguiria arrebentá-la.
Ele deu outro impulso, e quando os Polvos estavam perto o bastante, pulou, caindo atrás deles mas atingindo o último dos monstros, depois voltando-se para finalizá-lo com o Ataque Duplo. E assim ele continuou por vários minutos, driblando-os com a manobra e usando o truque que fazia eles perderem mais HP sempre em um dos Polvos, até que finalmente restaram apenas dois — esses que ele não teve trabalho em acabar sem usar a técnica.
Respirando fundo, com o coração acelerado e muito satisfeito, ele voltou ao Dark Lord com a mente muito mais limpa do que quando começara as missões. Finalmente acabara de fazer algo divertido, e arriscado de uma maneira de deixava o jogo todo mais excitante e desafiador. Ele quase podia se esquecer de que a morte era algo sério, mas era esse pensamento que o fazia ter cautela. Até ele se sentiria um pouco mal por pensar assim, mas era o fato de que a morte era real que tornava o jogo mais legal. Se ele pudesse morrer e renascer em algum outro lugar, certamente teria se arriscado atacando aqueles Polvos diretamente, ficando com raiva por não conseguir matá-los. Mas com o perigo de morrer batendo na cara dele a todo momento, ele era obrigado a pensar e a realizar as coisas de maneira muito mais elaborada e divertida.
Apesar de que, se ele pudesse escolher, jamais iria querer que as mortes fossem reais. Mesmo que soubesse com o que estava lidando. A idéia de colocar crianças, ou quem quer que fosse, em um jogo onde a morte ali representava a morte no mundo real, causava-lhe repugnância.
–Matei seus dez Polvos — o garoto permitiu que um leve sorriso escapasse de seus lábios. Havia completado o treinamento com seu superior. O homem apenas deu de ombros, o que parecia um tanto diferente quando se estava de cabeça pra baixo, e depois desceu, de modo a ficar de frente para ele.
–Você completou os treinamentos — disse — Bom, parabéns. Vou te dar um pouco de EXP, algumas poções e Pergaminhos de Retorno. Leia eles e vai voltar pra cidade mais próxima de onde estiver.
–Certo — o rapaz assentiu, já querendo gastar os pontos que acabara de ganhar(chegara ao nível 15). Não sabia se iria para Henesys encontrar os amigos agora, porque achou que a chegada ao nível 15 fosse demorar muito mais. Mas ele talvez fosse. Haviam combinado, e se o treinamento dele era rápido assim, não havia motivos para supor que o de Perion e Ellinia também não fossem.
–Bom trabalho — o homem disse de repente, arrancando o garoto dos seus pensamentos — Eu sinceramente não esperava que você fosse tão rápido. Tudo bem que você é um dos primeiros que vêm aqui, mas a maioria dos outros demorou muito mais, ou então nem voltaram. É um Gatuno como você que procuro — concluiu, baixando a máscara e revelando uma boca pequena, naquele momento uma linha dura e firme.
Vampiritico olhava-o desconfiado. Estava surpreso, por ele estar dizendo aquelas palavras e também pela insinuação sobre ele ser um dos primeiros Gatunos do jogo. Isso era uma vantagem, mas havia outra coisa... O Dark Lord não deveria agir como se sempre tivessem havido Gatunos por ali, como qualquer outro NPC? Mas também, aquele homem tinha um sarcasmo e uma displicência maior do que qualquer outro, e parecia diferente também. Era como se, em seus olhos, houvesse mais... Razão. Mais certeza, mais determinação no que falava, mais naturalidade. Mais humanidade.
E ele também estava surpreso pelo modo como ele falava agora. Estava sério, pela primeira vez agindo como ele esperava que fosse um instrutor. E finalmente, ele entendeu o motivo. Os modos arrogantes, sarcásticos e debochados, como se não se interessasse... Fazia parte do treinamento de Gatunos. Pelo menos, era o que ele achava. Estava claro para ele agora que via o homem sendo quem era pela primeira vez.
–Eu não digo isso pra todos os meus aprendizes — ele continuou, os olhos fixos no garoto perplexo à sua frente — Mas eu espero muita coisa de você. Tenho certeza de que ainda vai fazer o bem a esse mundo. Não agora, é claro — acrescentou, exibindo um sorriso pela primeira vez — Você ainda é um moleque que mal matou alguns monstros, e que eu poderia matar com as duas mãos amarradas nas costas.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!–Você fala como se quisesse mesmo fazer o bem — Vampiritico devolveu no mesmo tempo. E ficou surpreso com o olhar sério que recebeu.
–Eu quero — ele começou com simplicidade, apagando o sorriso do rosto do aprendiz — Não culpo você por pensar o contrário. É claro que ouviu os boatos sobre mim, mas se está aqui, deve acreditar em mim quando digo que é mentira. Meu título de Dark Lord é uma denominação passada de geração em geração, para filhos, filhas ou alunos. O Dark Lord é aquele que passa a maior parte do tempo na escuridão, justamente para matar os monstros que conspiram no meio dela, impedindo-os de se tornarem ameaça para o mundo. É claro — continuou com um leve suspiro — Que nem sempre é isso que as pessoas pensam. De nós, também. Nossa natureza é sombria e furtiva, mas é cem por cento direcionada ao bem.
–E como vivemos com isso?
–Ah, é mais fácil do que parece. Apesar dos cochichos que sempre rondam os arredores sobre nós, praticamente não nos preocupamos com isso. Nossa missão é proteger as pessoas, mesmo que isso signifique estar na escuridão, por vezes sofrendo acusações injustas sobre coisas que não fazemos. Mas você deve se preocupar é com os pensamentos dos seus colegas. São essas pessoas a quem você deve lealdade e deve exigir respeito.
–Puxa, falando assim, eu até me sinto numa família — o garoto riu, e o homem o acompanhou.
–Mas é exatamente isso que acontece — ele disse — Somos praticamente uma família, os Gatunos.
–Bom, espero não topar com nenhum irmão ou tio mais avançado que eu por aí. Se você soubesse do perigo...
–O quê, que isso na verdade é um jogo e você pode morrer nas mãos de outro jogador a qualquer momento? — o homem retrucou com o sorriso mais largo que já dera, surpreendendo-o de verdade dessa vez — Eu sei muito bem disso. Apesar de eu preferir que você não morra, você vai apenas perder EXP e voltar pra cidade mais próxima. Portanto, o risco não é muito grande.
Ele deu uma piscadela e voltou a se empoleirar na lâmpada como tanto gostava, deixando o rapaz sozinho com seus pensamentos. "Então a idéia original era essa", pensou. "Quando morremos, voltamos pra cidade e perdemos apenas Experiência... Como em um jogo qualquer".
Mas o MapleStory estava longe de se parecer com um jogo qualquer. Até porque, nele, você literalmente entra dentro do jogo, o que já o torna diferente de qualquer outro. Mas parecia que o Dark Lord, com toda a sua "humanidade", não sabia da mudança de planos. E não achou sensato discutir o assunto com ele — pelo menos, não com um NPC que poderia ser vigiado e reprogramado a qualquer momento.
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